Por Que o Brasil Explora Tão Pouco a Microgravidade?

Prezados leitores e leitoras do BS!
 
Pois então: na semana passada já trouxemos ao BS um interessante artigo do mestre em Ciências Aeroespaciais pela Universidade da Força Aérea Brasileira (UNIFA), Rodolfo Milhomem (reveja aqui), que será tema da edição desta semana da coluna Espaço Semanal. Agora, trazemos também uma breve nota publicada ontem (18/01) em sua página no LinkedIn, na qual o autor aborda um questionamento que há mais de uma década também é levantado pelo BS — com uma única diferença: nós conhecemos a resposta.
 
Em sua nota intitulada “Por que o Brasil explora tão pouco a microgravidade?”, o autor questiona o fato de os foguetes suborbitais brasileiros serem utilizados com frequência pelo DLR alemão, enquanto no próprio Brasil esse uso ocorre de forma descontinuada e bastante espaçada. Isso acontece apesar de o país possuir tudo o que seria necessário para manter um Programa de Microgravidade realmente útil à nação — e não essa piada criada pela AEB que atende pela mesma nomenclatura.
 
Ora, amantes do espaço, como bem mencionou na nota um dos visitantes de sua página, capacidade sem continuidade raramente se transforma em ciência em escala. Plataformas de microgravidade só entregam valor quando as missões se repetem, as equipes permanecem e o financiamento sobrevive além de ciclos únicos de programas. Sem essa continuidade, até mesmo veículos já comprovados tornam-se meras demonstrações pontuais, em vez de infraestrutura. Ponto.
 
Ocorre que, para termos programas exitosos como um verdadeiro Programa de Microgravidade no Brasil, antes de mais nada o Programa Espacial Brasileiro (PEB) precisa deixar de ser a piada que é, e passar a funcionar como um programa de fato — inserido em algo maior, um verdadeiro Programa de Nação. Entretanto, infelizmente, sequer somos ainda um país sério, e assim estamos muito longe de nos tornarmos uma nação de verdade. Pura utopia.
 
Certa vez, um amigo meu estrangeiro que morou no Brasil e hoje vive nos EUA revelou que, após cinco anos vivendo no país, saiu com a impressão de que o povo brasileiro não tinha a mínima noção do que estava fazendo: um barco sem rumo, comandado por inúmeros capitães (leia classe dominante) oportunistas, corruptos e completamente estúpidos. Ele encerrou seu comentário definindo o país em apenas duas palavras: “Tremendo desperdício”.
 
Mas, enfim, essa é infelizmente a realidade deste Território de Piratas, e não poderia ser diferente com o PEB. Ficar discutindo e criando expectativas utópicas para a sociedade não leva a lugar algum. Quem conversa demais não quer resolver nada, e isso, senhores, por uma razão simples: embora o planejamento seja fundamental em todas as áreas da vida, ele precisa ter um ponto final. Caso contrário, transforma-se em conversa fiada jogada ao vento — um prato cheio para oportunistas e mal-intencionados — e acaba se arrastando por décadas, como ocorre em grande parte da área pública brasileira. Com o nosso “patinho feio”, não é diferente.
 
Mas enfim... leia abaixo a nota em questão.
 
Por Que o Brasil Explora Tão Pouco a Microgravidade?
 
Por Rodolfo Milhomem* 
Via Linkedin
18/01/2026
 
Na imagem, vemos o foguete VS-40, desenvolvido pelo IAE/FAB, sendo utilizado pela agência espacial alemã (DLR) no programa SHEFEX para testes avançados de reentrada atmosférica e aerotermodinâmica.

Em outras palavras: tecnologia brasileira viabilizando ciência europeia.
 
O VS-40 já comprovou sua capacidade para voos suborbitais acima de 100 km, proporcionando vários minutos de microgravidade — um ambiente ideal para experimentos científicos.
 
Mesmo assim, o Brasil realizou pouquíssimas missões desse tipo.
 
Outro exemplo é o SARA (Satélite de Reentrada Atmosférica): um projeto nacional concebido para experimentos em microgravidade e validação de tecnologias de reentrada. Tecnicamente avançado, mas descontinuado por falta de financiamento.
 
O know-how existe. (sim)
O veículo lançador existe. (sim)
O centro de lançamento existe. (sim)
O que falta é continuidade estratégica. (não, o que falta é vergonha na cara, brasilidade e compromisso com o país. Compromisso estratégico é o resultado disso)
 
Se outros países usam nossa tecnologia para ciência espacial, por que nós não?
 
* Rodolfo Milhomem
- Advogado e pesquisador com atuação interdisciplinar em Direito Espacial, Engenharia Aeroespacial e Governança de Tecnologia. Possui mestrado em Ciências Aeroespaciais pela Universidade da Força Aérea Brasileira (UNIFA), com dissertação voltada ao segmento de veículos lançadores e suas implicações regulatórias, econômicas, industriais e estratégicas no fortalecimento da soberania espacial nacional.
 
Há mais de 5 anos lidera iniciativas em proteção de dados, propriedade intelectual e regulação tecnológica na EdgeSoft, atuando como DPO e assessor jurídico especializado em ambientes de alta complexidade técnica, incluindo o registro e proteção de ativos espaciais (marcas, patentes, softwares, e know-how vinculado à inovação aeroespacial).
 
Atua nas Comissões de Direito Espacial e Aeronáutico da OAB/SP, promovendo o diálogo entre normativas internacionais (COPUOS, WIPO, ITU), segurança jurídica e o avanço do setor NewSpace brasileiro.
 
Sua formação é técnica e abrangente: curso Engenharia da Computação (UNIVESP) e pós-graduação em Engenharia Aeronáutica (UNISUAM), com foco em simulação de trajetórias orbitais, propulsão e previsões de risco via métodos de Monte Carlo. Desenvolvo modelos em Python, SNAP, GMAT, e SGP4, com aplicações em análise de TLEs, debris tracking e sistemas críticos para Space Domain Awareness (SDA).
 
Atua também com governança de inovação, licenciamento open-source (WIPO), e diretrizes de sustentabilidade espacial, contribuindo com pesquisas sobre dual-use technologies, cenários regulatórios emergentes e aquisições públicas estratégicas no setor espacial.
 
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