Cooperação Espacial Brasil - Rússia


Segue abaixo a entrevista da Vice-Presidente da Comissão da Duma de Estado para Indústria e coordenadora do grupo encarregado das relações Rússia/Brasil, Elena Pánina publicada no site JB Oline dia 07/05.

Duda Falcão

Rússia e Brasil Estão Começando Cooperação na Área Espacial

ALEXEJ KNELZ, JB Online - 15:00 - 07/05/2009

RÚSSIA HOJE - No início de abril foi ratificado o acordo russo-brasileiro sobre recíproca proteção das tecnologias relacionadas com a cooperação em pesquisa e utilização do espaço cósmico para fins pacíficos. A vice-presidente da comissão da Duma de Estado para indústria e coordenadora do grupo encarregado das relações com o Brasil, Elena Pánina, comenta sobre essa perspectiva.

Como a senhora avalia as perspectivas da cooperação da Rússia com o Brasil na área aeroespacial?

Vejo o futuro da cooperação russo-brasileira com otimismo. Existe vontade política e a compreensão de que os países do grupo Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) devem compor uma aliança tanto política quanto econômica porque o mundo unipolar não é estável. Os países do Bric constituem um enorme e amplo mercado com grande potencial político e de negócios. Por avaliação do banco de investimento Goldman Sachs, para ano de 2050, Brasil, Rússia, Índia e China poderão ser os quatro sistemas econômicos predominantes. O produto interno bruto comum deles é US$ 15,435 trilhões. Nossos países se complementam: a Rússia tem grande potencial intelectual e o Brasil conta com recursos naturais e humanos, que a propósito, são especialmente bem desenvolvidos nos países do Bric, pois neles habita quase metade da população (40%) de todo o mundo. As possibilidades econômicas também são grandes. Por exemplo, podemos citar a própria América Latina que é a quarta região do mundo em importância econômica: o total do seu PIB é de US$ 2,5 trilhões e a participação da produção industrial nas exportações é de quase dois terços. Graças ao fortalecimento do bloco de países em desenvolvimento, pode-se formar um novo mundo multipolar.

A senhora fala de um mundo multipolar que, em essência, deve se contrapor ao mundo unipolar? Mas, então, do ponto de vista geopolítico, como os Estados Unidos vão encarar esse acordo?

Evidentemente isso obrigará os EUA a cuidar da sua capacidade de concorrência tanto política quanto econômica. Se os países se fortalecem economicamente, obviamente, se fortalecem também politicamente. O país que não tenha a economia desenvolvida nunca vai desempenhar papel importante na arena internacional. Quando surge no mundo uma força como contrapeso, os EUA terão mais dificuldade de ditar a sua vontade política e impor as suas regras do jogo na economia. Sobretudo, se este for um importante contrapeso amparado não só em um quarto da população do planeta, mas também em ciência e técnica desenvolvidas, em tecnologias avançadas, e, especialmente, na área aeroespacial.

Quais são, em primeiro lugar, os interesses da Rússia?

Isso não é interesse apenas da Rússia, ou dos países do Bric, mas é, em geral, de todo o mundo. Hoje, há o entendimento de que o sistema de imposição política de um só país é nocivo. Em decorrência disso, estamos numa crise mundial que, em essência, foi resultado da política fi nanceira implementada pelos EUA.

Ocorre, então, que ao firmar um acordo com o Brasil e com outros países do Bric, estes se tornarão adversários dos EUA?

Não, o mais provável é que se tornem concorrentes. Os EUA também estão tentando ativamente estabelecer cooperação com a China, com o Brasil e com a Índia na área aeroespacial. Mas, os EUA, hoje, não se encontram na mesma situação que antes. Este país precisa enfrentar as consequências da crise financeira. Por enquanto, os EUA não têm possibilidade de propor condições mais vantajosas de cooperação com o dólar mais barato. E ainda por cima há o momento político muito grave. O que é o cosmo? O cosmo não são apenas voos para estações orbitais, não é apenas a realização nele de pesquisas científi cas fundamentais.

Sem dúvida, isso também tem importante alcance futuro. Mas, para o presente o mais importante é o desenvolvimento de sistemas de telecomunicações por satélites. A Rússia e outros países entendem a necessidade de fragilizar o controle dos EUA sobre os sistemas de navegação e de telecomunicações. Com o monopólio do Sistema de Posicionamento Global (GPS), supervisionado pelo Pentágono, sempre há a ameaça de que em situações de emergência é possível ocorrer desvio ou distorção do sinal. A China já lançou ao cosmo os primeiros satélites do seu próprio sistema, Beiku. A União Europeia também anunciou a elaboração do sistema alternativo Galileu. É verdade que, por enquanto, os trabalhos estão suspensos por causa de dúvidas dos investidores privados sobre a receita que o projeto poderá proporcionar.

O sistema russo de navegação por satélites Glonass poderá se tornar alternativa ao americano GPS?

Embora o sistema russo não seja inferior ao americano em termos de qualidade, o GPS americano conquistou importante espaço no mercado de todo o mundo. Na Europa, se se viajar pelo continente, constata-se que a navegação funciona em toda a parte. Contudo, em grandes territórios como, por exemplo, Rússia e Amazônia, ainda restam faixas que não são cobertas pela rede de satélites. É do nosso interesse que o Glonass cubra completamente todo o campo de informações e capte sinais de outros sistemas de navegação. A Rússia já está preparando receptores de sinais de 2-3-x. O receptor combinado GPS/Glonass será mais seguro e mais exato. É verdade que por enquanto é também mais caro do que o sistema de navegação americano.

E já foram feitas propostas aos dirigentes brasileiros para utilização do sistema russo Glonass no Brasil?

Claro, o programa de atividades conjuntas prevê o projeto de utilização do Glonass pela parte brasileira. As possibilidades desse mercado são avaliadas em centenas de milhões de dólares.

Agora, depois da assinatura desse acordo, quais medidas serão adotadas?

Todas as soluções políticas foram alcançadas. Estão sendo estudados os possíveis projetos de cooperação, e a parte russa e a brasileira já estão realizando trabalho com empresas concretas. Acho que ainda temos de resolver questões de cooperação econômica aprimorando alguns atos legislativos na Rússia e no Brasil. Está nos planos da Roskosmos desenvolver projetos conjuntos com a Agência Espacial Brasileira e com o Centro Tecnológico de Aeronáutica, tais como criação da infraestrutura aeroespacial terrestre para o cosmódromo brasileiro de Alcântara, elaboração da estrutura aeroespacial brasileira de telecomunicações, preparação de especialistas brasileiros na área aeroespacial e muitas outras. Hoje, o mundo se encontra numa situação em que quando alguém domina as informações e o espaço por onde circulam as informações, domina também o mundo. Isso já ficou demonstrado, em especial, nas últimas ocorrências de guerra. E é, por isso, que a cooperação da Rússia com o Brasil proporciona a ambos os países a saída para o domínio, é claro que não será 100%, mas será uma participação suficientemente grande nesse espaço das informações com o auxílio do sistema de telecomunicações aeroespaciais.

Biografia

Elena Pánina é doutora em ciências econômicas, concluindo o Instituto de Finanças de Moscou e a Escola Superior de Comércio da Academia de Comércio Exterior da URSS. A partir de 1986 ocupou o posto de líder do Departamento Econômico-Social da Comissão de Moscou. Em 1991 passou a exercer o cargo de diretora-geral da Direção de Novas Formas de Cooperação da Câmara de Comércio e Indústria da URSS. Em 1992 dirigiu o Centro de Projetos de Assuntos Internacionais. Foi vice-presidente da União de Industriais e Empresários Russos. Desde outubro de 2006 é membro do Partido Rússia Unida e dirige a comissão para questões de política industrial.


Fonte: Site JB Oline - 07/05/2009

Comentário: Os acordos que o Brasil esta assinando com os russos são de extrema importância para o Programa Espacial Brasileiro. Esses acordos permitirão ao Brasil ter acesso mais rapidamente a tecnologias que teríamos de desenvolver a um alto custo financeiro e com um longo período de desenvolvimento, queimando assim etapas, diminuindo custos e ganhando tempo. Na verdade, já existem exemplos disso como o caso da revisão técnica do projeto do VLS e do apoio ao desenvolvimento do projeto da sua plataforma de lançamento que contou com a supervisão de uma empresa russa. É verdade que esse processo demorou mais do que deveria, mas não por culpa dos russos e sim pela inércia política da AEB em resolver pendências legais que atrapalhavam na época o andamento da construção da plataforma de lançamento. Fala-se também da ajuda dos russos no desenvolvimento do programa de lançadores de satélites “Cruzeiro do Sul”, e que o desenvolvimento do motor a propulsão líquida L-75 (abordado aqui no blog) que esta em andamento no IAE (será utilizado nesse programa), já teria a supervisão de empresas russas. Certamente outros projetos como o da utilização do GLONASS e os que foram citados na matéria, serão de grande valia para o desenvolvimento do Programa Espacial Brasileiro, e um grande desafio para a AEB, em tornar essas iniciativas em coisas concretas no menor espaço possível, ganhando assim o respeito e a admiração internacional e principalmente do povo brasileiro. Respeito esse, exemplificando, já alcançado pela a EMBRAER.

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