Blog Entrevista Gerente do Projeto ITASAT-1

Olá leitor!

Dando sequencia a nossa série de entrevista com personalidades do Programa Espacial Brasileiro trago agora para você leitor uma entrevista com o Capitão Eloi Fonseca, professor do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e atualmente gerente do Projeto ITASAT-1.

O Capitão Eloi Fonseca tem um histórico de participação em diversos projetos de defesa e espaciais da FAB, tendo inclusive participado recentemente na França dos cursos avançados do Projeto do Satélite SGDC na sede da Thales Alenia Space.

Nessa entrevista o militar da Aeronáutica nos fala sobre a sua trajetória profissional bem como sobre o Projeto ITASAT-1, projeto este que não será mais um microsatélite como projetado desde 2005 e sim um nanosatélite (cubesat 6U). Vale a pena dar uma conferida.

Aproveitamos para agradecer ao Cap. Eloi Fonseca e ao Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) pela atenção dispensa ao Blog BRAZILIAN SPACE.

Capitão Eloi Fonseca
BRAZILIAN SPACE: Cap. Eloi Fonseca, para aqueles leitores que não o conhecem nos fale sobre o senhor. Sua idade, formação, onde nasceu, trajetória profissional e desde quando o senhor trabalha no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA)?

CAPITÃO ELOI FONSECA: Primeiramente obrigado pela oportunidade de me apresentar, tenho 48 anos, sendo mestre em Engenharia Eletrônica e Computação – Área de Eletrônica Aplicada pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA ) e atualmente  em fase de defesa de tese de doutorado nesta mesma instituição e área, sou natural de Pouso Alto, localizada no sul do estado de Minas Gerais, trabalhei  em várias unidades da FAB e participei de diversas missões técnicas e projetos  em 30 anos de carreira, entre elas no IAE na Divisão de Ensaios em Vôo onde fiz parte do grupo responsável por instrumentação do ensaio do propulsor S-44 do 4° estágio do VLS-1, gostaria de citar entre vários projetos em que trabalhei na aviação de caça e ensaios em vôo o mais relevante que foi um sistema de auto-defesa testado no Mirage III pelo qual recebi  uma condecoração do Ministro da Aeronáutica em 1998, participei em 2010 de programa de capacitação no Instituto Nacional de Técnica Aeroespacial – INTA da Espanha, em planejamento e projeto do Microsat-1 naquele instituto, atualmente acabo de retornar da França onde participei dos cursos avançados do SGDC na Thales Alenia Space. Estou no ITA desde 2006, onde atuo como professor desde 2008 ate hoje, nos cursos de engenharia aeroespacial, eletrônica, computação e aeronáutica, tendo sido gerente do Projeto IMA-MUSAT, do ITA  em conjunto com a empresa Equatorial Systems de São José dos Campos  e GMV de Lisboa, onde foi construído um computador de bordo para cubesats com controle de atitude, num conceito inovador  empregando dispositivo de lógica programável ( FPGA) com o conceito IMA que atualmente está sendo usado no laboratório do ITASAT-1.

BRAZILIAN SPACE: Cap. Eloi é sabido que o ITASAT-1 é um dos pequenos satélites em desenvolvimento no Brasil dos mais antigos, se é que não é o mais antigo deles. Anteriormente o ITASAT-1 era apresentado na mídia como sendo um Microsatélite, porém o Blog obteve informações de que agora ele será desenvolvido dentro da categoria dos nanossatélites universitários. Porque houve essa mudança?

Concepção artística do novo ITASAT-1

CAP. ELOI FONSECA: O programa iniciado no ITA em 2005 revestiu-se de cunho inovador, ousado e empregava a experiência do INPE em projetos de satélites utilizando os conceitos convencionais adotados pela ESA e NASA, porém dadas as restrições tecnológicas, orçamentárias e de acesso à importação de componentes críticos, o projeto enfrentava dificuldades técnicas e administrativas ao longo do processo de desenvolvimento.  Durante este período de desenvolvimento o INPE iniciou uma linha de pesquisa com cubesats, empregando o conceito de modularidade e usos de componentes COTS, que agregam consequente viabilidade econômica e disponibilidade comercial para os projetos, adicionalmente o custo e adequação para veículos de lançamento tem uma abordagem muito mais simplificada para cubesats do que para microsatélites convencionais. Após deliberações em conjunto com os grupos de pesquisa do BR1, BR2 e CONASAT foi proposta uma readequação do projeto aos novos conceitos, visando estabelecer uma base sólida para gerar novas missões com cargas úteis distintas com reaproveitamento do projeto de plataforma 6U, mantendo disponibilidade de 3U para cargas úteis e 3U para módulos de serviço. A proposta foi apresentada ao órgão de fomento do projeto (Agencia Espacial Brasileira) e aprovado, sendo já definidos os custos totais de projeto, infraestrutura de testes e integração de modelo de engenharia e protoflight, os quais foram aprovados e serão integralmente custeados pela AEB. A mudança foi assim necessária para que o ITASAT-1 pudesse se incorporar à linha de pesquisas com cubesats liderada pelo Dr Otávio Durão (INPE), de forma coesa e cooperativa e viabilizar seu reaproveitamento de projeto em outras missões futuras.

BRAZILIAN SPACE: Cap. Eloi, qual será agora as dimensões do ITASAT-1 e quais serão suas cargas uteis?

Câmera fotográfica do ITASAT-1
CAP. ELOI FONSECA: O ITASAT-1 possui dimensões de um cubesat 6U, 10cm x 20cm x 34 cm, sendo  três módulos 1U ocupados com os módulos de serviço, como placas OBDH (On Board Data Handling), AOCS (Attitude Orbit  Control System), Transceptores VHF e UHF (compatíveis com equipamentos rádio amadores), Sistemas de geração, armazenamento de distribuição de energia, o espaço destinado a cargas úteis (3 unidades 1U) será empregado para sensores de o equipamento devera testar em órbita: o transponder de coleta de dados (DCS), desenvolvido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) em parceria com o Centro Regional do Nordeste (CRN); o GPS Orion, desenvolvido pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), em parceria com o IAE; a placa de sensores para medidas de caracterização do campo magnético terrestre, desenvolvida pela Universidade de Santa Maria (RS); e o funcionamento de uma câmera fotográfica para satélites de pequeno porte, com resolução de 80m a 650km de altitude e capacidade de registro em cartão SD de imagens adquiridas.

Diagrama em blocos do ITASAT-1

BRAZILIAN SPACE: Cap. Eloi, qual é a previsão de lançamento deste satélite e como ele será lançado?

CAP. ELOI FONSECA: Estamos em fase de negociação com empresas, que deve ser concluída nos próximos dois meses, nossa janela de previsão está sendo entre outubro e dezembro de 2015. Como envolve processo entre empresas concorrentes, com consequente avaliação jurídica antes da assinatura, somente após o firmado o contrato de lançamento poderemos informar com precisão e divulgar estes dados, porém a melhor notícia é que o início deste processo de negociação que antecede o contrato foi autorizado pela AEB, que será responsável pelo custeio do lançamento,  o que é um grande passo.

BRAZILIAN SPACE: Cap. Eloi, quantas instituições, alunos e professores estão atualmente envolvidos com esse projeto?

CAP. ELOI FONSECA: Temos um forte grupo de suporte e trabalho: Instituições: Instituto tecnológico de Aeronáutica (ITA), Agência Espacial Brasileira (AEB), Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE-SJC, INPE-CRN e INPE-SM), Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

Equipe na Sala de Projeto Estrutural
Equipe na Sala da Estação de Solo

BRAZILIAN SPACE: Cap. Eloi, existe o interesse do seu grupo em prosseguir com esse tipo de projeto após o lançamento do ITASAT-1, e caso sim, haveria o interesse em realizar missões mais significativas como, por exemplo, uma Missão Lunar?

CAP. ELOI FONSECA: Tanto a instituição como o grupo de pesquisadores encara este projeto como o precursor de muitos outros, um dos primeiros frutos do curso de engenharia aeroespacial o ITA foi o próprio AESP-14 que será lançado este ano, o qual constitui-se de um cubesat 1U, idealizado e proposto pelo prof. Geilson Loureiro  tendo sido desenvolvido pelo ITA com o apoio do INPE. O ITASAT-1 marcou o início das atividades das universidades brasileiras em desenvolvimento de satélites universitários, na concepção atual modular idealizada no projeto em coordenação com o INPE a plataforma 6U desenvolvida no modelo servirá como base sólida para o desenvolvimento rápido de outras missões, como laboratórios experimentais de avaliação de componentes COTS no ambiente espacial, experimentos de enlaces de telecomunicações com constelações de satélites de órbita baixa e aquisição de medidas de radiação e campo eletromagnético, para processamento pelo Estudo e Monitoramento brasileiro de Clima Espacial (EMBRACE). O ITASAT-1, NanosatC-BR1 e BR2 fazem parte de uma rede de coleta de dados no espaço para alimentar o banco de dados do EMBRACE. Participar de missões mais ousadas em nível de cooperações internacionais como missões lunares (ESA - European Lunar Lander, por exemplo) é um passo a avaliar dentro de um planejamento criterioso, sim não podemos descartar, porém ainda não em curto prazo.

BRAZILIAN SPACE: - Cap. Eloi, o “Sistema Nacional de Coletas de Dados Ambientais (SINDA)” continuará sendo beneficiado com o projeto desse novo ITASAT-1?

CAP. ELOI FONSECA: Perfeitamente, um ponto a esclarecer é que o ITASAT-1 manteve em sua reformulação as missões básicas originais, formar e capacitar alunos e pesquisadores em projeto de sistemas espaciais e integrar-se ao Sistema Nacional de Coletas de Dados Ambientais (SINDA), através da participação do experimento DCS desenvolvido pela equipe do INPE-CRN e UFRN. Isto tudo esta ocorrendo sempre em coordenação com o INPE no projeto, principalmente com a equipe do INPE-CRN que esta trabalhando no projeto do experimento DCS e no satélite CONASAT.

BRAZILIAN SPACE: Cap. Eloi, como o ITASAT-1 será monitorado pelo ITA, já existe alguma infraestrutura para isso?

CAP. ELOI FONSECA: Já esta em plena operação a estação de telecomando e controle do ITASAT -1 que é a mesma que hoje monitora os dados de telemetria do NanosatC-BR1. Esta estação foi adquirida pelo projeto do NanosatC-BR1 e instalada no ITA, sendo operada pelo pessoal do ITASAT-1. Desta forma já temos o pessoal capacitado e infraestrutura pronta para o monitoramento e controle do ITASAT-1, o qual poderá ser monitorado também pelos radioamadores como ocorre com o NanosatC-BR1. A estação de solo de Santa Maria também servirá de apoio no monitoramento do ITASAT-1, assim como nossa equipe apoia atualmente o NanosatC-BR1, assim estamos com uma estrutura de trabalho prevendo a plena integração das equipes e projetos NanosatC-BR1, BR2, AESP-14 e ITASAT-1.

Estação de Solo do Projeto ITASAT-1

BRAZILIAN SPACE: Cap. Eloi, como o senhor avalia a má vontade política com Programa Espacial Brasileiro e a falta de apoio do atual governo com os nossos projetos de veículos lançadores de satélites?

CAP. ELOI FONSECA: Peço desculpas, mas como militar da ativa não posso me manifestar a este respeito, a assessoria de imprensa do Comando da Aeronáutica é que seria competente para se manifestar publicamente sobre estes assuntos.

(OBS: Quando formulei essa pergunta não tinha ideia de que o Cap. Eloi Fonseca fosse militar. Pensei que ele fazia parte da classe de docentes civis do ITA).

BRAZILIAN SPACE: Finalizando Cap. Eloi, o senhor teria algo a mais a dizer para os nossos leitores?

CAP. ELOI FONSECA: As perspectivas para a pesquisa espacial nas universidades brasileiras são otimistas, considerando a flexibilidade e acessibilidade dos projetos baseados em cubesats. O ponto forte a se investir é o trabalho cooperativo entre instituições, estamos fazendo nossa parte entre os grupos do INPE (BR1, BR2 e CONASAT), do próprio ITA (AESP-14), de forma que os projetos não são isolados ou desvinculados, mas fazem parte de um planejamento coeso, com clientes reais para os produtos gerados pelos experimentos (dados para o EMBRACE e SINDA), além dos experimentos com imagens geradas pelo ITASAT. O objetivo do desenvolvimento de um projeto com documentação completa, clara e concisa, em estrutura de módulos de serviço funcional com capacidade disponível de massa, energia e espaço físico de 3U (10x20x30cm) permite projetar novas missões em prazos curtos e com custo de desenvolvimento otimizado. A confiança e apoio sempre demonstrado pela comunidade constitui o principal motivador do projeto ITASAT-1 e merece os resultados que almejamos, agradecemos a todos que nos apoiaram sempre.

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