LNNano Estuda Triboeletricidade
Olá leitor!
Segue abaixo uma nota postada ontem (06/08) no site do
Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) destacando que o Laboratório Nacional de Nanotecnologia
(LNNano), em Campinas, está estudando a “Triboeletricidade”.
Duda Falcão
LNNano Estuda Triboeletricidade
Ascom do MCTI
Assessoria de Comunicação CNPEM/LNNano
06/08/2012 - 15:45
Fenômenos
eletrostáticos desafiam filósofos e cientistas desde que Tales de Mileto, por
volta de 600 A.C, esfregou um pedaço de âmbar com lã e constatou que a resina
petrificada atraía pedacinhos de palha. Este simples experimento ainda não é
bem compreendido e não existem teorias que expliquem efetivamente esse
fenômeno, também conhecido como triboeletricidade.
O tema foi
objeto de artigo recente, assinado por pesquisadores brasileiros, entre eles, o
diretor do Laboratório Nacional de Nanotecnologia (LNNano), em Campinas, e
coordenador do Instituto Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação em
Materiais Funcionais (Inomat), Fernando Galembeck. “Em nanotecnologia, o
problema é ainda mais grave: quando se reduz a escala, o efeito da carga
estática se torna maior que o do peso”, assinalou Galembeck.
A falta de
entendimento da triboeletricidade tem tido como consequência negativa inúmeros
desastres causados por descargas eletrostáticas – a destruição de um silo de
farinha, em Turim, em 1785; o incêndio do dirigível Hindenburgo, em 1937; o
acidente com o Veículo Lançador de Satélites (VLS-1 V03), no Maranhão, em 2003
e numerosos outros incêndios e explosões, alguns deles com muitas vítimas.
Apesar da
limitação científica, várias tecnologias eletrostáticas são praticadas com
sucesso como as de fotocopiadoras e impressoras a laser, a pintura
eletrostática, a eletrofiação e a reciclagem de plásticos.
A eletrostática
é normalmente considerada como sendo uma disciplina da física, mas os métodos
aplicados ao seu estudo não tem produzido boas soluções. Muitos pesquisadores e
engenheiros vêm tentando explicar a separação de cargas elétricas que produz a
triboeletricidade como resultado da transferência de elétrons, mas isso só foi
demonstrado no caso de metais e semicondutores. Nos sistemas vivos, a
eletrização é consequência da transferência de íons.
No caso dos
materiais isolantes, como os plásticos, vidros e cerâmicas, não se sabe quais
são as entidades portadoras de cargas nem como essas cargas são transportadas
de uma superfície para outra quando esses materiais adquirem carga elétrica
estática.
O grupo de
pesquisadores do Inomat acabou se envolvendo com o problema da triboletricidade
em 1998, quando, estudando a microquímica de polímeros, observaram a
distribuição dos componentes numa amostra de látex. “Utilizando a microscopia
de transmissão associada à espectroscopia de perda de energia de elétrons e à
microscopia Kelvin, constatamos que partículas de látex, que sempre foram
tratadas como elementos neutros, são de fato multipolos elétricos”, lembra
Galembeck.
Análise
Ao longo de mais
de dez anos, o grupo analisou cerca de 100 amostras para concluir que, em escalas
nanométrica e micrométrica, isolantes sempre apresentam domínios com excesso de
cargas positivas e negativas, lado a lado. “A regra não é a
eletroneutralidade”, enfatiza o diretor do LNNano.
As pesquisas
avançaram com a utilização de wafers de silício recobertos com sílica e tiras
de ouro, formando um conjunto de eletrodos interdigitados. “Medimos o
comportamento da amostra com diferentes percentuais de umidade e constatamos
que a sílica adquire carga negativa quando a umidade se aproxima de 70%”, lembra
Galembeck. “Confirmamos que, ao mudar a umidade, muda também o grau de
eletrização e concluímos que a atmosfera participa do processo de troca de
carga.” A publicação, em 2010, dos resultados que demonstram o fenômeno da
higroeletricidade provocou uma grande onda de interesse.
Em 2012, o grupo
publicou uma nova descoberta: mapas de carga de amostras de PTFE
(politetrafluoroetileno) atritadas contra outras de polietileno mostram regiões
macroscópicas com excesso de cargas negativas e positivas formados por resíduos
de PTFE negativos e resíduos de polietileno, positivos. A identificação dos
portadores de cargas foi feita usando microespectrometrias Raman e
infra-vermelha, além de pirólise: a região positiva da amostra de PTFE
apresenta resíduos de carbonização , evidenciando a presença do polietileno.
Etanol e outros solventes extraem as cargas depositadas sobre os plásticos e a
análise dos extratos mostra que as regiões negativas são formadas por resíduos
de PTFE.
Como entender
essa separação de carga nos dois materiais? O mecanismo proposto pelos autores
considera, em primeiro lugar, que o atrito entre duas superfícies de polímeros
provoca a extensão das cadeias de átomos da superfície dos plásticos. Algumas
cadeias se rompem formando radicais livres, que são as terminações das cadeias com
elétrons desemparelhados.
Estes radicais
são instáveis e tendem a formar outras substâncias e uma das possibilidades é a
transferência de um elétron dos radicais que tem menor afinidade por elétrons
(os do polietileno) para os que tem maior afinidade, que são os do PTFE. Dessa
forma, os radicais de polietileno transformam-se em íons positivos e os do PTFE
em íons negativos. As cargas opostas dos íons tendem a se atrair, mas estão
presas a grandes cadeias poliméricas que são sempre imiscíveis, segundo a
teoria de Flory, das soluções de polímeros. Portanto, as cargas positivas
acumulam-se em uma região da amostra e as negativas em outra região, contígua.
Artigo
Essa explicação
está detalhada no artigo recentemente publicado por Thiago A. L. Burgo, Telma
R. D. Ducati, Kelly R. Francisco, Karl J. Clinckspoor, Fernando Galembeck e
Sergio E. Galembeck (Triboelectricity: Macroscopic Charge Patterns Formed by
Self-Arraying Ions on Polymer Surfaces, Langmuir 2012, 28, p. 7407–7416. DOI:
10.1021/la301228j), cujo conteúdo foi também apresentado na reunião da
Eletrostatic Society of America, realizada em junho de 2012 no Canadá.
A apresentação
rendeu ao doutorando Thiago de Lima Burgo o segundo prêmio, concedido a
trabalho apresentado por estudante. O trabalho foi também apresentado em
Sendai, no Japão, na conferência da International Association of Colloid and
Interface Scientists em junho, no Fórum da World Academy of Ceramics em
Perugia, em julho e será apresentado no Fall Meeting da American Chemical
Society, em agosto. Uma outra publicação apresentando novos resultados foi
aceita pela Chemistry Letters da Chemical Society of Japan e uma terceira está
em preparo.
Os resultados
experimentais e o modelo teórico contidos nessa publicação foram discutidos na
edição julho/agosto da revista American Scientist, editada pela sociedade Sigma
Xi, num“feature article” intitulado What Creates Static Electricity, escrito
por Meurig Williams. Este é um pesquisador destacado na área e que trabalhou
por um longo período no Xerox Webster Research Center (American Scientist
July-August 2012, vol. 100 (4), p.316. DOI: 10.1511/2012.97.316). No artigo ele
faz um resumo dos desafios e progressos recentes nas pesquisas sobre
triboeletricidade, destacando o trabalho de Burgo e seu colegas do Inomat.
Fonte: Site do Ministério da Ciência, Tecnologia e
Inovação (MCTI)
Comentário: Creio que essa notícia seja do interesse dos pesquisadores que atuam nas atividades espaciais brasileiras.
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