Vida Extraterrestre na Universidade – Parte 3
Olá leitor!
Segue abaixo o terceiro artigo de uma série postados dia (05/07)
no site da “Universidade de São Paulo (USP)” dando destaque a vida
extraterrestre. Vale a pena conferir esse penúltimo artigo dessa interessante série.
(veja aqui o segundo artigo clicando aqui)
Duda Falcão
Especiais
A Psicologia dos “Contatos Imediatos”
- Entre o
Individual e o Coletivo
Luiza Caires
USP Online
30/07/2013
Foto: Marcos
Santos / USP Imagens
Os estudos
em psicologia envolvendo o tema alienígenas e óvnis são numerosos, e trabalham
com diferentes abordagens. Só para citar alguns, existem avaliações sobre se há
pessoas com propensão especial para atrair ou relatar estas aparições, para
fantasiar; se elas estão dissociando, se isso tem a ver com distorção de
memória e criação de falsas memórias ou se há ocorrência de algum distúrbio
mental. Outras pesquisas já tocam no funcionamento cerebral de abduzidos,
enquanto um terceiro grupo de trabalhos aborda as experiências religiosas
relacionadas, os diferentes sentidos que os protagonistas dão para suas
experiências e a formação de seitas e grupos.
Para
Leonardo Martins, pesquisador do Laboratório de Psicologia Anomalística e
Processos Psicossociais (Inter Psi) do Instituto de Psicologia (IP) da USP, o
resultado deste panorama é que os achados são controversos. “Alguns vão achar
que existe relação com dissociação, por exemplo, outros não, outros apenas em
parte; e assim por diante”, diz.
Ele acredita
que ainda existe pouca reflexão sobre os processos psicossociais. “A maioria
dos trabalhos parece focar em um sujeito isolado, como se o psiquismo dele
funcionasse à parte do contexto, e sabemos que a mente funciona dentro de uma
realidade socialmente construída”, analisa. Além disso, existe a predominância
do modelo explicativo, que é herdado das ciências médicas.
Na avaliação
do pesquisador, óvnis e ETs são uma grande oportunidade para a psicologia e
áreas afins estudarem o imaginário contemporâneo. “Na verdade, são ‘a
oportunidade’, porque são ícones culturais enormes. E o estudo científico nesta
área ainda está em seus estágios iniciais”, afirma.
No Brasil
Atualmente
doutorando do IP, o psicólogo aponta também a necessidade de se replicar os
estudos em outros contextos, já que a maioria deles foi desenvolvida nos
Estados Unidos. Foi isso que ele procurou fazer já em sua pesquisa de mestrado,
defendida em 2011 no IP. “Contatos imediatos”: investigando personalidade,
transtornos mentais e atribuição de causalidade em experiências subjetivas com
óvnis e alienígenas.
Como não
havia quase nenhum trabalho em psicologia no Brasil sobre o assunto, a ideia
era começar pelo básico. “É lugar comum falar que estas pessoas são malucas,
que têm tendência a fantasiar, não sabem lidar com a realidade e precisam
fugir. Então eu quis investigar se isso se dava – e como se dava – em
território brasileiro”, conta.
O resultado
é que as hipóteses do senso comum foram refutadas. Ou seja, pelo menos nas
amostras estudadas as pessoas não apresentavam transtornos mentais numa
proporção superior ao restante da população.
Ainda assim,
relata o pesquisador, apareceram alguns traços de personalidade em comum. O
grupo que relatou experiências mais simples, de ver uma pequena luz passando no
céu, por exemplo, demonstrou ter uma visão de mundo mais aberta e positiva do que
o grupo controle. “São aquelas pessoas que de cara percebemos serem animadas,
extrovertidas. Elas também têm uma sensibilidade maior para o apelo estético
das coisas, ou seja, para se emocionar com uma música ou um filme; têm rotinas
mais variadas e são mais contestadoras socialmente”, detalha.
Ao mesmo
tempo, elas pontuaram menos do que o grupo controle no quesito esforço para
realizações. “Elas correm menos atrás de certas coisas que são valores
socialmente difundidos, como carreira e dinheiro, e tendem a ponderar menos
antes de tomar decisões”. O grupo de abduzidos e contatados também pontuou bem
mais do que o grupo controle em relação a ter a mente aberta, rotina
movimentada, sensibildade estética e assertividade. Eles demonstraram valorizar
os sentimentos e serem contestadores, tanto dos valores sociais quanto das
ideias. “São pessoas mais críticas”, resume Leonardo.
Ilustração:
Alessandra Miranda
Explicações
Segundo o
estudioso, o resultado pode ser analisado de várias formas. “Podemos pensar
que, por terem a mente mais aberta, estas pessoas estão mais dispostas a
aceitar certos tipos de explicações do que outras. Ou questionar se o fato da
literatura mostrar estes acontecimentos como tendo transformado positivamente a
vida das pessoas tem a ver com elas serem mais alegres e bem dispostas.”
Outro ponto
que surgiu especificamente entre os abduzidos e contatados é que, ao menos
naquele grupo experimental, eles apresentaram mais indicadores pré-mórbidos na
infância: características que alertam que a pessoa pode desenvolver um
transtorno mental mais para frente. “A questão é que essas pessoas chegaram a
um desenvolvimento posterior tipicamente saudável. Será que isso tem a ver com
a gênese das experiências, ou pelo contrário: tais pessoas poderiam até ter esta
tendência, mas aí as experiências possibilitaram que suas vidas ganhassem novos
sentidos, mais positivos, tomando uma direção saudável? Não entendemos uma
série de processos psicológicos humanos ainda”, comenta.
Pela teoria
psicológica de atribuição de causalidade, o ser humano recorre a diferentes
referenciais e explicações para o que vivencia. “Quem vê uma luzinha, mas nunca
ouviu falar em óvni, pode simplesmente achar que é algo que não conhece, não
sabe o que é. E mesmo que nós tentemos instigá-la a falar, esta pessoa não vai
dar esse rótulo ao que viu”, explica Leonardo. Então, quando alguém rotula de
nave espacial uma luz avistada, “está bebendo de uma série de referenciais,
como ciência, religião, esoterismo”. A pesquisa mostrou que só quando estas
pessoas fizeram uma combinação engenhosa de todos estes referenciais
conseguiram dar às suas experiências subjetivas o sentido que é popularmente
difundido, isto é, óvnis como sinônimo de naves espaciais e alegadas entidades
estranhas como seres extraterrestres.
Hora Certa,
Local Exato
Em sua
pesquisa de doutorado, que tem uma abordagem etnográfica, Leonardo estuda
locais onde as pessoas têm relatado experiências atualmente e em grande
intensidade. No trabalho, provisoriamente intitulado Alienígenas, óvnis e o
fim do mundo: Dinâmicas psicossociais contemporâneas entre o sobrenatural e o
tecnológico, um dos objetivos é estar nestes lugares antes dos relatos,
entendendo um pouco sobre como funciona a cultura local; bem como na hora em
que as experiências acontecem; e também depois das mesmas, verificando os rumos
que tomam as histórias. “A ideia não é que eu dê o ‘voto de minerva’ e diga o
que aconteceu ou não. Sou só mais uma subjetividade que está lá. O que quero
estudar é o que acontece em termos de psicologia social”, explica.
O
pesquisador enumera alguns achados iniciais. “O primeiro é que a minha presença
parece ocasionar episódios. Nos dias anteriores e posteriores à minha chegada
os relatos são mais numerosos”, conta.
Ilustração: Alessandra Miranda
Leonardo também aponta para uma
certa “generalização de confiabilidade” uma naturalização, quer dizer, uma
única experiência parece servir para legitimar todas. É como se os
protagonistas pensassem: se eu vejo algo estranho, qualquer coisa que eu
vir depois será a mesma coisa. Ao menos nestes contextos, quando aparece, por
exemplo, um borrão em uma fotografia, as pessoas já têm uma grande propensão a
atribuir isso a uma explicação ufológica. Esta lhe parece mais simples e óbvia,
enquanto que outras soam forçadas.”
Além disso, o psicólogo afirma
que episódios rurais tendem a ganhar uma conotação negativa e assustadora,
enquanto que os episódios urbanos têm apresentado uma interpretação mais
positiva, por exemplo, de que os ETs seriam seres evoluídos espiritual e
tecnologicamente e que viriam para nos ajudar. “Quero discutir o que embasa
essa diferença em termos culturais e sociais”, diz. As entrevistas de campo têm
sugerido que, nos locais rurais, o mistério está ligado ao medo: é algo que
deve ser respeitado. Já no meio urbano, a relação muda; o mistério é algo que
deve ser buscado, e não evitado.
Perfil
Leonardo destaca que o perfil
daqueles que relatam experiências têm quebrado alguns preconceitos. “A maioria
das pessoas que encontrei até o momento na pesquisa, em contextos urbanos, têm
alto grau de escolaridade. A ideia de que óvni é coisa de pessoas ignorantes é
um reducionismo imenso. O que não quer dizer que eu esteja assinando embaixo
dos relatos, mas sim que este é um fenômeno – tanto na esfera individual quanto
coletiva – bem mais complexo do que se sugere”, defende.
Por último, ele aponta o que
chama de ‘poder comprobatório intrínseco da experiência’. “Quando alguém passa
por uma experiência ufológica, o ‘eu estava lá e vi’ é a pedra angular. ‘Eu vi.
Podem falar o que quiser, usar teorias, mas eu estava lá e sei o que vi’.” É
como se este fosse um ponto cristalizado na mente da pessoa, que alimenta uma
espécie de alteridade e dificulta o diálogo. “ ‘Se você é cético, não importa o
quanto tente me convencer, eu estava lá e vi’, dirão. E quem não estava lá
muitas vezes diz: ‘não importa o quanto você argumente; eu não estava lá e não
vi, então você pode ter se enganado’.”
Fonte: Site da Universidade de São Paulo (USP)



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