É um atalho. Mas, para onde?
Olá leitor!
Segue abaixo um artigo opinião publicado na edição de
fevereiro/2013 da “Revista Retrato do Brasil”, dando destaque à antiga Missão
Espacial Completa Brasileira (MECB).
Duda Falcão
Ponto de Vista
É um atalho. Mas, para onde?
A Missão Espacial Completa Brasileira era um programa
estratégico para o País. Foi substituída por um plano
casuístico,
que
se pretende comercial, mas não se sabe para onde ele vai
Revista Retrato do Brasil
Edição 67 - Fevereiro/2013
Luciana Andrade / Photobahia
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| Outubro, 1987: O presidente José Sarney com os ministros Rubens Bayma Dennys, Moreira Lima e Leônidas Pires, acompanham o lançamento do foguete Sonda IV |
O PROGRAMA ESPACIAL BRASILEIRO tem uma história de conflitos e
contradições. Pode-se dizer que um de seus criadores, no início dos anos
1950, é o brigadeiro Casemiro Montenegro
(1904–2000), o primeiro comandante militar do então
Centro Técnico de Aeronáutica
(CTA) — hoje
Departamento de Ciência
e Tecnologia
Aeroespacial, subordinado
ao comando da
Força Aérea Brasileira
— e idealizador
do Instituto Tecnológico
de Aeronáutica,
o ITA, uma das mais
famosas escolas
de engenharia do País,
ambos situados
num campus próximo à
rodovia
Presidente Dutra, na entrada da cidade
paulista de São José dos Campos. Montenegro
foi afastado do comando do
CTA em 1965, não
apenas por não fazer
parte da ala
militar vitoriosa com o golpe
que depôs o
presidente João Goulart,
no início de
1964, mas também por não
concordar com o
rumo que se pretendia
imprimir àquela
base militar, de funcionar
quase como uma
oficina de reparos e manutenção dos
aviões do então Ministério
da Aeronáutica.
A troca de Montenegro pelo brigadeiro Castro Neves, um
oficial anticomunista linha-dura, que impôs um regime de quartel também aos
civis, alunos e professores da escola de engenharia, levou a instituição à sua
“pior hora”, como diz a publicação oficial da entidade de antigos alunos do
ITA, que fez em 2001 um apanhado daqueles acontecimentos. Os próprios reitores
da escola acabaram conspirando contra Castro Neves — foram quatro em menos de
um ano e um dos últimos se encontrou secretamente com o então presidente, o
general Castello Branco, para defender a substituição do homem que via conspiração
comunista por toda parte. Foi então que surgiu na nossa história um herói
improvável, o brigadeiro Paulo Victor da Silva (1921–2009), que dirigiu o CTA
de 1966 a 1973. Participante do grupo de oficiais da Aeronáutica que deu
cobertura ao jornalista Carlos Lacerda na conspiração que levou ao suicídio do
presidente Vargas, Paulo Victor não só pacificou a escola como foi decisivo
tanto nos esforços que levaram ao decreto de criação da primeira grande fábrica
de aviões do País, a Embraer, em 1969, como na criação das bases para um
programa espacial independente brasileiro, com acordos industriais e bolsas de
estudo para várias dezenas de engenheiros e cientistas saírem pelo Brasil e
mundo afora com a missão de ajudar a equacionar as questões tecnológicas
centrais para a construção de foguetes brasileiros capazes de colocar em órbita
satélites também feitos no País.
Do CTA de Paulo Victor saíram projetos como o Pequeno
Computador Digital, para provar a possibilidade de projetar e construir
computadores no Brasil; o desenvolvimento dos primeiros esboços de um reator
nuclear brasileiro pelo comandante da Marinha Othon Pinheiro, que acabou sendo
a saída para a criação de tecnologia nuclear local, depois que fracassou o
Acordo Nuclear Brasil–Alemanha de 1975; e o desenvolvimento e mesmo a criação
de várias empresas de tecnologia avançadas. Grande parte do que o CTA tinha em
escala de laboratório para a metalurgia de metais especiais necessários ao
programa espacial, por exemplo, foi replicada, em escala industrial, em
empresas com as quais o centro fez acordos, como Bardella, Villares, Usiminas,
Termomecânica e Termometal. Surgiram a Tecnasa, para a fabricação de radares, posteriormente
envolvida no projeto do AMX, um avião militar a ser desenvolvido num acordo Brasil–Itália;
a Mectron, da fusão de pequenos fabricantes de mísseis, que desenvolveu o Piranha,
uma arma ar-ar, guiada pelo calor da radiação infravermelha emitida por seu
alvo.
Numa das quatro grandes entrevistas dadas à publicação dos
ex-alunos do ITA, já citada, Paulo Victor passou em revisão o programa Sonda,
que começou com um foguete lançado pela Avibras, uma empresa privada, em 1965.
Explicou que o desenvolvimento da família Sonda transformou-se num programa estatal,
sob sua gestão. O Sonda I era, digamos assim, um foguetinho copiado de um
modelo americano, de menos de 4 metros de altura, 60 quilos de peso, 12
centímetros de diâmetro e capaz de carregar uma carga útil de menos de 5
quilos. Mais de 200 dele foram lançados entre 1965 e 1977, quando foi
aposentado. O Sonda I foi seguido no CTA pelo II, ainda sob a gestão dele e, depois,
pelo III e pelo IV. O Sonda IV, já previsto, mas iniciado de fato três anos após
Paulo Victor sair do CTA, já era uma máquina de respeito: 11 metros de altura,
peso de 7,3 toneladas, variando entre 0,5 e 1 metro de diâmetro, nos quatro
foguetes que foram construídos com capacidade de levar uma carga útil de até
500 quilos a 730 quilômetros de altura. Tinha 2 mil peças mecânicas, o dobro do
Sonda III; usava um novo tipo de aço, que, além do ferro e do carbono normais,
tinha cromo, níquel, molibdênio e alto teor de silício, o que lhe dava resistência
maior, mais maleabilidade, soldabilidade e estabilidade dimensional e, ainda,
mais usinabilidade, ou seja, facilidade de ser trabalhado nas máquinas operatrizes,
como tornos e fresadoras. Com o Sonda IV foi construída também a primeira Torre
Móvel de Integração, para posicionamento vertical do foguete no lançamento,
indispensável para foguetes maiores, que não podem ser lançados sobre trilhos colocados
em rampas inclináveis. Paulo Victor, aposentado em 1981, foi convidado para assistir
ao terceiro lançamento de um Sonda IV, no dia 8 de novembro de 1987, na base de
Barreira do Inferno, perto de Natal. No lançamento estavam também o presidente
José Sarney, o ministro do Exército e outras autoridades. Paulo Victor explica
ao repórter. “É um foguete de quatro estágios. No primeiro, são quatro
propulsores em torno da carcaça central. No lançamento, me lembrei de que nós
começamos tudo há mais de 30 anos. Um propulsor do primeiro estágio apagou.
Mesmo assim, o Sonda IV subiu sob controle. Tivemos de destruí-lo, mas o
controle direcional funcionou. Tínhamos um foguete guiável.” Paulo Victor
interrompe a conversa por segundos. Tem os olhos cheios d’água. Busca se controlar.
Retoma a narrativa. “É um resultado fantástico. Só de lembrar me emociono.
Muita gente não vibra com isso, não sabe avaliar.”
“O atalho
prevê pelo
menos um milagre:
seríamos o
primeiro país a
desenvolver
tecnologias sensíveis
para a sua defesa
num empreendimento
apenas comercial”
O redator do texto do livreto da AEITA (Associação dos Engenheiros do ITA) escreveu, então, com razão: “Paulo Victor é um militar. Militar não é gente simples de entender. Militar é gente que pensa na defesa do Brasil, da Pátria. Coisas meio fora de moda hoje, quando se difunde a tese de que militar deve cuidar
das PMs, ocupar morros de favelas rebeladas,
impedir que narcotraficantes entrem na Amazônia. Militar tem que cuidar da
produção, do controle e do disparo de armas. Todo mundo gosta da paz. Mas a história
das nações não é só de paz. As nações mais fortes se impõem às mais fracas.
Paulo Victor é um nacionalista, desses que acham que é preciso voltar a cantar
o Hino Nacional nas escolas. ‘O País precisa de determinação, de perseverança’”.
Em 1979, o programa de foguetes da época de Paulo
Victor deu um salto de qualidade, transformou-se na Missão Espacial Completa
Brasileira (MECB), visando construir um Veículo Lançador de Satélite (VLS), com
capacidade de colocar em órbita satélites artificiais da Terra. O desenvolvimento
de foguetes espaciais capazes de colocar uma carga mais pesada em órbita significa
ter a capacidade de colocar em órbita também uma carga nuclear, para uma ação
militar.
A história dos últimos anos é prova cristalina
dessa conclusão. A primeira bomba atômica foi despejada pelos americanos sobre
Hiroshima em 1945. Em 1949, a URSS construiu a sua. Em 1952, os americanos
produziram a bomba H, a superbomba, baseada nos mesmos mecanismos que promovem
a queima de hidrogênio no centro do Sol com monumental liberação de energia. Em
1953, os soviéticos repetiram o feito. E com um avanço em relação à experiência
americana: a bomba era do tipo delivery, não era um trambolho pesadão que precisava
ser carregado por uma superfortaleza voadora, lenta e vulnerável; podia ser
carregada na ponta de um míssil suficientemente potente. Os soviéticos tomam,
então, a dianteira na construção desse míssil.
Projéteis à base de sal, carvão e enxofre são
quase tão velhos quanto as civilizações. Aparentemente os chineses foram os
primeiros a utilizar militarmente armas com esse princípio, na sua tentativa de
conter a invasão mongol, por volta do ano 1232. Bagdá, dizem as enciclopédias,
teria sido capturada pelos mongóis em 1258 com o auxílio dessas armas. Os árabes,
por sua vez, elaboraram um manual com 107 receitas para essas armas. Mas o seu desenvolvimento
espetacular é o que se segue ao fim da Segunda Guerra Mundial, com a captura de
várias centenas de técnicos alemães que tinham desenvolvido as bombas V2, mísseis
capazes de transportar uma tonelada de explosivos à distância de 300 quilômetros
e que foram usados pelos nazistas para bombardear a Inglaterra.
As V2 foram desmontadas e reconstruídas pelos
americanos e soviéticos a partir do fim da Segunda Guerra Mundial, com o
auxílio desses técnicos e cientistas alemães capturados no final do conflito. Os
russos saíram na frente com um foguete
de 30 metros de altura, 3 metros de diâmetro e 270 toneladas de peso, que em
outubro de 1957 levou uma carga de 50 quilos, o Sputnik, à órbita terrestre, criando,
assim, o primeiro satélite artificial da Terra. E continuaram na vanguarda ainda
mais espetacularmente quando colocaram em órbita, em abril de 1961, com um
foguete maior e mais pesado, uma cápsula de 4,7 toneladas, na qual estava Yuri
Gagarin, o primeiro homem a dar uma volta numa espaçonave em torno da Terra. O
peso da cápsula era suficiente para carregar a bomba H delivery dos soviéticos
— era, portanto, o primeiro foguete guiável, capaz de ser lançado da URSS para
mergulhar contra o território americano e atingi-lo em poucos minutos, sem
chance de defesa.
Conteúdo Expresso
Divulgação/AEB
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| O ex-presidente Collor, na base militar de Cachimbo, Amazônia, e os garotos em São José dos Campos: ele jogou a pá de cal; eles ainda tentam |
Os americanos deram a volta por cima em 1969, oito anos depois, também espetacularmente. Com projeto do engenheiro líder do plano da V2 nazista, Werner von Braun, levado para os EUA no pós-guerra,
construíram a família dos poderosos Saturnos, foguetes de 110 metros de altura,
o equivalente a um edifício de 34 andares, diâmetro de 10 metros, com um peso
de 2,8 mil toneladas e capacidade para levar à orbita terrestre 45 toneladas.
Com o Saturno V, três americanos foram à Lua e voltaram, entraram na órbita
lunar e um deles desceu ao satélite terrestre, diante de centenas de milhões de
espectadores.
No Brasil, em 1979, quando a MECB foi anunciada, o País
começava um ciclo de estagnação e incerteza. A inflação disparou, massas de
trabalhadores foram à greve e o governo militar teve de aprofundar um recuo
iniciado em 1974, quando o partido oficial do governo — a Arena — sofreu
grandes e inesperadas derrotas nas urnas para o outro partido oficial criado
pela ditadura — o MDB. Em 1982, o País quebra, vergado sob o peso de enorme
dívida externa. Além disso, a inflação começa a dar saltos. O grande movimento
de massas por eleições diretas leva a um governo de compromisso que elege
presidente, num colégio eleitoral, o senador mineiro Tancredo Neves, do PMDB,
e, como vice, José Sarney, do PFL, parte da Arena que se desgarrou do regime
militar nos seus estertores.
O governo Sarney mal tocou o Sonda IV. O VLS — a família de
foguetes específica para a MECB, como seu próprio nome diz — foi indo devagar, quase
parando. Ficou em grande parte na teoria: teve cinco revisões conceituais ou de
definição ao longo de 14 anos: em 1984, 1986, 1988 e 1994. Para agradar os
americanos, em setembro de 1990, o presidente Fernando Collor de Mello, pessoalmente,
jogou uma pá de cal no Campo de Provas Brigadeiro Veloso, coincidentemente, o
grande amigo de rebeliões de Paulo Victor. Num gesto para a mídia, ele fechou a
boca de um túnel no qual, supostamente, os militares planejavam detonar uma
arma nuclear de um programa militar paralelo. Em 1994, o governo de Itamar
Franco resolve criar a Agência Espacial Brasileira, em cujas atribuições aparentemente
estaria a MECB, mas a agência, de fato, não tinha qualquer poder executivo e
era apenas um órgão de assessoramento do Ministério da Ciência e Tecnologia.
Finalmente, o governo Lula propôs um atalho imaginado para chegar mais cedo ao
difícil conhecimento técnico necessário para o País tornar-se independente no
campo da criação de foguetes e de satélites espaciais: criou uma joint venture
com a Ucrânia para, a partir de Alcântara, a base brasileira próxima da linha
do Equador, realizar o lançamento de foguetes daquele país. E escolheu um
contratador principal para encomendar as partes dos sofisticados satélites geoestacionários.
A associação com os ucranianos teria a vantagem de nos fornecer tecnologia
através de um negócio que poderia ser lucrativo, visto que Alcântara tem a
grande vantagem de ser a base para lançamento de satélites mais próxima da
linha do Equador. Além disso, a compra de satélites de comunicação permitiria
que a indústria brasileira entrasse pelo menos em subcontratos de partes a
serem encomendadas a empresas estrangeiras com a tecnologia. Se isso vier a dar
certo — no que não acreditamos —, faríamos dois milagres: seríamos o
primeiro país a desenvolver tecnologias sensíveis para a defesa nacional num
projeto comercial de lançamento de satélites e apreenderíamos a fazer satélites
mais sofisticados encomendando satélites dos outros. Este nosso ponto de vista se
sustenta com a história “O plano mudou”, a partir da página 8.
Fonte: Revista “Retrato do Brasil” - Edição
67 - Fev. 2013 - págs. 05, 06 e 07



Uma bela resenha, e um excelente contraponto.
ResponderExcluirOnde estivemos um dia, e onde poderíamos estar. O mais triste é saber que só faltou "querer fazer".
No trecho final, fica claro que o "atalho" escolhido por aquele senhor mal informado (aquele que "não sabia de nada"), não vai nos levar a lugar nenhum.
Não quero ir contra ninguem, longe de mim isso.Mas quando o Lula anunciou essa parceria fiquei muito contente, claro que hoje sabendo no que deu fico triste, mesmo assim ele deu esperança e elevou o patriotismo no Brasil, acho que alguma coisa de significante Lula mostrou aos governantes.Pena que sua dicipula Dilma não aprendeu nada.
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