Rumo ao Espaço


Olá leitor!

Segue abaixo uma matéria publicada na nova edição da Revista Espaço Brasileiro (Jan. Fev. Mar. de 2010), destacando que os projetos do foguete Cyclone-4 e do VLS estão prestes de colocar o Brasil no seleto grupo de países com um programa espacial completo.

Duda Falcão

ACS

Rumo ao Espaço

André Barreto/ACS

Encarados como projetos complementares, o Cyclone 4 e o Veículo Lançador de satélites (VLS) são veículos lançadores de categorias diferentes e que não concorrem entre si. O Cyclone-4 enquadra-se na categoria de lançadores de porte médio/intermediário, podendo colocar em órbita geoestacionária satélites de até 1,6 toneladas.

O VLS, por sua vez, é um veículo desenvolvido para lançamento de satélites de pequeno porte, com massa de até 150 quilogramas em órbitas baixas. Não foi criado para atingir a órbita geoestacionária, onde atualmente ficam os satélites cujos lançamentos são comercialmente mais rentáveis.

Mais do que uma questão comercial a entrada em operação da binacional Ucraniano-Brasileira Alcântara Cyclone Space (ACS) configura-se como tema estratégico para os dois países. A cooperação tecnológica entre Brasil e Ucrânia é, neste momento, mais importante do que a conquista de uma fatia do mercado mundial de lançamentos de satélites. Ter um lançador e um sítio próprios desobriga os dois países a depender de terceiros para vigiar suas fronteiras, suas reservas naturais, para monitorar o clima, implementar suas respectivas estratégias de defesa com mais independência, segurança e confiabilidade. Além disso, colocar de nosso território um satélite em órbita, inserirá o Brasil no restrito rol de países com um programa espacial completo.

Projetos - O Cyclone-4 e o VLS não são projetos concorrentes. O VLS não é um veículo comercial, pesa 50 toneladas e pode levar 150 quilogramas a 700 quilômetros. O Cyclone-4 pesa 200 toneladas, mas coloca na mesma órbita em torno de seis toneladas. É portanto, considerado um veículo lançador com grande possibilidade comercial.

Existem veículos com capacidade de colocar objetos em órbita mas que não são comerciais. Um exemplo são alguns dos foguetes da China, que possui um leque de veículos extremamente competitivos com o mundo ocidental. São foguetes de alto desempenho e baixo custo, mas não são comerciais, porque não preenchem alguns requisitos exigidos para serem aceitos pela comunidade internacional.

“os americanos não permitem que um satélite americano, ou que tenha componentes americanos, seja lançado por um foguete chinês. Alegam que a China não está em acordo com o Missile Technology Control Regime (MTCR), documento que trata de questões como salvaguardas de tecnologias”, afirma o vice-diretor técnico da ACS, João Ribeiro. Os chineses têm foguetes competitivos. No passado já fizeram lançamentos comerciais americanos. Hoje, não fazem mais.

Certificação - Partindo da hipótese de que os dois veículos - Cyclone-4 e VLS - que estão em fase de desenvolvimento serão comerciais, nenhum deles é, ainda, qualificado. Para ser considerado comercial um veículo tem de estar devidamente certificado e possuir um índice de confiabilidade. O VLS fez três lançamentos e teve três Insucessos. O Cyclone-4 não voou ainda.

Os lançamentos de sucesso já realizados pela família Cyclone garantem ao Cyclone-4 uma confiabilidade parcial, porque o primeiro e o segundo estágios já fizeram mais de 200 vôos. A família Cyclone tem um passado de sucesso. O Cyclone-4 vai ter de se mostrar um foguete competitivo num outro cenário e numa outra época, mas o passado da família é um enorme ponto positivo.

A Ucrânia tem tecnologia. O Cyclone-4 é um foguete diferente dos anteriores, com tecnologias que não existiam no Cyclone-2 e no Cyclone-3, o que o torna competitivo nos lançamentos de satélites de órbitas baixas.

Quando o primeiro Cyclone foi concebido, esse mercado era bastante pujante, formado por constelações de satélites, como os da Iridium, Globalstar, Celestri e Orbicom. Essas empresas usam satélites para aplicações em telecomunicações. Nesse caso, em vez de usar um, dois ou três satélites geoestacionários para fazer um link global de telecomunicações, usa-se uma constelação de satélites em órbita baixa, pois pode reignitar no espaço múltiplas vezes.

“A Iridium está prestes a lançar a sua segunda geração de satélites, uma constelação de 66 satélites de órbita baixa. Serão usados para prestação de serviço de telefonia via satélite. No final dos anos 90, esse mercado enfrentou dificuldades por conta do telefone celular padrão, que evoluiu rapidamente e ocupou o mercado dos telefones via satélite”, explica Ribeiro. “Atualmente há uma expectativa de crescimento”, completa.

Propulsores - Quando um país não possui lançador próprio, é preciso abrir concorrência para empresas lançadoras, sempre que houver necessidade de se colocar um satélite no espaço. É o caso do Chile, que contratou o veículo Soyuz para lançar um satélite comprado. Se a ACS já estivesse operando comercialmente, poderia participar dessa concorrência e lançar o satélite chileno.

Para que o Cyclone-4 chegue às mesmas condições de lançamento do Soyuz, em órbita geoestacionária, é preciso expandir sua capacidade de lançamento colocando booters (propulsores) sólidos. O Cyclone-4 já nasceu com um estudo que prevê o uso de booters, observa o vice-diretor técnico da ACS, João Ribeiro. “Em Plesetsk e Baikonur, o Soyuz tem a mesma capacidade do Cyclone-4, mas, se lançado de Kourou, ganha 30% na capacidade de carga útil, tornando-se mais eficiente”, detalha.

“Os booters são motores auxiliares externos movidos a propelente sólidos, como os do VLS, fixados lateralmente no veículo. A queima ocorre junto com o motor principal, depois é feita a ejeção lateral e o foguete continua sua trajetória. Têm a função de fazer a impulsão inicial, tirar o foguete do chão, dar velocidade, e, quando terminada a queima, seriam ejetados”, descreve Ribeiro. “Eu acredito que o caminho é colocar quatro booters sólidos no Cyclone-4, como já foi estudado e idealizado pelos ucranianos ainda na fase trabalho com a Fiat Avo. Usaram booters um pouco menores para aumentar o desempenho e abocanhar esse mercado de satélites geoestacionários com massa de até três toneladas, no qual há um mercado comercialmente atrativo de satélites”, revela João Ribeiro.

Mas, para isso é preciso um investimento por parte do fabricante do foguete. A ACS faz o lançamento, mas não participa da construção do foguete. A decisão de investir no aumento da capacidade do Cyclone-4 em lançamento geoestacionários teria de ser do governo da Ucrânia com o governo brasileiro, talvez em parceria.

O Brasil fabrica booters sólidos e com uma qualidade bastante aceitável, mas quando se coloca booters no veículo é preciso ajustar toda a estrutura e com os sistemas do lançador. Há uma serie de aspectos que precisam ser estudados por parte do construtor-chefe responsável pelo foguete, no caso, a empresa Yuzhnoye. Seria necessário esse estudo e o seu desenvolvimento, na Ucrânia.

CYCLONE-4

Altura: 40 metros
Diâmetro da coifa: 4 metros
Massa na decolagem: (sem carga útil) 200 toneladas
Empuxo na decolagem: 300 toneladas/força
Número de estágios: 3
Carga útil: 5300 quilogramas em órbita baixa, 1600 quilogramas em órbita de transferência geoestacionária e 3800 quilogramas em órbita heliossíncronas
Tipo de propelente: Líquido

VLS

Número de estágios: 4
Comprimento total: 19 m
Diâmetro dos propulsores: 1 m
Massa total na decolagem: 50 toneladas
Tipo de propelente: Sólido compósito
Apogeu: 1000 km
Carga útil: Máximo de 350 kg


Fonte: Revista Espaço Brasileiro - num. 8 Jan. Fev. Mar. de 2010 - págs 24 e 25

Comentário: Pois é leitor, confiabilidade, palavra chave no mercado de lançamento comercial de satélites. Coisa que nem o Cyclone-4 possui ainda e muito menos o VLS brasileiro, como já colocado pela matéria acima. É preciso também notar aqui leitor que a briga pelas cargas espaciais disponíveis no mercado de lançamento pelas empresas lançadoras é feita com foice e só sobrevive que for realmente competente. A ACS é uma empresa que terá sérias dificuldades para atuar neste mercado por vários motivos, um deles citado pela matéria que é a falta de um acordo de salvaguardas tecnológicas com os americanos, já que grande parte das cargas úteis (satélites) disponíveis no mercado de lançamentos são americanas ou usam componentes de origem americana. Veja o caso da China citado na matéria. Além disso leitor, o fato da ACS ser uma empresa estatal (quando deveria ser uma empresa de capital misto composta por empresas brasileiras e ucranianas e pelos dois governos sob uma administração privada e competente) diminui muito a sua competitividade devido a já conhecida ineficiência da administração pública e pela ingerência política que normalmente ocorre, principalmente no Brasil. Há também de se notar que num momento onde o mundo busca tecnologias limpas o Brasil e a Ucrânia optam por apostar em motores altamente tóxicos como os que compõem o foguete Cyclone-4. Isto além de ser um contra censo que poderá gerar uma repulsa do mercado de lançamento, a ACS corre o sério risco de se tornar alvo de instituições de proteção da natureza como o Greenpeace, durante as suas operações de lançamento, tornando-as um verdadeiro circo com cobertura total da imprensa internacional. Outra coisa que tem de ficar claro, pois em matérias como esta o governo insiste em tratar o acordo que gerou a ACS como sendo um acordo tecnológico, o que não é verdade. O acordo que gerou a ACS é estritamente comercial e não gera nenhuma transferência ou desenvolvimento conjunto de tecnologia com os ucranianos, nem mesmo de um simples parafuso. Até mesmo porque não existe ainda qualquer acordo neste sentido. O que existe é um Memorando de Entendimento entre a Agência Espacial Brasileira e a Agência Espacial Nacional da Ucrânia sobre Futuros Projetos Espaciais Bilaterais assinado em 21/10/2003. Este é um simples documento utilizado por governos para a definição de interesses comuns, bem diferente de um acordo tecnológico que para entrar em vigor é necessária a devida aprovação do congresso. Acordo tecnológicos na área de foguetes na realidade o Brasil tem dois, ou seja, com os alemães da DLR (foguetes de sondagens e plataformas orbitais) e com os Russos (foguetes lançadores e tecnologias associadas). Já o VLS, tem uma boa oportunidade devido ao crescimento da oferta de microssatélites e minissatélites no mercado, caso consiga ser confiável e ter um preço competitivo. Mas para tanto, na opinião do blog, seria necessária a criação de uma empresa de capital misto (entre um consorcio de empresas brasileiras e o governo) para cuidar sob uma direção administrativa privada e competente da negociação do uso deste foguete no mercado internacional.

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