Entrevista com o Astronauta Marcos Cesar Pontes


Olá leitor!

Desde que resolvi criar o blog “BRAZILIAN SPACE” tenho o desejo de entrevistar as personalidades do PEB que mais tem contribuído para o futuro do programa. Sendo assim, não poderia deixar de ter como meta entrevistar uma dessas personalidades que é um grande exemplo de brasilidade.

Refiro-me ao astronauta Marcos Cesar Pontes, um brasileiro que tem contribuído muito para o ensino das ciências e na luta pela educação de qualidade entre as crianças e jovens de escolas públicas e privadas do país inteiro.

Assim sendo, entramos em contato com sua assessoria de imprensa representada pelo Sr. Hermes Suzuki (ao qual agradecemos publicamente a atenção) solicitando ao astronauta a gentileza de responder algumas perguntas visando assim esclarecer as dúvidas e curiosidades do blog.

Prontamente após a sua assessoria ter enviado as perguntas via e-mail ao astronauta em Houston, o mesmo as respondeu com propriedade esclarecendo todas as nossas dúvidas e curiosidades.

Aproveito para agradecer ao astronauta Marcos Cesar Pontes pela atenção dispensada ao blog “BRAZILIAN SPACE” e transcrevo abaixo na íntegra para o leitor a entrevista realizada com o mesmo.

Duda Falcão

Bom coronel gostaria de iniciar a entrevista com a seguinte pergunta:

BRAZILIAN SPACE: Qual é a sua visão do cancelamento do programa Constellation por parte do presidente Obama?

MARCOS PONTES: Por enquanto isso é uma possibilidade. A sugestão do Presidente ainda precisa ser analisada e aprovada pelo Congresso. Com centros da NASA distribuídos por diversos estados e empregando milhares de eleitores em cada um deles, certamente haverá forte rejeição política à essa sugestão. Precisamos esperar para ver o que acontece. Historicamente, todas as vezes que algum orçamento importante foi colocado como passível de corte, a NASA acabou conseguindo ainda mais recursos do que o original. Eles tem um bom histórico.

BRAZILIAN SPACE: Coronel, qual é a atual situação do Brasil junto ao programa da “Estação Espacial Internacional”, o Brasil foi realmente expulso do programa?

MARCOS PONTES: O Brasil não foi expulso do programa, apesar de nunca ter conseguido produzir as partes acordadas na indústria nacional. Depois de esgotadas as negociações entre NASA e AEB para a continuidade do programa, a discussão “subiu” para o nível MRE e Departamento de Estado. Lembre-se que este é um acordo assinado entre dois países e não entre duas agências. O acordo nunca foi cancelado. Atualmente, o pais continua no programa em uma situação de congelamento técnico. Isto é, não há nenhuma parte da espaçonave que possa ser produzida no país e encaixada nos manifestos dos vôos (que já estão fechados). Porém, dependendo das direções que o programa constelação tomar, o programa da ISS pode ter modificações e impulsos, o que pode até reativar a nossa participação.

BRAZILIAN SPACE: Qual é a sua atual função em Houston?

MARCOS PONTES: Eu tenho a função de astronauta. Isto é, fico à disposição da AEB para uma nova escalação para vôo espacial. Posso ser escalado a qualquer momento, à critério único de decisão da AEB/Governo Brasileiro. Uma escalação ocorre normalmente com 1 ano a 6 meses de antecedência. A partir do momento da escalação, eu passo a ter dedicação exclusiva ao treinamento específico da missão (atualização de sistemas, procedimentos específicos, experimentos, etc.). Da mesma forma que falamos dos possíveis impactos dos destinos do programa constelação sobre o programa da ISS, também as probabilidades de uma nova escalação podem ser alteradas por isso. No momento, acho improvável (porém muito mais simples do que antes do ano de 2000, visto que agora o Brasil tem um astronauta profissional formado e à disposição). Enquanto não sou escalado, caso a AEB precise de algum contato técnico que eu possa realizar em Houston, eu também estou à disposição para executar. Isto é, fico à disposição como liaison técnico (função que já tenho desde 2000). Com a situação de “congelamento técnico” do Brasil na ISS, as coisas estão extremamente silenciosas no setor técnico também.

BRAZILIAN SPACE: O senhor está atualmente envolvido diretamente com algum projeto de desenvolvimento ligado ao PEB?

MARCOS PONTES: O meu trabalho, seja como professor, ou como pesquisador, ou como Diretor Técnico Espacial do Instituto Nacional para o Desenvolvimento Espacial e Aeronáutico, ou junto à AEB, tem impactos importantes para o desenvolvimento do PEB. Como visto nas questões anteriores, o meu envolvimento direto é com a AEB, que é o órgão central de estratégia e administração do PEB. A execução dos projetos técnicos do PEB fica por conta, basicamente, do CTA e do INPE. Além da participação direta, pelos últimos doze anos, no projeto da Estação Espacial Internacional, certamente, eu represento um grande trunfo no PEB no setor técnico de gerenciamento de projetos, desenvolvimento de RH, e nas relações institucionais do programa. Eu conheço e trabalho com os mais avançados projetos do setor espacial do mundo há muitos anos. Essa experiência tem sido atualmente focada para o setor do PEB onde temos um enorme gargalo: a motivação e formação de recursos humanos. Nesse ponto, além da motivação de jovens para as carreiras de C&T em todo o Brasil através de palestras, AEB escola, mídia e eventos educacionais, eu trabalho junto à USP em São Carlos, no Departamento de Engenharia Aeronáutica, para a criação de um curso público de engenharia aeroespacial que possa envolver pessoal altamente qualificado de diversos países (NASA, JAXA, ESA, etc) para formarmos engenheiros de grande gabarito para o nosso programa espacial.

BRAZILIAN SPACE: Coronel, o seu trabalho no setor de educação junto às escolas da rede pública através da organização FIRST e de sua participação no programa “AEB Escola” é exemplar e merecedor de todos os elogios. No entanto, não existe por parte do senhor a idéia de realizar um programa semelhante ao prestado pela FIRST com o apoio de alguma instituição brasileira, como a Petrobrás, por exemplo?

MARCOS PONTES: Tentamos algumas aproximações com possíveis sponsors para programas de educação, como a AEB escola. Infelizmente, diferente dos USA, onde iniciativas voltadas para a educação, como a FIRST, tem muitos patrocinadores (a FIRST tem 4000 patrocinadores), os patrocinadores no Brasil não se interessam tanto pelo assunto educação. Isto é, de forma geral, aqui é mais fácil conseguir patrocínio para um show de pagode do que para um programa educativo.

BRAZILIAN SPACE: Coronel, o astronauta de origem costa riquenha, Franklin Chang Diaz, após ter deixado a NASA montou uma empresa que está atualmente envolvida no desenvolvimento de um motor iônico (a plasma) que se espera ser o propulsor do futuro nas viagens espaciais. Com as devidas proporções e com o conhecimento adquirido pelo senhor durante todo seu período de formação, uma empreitada como esta não poderia ser realizada com o apoio do governo ou com recursos privados visando acelerar o desenvolvimento de motores-foguetes líquidos no Brasil?

MARCOS PONTES: Sem dúvida! O empreendedorismo deveria ser mais incentivado nesse setor no Brasil. Além disso, precisamos ter uma participação MUITO mais ativa do setor privado na área de pesquisa e desenvolvimento. No Brasil isso é praticamente uma função exclusiva do setor público, ficando o setor privado apenas na produção. No cenário atual, e se queremos participar do mercado internacional de alta tecnologia, a parceria dos setores público, privado, e terceiro setor, é algo ESSENCIAL!

BRAZILIAN SPACE: Recentemente em entrevista ao blog o Coronel Antônio Carlos Kasemodel do IAE divulgou que o instituto está se mobilizando com a DLR alemã para desenvolverem em conjunto o VLM-1 (Veículo Lançador de Microsatélites). Em sua opinião realmente existe mercado para esse tipo de foguete no mundo?

MARCOS PONTES: Existe, mas para isso, na minha opinião, é preciso ter um pacote completo e competitivo. A inclusão das operações de lançamento, telemetria e tratamento de dados poderia tornar o produto bastante atraente para universidades, empresas e centros de pesquisas de diversos países.

BRAZILIAN SPACE: Coronel, o INPE, a UFABC, a UnB, UNESP, USP, UFRJ e o ON estão numa luta difícil para aprovar junto ao AEB/MCT um dos projetos de desenvolvimento que o blog considera como sendo um dos mais inovadores surgidos no PEB nos últimos anos, ou seja, o projeto ASTER (missão para um asteróide próximo da terra) em parceria com os russos. Em sua opinião, quais seriam os ganhos de uma missão como essa para o Brasil, caso a mesma venha a ser aprovada?

MARCOS PONTES: Sou favorável ao projeto, mas observo que é essencial que o projeto tenha uma forte componente de interação internacional no desenvolvimento dos sistemas e operação da missão. O que quero dizer com isso é que precisamos ir muito além da construção de algumas partes no Brasil e da integração das mesmas no equipamento (sem troca de conhecimento de desenvolvimento). Precisamos ter intercâmbio intenso de pesquisadores, engenheiros, etc., com participação ativa do nosso pessoal durante todas as fases e com foco nos sistemas que mais nos interessam como controle e propulsão.

BRAZILIAN SPACE: Coronel, tem chegado ao nosso conhecimento rumores ainda não confirmados de que o acordo de cooperação espacial com os russos para o desenvolvimento do motor L75 e do VLS ALFA não vai bem, inclusive com os russos se recusando a cumprir o acordado, o que em nossa opinião não é de se estranhar, já que o governo brasileiro não vem dando a atenção devida a esse crucial acordo, preferindo apoiar a mal engenhada ACS e completando o desastre esta de namoro explicito com a EADS Astruim. Qual é a sua opinião sobre esta situação toda?

MARCOS PONTES: Não tenho conhecimento dos detalhes desses possíveis “ruídos” nos projetos. Contudo, pela experiência do Brasil na ISS, é importante que haja muita análise nos termos dos acordos durante a fase de negociação e que, uma vez assinados, eles sejam cumpridos à risca e com toda a consideração internacional necessária e que haja toda a transparência possível com as partes interessadas. Isso costuma evitar problemas dessa natureza.

BRAZILIAN SPACE: Em uma recente entrevista do senhor a “Rádio Vida Nova” de Jaboticabal (SP), o senhor ressaltou a importância do Programa de Microgravidade da AEB para o Brasil, programa esse que vem fazendo um vôo de quatro em quatro anos. O senhor não acha que essa freqüência baixa de vôos prejudica o andamento das pesquisas em curso desestimulando o pesquisador e levando-o a procurar outras opções?

MARCOS PONTES: Concordo 100% contigo. A freqüência de vôos é baixa e não é só isso que nos prejudica. Precisamos ter mais meios de desenvolvimento científico disponíveis: rede de tecnologia ativa e forte, para congregar instituições de pesquisa, academia, empresas e AEB, focando e centralizando o conhecimento gerado em alinhamento com as políticas ditadas pela AEB, temos que ter um grupo dedicado para análise e aprovação de experimentos e projetos e também temos que ter laboratórios e meios (como aeronave tripulada para zero g, centrifuga, torre de soltura, UAVs para zero g, satélites/plataformas para experimentos, etc.). Alem de tudo isso, temos que ter maior interação entre os setores publico e privado, maior estabilidade de orçamentos e objetivos dos projetos, e um plano de carreira mais “atraente” para o pessoal de pesquisa e desenvolvimento no setor.

Este problema é exatamente o foco principal do nosso trabalho na USP, no Instituto de Estudos Avançados, com a criação, idealizada pelo Professor Dr. Sérgio Mascarenhas, da ALICE (Associação de Laboratórios Interdisciplinares de Ciências Espaciais) .

BRAZILIAN SPACE: Continuando no Programa de Microgravidade da AEB coronel, em 21/11/2006 foi lançado pela a agência o 3° AO (Anúncio de Oportunidade) que previa o lançamento de experimentos por um foguete VSB-30 (estava prevista para ocorrer em julho de 2008 e está agora prevista para outubro de 2010) e uma outra série de experimentos (prevista para ser lançada em setembro de 2009 e atualmente sem previsão de lançamento) que seria enviada a estação espacial por uma nave Soyuz. O senhor sabe quando essa missão para a ISS será realizada?

MARCOS PONTES: Todo o cenário envolvendo missões internacionais para a ISS está um tanto “nebuloso” no momento, enquanto os USA não decidem sobre o programa Constelação. Assim que a decisão seja feita nos USA e a situação estabilizar teremos uma condição melhor de “apontar” o nosso esforço. O que eu espero, e o que eu lutarei para acontecer, é que consigamos incluir o Brasil, nossas universidades, centros de pesquisas e empresas, no desenvolvimento de experimentos e sistemas interessantes para o nosso pais no programa em parceria com a NASA (ou com as empresas do setor privado responsável), ou em outra hipótese, com a Rússia ou o Japão (com o qual tenho ótimo relacionamento devido aos anos de trabalho no programa do Kibo).

BRAZILIAN SPACE: Bem coronel, completando a nossa pequena entrevista, existe alguma previsão ou data agendada para um segundo vôo do senhor ao espaço?

MARCOS PONTES: Ainda não. Mas a expectativa é sempre muito grande. Logicamente, sei que, com toda a incerteza do momento no programa americano e as atuais prioridades do PEB, a probabilidade de uma escalação são baixas. Porém....são muito maiores do que eram antes de 1998. Pense nisso: naquela época, eu sonhava com o espaço, mas não havia como. Era como se existisse uma floresta densa entre meu sonho e eu. Hoje eu continuo sonhando com o espaço... e, ao invés da floresta, existe uma estrada de asfalto (interditada temporariamente) que pode me levar de volta ao espaço, ou levar um dos meus alunos para lá (o que me deixaria até mais, feliz!!!)

Comentários

  1. ÔÔoooo gente....com todo respeito pelo nosso astronauta vamos deixar de nos iludir. Ninguém fica, como ele diz, "à disposição da AEB", ou qq. outra empresa, sem receber salário. Pode confirmar onde quiser. Ele está nos EUA por razões particulares e sem receber nada do Governo brasileiro, fora sua aposentadoria. Sem vôo, sem ilusão, sem sonho. Vida real minha gente!

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