Técnico do INPE Fala da Falta de Vont. Política do Governo

Olá leitor!

Segue abaixo uma entrevista publicada no “Jornal do SindCT” de maio de 2012, editado pelo “Sindicato dos Servidores Públicos Federais na Área de C&T (SindCT)” com o pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Heitor Patire Júnior, que fala da falta de vontade política para com o Programa Espacial Brasileiro (PEB).

Duda Falcão

NOSSO ÁREA

Entrevista

Técnico do INPE Analisa Desenvolvimento
do Subsistema de Propulsão Falta
Vontade Política para Se Investir
em Tecnologia Nacional

Queremos e temos capacidade para produzir equipamentos de
alta tecnologia, o que falta é vontade política”, diz Heitor Patire Júnior,
responsável técnico pelo Subsistema de Propulsão da Plataforma
Multimissão (PMM), do Satélite Amazônia-1, sob a responsabilidade
do INPE. Heitor é doutor pelo ITA na área de
Energia, especializado em Energia Térmica

Por Shirley Marciano
Jornal do SindCT


Jornal do SindCT: Que benefícios o Programa Espacial Brasileiro pode trazer para a sociedade?

Heitor Patire Júnior: Muitos benefícios. Quando um projeto é desenvolvido em institutos de pesquisa como o INPE, tendo ou não parceria com empresas nacionais, o país detém o conhecimento das tecnologias aplicadas, podendo ser usadas em outros produtos na indústria, através da transferência do conhecimento.

No caso da aplicação espacial, os produtos requerem processos com precisão e materiais que geralmente suportem ambientes com condições muito adversas. No entanto, o conhecimento dessas técnicas pode e já é utilizado por diversas áreas, como, por exemplo, indústria de alimentos, instrumentos médicos e ópticos, robótica, conformação e soldagem de materiais de liga especial, aviação, automobilística e muitas outras áreas.

Jornal do SindCT: Mas como ocorre a transferência desse conhecimento para as indústrias brasileiras? Essas tecnologias são vendidas?

Heitor Patire Júnior: A indústria nos procura para treinamento de mão de obra em nossos cursos de pós-graduação ou uso de nossos laboratórios para testes de seus produtos, como ocorre no LIT; ou quando tem alguma dificuldade tecnológica em seus produtos. O INPE treina e ajuda fazendo a transferência do conhecimento. No máximo, ocorre a reposição financeira dos materiais e energia consumidos, mas não existe qualquer lucro.

Jornal do SindCT: Na sua visão, qual a importância de desenvolver tecnologia nacionalmente?

Heitor Patire Júnior: Quando um país desenvolve a sua tecnologia pode vender com um valor agregado muito mais alto. É o caso dos países desenvolvidos que sempre investiram em tecnologia e que vendem os seus produtos para o mundo todo, mas jamais transferem o seu conhecimento por um óbvio motivo: vender sempre e não criar concorrência. É assim que pensa qualquer empresa ou país que detém conhecimento.

Jornal do SindCT: Em que nível você considera que o Brasil está em termos de desenvolvimento tecnológico na área espacial?

Heitor Patire Júnior: Entre os BRICs nós somos os últimos. O Brasil peca muito por não investir adequadamente em seus pesquisadores, valorizando-os com bom salário, com verba sem interrupções para projetos de pesquisa e desenvolvimento. Se não tem um bom salário, esse pesquisador vai embora para a universidade, indústria ou para fora do país procurar melhores condições. Com relação à verba para desenvolvimento de projeto, a falta de investimento consistente realmente é algo difícil de se entender para um país que possui um discurso de fazer pesquisa espacial.

Veja a questão da compra do subsistema de atitude e órbita da empresa Argentina INVAP. Por que não deixaram os pesquisadores do INPE desenvolver? O que teria faltado? Conhecimento? Certamente que não, pois, com toda certeza, os pesquisadores do INPE sabem fazer. Seria dinheiro? Também não foi, porque compraram o subsistema da empresa da Argentina por R$ 47, 5 milhões. Para ser justo, se tivesse usado esse mesmo recurso, contratando mais pessoas para esta equipe, equipando os laboratórios e comprado os equipamentos que faltavam, certamente teriam um produto muito melhor do que esse que será entregue pela estatal Argentina INVAP.

Sobretudo, haveria domínio de know how na área, gerando uma autonomia para que nunca mais precisasse comprar este tipo de equipamento fora do Brasil. Poderíamos fabricá-los nas indústrias nacionais para utilizar nas várias aplicações que usam esse produto, como aviões, robôs, satélites, foguetes e muitos outros. A única explicação que é possível chegar é a de que ainda falta muita vontade política e patriotismo.

Jornal do SindCT: Se você estivesse falando agora com o ministro de Ciência e Tecnologia, Marco Antonio Raupp, o que diria a ele sobre essa questão acima abordada?

Heitor Patire Júnior: Gostaria que houvesse comprometimento desse governo para investir mais nos nossos institutos. Queremos e temos capacidade para produzir equipamentos de alta tecnologia. Precisamos que haja condições equilibradas para chegarmos a este fim, ou seja, planejar as contratações necessárias, com tempo para treinar os novos funcionários concursados, comprar os equipamentos para os projetos, investir nos laboratórios e, sobretudo, dar continuidade financeira nas pesquisas, pois estas devem ser constantes e evolutivas. Quando uma pesquisa ou projeto é paralisado, automaticamente começamos a regredir, pois existem muitos profissionais pesquisando no mundo inteiro os mesmos produtos e equipamentos e, fatalmente, ficaremos para trás.

Jornal do SindCT: Por favor, ajude os leitores do jornal que não estão familiarizados com o tema a compreender o seu trabalho. O que é um Subsistema de Propulsão?

Heitor Patire Júnior: O Subsistema de Propulsão é o que proporciona o empuxo (força do líquido sobre um corpo), necessário para correções de atitude e órbita em um satélite. Ele é composto por um conjunto de equipamentos: tanque de combustível, tubulações, válvulas de controle e propulsores. Este subsistema faz parte da Plataforma Multi-missão (PMM) que é parte integrante do satélite Amazônia-1, com previsão para ser lançado em 2014.

Jornal do SindCT: Já houve experiências anteriores com relação ao Subsistema de Propulsão?

Heitor Patire Júnior: Em 2000 houve um subsistema embarcado em uma plataforma sub-orbital (PSO) que se perdeu no mar por problemas com o foguete. Esta é a primeira vez que é construído no Brasil para controle de atitude e órbita embarcado em um satélite, inclusive com tecnologia brasileira em alguns equipamentos. O desenvolvimento é realizado em parceria com a empresa nacional Fibraforte, que faz parte do consórcio de empresas da PMM.

A empresa desenvolveu o subsistema baseado em especificações e acompanhamento do INPE e atualmente estão realizando os testes de qualificação com grande êxito nos resultados.


Fonte: Jornal do SindCT - Maio de 2012.

Comentário: Pois é leitor, está aí o que temos afirmado desde que criamos o blog. O grande empecilho para o desenvolvimento de nosso programa espacial é o próprio governo, que não quer se mexer a décadas. Tivemos um bom momento durante o governo SARNEY, péssimos momentos durante os governos COLLOR, ITAMAR e FHC, momento razoável, mas infrutífero, durante o governo LULA e agora estamos vivendo um momento desastroso com o governo DILMA. Sei que é chato está aqui repetindo sempre a mesma coisa, entretanto é a única maneira que podemos contribuir para tentar mudar toda esta situação, e assim fazemos, na espera que algum dia as coisas mudem e resultados realmente significativos na área espacial possam ser alcançados pelo nosso país.Aproveitamos para agradecer ao leitor paulista José Ildefonso pelo envio dessa entrevista. 

Comentários

  1. 1) Achei essa compra do subsistema de atitude e órbita da empresa Argentina INVAP uma vergonha de todo o tamanho. Um verdadeiro atestado de incompetência e burrice.

    2)Não entendi. Se não foi falta de dinheiro foi falta de vontade politica de quem ? Se foi do INpe mesmo, tinha que demitir o infeliz que foi responsável.

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  2. Caro Duda
    Vc entendeu o que aconteceu neste caso do Subsistema de Propulsão ? Tinha dinheiro mas não havia vontade politica ???

    PS : Concordo sobre o Sarney.
    Pelo menos nessa área ele não errou...

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  3. Olá Iurikorolev!

    Veja bem amigo, acredito que as palavras do pesquisador Heitor Patire Júnior são auto explicativas. É claro que faltou vontade política e apoio financeiro. O problema do PEB nunca foi falta de recursos financeiros disponíveis, esse sempre existiram, e sim falta de vontade de utilizá-los no programa. O PEB sempre foi visto como um patinho feio pela classe política e nunca levado a sério, com exceção, como já disse, durante o governo SARNEY. Foi justamente devido ao apoio que SARNEY deu durante seu governo que as poucas vitórias até agora alcançadas pelo PEB ocorreram. Podemos citar a criação LIT, o estabelecimento do Programa CBERS com a China, o desenvolvimento dos satélites SCD-1, 2 e 2A, O Saci 1 e 2, a finalização do SONDA IV e o Desenvolvimento do VS-40 que permitiu o lançamento do VLS-1 e 1997, entre outras vitórias nas áreas de tecnologias associadas para satélites e foguetes. Isso tudo ocorreu por que o SARNEY estabeleceu a base que continuou felizmente dando resultado até 1997, quando então entrou em declínio culminando no acidente do VLS-1 em 2003. Esse energúmenos são os culpados e para piorar a presidente DILMA segue o mesmo caminho.

    Abs

    Duda Falcão
    (Blog Brazilian Space)

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  4. Auto explicativas talvez para você, não para mim que conheço o INPE e cercanias.
    Não entendo como houve falta de apoio financeiro, se depois apareceu o dinheiro para comprar, provavelmente mais caro do que se desenvolvesse aqui.
    Voce costuma dizer que "os energumenos de Brasilia...", mas existe muita incompetencia, sacanagem e burrice na parte espacial, fora de Brasilia.
    Falo porque sei.

    PS : dá para mim ser notificado por e-mail das respostas ?

    PS2: o cara da INOTECh respondeu meus e-mais sobre o motor .

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  5. Olá Iurikorolev!

    Na realidade em minha opinião as pessoas estão fazendo um cavalo de batalha por causa de uma besteira. Talvez se o ACDH tivesse sido contratado na França, na Rússia ou em outro país que não a Argentina, não causasse tanta polêmica. Entretanto, temos que ser realista. O INPE com certo atraso (e isso é verdade, mas em grande parte por causa dos energúmenos do governo) quando tomou a decisão e lançou uma concorrência a nível nacional gerou uma grande confusão que parou na justiça, tentou pela segunda vez e foi parar na justiça também. Assim sendo, como eles precisavam de uma solução rápida para o Satélite Amazônia 1 (esse será o primeiro e único satélite a usar esse subsistema argentino, já que os outros serão fabricados no Brasil por uma empresa brasileira) e o Projeto SIA ainda estava no início, eles optaram por essa solução que além de tudo era mais barata e cancelaram a concorrência. Eles só não contaram (ingenuamente em minha opinião) que o governo continuasse a amarrar o satélite, e assim a diferença de tempo que separava a opção do desenvolvimento desse subsistema pelo Projeto SIA e a opção argentina deixou de existir. Entretanto, esse subsistema desenvolvido pela INVAP já deve estar pronto e o próprio Projeto SIA deverá se beneficiar disso, pois terá uma outra tecnologia a sua disposição e a partir daí quem sabe, fazer o que eles chamam de tecnologia reversa.

    Abs

    Duda Falcão
    (Blog Brazilian Space)

    Duda Falcão

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  6. Obrigado pelas informações.

    PS : dá para mim ser notificado por e-mail das respostas ?

    PS2: o cara da INOTECh respondeu meus e-mais sobre o motor

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