PEB: Por Que Estamos Nessa? - Artigo


Olá leitor!

Segue abaixo um artigo escrito pelo jornalista Salvador Nogueira e postado dia (06/04) no site “Yahoo Notícias” que apresenta uma interessante visão dos motivos que levaram o Brasil a desenvolver um programa espacial, aponta alguns de seus problemas e suas perspectivas futuras.

Duda Falcão

Programa Espacial

Programa Espacial Brasileiro: Por Que Estamos Nessa?

Por Salvador Nogueira
Yahoo Notícias
Terça-feira, 06 Abril de 2010 - 11h06


Lá se foram quatro anos desde a missão do primeiro - e até agora único - astronauta brasileiro, Marcos Cesar Pontes, à órbita terrestre. Foi o momento mais marcante de um programa espacial que, apesar das idas e vindas, já tem cinco décadas de história. Mas por que afinal o Brasil está nessa?

A principal razão certamente foi notada por Pontes lá em cima mesmo, ao olhar para a Terra de uma das escotilhas da Estação Espacial Internacional (ISS): há muita coisa aqui embaixo que só se pode ver lá de cima. Num país de dimensões continentais, fortemente dependente das telecomunicações por satélite e com grandes territórios para monitorar, o acesso ao espaço simplesmente não pode ser negligenciado.

Um exemplo gritante da utilidade do programa espacial para o Brasil é o monitoramento das florestas brasileiras. Com a ajuda de imagens de satélite, o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) já acompanha, em tempo real, o desmatamento da Amazônia. Munido desse recurso, o governo pode agir com mais eficácia para conter o corte ilegal e punir os responsáveis. Não há dúvida de que o sucesso na proteção das matas passa pelo espaço.

E esse é só um exemplo, de muitos. Outro: o espaço será fundamental para que o Brasil tenha uma real noção das transformações ambientais causadas pelas mudanças climáticas. Previsões geradas por modelos computadorizados do aquecimento global, como a iminente savanização da Amazônia (a transformação da mata fechada em cerrado), poderão ser observadas com mais precisão a partir de recursos de satélites.

Isso tudo sem falar nas telecomunicações, que, num país do tamanho do nosso, não podem ter o alcance necessário sem a ajuda das transmissões por satélite. Como se vê, o Brasil não está nesse ramo pelos sonhos românticos de exploração de outros planetas, ou coisa do tipo. Sua preocupação é bem "terrestre": zelar pelos seus recursos e, se possível, de quebra, faturar um troco.

Negócios à Parte

O ramo de lançamento de satélites pode ser bastante lucrativo, sobretudo para quem está bem localizado para colocá-los em órbita. Quanto mais próxima uma base de lançamento está da linha do equador, maior é a economia de combustível para atingir uma mesma órbita. E não há instalação mais bem localizada no mundo hoje que o Centro de Lançamento de Alcântara, no Maranhão, apenas 2 graus ao sul do equador.

O programa espacial brasileiro trabalha em duas frentes para realizar esse potencial: o desenvolvimento de seu próprio foguete, o VLS-1 (Veículo Lançador de Satélites), que teria como objetivo dar acesso independente ao espaço, ainda que apenas para artefatos leves e em órbitas baixas, e uma parceria com a Ucrânia para usar o poderoso foguete Cyclone-4 a partir da base brasileira, com fins comerciais.

Infelizmente, os dois projetos estão caminhando a passos de tartaruga. O problema principal é um só: falta grana. Desenvolver tecnologia espacial é possivelmente a coisa mais cara que existe, e o governo brasileiro no momento não aloca mais que R$ 300 milhões por ano em seu orçamento para a Agência Espacial Brasileira. Pode parecer uma fortuna, mas para aplicações espaciais é muito pouco.

O presidente da AEB, Carlos Ganem, sabe que as coisas terão de mudar para que tudo que está nos atuais planos brasileiros possa ser realizado. "É certo que o orçamento do programa espacial pode e deve crescer, e isso precisa acontecer para dar suporte à demanda do segmento espacial nos próximos anos", afirma.

No momento, a perspectiva no setor de foguetes é realizar um vôo-teste do VLS-1 em 2012, mas só tê-lo completamente operacional e capaz de colocar satélites em órbita em 2014. A operação do Cyclone-4, feita pela empresa binacional Alcântara Cyclone Space, deve em tese acontecer antes, mas ninguém está esperando que vá se realizar antes de 2012.

Sem Grana, Sem Astronauta

E quanto a novos vôos tripulados? Hoje, a agência brasileira descarta qualquer hipótese de voltar a realizá-los, basicamente pela questão do custo. Há outras prioridades, e enviar alguém ao espaço, atualmente, só pode ser feito por intermédio dos russos, que cobram cerca de US$ 30 milhões por assento numa nave Soyuz-TMA. Uma parceria com os americanos é carta fora do baralho, até porque os ônibus espaciais da NASA, a poderosa agência espacial dos EUA, devem se aposentar no máximo no ano que vem, deixando os ianques também na dependência dos russos. E os chineses, pelo menos no momento, não parecem dispostos a dividir sua recém-adquirida capacidade de levar astronautas à órbita.

Pelo menos nos próximos cinco anos (e possivelmente por muito mais tempo), Marcos Pontes está condenado a ser o primeiro e único astronauta brasileiro. O que não quer dizer que não tenha valido a pena enviá-lo ao espaço em 2006. Em sua viagem, que incluiu oito dias a bordo da Estação Espacial Internacional, o astronauta realizou oito experimentos brasileiros, dois educativos e seis científico-tecnológicos. Os resultados de alguns deles foram bastante encorajadores, indo desde ciência básica (investigar os efeitos do ambiente espacial no sistema natural de reparo do DNA das células vivas) até desenvolvimento tecnológico (validar uma técnica de controle térmico de satélites, tecnologia que, até então, o Brasil precisava importar).

Essa tecnologia até ganhou uso em solo, no mais inusitado dos ambientes: a padaria. Os chamados "minitubos de calor" foram aplicados a fornos de panificadoras para mantê-los homogeneamente aquecidos, e o resultado é que todos os pães saem assados exatamente do mesmo modo. O "pão espacial" é fruto de pesquisas que continuam em andamento na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).

O Que Vai e o Que Volta

Mas a mais marcante contribuição da missão do astronauta ao programa espacial não foi o que ele levou ao espaço, mas o que ele trouxe de lá. Mais de sete anos de treinamento no Centro Espacial Johnson, da NASA, além de alguns meses de preparação intensiva para a missão, na Rússia, deram a Pontes a experiência necessária para poder promover o desenvolvimento da engenharia aeroespacial no Brasil. Agora, aliado à USP (Universidade de São Paulo) em São Carlos, como professor e pesquisador convidado, Pontes ajudou a formar o primeiro curso nacional de engenharia aeroespacial.

Em seguida, para não ficar atrás, o ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), mais tradicional escola de engenharia do país, também abriu seu curso. E, de acordo com o astronauta, esse seria só o início de uma grande mudança. O que ele vê com o surgimento desses cursos é a eventual criação de pólos fortes de desenvolvimento aeroespacial espalhados pelo país.

Eles se juntariam à já desenvolvida região de São José dos Campos, no interior do estado de São Paulo, onde estão localizados o CTA (Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial), coordenador dos projetos de foguetes brasileiros, e o INPE, responsável pelos satélites, para descentralizar o desenvolvimento do programa.

"A gente começaria a caminhar para a mesma organização que existe lá nos Estados Unidos", diz Pontes. Lá, a NASA possui dez centros espalhados pelo país, todos trabalhando no programa aeroespacial, mas cada um com uma vocação diferente. Por exemplo, se o assunto é sondas planetárias, o melhor lugar a consultar é o Laboratório de Propulsão a Jato, na Califórnia. Se o tema é missões tripuladas, o centro responsável é o Johnson, no Texas. Se a questão é o desenvolvimento de foguetes, melhor procurar o Marshall, no Alabama. E assim por diante.

Mas aqui, é claro, apesar dos sinais positivos, as coisas ainda devem evoluir muito lentamente, como foi nos últimos anos. Afinal, enquanto a NASA tem US$ 19 bilhões por ano para gastar, todo o programa brasileiro precisa ser pago com no máximo R$ 300 milhões anuais.


Fonte: Site Yahoo Notícias

Comentário: Muito relevante este artigo do jornalista Salvador Nogueira que apresenta uma interessante visão sobre o atual momento do PEB, seus problemas e perspectivas futuras de forma simples e bem clara. Apesar do blog não concordar com alguns pontos da visão do autor, não podemos deixar de parabenizá-lo pelo excelente artigo.

Comentários

  1. Grande texto do Salvador Nogueira, alias, um velho amigo do fandon de Jornada nas Estrelas no Brasil. Um dos poucos reporteres tecnicos espaciais do Brasil. Acompanhou pessoalmente a missão centenário para a Folha de S.Paulo. Além disto é escritor e já publicou vários livros, e eu estive na maioria dos lançamentos aqui em Sampa. O que eu achei legal no texto foi informar que o Marcos Pontes ainda continua fazendo alguma coisa pela educação e o nosso programa espacial. Parabens Salvador.

    ResponderExcluir
  2. Ola Ricardo!

    Realmente amigo você está certo, o artigo do jornalista Salvador Nogueira é muito bom. Precisamos de mais profissionais especializados como ele para que assim possamos realizar uma divulgação de qualidade cada vez maior e melhor direcionada a nossa sociedade que é tão desinformada sobre os benefícios das atividades espaciais em curso no país.

    Abs

    Duda Falcão
    (Blog Brazilian Space)

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Top 5 - Principais Satélites Brasileiros

Da Sala de Aula para o Espaço

O CLA e Sua Agenda de Lançamentos Até 2022