Entrevista com Nelson Salgado - Presidente da Visiona

Olá leitor!

Segue abaixo uma entrevista com o Eng. Nelson Salgado, presidente da Visiona Tecnologia Espacial S.A. publicada na “Revista Espaço Brasileiro” (Jul – Dez de 2012), onde o mesmo fala sobre as metas e desafios dessa nova empresa.

Duda Falcão

Entrevista

Presidente da Visiona

Nelson Salgado

Em 2012, o engenheiro Nelson Salgado recebeu um novo desafio: presidir a Visiona – empresa criada para ser a integradora do primeiro Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicação (SGDC) brasileiro. Desde então, todos os seus esforços estão canalizados para que o satélite seja lançado e atenda as necessidades do Estado brasileiro, de curto prazo, com as demandas do Plano Nacional de Banda Larga e também com as comunicações do Ministério da Defesa.

A Visiona é empresa de capital misto. A Embraer detém 51% do capital social da empresa e a Telebrás controla os outros 49%. A visão de longo prazo da empresa é se estabelecer como integradora industrial de sistemas satelitais no Brasil. E, a partir daí, liberar a cadeia para a indústria brasileira em projetos de satélites nacionais que virão.

Nelson Salgado tem doutorado na Inglaterra e MBA em gestão empresarial pela Fundação Getúlio Vargas, de São Paulo. Está na Embraer desde 1987, e participou da estruturação do programa de desenvolvimento da família de jatos EMBRAER 170/190 e dirigiu áreas corporativas, como Planejamento Estratégico, Planejamento Econômico e Financeiro, Controladoria e Associações e Aquisições. “Tenho vivência suficiente para encarar os desafios que, sem dúvida, virão”, acredita o presidente da Visiona.

Nesta edição da Espaço Brasileiro, Nelson Salgado fala das metas e desafios da Visiona, da transferência e absorção de tecnologia, e também das diferenças entre construir um avião e um satélite.

Como encara o desafio de construir o primeiro Satélite Geoestacionário Brasileiro?

Para minha carreira, é maravilhoso. Passei por diversas áreas na Embraer, desde a Engenharia – onde comecei -, até áreas de administração, de planejamento estratégico, financeiro e de aquisições. A oportunidade de empreender e tocar um negócio novo, que irá agregar valor tanto à Embraer quanto ao país, é maravilhosa.

O senhor está na Embraer desde 1987 e já participou da estruturação do programa de desenvolvimento da família de jatos Embraer 170/190 e dirigiu áreas corporativas. Como aproveitará essa experiência na gestão da Visiona?

Minha formação em Engenharia tem me ajudado na mudança da área de aeronáutica para o espaço. Rapidamente, conseguir entender as diferenças. Ao longo da minha carreira na Embraer trabalhei em diversos departamentos. Como isso, ganhei experiência em relação à administração de negócios. Isso me tranquiliza. Tenho vivência suficiente para encarar os desafios que, sem dúvida, virão.

“Tenho vivência
suficiente para
encarar os desafios que,
sem dúvida, virão”

Qual o legado que a Embraer aporta ao programa do satélite geoestacionário?

Satélites e aviões são coisas distintas, mas os processos são semelhantes. A Embraer tem grande experiência em desenvolvimento de produto, gestão de qualidade, gestão de configuração, cadeia de fornecimento, testes, integração. Isso cria importante base para a construção de uma empresa na área de satélites. O legado terá que ser combinado com conhecimento específico de satélites que iremos buscar em profissionais já capacitados. O Brasil já fez muita coisa em satélites, embora não tenha criado uma base industrial forte.

É mais fácil construir um avião ou um satélite?

Aviões e satélites são máquinas sofisticadas e complexas com certas particularidades. Como aviões carregam pessoas, erros são inaceitáveis. Qualquer problema pode pôr vidas em risco. Por isso, todo seu desenvolvimento tem que ser feito com muito cuidado. É necessário, também, que o produto seja competitivo para o cliente. O avião deve economizar combustível e não produzir ruídos, por exemplo. Por outro lado, no avião, é possível corrigir as falhas. Há possibilidade de mudar o produto e fazer manutenções. No satélite, isso não é possível. Colocado em órbita um satélite, a não ser para algum reparo de teste de software, não há o que fazer. Se alguma coisa der errado, está tudo perdido. Você pode perder 100, 200 milhões de dólares, só porque, por exemplo, o painel solar não abriu. É preciso testar muito mais. Por outro lado, um programa de satélites, em geral, não coloca vidas em risco. O ponto em comum entre avião e satélite são os investimentos pesados, de produtos sofisticados e que demandam um trabalho de engenharia sofisticado. O Brasil já demonstrou ser capaz de fazer isso competentemente.

Quais são as metas da Visiona?

A Visiona foi criada para, inicialmente, atender às necessidades de curto prazo do Estado brasileiro com o Satélite Geoestacionário de Comunicações Estratégicas que vai propiciar ao Ministério das Comunicações atender a demandas do Plano Nacional de Banda Larga e ao Ministério da Defesa atender suas próprias demandas de comunicação com um nível de autonomia e de capacidade bem maior do que tem hoje. Essa é a razão inicial da criação da Visiona. A visão de longo prazo da empresa é se estabelecer como integradora industrial de sistemas satelitais no Brasil. E a partir daí, liberar a cadeia para a indústria brasileira em projetos de satélites nacionais que, sem dúvida, virão.

Como a indústria brasileira participará no processo de construção do satélite?

No primeiro satélite, a Visiona e seus eventuais parceiros vão atuar na integração do sistema satelital, composto pelo satélite, estações de controle do satélite e de telecomunicações. A empresa irá entregar ao Governo um sistema funcionando. No entanto, não haverá atividades industriais no satélite porque ele é muito grande e o Brasil não possui instalações para lidar com satélites desse tamanho. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o local mais adequado para os testes e ensaios necessários, não tem condições dimensionais e nem de equipamentos para suportar um satélite como o SGDC. Outra razão é que o Brasil precisa do satélite em prazo relativamente curto. Por isso, o país tomou a decisão de importar esse satélite e atribuir à Visiona a responsabilidade de fazer a integração do sistema, além do processo de seleção das tecnologias do satélite. Para os próximos satélites, a Visiona vai realizar, progressivamente, mais atividades em relação ao satélite propriamente, além de preservar a integração do sistema. A ideia é que para os próximos, que serão menores, a empresa passe a fazer a integração e os testes no Brasil e, progressivamente, agregue componentes fabricados no país, até um dia chegar a um satélite 100% projetado, desenvolvido, testado e, quem sabe, lançado do Brasil.

O projeto do SGDC prevê absorção e transferência de tecnologia?

A absorção de tecnologia é algo que a Visiona vai fazer. Teremos a prerrogativa e o dever de acompanhar passo a passo todo o processo do projeto, a fabricação de componentes, a integração e os testes do satélite. Assim, a Visiona poderá absorver conhecimentos significativos. A empresa pretende ter uma equipe de engenharia forte e capacitada para absorver conhecimentos e usá-los, em curto prazo, na integração de futuros satélites. Transferência de tecnologia é algo mais complicado. Depende sobretudo do país em que o satélite é comprado. Tecnologia é algo difícil de se transferir. Em breve, o Governo entregará à Visiona um documento que define se há alguma tecnologia que deseja transferir para que a empresa busque viabilizar a transferência. No entanto, após 25 anos de trabalho na Embraer, posso dizer que é muito mais efetivo absorver tecnologia do que buscar transferência.

“A indústria nacional
só tem a se beneficiar
porque a Visiona
exercerá papel
de integrador.”

Qual é a grande contribuição da Visiona para o Programa Espacial Brasileiro?

Não há um integrador industrial na área espacial no país. Isso acaba afetando os institutos de pesquisa e a indústria nacional. O INPE, um dos institutos de pesquisa mais reconhecido no mundo, luta com dificuldade para conseguir exercer esse papel de integrador industrial. Para um instituto de pesquisa do Governo fazer qualquer tipo de compra é complicado. Em minha opinião, a criação da Visiona vem preencher esse espaço para que o Brasil possa ter um integrador industrial que interaja unicamente com institutos de pesquisa, com a AEB e com o Governo. Isso possibilitará que cada um possa exercer seu papel de modo mais tranquilo e efetivo. O INPE não deixará de existir, a AEB também não. A indústria nacional só tem a se beneficiar porque a Visiona exercerá papel de integrador. A Visiona não pretende ser fabricante de componentes. Será, realmente, uma empresa de engenharia que exercerá o papel de integração e testes, e que fará aquisições no Brasil na medida em que a indústria nacional se capacitar.


Fonte: Revista Espaço Brasileiro - Num. 14 – Jul – Dez de 2012 - págs. 05, 06 e 07

Comentário: Pois é leitor, está aí o que pensa o Sr. Nelson Salgado. Façam suas próprias avaliações. A discussão está aberta.

Comentários

  1. Sim, é isso que deve existir nesses casos, uma empresa integradora.

    Só lastimo, que o Brasil só tenha se dado conta disso agora.

    Uma das primeiras grandes empresas integradoras na área espacial nos Estados Unidos, foi a Chrysler. É isso mesmo, aquela que fabricava automóveis. Foi escolhida pela sua experiência em integração industrial.

    Só que NA DÉCADA DE 50...

    Antes tarde do que nunca? É hora de uma daqueles planos de 50 anos em 5.

    ???

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  2. Um avanço para o Brasil. Espero que eles consigam cumprir seu papel de integração de peças e industrias, nacional e internacional. o que vai facilitar a vida de muita gente (que tinha que ficar se preocupando com coisas fora da sua área).

    Já dá para perceber que o próximo passo deve ser criar um espaço que possibilite a construção de satélites de grande porte. Se isso for levado adiante pode ser que as leis e os investimentos em lançadores melhorem gradualmente.

    O único senão foi o fato de ele dar a entender que ainda precisaremos de construir o SGDC com tecnologia estrangeira, mas só o fato de integrarem o satélite aqui no país melhora um pouco (apesar do "made in Brazil" dar muito mais confiança, do ponto de vista estratégico). Mas como os políticos dizem que tem que estar pronto em 2014 é o que se pode fazer...

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  3. Pois bem. Parece que no Brasil as coisas se justificam tão facilmente e até incorporam falsas ideologias desenvolvimentistas. Apesar da Embraer ser um nome de prestígio, não podemos nos iludir com o propósito de buscarmos uma solução fácil e imediata que aparentemente vai trazer benefícios para o Brasil. Vamos injetar dinheiro nos países que já dominam essa tecnologia em vez de investirmos na base que já possuímos e que precisamos impulsionar. O INPE foi posto de lado. E agora que o Brasil está numa condição econônimca favorável e que pode argumentar à sua sociedade da necessidade de investir mais nesta área, vai desperdiçar a oportunidade e passar para a iniciativa privada que busca essa solução fácil e imediata. Ora o Brasil tem que pensar a longo prazo. Não podemos esquecer que a EMBRAER já recebeu no passado a importante missão de fornecer um módulo para a Estação Espacial Internacional e não consegui cumprir o seu papel. Naquela época foi alvo de críticas da comunidade científica brasileira e dos empresários do setor privado espacial brasileiro, pois a EMBRAER subcontratava as empresas brasileiras para o fornecimento de produtos de baixo valor agregado e, ainda, a maior parte da subcontratação era feita para as empresas estrangeiras, sem falar que o produto não foi entregue e se quer o Brasil entrou com o nome de participante da construção da base espacial (ISS).

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