Relatório de Gestão do INPE - 2008


Foi divulgado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais - INPE, o Relatório de Gestão do ano de 2008 que descreve a prestação de contas do instituto relativas às ações feitas durante o ano passado. Esse relatório é uma importante fonte de informações sobre o andamento dos projetos de vários satélites e de tecnologias espaciais que cabem ao INPE. Abaixo segue as informações que considero importante para que o leitor fique atualizado com relação a esses projetos e seus estágios de desenvolvimento.

Duda Falcão


DESENVOLVIMENTO DO SATÉLITE AMAZÔNIA-1


Esta ação tem por finalidade desenvolver um satélite de sensoriamento remoto de média resolução em órbita polar, utilizando imageadores óticos, com o respectivo segmento solo.

O satélite Amazônia é voltado às necessidades do monitoramento ambiental da região tropical. Utiliza uma câmara ótica de média resolução espacial e uma elevada capacidade de cobertura espacial e temporal. Com lançamento previsto para 2012, este será o primeiro satélite de observação da Terra desenvolvido, em grande parte, pelo Brasil e o primeiro a utilizar a PMM.

Além disso, um acordo assinado entre o Brasil, representado pelo INPE, e o Reino Unido, representado pelo Rutherford Appleton Laboratory (RAL), permitirá incluir no Amazônia-1 a câmera inglesa RALCAM-3, com resolução de 10 m.

Houve significativo avanço no desenvolvimento e viabilização da missão. Como marcos mais relevantes, destacam-se as seguintes atividades:

a) Teste de qualificação do catalisador para os propulsores de hidrazina, desenvolvido pelo INPE, em andamento;

b) Testados os Modelos de Qualificação, exceto PCDU (Unidade de Controle de Distribuição de Potências), ACDH (Attitude Control and Data Handling ) e transponder TT&C (Telemetria e Telecomando);

c) Iniciada a campanha para a realização dos testes integrados dos propulsores montados no Painel Estrutural da PMM;

d) Contratação da empresa argentina INVAP para assistência técnica para o desenvolvimento, a fabricação, a integração e os testes de qualificação do subsistema ACDH (Attitude Control and Data Handling ), com transferência de tecnologia;

e) Contratação da empresa OPTO Eletrônica para o desenvolvimento da carga útil principal da Missão Amazônia-1, o imageador AWFI (Advanced Wide Field Imager ), com largura de faixa imageada de 750 km, com resolução de 40 m;

f) Aquisição de componentes para a carga útil do satélite, que envolvem equipamentos de transmissão e gravação a bordo e o imageador AWFI;

Deve ser observado, entretanto, que, apesar do efetivo acompanhamento do contrato pelas equipes técnicas do INPE, o cronograma de desenvolvimento desse satélite se encontra em atraso em virtude de dificuldades enfrentadas pelas empresas contratadas, as quais imputaram significantes restrições ao desenvolvimento tecnológico, resultando na não disponibilidade no tempo previsto dos Modelos de Qualificação da PCDU (Unidade de Controle de Distribuição de Potências) e do transponder TT&C (Telemetria e Telecomando). Mesmo assim, essa situação não corresponde ao item limitante do cronograma global da missão.


DESENVOLVIMENTO DO SATÉLITE LATTES


O planejamento inicial dos satélites científicos previa o lançamento de dois satélites de pequeno porte para realizar as missões Mirax e Equars. A missão científica Equars visa o estudo dos processos dinâmicos e fotoquímicos na baixa, media e alta atmosfera e ionosfera na região equatorial. Já a missão Mirax é um projeto de desenvolvimento de um pequeno satélite astronômico de raios-X. A estratégia básica da missão será observar continuamente a região central do plano Galáctico e realizar estudos espectroscópicos de banda larga.

Na ocasião de revisão do PPA 2008-2011, houve a decisão de desenvolver as duas missões científicas em um único satélite baseado na plataforma multimissão, tendo como objetivo aumentar a relação custo benefícios, uma vez que o custo do lançamento de cada satélite ficaria mais elevado que o próprio satélite. Principais atividades realizadas no ano:

a) Análise de missão para demonstrar a viabilidade de se realizar as Missões EQUARS e MIRAX em um único satélite;

b) Identificação dos requisitos operacionais da missão e possíveis adaptações aos requisitos estabelecidos para a PMM;

c) Recebimento e testes de aceitação dos atuadores magnéticos utilizados no sistema de controle de atitude da PMM a ser utilizada na missão;

d) Contratação da fabricação do instrumento GPS para Rádio Ocultação (GROM) (Carga útil da Missão EQUARS);

e) Contratação do desenvolvimento/fabricação do instrumento Fotômetro (Carga útil da Missão EQUARS).


DESENVOLVIMENTO DO SATÉLITE DE SENSORIAMENTO REMOTO COM IMAGEADOR RADAR - MAPSAR


O Satélite de Múltiplas Aplicações Radar (MAPSAR) é fruto de uma iniciativa de cooperação entre o INPE e a Agência Espacial da Alemanha (DLR - Deutsches Zentrum für Luft- un Raumfahrt e.V ), para o desenvolvimento de um satélite, tendo como carga útil um radar imageador de abertura sintética.

O satélite com imageador Radar será utilizado no sistema de monitoramento ambiental e permitirá a observação do território no período noturno e durante a ocasião de cobertura de nuvens ou fumaças. O lançamento está previsto para ocorrer em 2013.

A cooperação MAPSAR é dividida em iguais proporções entre Brasil e Alemanha. O acordo prevê total acesso dos engenheiros brasileiros à tecnologia utilizada pela DLR, em qualquer fase do projeto, o que significa uma possibilidade de ganho de conhecimento para o país.

As seguintes atividades foram realizadas:

a) Assinatura do acordo para o desenvolvimento da Fase B que compreende o projeto detalhado do sistema, incluindo a configuração do satélite a ser produzido, do segmento solo e do segmento de aplicações;

b) Construção de um modelo em escala para demonstrar a viabilidade técnica da construção da antena parabólica do sistema Radar de Abertura Sintética;

c) Preparação do WBS (Estrutura de Divisão de Trabalho) para todas as fases da missão.


DESENVOLVIMENTO DO SATÉLITE DO PROGRAMA INTERNACIONAL DE MEDIDAS DE PRECIPITAÇÃO - GPM-BR


O INPE irá participar de uma rede internacional envolvendo uma constelação de nove satélites. O GPM-Br é um satélite de órbita equatorial que visa o monitoramento das chuvas, gestão das águas, monitoramento e entendimento das mudanças climáticas, alertas de desastres naturais e apoio à agricultura.

As seguintes atividades foram realizadas:

a) Análise preliminar para demonstrar a compatibilidade e viabilidade técnica em termos dos envelopes dimensional, de potência e de massa entre a carga útil e a PMM para um radiômetro, com probabilidade de ser disponibilizado pelo EUA;

b) Iniciada a procura de alternativas para o fornecimento do instrumento da carga útil do satélite.


DESENVOLVIMENTO DO SATÉLITE SINO-BRASILEIRO - PROJETO CBERS-3 E 4


Esta Ação do PPA visa dar continuidade ao Programa CBERS - China-Brazil Earth Resources Satellite , que teve início em 1988, quando foi assinado protocolo de cooperação entre a China e o Brasil para desenvolvimento, fabricação, testes e lançamento de dois satélites de sensoriamento remoto de grande porte, bem como para operação em órbita dos satélites, recepção, processamento e disseminação das imagens por estações brasileiras e chinesas. O satélite CBERS-1 foi lançado com sucesso em outubro de 1999 e funcionou até agosto de 2003. Já o CBERS-2, que foi lançado com sucesso em outubro de 2003, também ultrapassou sua expectativa de vida útil e esteve em órbita até final de 2008, operando e fornecendo imagens a uma ampla comunidade de usuários que desenvolvem produtos de sensoriamento remoto com aplicações em agricultura, ordenamento territorial, cartografia, monitoramento ambiental, entre outras. Em 2007, foi lançado o CBERS-2B para garantir o fornecimento de imagens do território brasileiro até que o CBERS-3 entre em operação.

O desenvolvimento dos satélites CBERS 3 e 4 teve início em 2004 quando foi contratado os seguintes subsistemas: estrutura dos satélites, suprimento de energia, coleta de dados, câmera MUX, câmera WFI, gravador de dados digital, transmissão de dados, gerador solar , telemetria e telecomando. O desenvolvimento dos subsistemas encontra-se em atraso porque as empresas nacionais contratadas estão com dificuldades de cumprir o cronograma. O atraso, em parte, é causado pela dificuldade na aquisição de componentes com qualificação espacial, devido ao controle de comercialização de tecnologias sensíveis pelos EUA. A dificuldade de acesso aos componentes tem acarretado modificações nos projetos desses subsistemas, aumento de custos e prorrogação do lançamento previsto para 2010. O INPE adquiriu os componentes eletrônicos no final do ano. Destacam-se as seguintes atividades:

Em andamento:

a) fabricação dos modelos de qualificação dos subsistemas dos CBERS 3&4;

b) software para os testes do Modelo de Engenharia dos CBERS 3&4;

c) software para segmento de controle dos satélites CBERS 3&4;

d) teste dinâmico do Modelo Estrutural dos CBERS 3&4.

Concluídos:

e) testes ambientais e estruturais de alguns subsistemas do satélite CBERS 3;

f) fabricação da maioria dos Modelos de Engenharia;

g) fabricação da maquete radioelétrica;

h) teste estático no Modelo Estrutural do CBERS 3&4 ;

i) Encontro de Coordenação Técnica (TCM 8) na China.

Os principais desafios do Programa CBERS são superar os bloqueios internacionais às tecnologias sensíveis e garantir o cumprimento dos eventos contratuais por parte das empresas.


DESENVOLVIMENTO E LANÇAMENTO DE SATÉLITES TECNOLÓGICOS DE PEQUENO PORTE


Além das ações supracitadas, o INPE tem convênio com a Agência Espacial Brasileira (AEB) para participação em projetos cuja execução é de responsabilidade da AEB.

O INPE realiza cooperação com o Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) no projeto de desenvolvimento, fabricação, integração, testes, lançamento e operação de um microssatélite tecnológico para validação em órbita de um sistema integrado de supervisão de bordo e controle de atitude e órbita (Attitude Control and Data Handling – ACDH), munido de um sistema de localização GPS (Global Positioning System ), com provisão para duas cargas úteis: um Subsistema de Coleta de Dados (Data Collecting Subsystem – DCS) e uma outra carga, a ser definida.

Finalizada a campanha de testes de vibração mecânica e ciclagem térmica, no LIT/INPE, de componentes e partes eletrônicas, como parte dos estudos para a avaliação da possibilidade de utilização espacial de memórias SRAM com qualidade industrial (COTS) para serem aplicadas no computador de bordo experimental do ITASAT.

Em fase conclusiva a análise de missão com o objetivo de demonstrar a compatibilidade dos experimentos com a operação do satélite que deverá ser similar à do SCD.

Concluída a especificação técnica para o subsistema Suprimento de Energia e encontra-se em andamento a revisão da documentação associada ao segmento espacial (satélite) pelo grupo de Engenharia de Sistemas da DSE/ETE/INPE, bem como a elaboração dos documentos de especificação técnica associada a cada subsistema.


DESENVOLVIMENTO DE PRODUTOS E PROCESSOS INOVADORES PARA O SETOR ESPACIAL


Este Ação visa o desenvolvimento de tecnologias ainda não dominadas no país que serão utilizadas em futuras missões espaciais. As principais tecnologias desenvolvidas com os recursos da Ação 4959, em 2008, foram:

a) Sensor de Estrelas: contratação do desenvolvimento da eletrônica e do software embarcado e qualificação da objetiva óptica; o protótipo está em fase de repasse para a indústria;

b) Radiômetros: está em fase de comercialização o protótipo do radiômetro para medidas de radiação global, analógico e digital;

c) Simulador Solar: projetado no Laboratório Associado de Sensores (LAS), serviu para ensaio em corpos de prova do Exército e para o desenvolvimento do protótipo de Simulador Solar de baixo custo pela empresa Orbital Engenharia Ltda;

d) Propulsor Iônico: realização de testes preliminares de funcionamento dos propulsores iônicos de 15 cm e de 5 cm e empuxo de 10,2 mN e de 5,5 mN respectivamente, utilizando argônio como propelente; visita à Escola de Engenharia Aeroespacial da Universidade de Roma, buscando oportunidades de lançamento do propulsor iônico a bordo de satélites europeus;

e) Sistema Propulsivo da Plataforma Multimissão (PMM): estão sendo finalizadas as adaptações no banco de testes (BTSA) para qualificação do sistema propulsivo completo da PMM.


Fonte: Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais - INPE

Comentário: Segundo o relatório de gestão do INPE, as tecnologias que serão em um futuro próximo adotadas pelo Programa Espacial Brasileiro, seguem seus cronogramas de desenvolvimento, apesar das dificuldades enfrentadas. É claro que essas dificuldades poderiam ser amenizadas se houvesse um planejamento de curto, médio e longo prazo mais efetivo e realista com as nossas reais necessidades e possibilidades. No entanto, não posso negar que pelo relatório apresentado os gols previstos serão de enorme e positivo impacto dentro do programa espacial, porém ainda há dúvidas se esses objetivos serão exeqüíveis com a atual operacionalidade da AEB e dos órgãos que fazem parte do programa espacial. Vamos aguardar. Outra coisa que é preocupante é essa mudança constante de objetivos reinante no programa espacial, como é o caso do estudo para a junção dos projetos dos satélites científicos EQUARS e MIRAX (agora chamado de Lattes-1) entre outros. Para quem busca credibilidade e apoio, essa falta de foco constante não ajuda em nada, muito pelo constrario, só transmite a sociedade incertezas quanto as reais necessidades, aos caminhos adotados e os recursos humanos existentes para o desenvolvimento de um programa espacial no país. É lamentável.

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