Acordo de Cooperação Espacial Brasil-Rússia


Olá leitor!

Durante a visita ao Brasil do presidente da Federação da Rússia, Dmitri Medvedev entre os dias 24 e 26 de novembro de 2008, foram assinados diversos acordos na área de cooperação militar e espacial.

Abaixo segue o item 13 da "Declaração Conjunta" dos dois países que faz uma pequena descrição quais seriam os projetos relacionados ao acordo da área espacial.

13. Os Presidentes reiteraram o caráter prioritário que atribuem ao uso e à exploração do espaço exterior para fins pacíficos e salientaram a disposição dos dois Governos de aprofundarem o intercâmbio nessa área de especial relevância. Os dois Mandatários manifestaram pleno apoio aos trabalhos bilaterais em curso para a modernização do Veículo Lançador de Satélites brasileiro (VLS) e expressaram sua determinação em promover a parceria tecnológica para o desenvolvimento de veículos lançadores de nova geração. Expressaram, igualmente, sua satisfação com as conversações em andamento relacionadas às áreas de telecomunicações, navegação por satélites, capacitação em áreas técnicas e de engenharia, bem como à realização de experimentos brasileiros no segmento russo da Estação Espacial Internacional. Os Presidentes consideraram de extrema importância a entrada em vigor do Acordo sobre Proteção Mútua de Tecnologias Associadas à Cooperação na Exploração e Uso do Espaço Exterior para Fins Pacíficos, o que propiciará o início da efetiva implementação dos projetos almejados pelos dois países.

Pois então, desde 26 novembro de 2008 pra cá (quase um ano) pouca coisa se concretizou com relação a essa pareceria que eu considero super estratégica e necessária para a própria sobrevivência do PEB. Se não vejamos a situação dos principais projetos do acordo:

Acordo sobre Proteção Mútua:

O Acordo sobre Proteção Mútua de Tecnologias Associadas à Cooperação na Exploração e Uso do Espaço Exterior para Fins Pacíficos já está em vigor. O mesmo foi ratificado pelo Congresso Brasileiro no início de abril desse ano e publicado no Diário Oficial da União em 20 de julho.

Programa VLS:

Plataforma TMI: Os russos da Space Rocket Center Makeyev fizeram a revisão do projeto da plataforma fazendo algumas modificações visando a aprimoramento da mesma na questão de segurança e adaptando-a dentro das normas internacionais para ser utilizada futuramente para lançamento de foguetes lançadores movidos a propulsão líquida. A plataforma já se encontra em construção no Centro de Lançamento de Alcântara com previsão de ficar pronta no segundo semestre de 2010.

VLS-1: Os russos da Space Rocket Center Makeyev fizeram a revisão do projeto do foguete visando uma melhor segurança e confiabilidade do mesmo e seguem orientando o IAE para o sucesso do primeiro vôo teste (somente o primeiro e segundo estágios ativos) que está previsto para ocorrer em 2011.

Programa de Novos Lançadores:

Não existe nada de concreto (pelo menos que tenha sido divulgado) sobre esse tema que esteja atualmente em andamento. Ficou até agora no “Blá-Blá-Blá” político.

Programa de Capacitação Técnica:

Professores russos do Moscow Aviation Institute (MAI) vem realizando em parceria com o Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE/DCTA) cursos de pós-graduação (Mestrado Profissionalizante) no Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) para engenheiros aeronáuticos brasileiros visando à capacitação dos mesmos no desenvolvimento de motores-foguetes movidos a propulsão líquida no Brasil.

Telecomunicações:

Não existe nada de concreto (pelo menos que tenha sido divulgado) sobre esse tema que esteja atualmente em andamento. Ficou até agora no “Blá-Blá-Blá” político

Navegação por Satélites:

Outro tema que não existe nada de concreto, pelo menos que tenha sido divulgado, ou seja, também ficou até agora no “Blá-Blá-Blá” político

Motores-Foguetes Líquidos:

Motor L75: Está em andamento sob orientação russa um projeto de desenvolvimento de um motor de 75 kN de empuxo chamado L75 que é baseado no motor RD-0109 russo empregado nos foguetes na família R-7 soviéticos dos anos 50. A previsão é que este motor esteja pronto para ser utilizado num prazo de quatro anos além dos três já gastos em seu desenvolvimento sem nada de concreto.

Banco de Provas para Motores Líquidos:

Banco de Provas para Motores de até 20 kN: Projeto brasileiro que sofreu algumas modificações sob a orientação dos russos e que já se encontra operacional.

Banco de Provas para Motores de até 400 kN: Projeto russo da empresa “Konstruktorskoe Buro Khimavtomatiky” - OSC KBKhA, que foi contratada com o objetivo de elaborar um complexo de testes e banco de testes para motores-foguetes a propelente líquido de até 400 kN, no valor de 850 mil euros. Estava aguardando a aprovação pelo Congresso Brasileiro do “Acordo sobre Proteção Mútua de Tecnologias Associadas à Cooperação na Exploração e Uso do Espaço Exterior para Fins Pacíficos” entre os dois países para que pudesse ser realizado. Com a aprovação do acordo o projeto agora aguarda a alocação de verba.

Experimentos Brasileiros no Segmento Russo Estação Espacial:

Esse acordo foi estabelecido para atender ao “Programa de Microgravidade” da AEB que visa atender as necessidades da comunidade científica brasileira de testar experimentos científicos e tecnológicos em ambiente de microgravidade. Para tanto a AEB lançou em 21/11/2006 o 3° AO (Anuncio de Oportunidade) que previa a realização de dois lançamentos com experimentos do programa. Um pra ser realizado de um foguete brasileiro VSB-30, que estava previsto para ocorrer em julho de 2008, e o outro com os russos para a Estação Espacial que estava previsto para ocorrer em setembro de 2009. O lançamento do VSB-30 (Operação Maracati II) deverá ocorrer ainda em 2009 ou no mais tardar no inicio de 2010 e o vôo para a Estação Espacial não tem ainda qualquer previsão de quando irá acontecer.

Bom leitor eu tenho de acrescentar que alguns desses projetos já estavam em andamento há alguns anos antes da divulgação dessa declaração conjunta em novembro do ano passado.

Acontece que alguns deles simplesmente não foram colocados em prática até o momento, outros se encontram em andamento com atrasos e poucos forma finalizados.

Sinceramente eu não entendo como um governo que vive alardeando pela mídia que o Programa Espacial Brasileiro é estratégico para o país não se empenha para dar um rumo ao programa condizente com o que vem dizendo.

Fica tudo no campo político, no jogo de cena, na incapacidade, na incompetência de seus dirigentes em concretizar com propriedade esse acordo de suma importância para alavancar de vez o Programa Espacial Brasileiro.

Tomo como o exemplo o acordo assinado com a Alemanha (leia DLR) para o desenvolvimento de foguetes de sondagem e plataformas espaciais de reentrada atmosférica que é um grande sucesso e que já gerou um foguete como o VSB-30, o aprimoramento do VS-40 e a parceria no desenvolvimento da tecnologia de reentrada atmosférica para o Satélite SARA.

E para piorar as coisas existem rumores e indícios que os russos não estão nada satisfeitos com os rumos que o acordo tem tomado. Dizem que a seqüencial perda de espaço dos mesmos em outros programas do Governo Brasileiro, como o Programa FX-2, submarinos e principalmente o mal fadado acordo do Brasil com a Ucrânia para o lançamento do Cyclone-4, tem causado insatisfações e gerado algumas ações de bloqueio de informações de alguns projetos em andamento.

Esse parece ser o caso do projeto do motor-russo RD-0109 (usado como base para o desenvolvimento do Motor L75) já que as informações que os russos disponibilizaram sobre o projeto do mesmo aos engenheiros do IAE e os seus desenhos são poucos detalhados e não mostram tudo como deveria. Assim sendo, muita coisa do motor terá de ser recriada aqui o que certamente gerará mais atrasos.

Outra coisa que esta acontecendo segundo se comenta é que nas aulas no ITA do "Mestrado Profissionalizante" os professores russos não falam muito de materiais, e que quando se pergunta algo mais detalhado eles dizem que não estão autorizados a detalhar mais o assunto.

A situação é preocupante, e a ação por parte do governo tem sido inócua e muitas vezes equivocada, como no caso do apóio político excessivo ao acordo com os ucranianos, que não gerou nada de concreto até agora, não gerará nenhum benefício tecnológico e ainda tem servido como um ralo por onde têm passado os poucos recursos financeiros direcionados para o PEB. Uma vergonha.

Duda Falcão

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