Arqueologia de Estrelas
Olá leitor!
Segue abaixo uma interessante matéria publicada na edição
de junho de 2013 da “Revista Pesquisa FAPESP” destacando que um estudo pioneiro
de uma equipe internacional de astrofísicos com a participação de brasileiros, liderada
pelo astrofísico espanhol Enrique Pérez, começou a traçar a história evolutiva
das galáxias.
Duda Falcão
CIÊNCIA
Arqueologia de Estrelas
Levantamento identifica três padrões de evolução das
galáxias
IGOR ZOLNERKEVIC
Edição 208 - Junho de 2013
© ENRIQUE PÉREZ E ANDRÉ
LUIZ DE AMORIM
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| Massa elevada: Galáxias com massa superior a 70 bilhões de sóis, como a NGC 6411, formam a maioria de suas estrelas em 5 bilhões de anos, a partir do centro |
Um estudo pioneiro começa a traçar a história evolutiva
das galáxias. Liderado pelo espanhol Enrique Pérez, do Instituto de Astrofísica
da Andaluzia, esse trabalho identificou onde e quando s com a participação de
brasileiros e formaram as estrelas de uma centena de galáxias que surgiram nos
últimos 10 bilhões de anos e se encontram relativamente próximas à Via Láctea,
que abriga o Sol e a Terra. Publicado em janeiro deste ano na revista Astrophysical
Journal Letters, o estudo comparou diferentes tipos de galáxias e permitiu
compreender como a massa delas afeta o ritmo de formação de suas estrelas.
Dessa equipe participaram os astrofísicos brasileiros Roberto Cid Fernandes, da
Universidade Federal de Santa Catarina, que desenvolveu em 2005 o Starlight, software que
analisa a luz emitida pelas galáxias para reconstruir a história de suas
populações estelares e fazer uma espécie de arqueologia estelar, e seu aluno de
doutorado André Luiz de Amorim.
A pesquisa confirmou que as galáxias com centenas de
bilhões de estrelas e massa muito elevada formaram a maioria delas há mais de 5
bilhões de anos, primeiro no centro e depois na periferia, e hoje são
verdadeiros asilos estelares. Já as galáxias menores, com poucos bilhões de
estrelas, continuam, depois de velhas, produzindo estrelas em todas as suas
regiões.
O estudo se baseou em dados do levantamento Califa (Calar
Alto Legacy Integral Field Area Survey), uma colaboração de 80 pesquisadores de
13 países que pretende observar em detalhes a formação de estrelas em cerca de
600 galáxias. Iniciado em 2010, o projeto usa um telescópio do Observatório de
Calo Alto, na Andaluzia, Espanha.
© ENRIQUE PÉREZ E ANDRÉ
LUIZ DE AMORIM
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| Massa crítica: Galáxias com massa em torno de 70 bilhões de sóis, como a NGC 4047, produzem suas estrelas em menos de 3 bilhões de anos, a partir do centro |
A amostra de 105 galáxias, descrita naAstrophysical
Journal Letters, é ínfima se comparada aos bilhões de galáxias que existem no
Universo visível. Também é pequena se comparada ao total de galáxias – quase 1
milhão – já observadas pelo maior levantamento astronômico já feito, o Sloan
Digital Sky Survey (SDSS), resultado do esforço de outro consórcio
internacional, que usa um telescópio nos Estados Unidos. Mas, enquanto o SDSS
analisou a luz das galáxias como se cada uma fosse um ponto no céu, o Califa
usa uma técnica mais cara e complexa, que divide cada galáxia em mil pedaços e
analisa a luz deles em separado. O resultado é um mapa que revela diferenças
nas propriedades químicas e físicas das várias partes da galáxia.
O Califa observa galáxias situadas a distâncias
relativamente próximas – entre 70 milhões e 400 milhões de anos-luz – da Via
Láctea. Elas não ficam nem tão longe a ponto de serem observadas como eram no
passado remoto do Universo, nem tão próximas que se possa identificar suas
estrelas individualmente.
Massa Crítica
Mas o critério de seleção mais importante foi observar
galáxias das mais variadas cores e brilhos. Vistas a mais ou menos à mesma
distância, as galáxias jovens são azuladas e as mais velhas, avermelhadas. Já o
brilho funciona como um indicador da massa da galáxia: quanto mais brilhante,
mais estrelas possuem. “A intenção foi garantir a diversidade de galáxias, para
ter uma visão global delas”, conta Fernandes.
Analisando os dados do Califa com o Starlight, os
pesquisadores determinaram qual combinação de estrelas jovens e velhas
contribuía para a luz de cada pedaço das galáxias. Assim, os astrofísicos
identificaram quando e com que frequência as estrelas se formaram nas várias
regiões galácticas.
© ENRIQUE PÉREZ E ANDRÉ
LUIZ DE AMORIM
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| Massa baixa: Galáxias de baixa massa, inferior a algumas dezenas de bilhões de sóis, como a UGC 9476, geram estrelas de modo contínuo em toda a sua extensão |
A primeira
diferença confirmada pelo estudo refere-se ao ritmo de produção de estrelas.
Galáxias com massa superior a 70 bilhões de sóis condensaram todo o seu gás em
estrelas rapidamente na juventude e produziram a maioria de suas estrelas há
mais de 5 bilhões de anos. Já as galáxias de mesma idade, mas com menos de 10
bilhões de massas solares, gastam o seu gás com parcimônia. “As galáxias de
menor massa continuam formando estrelas a uma taxa respeitável, enquanto para
as de massa elevada a festa já acabou”, diz Fernandes.
Outra
diferença está na ordem de formação das estrelas. As galáxias de baixa massa
geraram suas estrelas mais ou menos ao mesmo tempo em toda a sua extensão,
começando um pouco mais cedo nas partes mais externas. Nas galáxias de grande
massa, entretanto, aconteceu o contrário: a formação estelar começou mais cedo
no centro e avançou para a periferia. Esse padrão, aliás, parece ter ocorrido
na própria Via Láctea, uma galáxia com cerca de 60 bilhões de massas solares.
“As regiões mais distantes do centro da Via Láctea são mais pobres em elementos
químicos pesados do que a parte interna”, explica o astrofísico Hélio J.
Rocha-Pinto, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que estuda os vestígios
de colisão da Via Láctea com galáxias anãs. “Isso é uma evidência indireta de
que as estrelas da parte interna se formaram primeiro e enriqueceram
quimicamente essa parte da galáxia mais rapidamente.”
Essa
diferença entre centro e borda, porém, não aumenta sempre com a massa da
galáxia. Ela alcança seu máximo nas galáxias com massa em torno de 70 bilhões
de massas solares, nas quais as estrelas da região central se formaram mais de
duas vezes mais rápido do que as da borda.
“Essa massa
crítica tem algo de especial”, diz Fernandes. Mas ninguém sabe exatamente o que
é esse algo especial. Rocha-Pinto sugere que a massa crítica represente a massa
a partir da qual as galáxias não crescem isoladamente. Acredita-se que as
galáxias maiores nasceram da fusão de galáxias menores, eventos nos quais a
formação estelar aumenta na parte central da galáxia recém-formada.
Fernandes,
no entanto, chama a atenção para outra possibilidade. Galáxias grandes têm
buracos negros tão gigantes em seu centro que atrapalhariam a formação estelar.
Já em galáxias pequenas, menos estrelas se formam porque parte do gás é
expelido da galáxia durante as explosões de supernovas. Ambos os efeitos
poderiam ser menores em galáxias com a massa crítica e aumentar a formação
estelar. “A questão”, pondera Rocha-Pinto, “é provar que os efeitos que
propomos têm a magnitude para explicar o que observamos”.
No ano que
vem, os astrônomos do SDSS esperam iniciar um levantamento semelhante, batizado
de MaNGA, que mapeará 10 mil galáxias. “O aumento de 100 vezes da amostra será
transformacional”, diz o astrofísico Kevin Bundy, da Universidade de Tóquio,
Japão, coordenador do MaNGA. “Vamos testar as conclusões do Califa e muito mais”.
Artigo
científico
PÉREZ,
E. et al. The evolution of galaxies resolved in space
and time: an inside-out growth view. The Astrophysical Journal Letters. v. 763. jan. 2013.
Fonte: Revista Pesquisa FAPESP - Edição 208 – Junho de
2013




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