A Nova “Fábrica de Cérebros”

Olá leitor!

Segue abaixo uma interessante entrevista com o reitor do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), Carlos Américo Pacheco, publicada na edição de número 234 “Out, Nov e Dez de 2012” da revista “AEROVISÃO” da Força Aérea Brasileira (FAB), onde o mesmo descreve os planos de ampliação do instituto.

Duda Falcão

ENTREVISTA – Instituto Tecnológico de Aeronáutica

A Nova “Fábrica de Cérebros”

Por Alessandro Silva
Revista Aerovisão
Edição 234

Nos anos 50, o Brasil descobriu que precisava de um centro de pesquisa, de uma universidade de ponta e de uma indústria aeronáutica para que pudesse dar um dos mais importantes saltos tecnológicos de sua história. Dessa combinação planejada pela Força Aérea Brasileira, nasceram os primeiros aviões brasileiros, projetos de foguetes para o programa espacial, novos satélites e uma história que começa a ser escrita para revolucionar novamente o futuro do país.

Quase seis mil engenheiros passaram pelas cadeiras da graduação do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) nas últimas seis décadas. Saíram de lá os principais cérebros da área de aeronáutica, defesa e espaço., além de empresários e dirigentes de grandes empresas. Nesse momento, uma nova reformulação está em curso no ITA e o que está para mudar deve influenciar profundamente o futuro brasileiro em tecnologias sensíveis e imprescindíveis para o crescimento do país.

Nos próximos cinco anos, o ITA irá ampliar sua estrutura de laboratórios, salas de aula e biblioteca, contratar mais professores, dobrar o número de alunos da graduação, criar um centro de inovação inédito com a participação da indústria para incentivar a pesquisa de ponta e ampliar os projetos de intercâmbio com o Massachussets Institute of Technology (MIT), dos Estados Unidos, por coincidência, a mesma escola de engenharia que inspirou a criação do ITA e que participou desse processo ativamente nos anos 50 aqui no Brasil. O investimento inicial previsto é de R$ 300 milhões.

“Estamos completamente entusiasmados com as possibilidades que o Brasil tem para as próximas décadas e com o desafio que vemos pela frente. Para meninos brilhantes, esses desafios técnicos, tecnológicos, de engenharia, são um convite para embarcar nessa viagem de enormes desafios e possibilidades”, afirma o reitor do ITA, Carlos Américo Pacheco, 55, da turma de 1979 de engenharia eletrônica da instituição, que agora comanda e é responsável pelo pacote de reformulações que estão na pauta do dia para mudar, como explica, o ensino de engenharia.

A palavra base desse novo projeto é “desafio”. O ITA espera captar parceiros e problemas estratégicos para envolver professores e alunos na busca de novas soluções, em um processo de construção de aprendizado consagrado no mundo: aprender pela curiosidade, aprender fazendo. Mas isso não representa perder de vista a tradição teórica conquistada pelo ITA, segundo o próprio reitor.

No ano passado, 9,3 mil jovens disputaram uma das 120 vagas de engenharia oferecidas pelo ITA, nas seis áreas oferecidas: aeronáutica, civil, computação, mecânica, eletrônica e aeroespacial. Dos que fizeram o vestibular, apenas 7% foram aprovados (cerca de 500 candidatos). Com a ampliação prevista, o número de alunos matriculados irá dobrar, uma novidade que pode ajudar a amenizar o déficit de profissionais engenheiros no país.

Aerovisão – No início do ano, o ITA fechou uma carta de intenções com o MIT. O que isso representa?

Carlos Américo Pacheco – É uma espécie de volta às origens. Quando o ITA começou, no final dos anos 40, houve uma enorme colaboração do MIT na criação da escola. O MIT é uma das mais famosas escolas de engenharia do mundo. Para nós, essa carta de intenções estabelece que teremos cooperação, troca de estudantes e professores, pesquisas conjuntas, agenda de inovação. É uma oportunidade grande porque o ITA passará por um conjunto de investimentos com a duplicação do ensino de graduação. Retomaremos a cooperação com o MIT nesse processo de crescimento e expansão do ITA. Isso envolverá intercâmbios, pesquisas conjuntas, identificação de grandes desafios tecnológicos para trabalhar em projetos de pesquisas conjuntas. Para escola, para o Brasil, é muito importante.

Aerovisão – Essa cooperação será abrangente ou estará restrita a uma área especifica de engenharia do ITA?

Pacheco – O ITA tem a missão, dada até pela lei de criação, de trabalhar no campo da aeronáutica e nas áreas afins e em pesquisas avançadas de engenharia. Com o MIT, estamos muito próximos do Departamento de Aero-Astro, que junta espaço e aeronáutica, também cooperando com outras áreas. Neste momento, estamos identificando projetos e trabalhamos para assinar, até o final do ano, um acordo de cooperação para os próximos cinco anos. Nesse acordo, vamos definir algumas áreas. Ano a ano, vamos revisar e identificar novos projetos interessantes. Vamos definir, na verdade, grandes desafios tecnológicos. Por exemplo, construir um veículo aéreo não-tripulado (VANT), um veículo subaquático não-tripulado para o pré-sal, ou trabalhar em novos materiais aplicados à área de defesa e pré-sal, em pequenos satélites com propulsão iônica, etc. Passaremos a definir uma lista de possibilidades. São projetos de médio e longo prazo que podem ser muito importantes para as tecnologias que o Brasil precisa, de interesse para nós e para o MIT, trabalhar em comum acordo.

Aerovisão – Entre esses novos projetos está a criação de um Centro de Inovação. Como está esse projeto e como irá funcionar?

Pacheco – Esse Centro de Inovação tem dois grandes objetivos. O primeiro é ter uma agenda de pesquisa mais próxima dos interesses da indústria aeronáutica, de defesa e espaço, em particular, e trabalhamos mais em conjunto em desafios concretos de grande porte. O segundo componente importante é renovar o ensino de engenharia. O Centro de Inovação também tem a ideia de envolver os alunos da graduação e da pós-graduação em problemas sofisticados de engenharia e que sejam capazes de entusiasmá-los, que os façam seguir carreira nessas áreas e envolver-se em projetos industriais nesses temas. O projeto tem um componente importante de remodelar o ensino de engenharia. Pretendemos fazer isso, cooperando com o MIT e com outras instituições também. A nossa ideia é que o projeto do Centro de Inovação esteja pronto em 2013 para ser apresentado aos grandes órgãos de fomento, sobretudo o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).

Aerovisão – Seis empresas já foram escolhidas em uma seleção preliminar para serem parceiras no projeto do Centro de Inovação (Petrobrás, Braskem, Odebrecht Defesa e Tecnologia, Vale Soluções em Energia, Telebrás e Embraer). Diversificará um pouco a área de atuação do ITA?

Pacheco – Na verdade, não diversificará tanto em termos de áreas. Como novidade, queremos que algumas grandes empresas brasileiras sejam parceiras nesse projeto porque elas possuem um conjunto de tecnologias de uso “dual”, que também interessam à área de defesa e aeronáutica. A Petrobrás, hoje, é a empresa que mais investe em tecnologia no Brasil e ela tem várias necessidades tecnológicas que coincidem com gargalos tecnológicos da área de defesa. Por exemplo, sistemas inerciais, materiais compósitos. A Vale tem um conjunto de demandas  relacionadas à automação da mineração. Queremos identificar grandes parceiros tecnológicos, que tenham uma agenda de desafios de médio e longo prazo, mas que sejam convergentes com aquelas tecnologias críticas que nós precisamos trabalhar no ITA.

Aerovisão – O número de parceiros deve aumentar então?

Pacheco – Na realidade, estamos prospectando seis empresas, porque sabemos que elas são muito importantes para a área que atuamos. Algumas estão ligadas ao setor Aeronáutico, ao setor de defesa, e as outras são empresas de grande porte que têm forte sinergia com a nossa agenda de pesquisa. Mas não ficaremos restritos e queremos abrir isso para outras empresas. A ideia do Centro de Inovação é que ele tenha uma carteira de desafios tecnológicos para equipes de professores da universidade, pesquisadores das empresas e alunos da graduação e pós-graduação. Até para que os alunos trabalhem nisso como parte da formação deles, para que se envolvam e continuem trabalhando nisso no futuro. É como se estivéssemos convidando essas empresas para virem aqui, conosco, trabalharem na formação desses alunos. Até para que, depois, possam recrutá-los. Nossos alunos são o melhor produto da escola.

“Os nossos estudantes
são muito bons e saem
daqui requisitados
para trabalharem
em diversos tipos de
funções, mas isso não
quer dizer que não seja
possível melhorar ainda
mais a formação desse
engenheiro.”

Aerovisão – A imprensa tem tratado essas mudanças como se o ITA estivesse para fazer com setores como energia e petróleo o que fez no passado com a aviação. É isso mesmo?

Pacheco – Não é exatamente isso. Temos uma missão definida por lei que é trabalhar para a aeronáutica, seja ela civil ou militar. É o nosso maior desafio. Ou em temas que sejam correlatos a isso. O que estamos tentando identificar é como buscar sinergia com grandes empresas, que tem grandes desafios tecnológicos, com a nossa agenda. Para você viabilizar a produção em escala de fibra de carbono no Brasil, você precisa ter demanda. Quem tem demanda por isso? O setor de geração eólica de energia e a Petrobrás, por exemplo, para exploração do pré-sal. Vários materiais que são de uso estratégico para o país, para aviação e para outros usos, pressupõem que você trabalhe junto com os produtores de pás eólicas e com a Petrobrás. Do contrário, não será possível viabilizar demanda para um negócio que pare em pé e que mantenha a produção. Queremos encontrar bons parceiros que consolidem nossa vocação e bons desafios tecnológicos. Em geral, desafios tecnológicos de ponta têm uso “dual” e se aplicam tanto para aeronáutica, defesa e espaço, como para outros setores, às vezes na área médica, às vezes na área de mineração, de petróleo e gás etc.

Aerovisão – Nessas parcerias, as empresas vão entrar com as demandas, com necessidades estratégicas, e o ITA fornecerá os pesquisadores...

Pacheco - Os nossos estudantes são muito bons e saem daqui requisitados para trabalharem em diversos tipos de funções, mas isso não quer dizer que não seja possível melhorar ainda mais a formação desse engenheiro. Queremos que ele tenha  contato com desafios complexos da vida real, e se estimule a estudar mais tendo esse tipo de contato, e, ao mesmo tempo, que nesse tipo de trabalho sejam desenvolvidas outras habilidades. O que diferencia o aluno do ITA em relação a outras escolas é que ele é muito bom do ponto de vista técnico, e isso queremos manter. Não abrimos mão. Mas sabemos que, hoje, para ser um bom engenheiro, um bom cidadão, é preciso também ter outras qualidades, saber trabalhar em equipe, ter uma visão mais de conjunto de engenharia de sistemas dos problemas tratados, ter capacidade de liderança, iniciativa, etc. Essas outras qualidades exigidas de um profissional engenheiro também são atributos que queremos trabalhar no Centro de Inovação.

“Hoje, para ser um
bom engenheiro, um
bom cidadão, é preciso
também ter outras
qualidades, saber
trabalhar em equipe,
ter uma visão mais de
conjunto de engenharia
de sistemas dos
problemas tratados, ter
capacidade de liderança,
iniciativa, etc.”

Aerovisão – A Embraer é uma parceira antiga do ITA, já financiou inclusive um laboratório e existem pesquisas em andamento. O senhor pode nos listar o que o ITA e a Embraer ganham com a parceria?

Pacheco – Os ganhos são mútuos. O desenvolvimento de um projeto dessa natureza, como o que você mencionou, é um projeto de automação de manufatura, para o emprego de robôs em linhas de montagem [da Embraer], automatizando processos que às vezes levam muito tempo. Estamos falando de processos que levam, às vezes, 20 horas e que podem ser reduzidos para 20 minutos, cuja confiabilidade aumenta muito na medida em que você consegue uma boa automação do processo. Isso envolve tecnologia sofisticada para fazer o alinhamento das peças, por exemplo. Qual é o ganho? O ganho para a Embraer é conseguir processos de produção mais confiáveis e com produtividade muito maior. O ganho que temos, na verdade, é que, quando você tem um projeto dessa natureza, ele vira um desafio. Um desafio em que você irá estudar e encontrar soluções. É uma oportunidade para conhecer melhor alguma coisa e encontrar uma solução. É uma oportunidade que temos de formar bons alunos. Esses trabalhos viram Tess de doutorado, dissertações de mestrado, trabalhos de graduação. As pessoas aprendem fazendo a pesquisa. A pesquisa, em uma universidade, é parte essencial dá formação. Os alunos saem engenheiros muito melhor preparados, prontos para enfrentar desafios e encontrar soluções.

“As pessoas aprendem
fazendo a pesquisa.
A pesquisa, em uma
universidade, é parte
essencial dá formação.
Os alunos saem
engenheiros muito
melhor preparados,
prontos para enfrentar
desafios e encontrar
soluções.”

Aerovisão – É essa a grande mudança no ensino de engenharia que o ITA planeja para o futuro?

Pacheco – Temos algumas mudanças em vista. Essa é uma delas, do envolvimento com desafios concretos. Outra é o que chamamos de outras qualificações do engenheiro, que iem inglês se chama “soft Skills”, ou seja, qualificações mais leves, que são liderança, empreendedorismo, trabalho em equipe etc, que são parte dos requisitos da atuação profissional, hoje em dia, em qualquer área. Evidente que nosso diferencial sempre será formar excepcionais engenheiros do ponto de vista técnico. Precisamos acrescentar essa abordagem de cooperação com as empresas, essas outras qualificações que um bom profissional precisa ter e a capacidade de estar envolvido na solução de problemas reais e, de fato, desafiadores, de grande impacto. É isso que queremos para o ITA nos próximos anos.

Aerovisão – Na pauta de ampliação, estão previstas obras para o ITA e a duplicação das vagas da graduação (são oferecidas hoje 120 vagas). Quando isso começa?

Pacheco – Há um conjunto de grandes investimentos previstos. Oferecemos alojamento e alimentação para os alunos, existem prédios novos que a escola precisa fazer, laboratórios novos, salas para professores, porque teremos de fazer novas contratações, uma biblioteca nova. É um conjunto grande de investimentos, da ordem de R$ 300 milhões, em obras e instalações, fora outros aportes em laboratórios. Esse volume de obras começa neste ano e seguirá por mais cinco anos. São obras grandes, algumas que vão durar vários anos até serem concluídas. A nossa intenção, é iniciarmos em 2014, ou talvez em 2015. Vai depender do cronograma das obras, mas a nossa ideia é fazer nesse período a duplicação de vagas da graduação e durante os próximos cinco anos teremos a renovação completa da escola, oferecendo condições melhores para nossos alunos e fazendo também essas outras novidades, como o Centro de Inovação, as novas qualificações. Também estudamos abrir novas áreas de engenharia no ITA, fora das áreas tradicionais em que já atuamos. Estamos analisando as demandas que existem para o engenheiro que temos no setor de aeronáutica, espaço e defesa, vendo quais são as necessidades, que áreas novas teríamos, que perfil de engenheiros precisamos, para que aproveitemos a ampliação da graduação para atuar em outras áreas da engenharia.

“Estamos analisando as
demandas que existem
para o engenheiro
que temos no setor de
aeronáutica, espaço e
defesa, vendo quais são
as necessidades,  que
áreas novas teríamos,
que perfil de engenheiros
precisamos.”

Aerovisão – Mas para o vestibular deste ano, ainda será mantido o mesmo número de vagas?

Pacheco – Permanece o mesmo. As provas do vestibular acontecerão em dezembro. Sinceramente espero que os alunos se dediquem a isso, estudem muito para as provas. Vir para o ITA é uma garantia de ter um futuro brilhante e de ajudar o país a fazer coisas excepcionais.

FIQUE POR DENTRO

Instituto Tecnológico de Aeronáutica

Data criação:
1950, em São José dos Campos (SP)

Cursos de engenharias:
Aeronáutica, Civil, Computação, Mecânica, Eletrônica, Aeroespacial

Alunos de graduação formados:
Quase 6 mil

Alunos de pós-graduação:
3,8 mil

Número de funcionários (incluindo docentes):
316

Orçamento Anual (2010):
R$ 47,7 milhões


Fonte: Revista Aerovisão - Edição nº 234 – págs. 08 à 15 - Out, Nov, Dez de 2012

Comentário: Em primeiro lugar peço desculpas ao leitor por não ter inserido nessa nota as fotos que acompanham essa entrevista, já que infelizmente não tive acesso às mesmas. Bom, para mim está muito claro que o senhor Carlos Pacheco tem um plano de ação com metas a serem cumpridas bem claras e definidas, mas em minha opinião seu otimismo é extremamente exagerado, já que a conclusão dessas metas e objetivos vão depender que as intenções e ações do governo DILMA ROUSSEFF e seus BLUE CATS sejam convergentes com o plano de ação elaborado pelo reitor de ITA, e é ai que a coisa pega. Assim sendo, sinceramente não acredito que ele consiga alcançar nem mesmo 50% dessas metas no final do período previsto de 5 anos. Entretanto, a presidente DILMA terá a oportunidade nos próximos anos (pelo menos até as eleições) para provar que estou enganado, ou mostrar mais uma vez que ela e sua trupe fazem parte de uma classe que já deveria ter sido execrada da política brasileira.

Comentários

  1. Apesar de considerar não só o ITA como também o IME, instituições de excelência no Ensino Superior, considero também que este nível de excelência deveria ser mais pulverizado no Brasil.

    Não só em termos geográficos, mas também em termos de instituições.

    É por isso que insisto na campanha de que as nossas universidades privadas, que lucram muito e hoje são (em sua maioria) meras entregadoras de diplomas, deveriam ser obrigadas POR LEI a manter laboratórios de pesquisa ativos e produtivos. Mesmo que de forma associada, tipo um centro de pesquisa para algumas faculdades.

    Sim, deve ser enaltecida a qualidade de centros de ensino como ITA e IME, mas o mais correto é disseminar essa qualidade pelo Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sul.

    É isso.

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