Brasil no Simpósio Sobre Cooperação Espacial Europa-BRICS
Olá leitor!
Segue abaixo um
artigo escrito pelo Sr. José Monserrat Filho e publicado na Revista Espaço Brasileiro
(Jan – Jun de 2013), dando destaque ao “Simpósio Sobre
Cooperação Espacial Europa-BRICS” ocorrido em maio passado na Holanda.
Duda Falcão
OPINIÃO
Brasil no Simpósio Sobre
Cooperação Espacial Europa-BRICS
“É importante colocar as coisas
Numa perspectiva cultural mais ampla.”
Paulo Casella, professor de direito internacional público da
USP.
José Monserrat Filho*
Foto: V. Júnior
A Universidade de Leiden, nos Países Baixos (Holanda), criada
em 1575, promoveu, por meio do Instituto Internacional de Direito Aeronáutico e
Espacial e do Instituto Latino-Americanos, o “Simpósio sobre Aspectos Políticos
e Jurídicos da Cooperação Espacial entre a Europa e os Países do BRICS¹ -
Inventário, Desafios e Oportunidades”.
O Evento, realizado em 16 de maio deste ano, com a participação
de pesquisadores e especialistas, denota, acima de tudo, a crescente importância
que a Europa concede ao BRICS, sigla cada vez conhecida do fórum formado por
Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Ao final houve consenso sobre a
necessidade e a conveniência de maior cooperação dos países e instituições da
Europa com o BRICS.
Foram três os convidados brasileiros: Paulo Casella, professor
da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), que abordou o tema “BRICS:
do conceito à Realidade”; eu, José Monserrat Filho, que falei sobre “A
Cooperação China-Brasil: CBERS” (Programa Sino-Brasileiro de Satélite de
Recursos Terrestres); e Olavo Bittencourt, doutor em Direito Espacial pela USP,
relator do encontro.
Para Casella, o BRICS é uma iniciativa oportuna e bem-vinda,
que busca fortalecer um sistema internacional conduzido de acordo com o direito
internacional, tendo as Nações Unidas como pilar central, encarecendo a
necessidade da solução pacífica dos conflitos e litígios, empenhando-se em
reformar e reequilibrar as instituições financeiras multilaterais , e, assim,
aparecendo como algo novo e almejado num cenário escasso de novidades.
Em minha apresentação, procurei salientar dois aspectos: o BRICS
como criatura e criador do novo sistema multilateral que está surgindo no mundo
atual em transformação; e a cooperação espacial, ainda inexistente no BRICS
como programa conjunto, poderá surgir como produto natural, lógico e necessário
dos processos já em curso de aproximação em áreas estratégicas.
Presidiu o ato de abertura do evento Simone Buitendijk,
vice-reitora da Universidade de Leiden. A introdução e o encerramento estiveram
a cargo da Tanja Masson-Zwaan, vice-diretora do Instituto de Direito
Aeronáutico e Espacial da mesma universidade, e presidente do Instituto
Internacional de Direito Espacial. A vice-reitora enfatizou o desejo da
Universidade de Leiden de receber mais estudantes dos países do BRICS. Tanja, por
sua vez, disse que esses países têm vontade política e força econômica para
reunir seus planos e trabalhar juntos. Frisou também que há enorme potencial a
explorar na cooperação entre a Europa e o BRICS – cooperação essa que ela
considera urgente, inclusive e, em especial, na área jurídica.
O simpósio constou de quatro sessões: 1) “Definição do Cenário”;
2) “Cooperação Espacial Intra BRICS e Perspectivas dos Países do BRICS de
Cooperação com a Europa”; 3) “Cooperação Espacial entre a Europa e os Países do
BRICS: Conteúdo e Formato”; 4) “Perspectivas e Recomendações”.
Na primeira sessão, além de Casella, interviram: Marianne Wiesebron,
do Depto. de Estudos Latino-Americanos da Faculdade de Humanidades, coordenadora
da Cátedra Rui Barbosa, da Universidade de Leiden, sobre o “BRICS: uma Visão da
Europa”; e Caroline Lubbers, administradora do Projeto EURO-BRICS, do
Laboratório Europeu de Antecipação Política (LEAP), sobre “A iniciativa EURO-BRICS”.
Para Marianne, a União Europeia deve tratar o BRICS de forma
coletiva e desenvolver com ele uma política coordenada e coerente, ainda que
entre os países do fórum haja diferentes posições políticas. O bloco econômico
deve reconhecer o BRICS como uma realidade, provendo ações com o BRICS como um
todo e com cada um de seus países.
Na segunda sessão, falaram, além de mim: K. R. Sridhara Murthi,
professor do Instituto Nacional de Estudos Avançados de Bangalore, Índia, sobre
“A Índia e a Cooperação Espacial”; Peter Malanczuk, professor da Escola de
Direito Transnacional da Universidade de Pequim, China, sobre “A China e a
Cooperação Espacial”; Keith Gottschalk, professor da Universidade de Cabo Oeste
(Western Cape), África do Sul, sobre “A África do Sul e a Cooperação Espacial”;
e Serguei Negoda, consultor do Escritório da ONU sobre Assuntos do Espaço
Exterior (OOSA na sigla em inglês) sobre “A Rússia e a Cooperação Espacial”.
Segundo Malanczuk, “a China alcançou um tremendo progresso nas
atividades espaciais e podemos esperar que continue na mesma trajetória, com
base na auto suficiência e na cooperação internacional. Como país ainda em
desenvolvimento, a China precisa de investimentos e de transferência de
tecnologias. A Europa tem mais a oferecer à China do que os Estados Unidos.”
Na terceira sessão, usaram da palavra: Cristian Bank, da
empresa alemã Astrium Space Transportation, que falou sobre “A Cooperação
Espacial Europeia com a Rússia: Exemplo do Sistema Tripulado de Transporte
Espacial”; Radomir Jansky, do Escritório de Política Espacial da DG Empresa e Indústria,
da Comissão Europeia, sobre “A União Europeia e a cooperação com os Países do
BRICS”; Peter Hulsroj, do Instituto Europeu de Política Espacial (ESPI, na
sigla em inglês), sobre “A Cooperação com o BRICS: O Espaço como Criador ou
como Seguidor de Tendências”; e Anabelle Fonseca, do Dept. de Relações Internacionais
da Agência Espacial Europeia (ESA), Paris, França, sobre a “ESA e a Cooperação com
os Países do BRICS”.
Do painel final sobre “Perspectivas e Recomendações”
participaram Robert Piers, da Ecorys, empresa europeia de pesquisa e
consultoria; Agnieszka Lukaszczyk, diretora do Escritório de Bruxelas, Bélgica,
da Secure World Fundation (Fundação Mundo Seguro); Yun Zhao, professor da
Universidade de Hong Kong, China; e o já citado K. R. Sridhara Murthi, da
Índia.
Yun Zhao definiu o BRICS como um lugar comum para compartir
interesses políticos e solucionar problemas comuns nos fóruns internacionais. A
ser ver, o comércio nas atividades espaciais é boa área de cooperação, mas gera
problemas delicados, que devem se levados na devida conta. E a tecnologia
espacial é, na verdade, a base comum da cooperação internacional. Daí que, no
futuro, os países do BRICS podem, eventualmente, se interessar em atuar juntos
neste setor, como bloco – e cada um deles, com certeza, não será contra isso.
Murthi vê mais sinais positivos do que negativos nas decisões e
ações do BRICS. Isso, afirmou ele, inspira mais chances de cooperação entre os
países. A seu ver, a Europa e o BRICS podem promover o estado de direito nas
relações internacionais. A questão é como chegar lá. Os BRICS, na realidade,
têm importantes agendas de desenvolvimento nacional, construindo
infraestrutura, formando especialistas qualificados, renovando suas
instituições. Tais esforços podem e devem ser coordenados. Parece indispensável
contar com uma contribuição cada vez maior do BRICS nas relações Globais. Essa
é a agenda própria do Século XXI.
1) O BRICS é fórum de caráter informal. Não foi criado por
acordo escrito, não funciona com secretariado fixo, não tem recursos para
financiar suas atividades. É mantido apenas pela vontade política dos membros.
Como instituição, vai se articulando na medida em que os cinco países (Brasil,
Rússia, Índia, China e África do Sul) intensificam sua interação. A I Cúpula de
Chefes de Estado/Governo realizou-se em Ecaterimburgo, Rússia, em junho de
2009. A II Cúpula, em Brasília, em abril de 2010. A III Cúpula, em Sanya,
China, em abril de 2011. A IV Cúpula, em Nova Deli, em março de 2012. E a V
Cúpula, em Durban, África do Sul, em março de 2013. A África do Sul entrou no
grupo em 2010.
* Chefe da Assessoria de Cooperação Internacional da AEB e vice-presidente
da Associação Brasileira de Direito Aeronáutico e Espacial (SBDA)
Fonte: Revista Espaço
Brasileiro - num. 15 - Jan a Jun de 2013 - págs. 26 e 27


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