Entrevista com o Brigadeiro Cleonilson Nicácio Silva


Olá leitor!

Segue abaixo uma entrevista publicada na nova edição da Revista Espaço Brasileiro (Jan. Fev. Mar. de 2010) com o tenente-brigadeiro-do-ar Cleonilson Nicácio Silva que na época era ainda diretor do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA) acumulando o cargo com o atual cargo de chefe do Estado-Maior da Aeronáutica (EMAER).

Duda Falcão

Entrevista

O alagoano, tenente-brigadeiro-do-ar Cleonilson Nicácio Silva, 62 anos, ingressou na Aeronáutica em 1965. Desde então, ocupou diversos cargos de comando, como o de comandante do VII Comando Aéreo Regional, na Amazônia (COMAR), o de diretor do Departamento de Assuntos Internacionais do Ministério da Defesa e de chefe do Estado-Maior da Defesa (EMD), órgão de assessoramento do ministro da Defesa.

Ex-diretor de operações e ex-presidente da INFRAERO, onde contribuiu para reestruturar a área de Recursos Humanos, o tenente-brigadeiro Nicácio, que tomou posse dia 26 de março, como chefe do Estado-Maior da Aeronáutica (EMAER), acumula, ainda, até a passagem do comando para o tenente-brigadeiro Ailton dos Santos Pohlmann, a direção do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA). Possui mais de cinco mil horas de vôo, em aviões e helicópteros. Fez todos os cursos de carreira militar, incluindo o curso de Altos Estudos de Política e Estratégia da Escola Superior de Guerra (ESG). É graduado em administração, com especialização em Analise Organizacional, pela Fundação Getulio Vargas (FGV). Em 2009 foi considerado pela revista Época, uma das 100 personalidades mais influentes do país.

Revista Espaço Brasileiro: Na INFRAERO, o senhor promoveu mudanças, incluindo o quadro de pessoal. No Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA), quais foram os principais desafios em relação à estrutura, investimento, e recursos humanos? Quais as metas para 2010?

Brigadeiro Nicácio: O DCTA e seus institutos são nacional e internacionalmente reconhecidos como um dos mais importantes complexos de ciência e tecnologia do mundo nas áreas de aeronáutica, espaço e defesa. Esse status impõe um desafio natural, qual seja, o de perpetuá-lo como tal. Para todos nós que nos dedicamos ao DCTA e seus institutos a preocupação maior reside na transmissão do conhecimento entre gerações. Após 60 anos de funcionamento, o DCTA assiste, quase diariamente, à aposentadoria de quadros altamente qualificados. Portanto, o grande e principal desafio da área de ciência e tecnologia do Comando da Aeronáutica resume-se na viabilização de providencias que permitam a reposição continuada das competências que, a cada dia, nos deixam por terem completado o tempo de serviço previsto na legislação brasileira. Esta é a meta prioritária para o ano de 2010 e para a qual estamos empenhando todos os nossos esforços.

REB: Quanto ao Programa Espacial Brasileiro, que inclui o DCTA, o Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE), o Instituto de Estudos Avançados (IEAv), além dos Centros de Lançamentos de Alcântara (CLA) e da Barreira do Inferno (CLBI), como o senhor avalia? O que é necessário para alavancá-lo?

BN: O Programa Espacial Brasileiro é uma atividade de importância crucial para o país. Seus resultados influenciam, de forma significativa, segmentos estratégicos tais como: as telecomunicações, a navegação área, terrestre e marítima, a defesa civil e militar, a agricultura, além de outros. Assim sendo, é imprescindível que cada vez mais tratemos este Programa como um assunto de Estado. Um bom sinal é que a sociedade tem percebido isso e tem voltado o seu interesse para as questões relacionadas ao desenvolvimento do setor. A imprensa tem dado mais espaço para o assunto, a Câmara dos Deputados vem promovendo uma discussão ampla sobre o Programa e a Estratégia Nacional de Defesa destaca o fortalecimento do setor espacial como uma de suas diretrizes. O retorno do Programa ao ritmo que já desfrutou no passado, depende, fundamentalmente, da alocação continuada de recursos humanos qualificados e de dispêndios financeiros nos níveis praticados por países que se encontram em estágio semelhante ao nosso.

REB: Quais ações estão sendo realizadas pelos Institutos e Centros no que compete ao Programa Espacial?

BN: A contribuição do Comando da Aeronáutica ao Programa Espacial Brasileiro destina-se a prover os meios de acesso ao espaço, incluindo o desenvolvimento de seus lançadores suborbitais e orbitais e a infraestrutura necessária para seus lançamentos. Aos institutos do DCTA compete a execução dessas ações. Neste ano, iniciou-se no Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) a graduação e Engenharia Aeroespacial para melhor atender à demanda por especialistas em competências críticas do setor. As ações relacionadas ao desenvolvimento de foguetes de sondagem, executadas pelo IAE, atingiram seus objetivos na medida em que esses foguetes, em suas versões mais recentes, são operacionais, estão certificados e representam a única tecnologia espacial brasileira exportada para outras nações. O VLS, nosso Veículo Lançador de Satélites, foi completamente revisado após o acidente em 2003 em Alcântara e os testes que antecedem um vôo completo já foram iniciados. Os centros de lançamento mantêm-se operacionais e suas infraestruturas de lançamento passam por processos de modernização. Estamos fazendo todo o esforço possível para retornarmos os testes em vôo do VLS logo após a conclusão da obra de construção da Torre Móvel de Integração (TMI).

REB: E quanto ao Cyclone-4?

BN: A contribuição do DCTA em relação à empresa binacional Alcântara Cyclone Space (ACS), no âmbito do Cyclone-4, resume-se à execução das obras da infraestrutura logística de apoio necessária ao lançamento deste foguete ucraniano, a partir do CLA, e à certificação do foguete para garantir a segurança de seu lançamento a partir do território brasileiro. A administração do CLA esta pronta para dar prosseguimento a este empreendimento, tão logo estejam concluídos os processos que se encontram em andamento e os recursos essenciais estejam disponibilizados.

REB: Qual é o cronograma do DCTA para a conclusão das obras da TMI no CLA e finalização do VLS?

BN: A TMI, necessária para lançamentos de veículos como o VLS, estará concluída até o final de 2010. Essa nova torre incorpora os mais modernos sistemas de controle, automação e segurança. Com a conclusão da TMI, o primeiro ensaio em vôo do VLS está previsto para 2011.

REB: O que é preciso ser feito para que o país possa lançar foguetes e engenhos espaciais?

BN: O país já lança foguetes há vários anos. A partir do CLA e do CLBI foram lançados algumas centenas de foguetes de sondagem e dois veículos lançadores de satélites. O grande desafio, entretanto, continua a ser a realização de uma missão completa de satelitização. Precisamos persistir, apesar das dificuldades, como já fizeram todos os países que lograram tal êxito. A tecnologia espacial é de difícil obtenção e ao mesmo tempo intensiva em investimentos em capacitação e contratação contínua de pessoal qualificado, requerendo, também , atualização constante na infraestrutura laboratorial. A industria espacial nacional tem participado ativamente desse desafio e atualmente já dispõe de capacidade para acelerar o Programa, caso venha a ser provocada.

REB: Como foi ser reconhecido como uma das 100 pessoas mais influentes do país?

BN: Afirmo que foi muito gratificante ter meu nome incluído entre as 100 personalidades mais influentes do Brasil em 2009, na avaliação da Revista Época. Penso que, para qualquer homem público, ver seu trabalho reconhecido constitui a recompensa maior pelo esforço despendido e a certeza de que esse trabalho acumulou mais acertos do que erros. Embora a decisão de um executivo seja sempre um ato solitário, credito parcela importante do resultado alcançado, na Diretoria de Operações e na Presidência da INFRAERO, à parceria e à amizade que me dedicaram o ex-presidente Sérgio Guadenzi , os meus diretores, todos os efetivos quadros regulares da empresa e de milhares de homens e mulheres que de Norte a Sul e de Leste a Oeste, deram-se as mãos, a fim de restaurar a normalidade no sistema aeroportuário.

REB: Como foi a sua trajetória de vida até chegar à direção do DCTA?

BN: A partir da cerimônia de Declaração a Aspirante a Aviador, em dezembro de 1970, meus deslocamentos pelo país incorporaram uma permanência de um ano em Canoas (RS), quatro anos em Recife (PE), 28 anos em Brasília (DF), dois no Rio de Janeiro, dois em Manaus (AM) e dois na Europa. Em Recife, tive a oportunidade de iniciar a minha vida de aviador operacional, voando um avião de bombardeio da 2ª Guerra Mundial, o B-26 INVADER, e em seguida aeronaves de transporte e helicóptero.

Em Brasília, fui Ajudante de Ordens do Ministro Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, piloto das aeronaves 737-200, que servia à Presidência da República e tive a oportunidade de ser Comandante do Grupo de Transporte Especial e da Base Aérea de Brasília. Após o Curso de Altos Estudos de Política e Estratégia da Escola Superior de Guerra (ESG), em 1996, fui, durante dois anos, adido aeronáutico na França e na Bélgica.

Como Oficial General, a partir de 1999, servi no Estado-Maior da Aeronáutica, fui comandante do sétimo Comando Aéreo Regional em Manaus, exerci a chefia do Estado-Maior de Defesa e em seguida fui convidado para a INFRAERO, onde exerci o cargo de diretor de Operações e presidente.

Desde agosto de 2009, minha atenção esta voltada para o DCTA e seus institutos. Esse é um breve resumo de quase 40 anos de minha vida.



Fonte: Revista Espaço Brasileiro - num. 8 Jan. Fev. Mar. de 2010 - págs 05, 06 e 07

Comentário: Este profissional militar como o leitor mesmo pode notar é um vencedor e não por acaso se destacou em sua carreira chegando hoje ao cargo de chefe do Estado-Maior da Aeronáutica (EMAER). Infelizmente para o Programa Espacial Brasileiro o brigadeiro Nicácio foi remanejado (promovido se preferirem) para o EMAER, justamente quando o mesmo estava se preparando para realizar uma revolução dentro da parte que cabe ao Comando da Aeronáutica no PEB, como sempre o fez positivamente por onde passou. Espero sinceramente que o tenente-brigadeiro Ailton dos Santos Pohlmann possa realizar o que certamente seria realizado pelo Brigadeiro Nicácio se a ele não tivesse sido negada esta oportunidade. O Brigadeiro Cleonilson Nicácio Silva é “Gente que Faz” e a ele o nosso reconhecimento.

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