A Origem da Vida


Olá leitor!

Segue uma notícia postada hoje (07/05) no site da Agência Espacial Brasileira (AEB) destacando que foi constatada evidências de gelo e material orgânico (no caso, hidrocarbonetos) no 24 Themis, um dos maiores corpos que compõem o cinturão de asteróides localizado entre Marte e Júpiter. Essa descoberta contou com a participação da astrônoma brasileira “Thais Mothé Diniz”, pesquisadora do Observatório de Valongo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Duda Falcão

A Origem da Vida

Correio Braziliense
07-05-2010


Quando a Terra foi formada, há cerca de 4,5 bilhões de anos, sua temperatura era muito alta para que abrigasse água. O planeta só começaria a se tornar azul mais tarde, com a diminuição do calor. Mas de onde teria vindo à água que formou os oceanos e permitiu a existência de vida? Uma das teorias considerada bastante plausível por um grande número de cientistas diz que o líquido surgiu, pelo menos em parte, a partir da queda na superfície terrestre de meteoros e asteróides cobertos de gelo.

Até a semana passada, essa era uma idéia que precisava de evidências mais consistentes. Daí a importância de dois estudos publicados simultaneamente na revista especializada Nature, realizados por grupos de cientistas de diversos países, incluindo o Brasil. As duas pesquisas constataram evidências de gelo e material orgânico (no caso, hidrocarbonetos) no 24 Themis, um dos maiores corpos que compõem o cinturão de asteróides localizado entre Marte e Júpiter.

Essa descoberta é muito importante, pois reforça a teoria de que a água dos oceanos e o material orgânico encontrado, dois pré-requisitos fundamentais para a geração da vida, podem ter vindo de cometas e, talvez, de asteróides, explica ao Correio Thais Mothé Diniz, pesquisadora do Observatório de Valongo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ela é única brasileira participante de um dos estudos, coordenado pelo norte-americano Humberto Campins, da Universidade da Flórida Central.

Em outras palavras, a descoberta colocou o homem mais perto de entender um evento fundamental para a sua própria existência: o início das condições propícias ao desenvolvimento da vida na Terra. Segundo o professor do Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Alvaro Crósta, a Terra vem sofrendo bombardeios realizados por asteróides desde a sua criação. Portanto, a hipótese de que a água teria sido trazida de fora e introduzida na Terra por asteróides em um período intermediário da história do planeta, quando as condições já permitiam a existência de água, é plausível. Faltava constatar a ocorrência de água em asteróides, o que foi conseguido agora , afirma.

Para chegar a essa conclusão, os dois grupos de cientistas contaram com a ajuda do telescópio de infravermelho pertencente à Agência Espacial Norte Americana (NASA), localizado em Mauna Kea, no Havaí. Com a ajuda do equipamento, conseguimos estudar a luz do Sol refletida pela superfície do 24 Themis , conta Thais.

Joshua Emery, professor da Universidade do Tenessi, nos Estados Unidos, integrante da equipe que realizou a outra pesquisa que chegou às mesmas conclusões, coordenada por Andrew Rivkin, da Universidade Johns Hopkins, também nos EUA explica que a necessidade de utilizar um telescópio de infravermelho se deve ao fato de os asteróides não emitirem luz própria. Esses corpos refletem cerca de 5% da luz que atinge sua superfície. Essa reflexividade é semelhante à do carvão. Aos nossos olhos, o 24 Themis parece muito escuro , conta, por e-mail.

De acordo com ele, o telescópio possui um espelho primário de 3m de diâmetro e um espectrógrafo (equipamento que realiza um registro fotográfico de um espectro luminoso) ligado a ele. O espectrógrafo tem a luz coletada pelo telescópio e a divide em diferentes comprimentos de onda (cores). Em seguida, é medido o brilho da luz em cada comprimento. Nesse caso, estávamos procurando a parte infravermelha do espectro de luz solar refletida da superfície do asteróide, enfatiza.

Próximos passos

Alguns estudos, porém, ainda são necessários. Segundo Humberto Campins, não foi possível precisar a quantidade de água congelada na superfície do 24 Themis. Estamos estudando outros membros da mesma família de asteróides e também outros candidatos que possam conter gelo e material orgânico , revela o pesquisador da Universidade da Flórida Central, em entrevista por e-mail.

Apesar de não saberem ao certo a quantidade de água na superfície, os cientistas especulam sobre a existência de um reservatório escondido no interior do asteróide. Ele forneceria com regularidade a matéria-prima para a formação da crosta de gelo , diz Thais.

Entrevista

1. Em qual asteróide a pesquisa encontrou evidências de água? Quais características diferenciam este asteróide dos demais?

O asteróide é o 24 Themis (cada um deles recebe um número e um nome). Themis orbita o Sol a uma distância de 3 UA – três vezes mais distante do Sol que a Terra. Este asteróide tem um diâmetro de 200 km e está entre os maiores corpos celestes existentes. Uma família de asteróides é dada pelo resultado da cisão (por uma grande colisão) de um corpo maior. Em outras palavras, os 500 asteróides que compõem a família Themis são todos fragmentos da cisão de um corpo maior. Themis apresenta uma refletividade muito baixa. Portanto, é refletida apenas 5% da luz que atinge sua superfície. Esta reflexividade é semelhante a do carvão, assim, aos nossos olhos, Themis parece muito escuro.

2. Como detectaram tais elementos na superfície (gelo e materiais orgânicos)? Essa foi a primeira vez que encontraram algo do tipo? Por meio de qual método? Qual a espessura do filme de gelo?

Esta é a primeira vez que se detectou gelo e compostos orgânicos na superfície de um asteróide. Para isso, usamos uma técnica chamada de espectroscopia. Um grande telescópio é necessário, pois o Themis é muito opaco. Utilizamos um telescópio da Agência Espacial Norte Americana (NASA), que é um equipamento com um espelho primário de três metros de diâmetro, localizado no topo de Mauna Kea, no Havaí. O telescópio tem um espectrógrafo ligado a ele, que tem a luz coletada pelo telescópio e a divide em diferentes comprimentos de onda (cores). Em seguida, é medido o brilho da luz em cada comprimento de onda. Neste caso, estávamos procurando a parte infravermelha do espectro de luz solar refletida a superfície do asteróide. Diferentes materiais absorvem luz nos comprimentos de onda diferentes, criando "pingos" (depressões) no brilho dessa onda. Podemos então usar esses "pingos" como as impressões digitais do material na superfície. No presente caso, encontramos um pingo em cerca de 3,1 micrômetros (milionésimo de metro) que indicou a existência de água gelada, e uma outra depressão em cerca de 3,4 micrômetros indicando compostos orgânicos.

3. O material orgânico encontrado fortalece a teoria de que asteróides podem ter sido os responsáveis por trazerem água e compostos orgânicos à Terra? Como se daria isso?

Eu acredito que sim. E mais do que isso, ela aponta a direção para como podemos investigar mais essa idéia. Anteriormente, pensava-se que os cometas forneciam água à Terra (o Planeta Terra foi formado em uma região do Sistema Solar que era muito quente para a água, portanto, teria se formado seco). Mas aprendemos que a assinatura química do gelo nos cometas (especificamente a relação de isótopos de oxigênio) é diferente para os cometas e para a água da Terra. Isto moveu o foco para os asteróides, embora não tenha sido claro o quanto de água foi relacionada aos asteróides. Tínhamos evidências secundárias que asteróides podiam ter contido gelo no passado, mas nenhuma evidência direta da extensão desse gelo. Agora, sabemos que uma parte daquele gelo original ainda está lá. Podemos eventualmente estudá-lo e verificar se corresponde mais com a assinatura química da água da Terra do que com a dos cometas. Era ainda menos certo se os asteróides continham uma grande quantidade de material orgânico, ou como o material orgânico seria distribuído no sistema solar. Depois da pesquisa, achamos que deve haver material orgânico abundante no cinturão de asteróides principal. A vida como a conhecemos necessita tanto de água como de compostos orgânicos.


Fonte: Correio Braziliense via site da Agência Espacial Brasileira (AEB)

Comentário: Esse assunto já havia sido abordado aqui no blog anteriormente (veja a nota Brasileira Ajuda Descobrir Asteróide Revestido de Gelo) e demonstra a grande repercussão desta descoberta não só no Brasil como internacionalmente. A participação da astrônoma brasileira comprova o excelente estagio de desenvolvimento atingido nos últimos 10 anos por essa ciência no Brasil e assim sendo a mesma é merecedora dos todos os elogios. Temos a esperança (ela é a ultima a morrer, né verdade?) que no futuro o Programa Espacial Brasileiro venha seguir o mesmo exemplo.

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