Cooperação Espacial Brasil - China


Houve certa frustração por parte daqueles que comandam o Programa Espacial Brasileiro durante a visita do presidente Luis Inácio Lula da Silva a República Popular da China. Eles esperavam que a ampliação do programa do Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres (CBERS), anunciada durante a visita do presidente na semana passada, fosse mais ampla. Segundo o blog Panorama Espacial do companheiro André Mileski, na sexta-feira, chegou ao conhecimento dele a circulação de um e-mail enviado pela Associação das Indústrias Aeroespaciais do Brasil (AIAB) entre as indústrias associadas comunicando que a parte chinesa havia declinado à proposta brasileira de ampliação do projeto para a construção do CBERS 6 e 7, e também de um satélite dotado com um sensor radar de abertura sintética (SAR, sigla em inglês), o chamado CBERS-SAR.

Assim sendo, Mileski entrou em contato com algumas fontes na indústria e no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) para apurar a veracidade dessa informação. Segundo as informações que ele obteve, a motivação da declinação chinesa se deveu a mudanças estruturais em seu programa espacial. A nova entidade responsável pela participação chinesa no CBERS deseja fazer uma análise mais detalhada da proposta do CBERS-SAR, além de conhecer melhor a cooperação com o Brasil, o que pode levar de 6 a 12 meses. "Na realidade, eles querem lançar o CBERS-3 antes de novos acordos para novos satélites", afirmou ao Mileski uma pessoa que acompanha de perto o tema.

Ou seja, ao contrário do que alguns chegaram a pensar, não houve declinação definitiva de continuidade do programa CBERS, mas sim um adiamento dessa decisão.

Mileski também contatou o INPE, na pessoa de seu diretor, Gilberto Câmara, que prontamente enviou esclarecimentos. Abaixo segue um trecho de nota elaborada por Câmara e encaminhada na tarde de hoje para Mileski:

"O protocolo é genérico quanto ao futuro do programa CBERS, e não menciona diretamente o CBERS-SAR. Em 2008, o INPE e a CAST trabalharam para conceber um novo satélite, o CBERS-SAR, tecnologicamente sofisticado e capaz de obter imagens da superfície terrestre em quaisquer condições de tempo. A proposta do CBERS-SAR foi aprovada na reunião do Comitê Conjunto do Programa CBERS realizada em Março de 2009 em Pequim. A CAST e a CNSA deram sinais fortes de que o CBERS-SAR seria aprovado pelo governo chinês, e que um anúncio formal seria feito durante a visita do presidente Lula.

No entanto, a nova estrutura de comando do programa espacial chinês, resultante de uma reforma feita em 2008, decidiu adiar a decisão sobre o CBERS-SAR. A reforma extinguiu a COSTIND (Comission for Science, Technology and Industry for National Defense), ministério encarregado de contratar projetos civis e militares nas áreas espacial, aeronáutico e nuclear junto às empresas estatais chinesas. Criou-se um novo ministério (MIIT – Ministry of Industry and Information Tecnology), que coordena questões díspares: programa espacial civil, indústria do tabaco, informatização do Estado.

A CNSA (China National Space Administration), que realiza a interface externa e as encomendas civis do programa espacial chinês, era subordinada diretamente à COSTIND. A CNSA é agora subordinada à SASTIND (State Administration of Defense Science, Technology and Industry), que por sua vez responde ao MIIT. A nova administração da SASTIND decidiu fazer uma análise mais detalhada da proposta do CBERS-SAR antes de tomar uma decisão.

Embora a construção imediata do CBERS-SAR tenha sido adiada, o futuro da cooperação espacial Brasil-China está garantido pelo governo chinês. O presidente Hu Jintao, em sua reunião de trabalho com o presidente Lula, reafirmou sua “confiança no programa CBERS” e seu interesse em “ampliar a cooperação espacial com o Brasil”."


Ainda segundo o entendimento do Mileski (o que eu concordo plenamente) a intenção do governo brasileiro em propor a missão CBERS-SAR indica que a missão MAPSAR, que seria realizada em parceria com a agência espacial alemã, é hoje considerada remota.


Fonte: Blog Panorama Espacial

Comentário: O caso da ampliação do acordo do Programa CBERS visando a construção dos satélites CBERS 6 e 7 não me preocupa e não deveria preocupar a AEB e nem ao governo, pois não haveria sentido o cancelamento de um programa de grande sucesso e grande retorno científico para ambos os países. Não acredito nessa possibilidade. O que é preocupante, é o interesse do Brasil em desenvolver um satélite de abertura SAR (CBERS-SAR) em detrimento de um acordo que vinha sendo desenvolvido com os alemães para o lançamento do MAPSAR. Se os alemães não desistiram do projeto isso significaria mais uma vez a falta de foco dentro do Programa Espacial Brasileiro e provavelmente mais uma interferência política desastrada. Lastimável.

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