Como Construir um Programa Espacial Sério e Promissor no Brasil? Infelizmente, Por Ora, Isso Soa Como Pura Utopia
Caros amantes das atividades espaciais!
Navegando pela internet nesta manhã (06/12), encontrei um post com um gráfico bastante interessante publicado no Twitter, na página do Sr. Gunter Krebs, editor da conhecidíssima Gunter’s Space Page. O gráfico em questão (veja abaixo), como ele costuma fazer todos os anos, apresenta por país as estatísticas de lançamentos orbitais e suborbitais referentes a 2025, incluindo:
* os lançamentos da Starship marginalmente suborbitais;
* o lançamento iraniano do Zoljanah, cuja natureza não está totalmente clara — se foi ou não uma tentativa orbital;
* os lançamentos da Rocket Lab, listados como Nova Zelândia / EUA.
Mas por que essas estatísticas de 2025 são importantes para nós? — perguntariam os menos informados. Elas são relevantes porque escancaram nossa tremenda incompetência ao longo de várias décadas e revelam como o Brasil foi se apequenando desde 1957, quando surgiu, na então Escola Técnica do Exército (atual Instituto Militar de Engenharia – IME), a equipe liderada pelo Tenente-Coronel Manoel dos Santos Lage e o seu Foguete FELIX-1 (saiba mais aqui). Ou mesmo desde 1961, ainda sob o impacto do lançamento do primeiro homem ao espaço e da subsequente visita de Yuri Gagarin ao Brasil, quando o presidente Jânio Quadros assinou, em 3 de agosto daquele ano, o Decreto nº 51.133, que instituiu o Grupo de Organização da Comissão Nacional de Atividades Espaciais (GOCNAE), dando início oficial ao Programa Espacial Brasileiro (PEB) governamental.
Desde então, após um avanço inicial relativamente contínuo nas três primeiras décadas, especialmente na área de foguetes suborbitais, o que se observou — sobretudo a partir do início da década de 2010 — foi um progressivo esvaziamento dessas atividades. Chegamos ao cúmulo de, em 2025, sequer conseguir realizar um voo científico ou tecnológico, mesmo que suborbital (desconsiderando foguetes de treinamento, que pouco acrescentam ao desenvolvimento espacial do país). Como consequência direta, o Brasil sequer aparece no gráfico mencionado.
Diante desse quadro lastimável, o quase sucateamento do nosso primeiro e histórico Centro de Lançamento da Barreira do Inferno (CLBI) tornou-se uma realidade próxima. A falta de atividade permitiu que a especulação imobiliária avançasse sobre seu entorno, tornando lançamentos de maior porte praticamente inviáveis. Já o Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), embora não afetado por esse mesmo tipo de pressão urbana, também enfrenta sérias dificuldades decorrentes da falta de uso adequado de uma infraestrutura estratégica para o país.
Felizmente, com a assinatura e aprovação pelo Congresso Nacional do Acordo de Salvaguardas Tecnológicas (AST) com os Estados Unidos — em vigor desde dezembro de 2019 e promulgado por decreto presidencial em 2020, durante o governo Jair Bolsonaro — abriu-se uma janela concreta para o uso comercial das bases de lançamento brasileiras. Espera-se que, ao menos, o CLA passe a ser utilizado com maior frequência por empresas de diversos países, gerando recursos financeiros a serem reinvestidos no PEB. Há inclusive a possibilidade de reativação do CLBI, que, segundo informações, já integra estudos de viabilidade conduzidos pela empresa sul-coreana INNOSPACE como potencial sítio de lançamento.
Neste momento, mesmo após a falha da primeira tentativa de lançamento comercial orbital a partir do solo brasileiro — que, na prática, foi uma combinação de voo de teste com o transporte de algumas cargas úteis comerciais — a janela de oportunidades para o CLA foi finalmente aberta. Agora, ela precisa ser consolidada, o que passa, inevitavelmente, pelo sucesso do próximo voo comercial do Foguete HANBIT-Nano. Não menos importante, esse sucesso colocaria definitivamente o Brasil no seleto Clube dos Estados Lançadores, uma posição de enorme valor estratégico.
Entretanto, é preciso lembrar que o uso comercial do CLA e do CLBI, ainda que gere recursos financeiros para um PEB já severamente prejudicado pela criação do Desatino ALADA e pela deturpada Lei Geral do Espaço, não será suficiente, por si só, para transformar o Brasil em um protagonista no cenário espacial global. Para isso, como defendemos há décadas, o PEB precisa se tornar um verdadeiro Programa de Estado, gerido por pessoas competentes, comprometidas e responsáveis — no Governo, no Congresso e nos órgãos públicos diretos e indiretos — e não refém de interesses alheios ao desenvolvimento nacional. Caso contrário, o risco é aprofundarmos ainda mais nosso atraso no setor.
No setor privado, é verdade, alguns avanços merecem destaque, muitos deles impulsionados por startups que seguem resistindo e buscando espaço no cenário nacional e internacional, como Acrux Technologies, Bizu Space, BRENG, CLC Consultoria, CRON Sistemas, Edge of Space, PION Labs, USIPED USAT-Space, entre outras. Também não se pode deixar de mencionar a notável iniciativa do arranjo empresarial liderado pela CENIC, fruto de um edital da FINEP, que visa ao desenvolvimento de um Veículo Lançador de Pequeno Porte (VLPP) orbital, denominado Projeto MLBR (Microlançador Brasileiro). Trata-se de um passo fundamental para a construção de um programa minimamente sustentável, capaz de viabilizar não apenas o uso comercial dos centros de lançamento, mas também o fortalecimento de institutos, empresas e universidades ligadas a essa área estratégica para qualquer nação voltada ao futuro.
Ainda assim, mesmo no âmbito do Projeto MLBR, existem obstáculos relevantes, menos de natureza técnica e mais de caráter logístico — como o problema do carregamento dos motores, já abordado anteriormente aqui no BS. No entanto, é preciso deixar claro para a sociedade que a maior dificuldade enfrentada por essa iniciativa está, na verdade, na estúpida, arrogante e irresponsável luta de bastidores travada por alguns “cabeças de ovo” recalcados da própria FAB, de sindicatos e de outros órgãos governamentais, incluindo o Executivo. Em vez disso, todos deveriam estar unidos em torno do objetivo maior: inserir definitivamente o Brasil na elite do Clube dos Países Lançadores e completar, de forma soberana, o chamado Ciclo Completo de Acesso ao Espaço.
Não há qualquer dúvida de que o país precisa de seu próprio veículo lançador. Perdemos o bonde da história por absoluta falta de vontade política, tanto de governos de pseudo-direita quanto de esquerda. Já deveríamos estar em um estágio de desenvolvimento que colocasse o Brasil em outro patamar geopolítico. Afinal, as atividades espaciais sempre foram — e continuarão sendo por muito tempo — estratégicas, tanto no campo civil quanto no de defesa. A pergunta que fica é: como construir um programa espacial sério e promissor em um país que nunca foi sério consigo mesmo e jamais se preocupou em estruturar um verdadeiro Projeto de Nação? Infelizmente, por ora, isso soa como pura utopia.
Brazilian Space
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