Alunos do IAG/USP Visitam Grandes Telescópios no Chile

Olá leitor!

Segue abaixo um artigo escrito pelo Prof. Jorge Meléndez do IAG/USP e publicado no informativo “LNA em Dia” de 16/07/2012, relatando a viagem que o mesmo fez com seus alunos para visitar os grandes telescópios no Chile.

Duda Falcão

Formando Nossos Futuros Astrônomos
em Grandes Observatórios
com Participação Brasileira

Jorge Meléndez*

Os nossos jovens astrônomos irão explorar o Universo na era dos megatelescópios (25-40m). Sendo assim, é essencial que os estudantes de pós-graduação tenham familiaridade com os grandes telescópios de hoje (4–10m). No entanto, poucos deles chegam a conhecer de perto grandes telescópios como aqueles disponíveis em La Silla e Paranal (ESO) ou em Cerro Pachón (Gemini Sul, SOAR), no Chile. Os projetos brasileiros em grandes telescópios são geralmente executados em modo fila ou remotamente, de tal maneira que muitos estudantes trabalham nas suas teses sem nunca ter conhecido os grandes observatórios onde foram obtidos seus dados.

Nesse contexto, e como novo professor da disciplina “Astrofísica Observacional” da pós-graduação do IAG/USP desde março de 2012, decidi realizar um trabalho de campo no exterior para que os meus estudantes conhecessem pelo menos um dos grandes observatórios que o Brasil tem acesso. Ano passado, aproveitando a entrada do Brasil no ESO, submeti um ambicioso projeto (88 noites) para procura de planetas em torno de estrelas gêmeas do Sol utilizando o HARPS, o espectrógrafo mais preciso no mundo (1 m s-1) para a descoberta de exoplanetas. O meu Large Programme de quatro anos foi aprovado na íntegra pelo ESO. Como uma das minhas missões seria em abril de 2012, pensei que esta fosse uma excelente oportunidade para levar os meus estudantes a La Silla. Solicitei ao ESO autorização em caráter excepcional, pois geralmente apenas são permitidos dois observadores por missão, enquanto seríamos em dez pessoas (oito estudantes, um colaborador internacional e eu). A resposta do ESO foi positiva e, gentilmente, o ESO comprometeu-se com as despesas de transporte local de La Serena a La Silla, hospedagem e alimentação dos estudantes. No entanto, para que a missão fosse realizada, precisaria ainda encontrar financiamento para passagens aéreas de São Paulo a Santiago do Chile e de Santiago a La Serena, além de outras despesas.

Conseguir financiamento para a viagem foi um grande desafio e tive que explorar diversas opções. Infelizmente, algumas pessoas não compreenderam a importância e o impacto da missão na formação de nossos estudantes. Mas, felizmente, com a ajuda do Pró-Reitor da Pós-Graduação da USP (Prof. Dr. Vahan Agopyan), do Diretor da Pós-Graduação do IAG/USP (Prof. Dr. Edmilson Dias de Freitas) e do Diretor do IAG/USP (Prof. Dr. Tercio Ambrizzi), que mesmo não sendo astrônomos entenderam a relevância da viagem, o dinheiro que faltava foi obtido rapidamente.

Aproveitando que a visita ao ESO já estava garantida, decidi ampliar a missão para que os alunos pudessem conhecer outros grandes observatórios na região. Contactei os diretores do Gemini, SOAR e CTIO para que visitássemos os três observatórios em uma excursão de um dia ao Cerro Tololo e Cerro Pachón. Para nossa alegria, recebi resposta positiva de todos eles e o compromisso do Gemini de coordenar a visita aos três observatórios.

Saímos na manhã do dia 25 de abril de São Paulo e, à noite, já estávamos em La Serena. No dia 26 acordamos cedo para a visita ao Tololo e Pachón. Nossos guias foram Manuel Paredes, Pascale Hibon e Tina Armond. Fomos primeiro ao CTIO, onde visitamos o telescópio de 1,5m e o telescópio Blanco de 4m, que estava sendo adaptado para a instalação da DECAM (Dark Energy Survey). A seguir fomos a Cerro Pachon para visitar o telescópio de 8m do Gemini Sul e o telescópio de 4m do SOAR. Conhecemos em detalhe diversos aspectos dos observatórios, como por exemplo a gigantesca câmara de revestimento do Gemini, onde os espelhos do Gemini e SOAR são recobertos em prata. Nem o frio extremo nem o vento implacável abalaram o entusiasmo da turma.

De 27 a 30 de abril visitamos o observatório La Silla do ESO, onde entramos em contato com os principais telescópios do sitio incluindo o de 3,6m com o espectrógrafo HARPS, o NTT (também de 3,6m) e o telescópio de 2,2m. Peter Sinclaire (ESO) nos explicou em detalhe os telescópios e a sua instrumentação. Alem disso, os alunos acompanharam as observações no 3,6m/HARPS, presenciando a redução automática dos dados praticamente em tempo real, pois a redução das dezenas de ordens do espectro demora apenas alguns segundos, fornecendo inclusive a velocidade radial com precisão de 1 m s-1. Os alunos fizeram uma pré-análise dos dados recém obtidos para apontar quais gêmeas solares poderiam hospedar planetas. Dessa maneira o observador poderia priorizar a observação de determinados alvos. Além da oportunidade impar de acompanhar de perto uma pesquisa de ponta, os alunos entraram em contato com estudantes e astrônomos de outros países. Mesmo no frio congelante, os alunos observaram por horas o céu de La Silla a olho nu, onde a Via Láctea pode ser apreciada em todo seu esplendor. Os alunos puderam vivenciar as diversas atividades de um observatório extremamente profissional como La Silla. Fizemos também uma emocionante trilha em busca de petróglifos ao redor de La Silla. Não foi uma trilha fácil e por um momento pensei que não iríamos encontrar as milenares pedras mas, sim, conseguimos encontra-las! Foi um grande desafio vencido, mas ainda teríamos que enfrentar o caminho aclive da volta! Na nossa ultima noite os alunos foram acordados por um terremoto, que foi mais uma nova e excitante experiência para eles em uma semana cheia de emoções.

Para mim foi imensamente satisfatório como professor ver aquele brilho nos olhos, notar a emoção e felicidade dos alunos ao chegar perto dos grandes telescópios, e observar a admiração deles com o céu estrelado de La Silla. Além do aprendizado sobre telescópios e instrumentação, eles puderam ter um panorama geral de como e feita a astronomia hoje. Certamente, agora poderão enfrentar melhor os desafios para o futuro. Eles sabem o quão difícil e nossa carreira, mas a nossa missão de campo servira como fonte de inspiração para eles cumprirem seu sonho de um dia se tornar astrônomos. A seguir, os alunos relatam a sua experiência visitando o CTIO, SOAR, Gemini e La Silla, e o impacto que a missão esta tendo em suas carreiras. Gostaríamos de agradecer aos diretores de La Silla, CTIO, SOAR, Gemini, aos nossos guias e as autoridades do IAG e da USP pelo apoio recebido.

© Ana Maria Molina
Na sede do Gemini em La Serena. De esquerda a direita:
Prof. Jorge Meléndez e os estudantes Patricia, Miguel,
Fernando, Andressa, Nathália, Marcelo, Viviane e Ana Maria

* Jorge Melendez e professor do IAG/USP. A matéria com fotos e depoimentos dos alunos pode ser lida na integra no link: http://www.lna.br/lna/LNA_em_dia/Viagem_2012_06_10.pdf


Fonte: Informativo “LNA em Dia” do LNA - num. 25 - págs. 16 e 17 - 16/07/2012

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