Quem tem Medo da Hidrazina?

Caro leitor!

Mesmo tendo uma vasta documentação sobre o Programa Espacial Brasileiro em meus arquivos, às vezes passo em branco devido à quantidade de material e por trabalhar sozinho. Sabendo que em algum lugar eu tinha um artigo esclarecedor sobre os malesbenefícios da Hidrazina (quando utilizada com responsabilidade)  e motivado pelos diversos e-mails que recebi de leitores e de pessoas favoráveis a esse desastroso acordo com a Ucrânia, inclusive chegando, em alguns momentos, ao cúmulo de negar os malefícios gerados por essa substância tóxica, fui à luta, e encontrei o artigo que procurava. Nada mais, nada menos que um artigo escrito por dois pesquisadores do LCP (Laboratório Associado de Combustão e Propulsão) de Cachoeira Paulista (SP), que é ligado ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), publicado na primeira edição (Nov/Jan de 2007) da Revista ESPAÇO BRASILEIRO, revista editada pela própria Agência Espacial Brasileira (AEB). O artigo descreve o uso dessa substância na área espacial e em outras áreas e suas consequências para o meio ambiente e para saúde das pessoas. Espero que assim, se encerre de vez essa discussão sem sentido.

Duda Falcão

Artigo

Quem tem Medo da Hidrazina?

D. Bastos Netto e C.E.R. Salles
Laboratório Associado de Combustão e Propulsão (LCP)
INPE – Cachoeira Paulista (SP)
Revista Espaço Brasileiro
Nov/Jan 2007

Banco de teste com simulação de altitude infravermelho

Muito tem sido falado sobre as implicações e riscos no emprego de combustíveis como a NDMA e as hidrazinas na propulsão de lançadores e satélites. Por um lado é sabido que a NDMA – sigla da n-Nitrosodimetilamina/(CH3)2 N20 – foi utilizada “para fazer combustíveis de foguetes”, entretanto, tal uso foi interrompido após níveis elevados da substância terem sido detectados em amostras do ar, da água e do solo colhidas nas proximidades de uma fábrica daquele material. A exposição de indivíduos a doses muito elevadas de NDMA induz a doenças hepáticas.

Efeitos sobre o fígado de animais que respiram o ar, bebem água ou comem alimentos com altas doses de NDMA também são constatados. A exposição de animais à NDMA resultou num aumento de frequência de câncer no fígado e nos pulmões daquelas populações. Embora não haja informação disponível sobre o fato de que a NDMA cause câncer em seres humanos, o DHHS (Department of Helth and Human Services) dos EUA determinou que a NDMA pode, razoavelmente, ser considerada por antecipação como cancerígena para o homem.  A EPA (Environmental Protection Agency, dos EUA) recomenda que os níveis de NDMA em lagos e pequenos rios sejam limitados a 0,00069 PPB.

Aquela Agência também exige que derramamentos acidentais de mais de 10 Lbs. de NDMA sejam imediatamente notificados à mesma. (Referência: ToxFAQs for NDMA, Ca 62-75-9, July 1999).

Este, entretanto, não é exatamente o caso da Hidrazina (N2H4) propriamente dita, nem de suas co-irmãs, a MMH – sigla de mono metil hidrazina/CH3N2H3 – e a UDMH – sigla da di-metil hidrazina assimétrica/ (CH3)2N2H2 (a que será usada nos motores do Cyclone-4) -, embora a figura abaixo sugira ao incauto enorme semelhança entre está ultima e a NDMA.


“Semelhança” Entre a NDMA e a UDMH

As hidrazinas têm sido empregadas há décadas em todas as fazes da propulsão espacial, isto é, do veículo lançador ao motor de apogeu (AKM – Apogee Lick Motor) e ao controle de atitude do satélite, e com a NDMA, também são, sem exceção, todas elas prejudiciais a saúde. É sabido que essas três hidrazinas são carcinogênicas, gerando, coincidentemente, e sobretudo lesões hepáticas.

Entretanto, isso não impede, absolutamente, o uso cuidadoso das mesmas (coisa que não se aplica no caso do Cyclone-4, já que toneladas dessa substância serão jogadas na atmosfera sobre as cabeças dos pobres maranhenses há cada lançamento, fora o tremendo risco de acidente que está sempre presente em lançamentos espaciais) naquela atividade. Aliás, a hidrazina, um forte redutor, é também usada como regente em células a combustível de uso militar, em processos de aplicação de níquel, na polimerização de uretanas e é, há muito tempo, empregada na limpeza de caldeiras e na indústria farmacêutica (tanto é o poder do regente que vale lembrar um antigo samba de Moreira da Silva, cuja letra sugere que, entre outras substâncias para tratar de seu desafeto, seja usada hidrazina...).

Em particular, por outro lado, o sulfato de hidrazina tem sido usado no tratamento de câncer e de alguns efeitos colaterais causados pela enfermidade (aparentemente, o sulfato de hidrazina bloqueia o tumor sequestrando glicose, item essencial para o crescimento do mesmo). Historicamente, há notícias de que a própria hidrazina foi utilizada como agente terapêutico no tratamento de tuberculose, de certas anemias e de doenças crônicas não especificadas. É óbvio que as hidrazinas, entre elas a UDMH, são, como a NDMA, também prejudiciais à saúde. Além disso, como a NDMA, as hidrazinas também formam com o N2O4 (Tetróxido de Nitrogênio) um par hipergólico (isto é, a ignição ocorre no instante da mistura dos dois componentes), existindo, assim, sempre o risco de explosões. Não deve ser esquecido que – dada a pressão de vapor no N2O4 – essa substância uma vez liberada no ambiente transforma-se imediatamente em N02, um dos “bichos-papões” da famigerada clã dos NOx (NO2NO). Além disso, se inalado, o Nox acidula, isto é, ácido nítrico, com consequências muitas vezes fatais.

Por outro lado, o fato é que o risco é inerente à atividade. Entretanto, nas operações de transporte, armazenamento, carregamento e uso desses propelentes há que se tomar cuidado com a população vicinal, ainda que, por conta da excelente localização de Alcântara, não pareça crítico o emprego daquele para Hidrazina + Tetróxido de Nitrogênio no CLA. O mesmo não acontece em outros campos de lançamento, cercados que são por grandes concentrações de população. (Aqui os autores cometeram em nossa opinião um grande erro, não levando em consideração a saúde dos servidores do CLA e das comunidades quilombolas que também são humanos e que terão de conviver com as toneladas dessa substância jogadas sobre suas cabeças a cada lançamento, fora o fato de que o CLA encontra-se apenas a 50 km em linha reta da capital do estado e num eventual acidente, só mesmo Deus pode dimensionar o tamanho da catástrofe.)

Finalmente, eis que os “propelentes verdes” estão chegando (“Green propellants”,propelentes que consistem em pares – combustível + oxidante – ecologicamente corretos, impulsionados pela não-agressividade ambiental de suas composições e pelo bom comportamento de seus produtos de combustão, incapazes de piorar o efeito estufa ou infligir mais danos à camada de ozônio). Aliás, segundo a Hipótese Gaia, do cientista inglês James Lovelock, o Planeta se recuperará num tempo astronômico, mas o homem poderá se extinguir em pouco tempo, com ou sem hidrazina. (Legal essa última colocação dos autores, e eu sugiro aos mesmos que antes que isso aconteça, se deliciem comprando um terreno próximo a Base de Alcântara e assistindo da varanda o lançamento do Cyclone-4).



Fonte: Revista Espaço Brasileiro - Num. 01 - Nov - Jan de 2007 – págs. 16 e 17

Comentários

  1. Interessante artigo.
    Haveria a possibilidade de disponibilizar um link para o original? (Revista)
    Abracos

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    1. Caro Robson!

      Olha, eu tirei o artigo da Revista Espaço Brasileiro - Num. 01 - Nov - Jan de 2007 – págs. 16 e 17. Tentei entrar no artigo através do antigo site da AEB de onde você poderia baixar uma cópia da revista, mas já parou de funcionar. De qualquer forma vê se você consegue.

      Abs

      Duda Falcão
      (Blog Brazilian Space)

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  2. Fiquemos atentos, pois em 2007, eles já mandaram essa "pérola" de artigo, para usar depois como justificativa.

    Que tal uma "surra de cansanção" com hidrazina nesses caras?

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  3. Temos que olhar a hidrazina com alguma seletividade.
    Foguetes lançadores com hidrazina estão se tornando mais raros é verdade.
    O ultimo foguete americano a hidrazina foi o Titan-IV aposentado em 2005. Os seus substitutos Delta-IV e Atlas-5 utilizam hidrogênio e querosene respectivamente como combustível e LOX como oxidante.
    Os últimos foguetes europeus com hidrazina foram o Ariane-4 aposentado em 2003. Substituído pelo Soyuz que é utiliza querosene.
    O Japão nunca utilizando hidrazina como propelente principal. Seus foguetes líquidos empregaram querosene H-I e hidrogênio H-II

    Utiliza hidrazina atualmente como propelente principal.

    Índia: Lançador GSLV que é um derivado tecnológico do Ariane-4

    Rússia: Lançador Proton deve ser aposentado até 2020 e substituído pelo Angara que é propelido a querosene. Em lançadores derivados de mísseis balísticos convertidos como o Rockot cuja substituição deve ser feita pela versão leve do lançador VLS Soiuz-2.1V.

    China: Toda a família Longa Marcha, séries CZ-2, 3 e 4 . A versão CZ-5 prevista para ser o lançador pesado chinês planejado para voar em 2016 utiliza querosene.

    Iran: Lançador Safir

    Coréia do Norte: Lançadores Unha

    Embora a Hidrazina esteja em franca decadência como combustível de lançadores ela é a base da industria espacial em Upper Stages e retrofoguetes.

    No Brasil os 3 VLS construídos continham alguma hidrazina (alguns quilogramas) para controle de rolamento do foguete.

    A PMM Plataforma multi missão deve ter também alguns quilos de hidrazina para controle de altitude.

    Aeronaves de caça como o F-16 possuem alguns quilos de hidrazina em uma unidade auxiliar de força para casados de apagamento ta turbina em vôo manter potencia hidráulica até que ela seja religada ou o piloto se ejete.

    O Ônibus Espacial tinha vários quilos de hidrazina para as APU´s que forneciam potencia hidráulica aos SRB durante o inicio do voô. Isto alem das centenas de quilos para seus RCS e OMS eram empregados para mudanças de orbita e retorno a terra.

    Praticamente todo satélite de media ou alta complexidade utiliza hidrazina, não tem como fugir dela.

    A minha visão contraria a ACS nem é exatamente pelo uso de hidrazina no Cyclone-4, também por isto, mas principalmente pelo modelo de negocio que envolve a ACS que não trás ganho algum ao Brasil e consome preciosos recursos de outro programa.

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    1. Caro Eng. João Dallamuta!

      Permita discordar do senhor em parte. Usar motores Upper Stages movidos a hidrazina no vácuo do espaço ou em pequenas quantidades como no motor de rolamento do VLS-1 é uma coisa. Usar toneladas de Hidrazina desde o início do vôo como vai ser feito por esse trambolho tóxico Ucraniano sobre as cabeças das populações locais é outra coisa completamente diferente. Até mesmo a própria empresa já divulgou que um dos primeiro efeitos colaterais que ocorrerá na região uma hora e meia aproximadamente após cada lançamento será a chuva ácida, fora o risco de acidentes que caso venha ocorrer seria catastrófico. Além do mais sem necessidade e com opções tecnológicas muito mais ecologicamente corretas. Quanto ao resto, concordo em gênero, número e grau com o senhor.

      Abs

      Duda Falcão
      (Blog Brazilian Space)

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    2. Sr. Dallamuta, é bom lembrar também que a Argentina pesquisa seu lançador de satélites com este mesmo combustível (Hidrazina + Tetróxido de Nitrogênio). O uso também atingiria toneladas deste combustível.

      Um abraço.

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    3. Olá Anônino!

      E daí amigo. Se os Argentinos querem optar pelo caminho errado o problema é deles. Além do que um erro não justifica e jamais justificará outro.

      Abs

      Duda Falcão
      (Blog Brazilian Space)

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    4. Estou apenas complementando o pertinente comentário do Sr. Dallamuta. Ele tem absoluta razão quando demonstra que a hidrazina, apesar de apresentar uma queda no uso principalmente em países ocidentais, ainda representa parcela nada desprezível do mercado de lançadores e subsistemas espaciais.

      Um abraço.

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    5. Olá Anônimo!

      E daí amigo, então quando todos começarem a pular pela janela você também fará. O problema não é esse. O fato é que não se deve usar Hidrazina em estágios inicias de foguetes que atuem na atmosfera, e mesmo esses países citados só utilizam essa substância em upper stages ou em motores de satélite e sondas que atuam no vácuo do espaço e não na atmosfera, e aqueles países que não estão buscando outras soluções já pagam ou pagarão um alto preço por isso. Se você acha certo que esses energúmenos tragam esse lixo tóxico para cá, sugiro que compre um terreno próximo ao CLA e assista da varanda o lançamento do Cyclone-4. Ah, não esqueça de levar a sua família. Boa sorte.

      Duda Falcão
      (Blog Brazilian Space)

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    6. Nao sou a favor do uso de Hidrazina, mas acho que a mesma tem sido demonizada. Os perigos de uma chuva acida sao muito maiores com o lancamento de propelente sólido, cujo produto de exaustao contem quantidades significativas de Acido Cloridrico.
      Em um acidente com um veículo contendo hidrazina, os estragos nao sao tao grandes quanto se imaginam... Por conter seu par propelente (N2O4), ele praticamente quimaria por completo (Hipergolico)...
      Diferentemente do LOx/RP-1 que querose nechegaria ao solo.
      Entretanto, eu prefiro sim o LOx/RP-1... Mas a UDMH/NTO nao pode ser tao demonizada...

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    7. Olá Anônimo!

      Assunto encerrado.

      Abs

      Duda Falcão
      (Blog Brazilian Space)

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    8. Ola Duda,

      Eu concordo plenamente que um foguete com 100 de toneladas de hidrazina é uma coisa um satélite com 100Kg de hidrazina é outra. Minha intervenção é mais no sentido de que não se deve demonizar este propelente que queiramos ou não industria espacial não funciona sem ele.

      No caso da ACS eu acho que a hidrazina (que, diga-se de passagem, será importada da China) é um problema sim, mas não é o principal problema na minha opinião.

      A falta de viabilidade comercial do projeto e o baixo ganho tecnológico brasileiro no meu entendimento são os principais problemas que me fazem ser contra este programa.

      Fosse o Cyclone um lançador viável economicamente e um programa tecnologicamente bom para o Brasil teria meu apoio.

      O abandono da hidrazina no ocidente não é em função exatamente de nobres preocupações ambientais e sim custo mesmo.

      Um lançador com este tipo de tecnologia demanda muito mais infra-estrutura de armazenagem, transporte e abastecimento de propelente e cuidados de manuseio do que um a hidrocarbonetos, daí novos projetos optarem pelo abandono da hidrazina nos estágios iniciais.

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    9. Olá Eng. Dallamuta!

      Não estou querendo diminuir o uso da Hidrazina no setor espacial, sei de sua importância, mas existe a forma certa de usá-la e a forma errada de usá-la, sendo a que será adotada por esses energúmenos é a forma errada. Volto a insistir, utilizar toneladas de Hidrazina em estágios inicias de um foguete no meio atmosférico não é só um erro é uma tremenda insanidade. Utilizá-la em motores upper stages e em motores de satélites e sonda espaciais é algo aceitável no momento, já que os mesmos atuarão no vácuo do espaço. Além disso, existe a possibilidade de surgir contaminação ambiental, chuva acida, problema hepaticos e cancer nas populações da região e como o senhor sabe, existe ainda a possibilidade de acidente que sempre está presente em toda operação de lançamento de foguetes, acidente esse que se acontecesse seria catastrófico, seja com o foguete ou com o seu deposito. Além do mais, como o senhor mesmo disse, além dessa tecnologia ser uma opção cara devido as demanda apontadas pelo senhor, não existe motivo tecnológico que justifique essa opção, já que existem outras possibilidades tecnológicas muito mais econômicas e interessantes e ecologicamente corretas. O senhor está certo, a ACS tem outros problemas que são sérios e eles são apontados nas solicitações de nossa petição. Entretanto, considero o problema ecológico o pior deles, pois nada, nada, nada, em minha opinião justifica colocar as vidas e a saúde das pessoas em risco sem sentido.

      Abs

      Duda Falcão
      (Blog Brazilian Space)

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  4. Mesmo que o Cyclone-4 fosse propelido a querosene, eu ainda o enxergo como um foguete grande demais para as necessidades brasileiras.
    Na minha opinião deveriam existir apenas 2 lançadores no Brasil.

    O VLS até 300Kg, apenas com propulsores sólidos, deveria se concluído e lançado pelo menos 5 vezes até 2023. Seria o coroamento dos esforços com este lançador que datam de 1984 e até hoje não produziu resultados práticos por falta de foco no seu desenvolvimento. E querendo ou não é a tecnologia nacional que temos disponível de fato. O resto é pirotecnia em Power point.

    E um segundo lançador de combustível liquido para cargas de 800Kg a 1500Kg destinados a satélites científicos de maior porte.

    Deveriam esquecer estes planos de foguetes híbridos. Isto é pegar o pior dos dois mundos, as limitações dos sólidos e o custo dos líquidos.

    Já sofremos um bocado com a idéia de foguete cluster experimentada no VLS no papel parece ótimo, na pratica é um pesadelo estrutural e aerodinâmico. Gera um foguete completamente não otimizado.

    Senhores projetistas do IAE.

    Pensem com a elegância que só bons projetos de engenharia possuem.

    Desenhem partindo da folha de papel em branco um foguete de combustível liquido para 800Kg a 1500Kg LEO, Querosene +LOX, 3 Estágios. Motores de carbono-carbono com refrigeração abrasiva.

    Esqueçam sistemas regenerativos e suas complexas usinagens e soldas (pelo menos por enquanto), isto é necessário e utilizem filosofia back to the Basic.

    Sem boosters laterais, sem combinar envelope de aço com envelope bobinado com tanques de combustível criogênicos, como alguns projetos de vocês combinam. Isto é coisa de indiano, unem tres problemas estruturais em um projeto só.

    A mim da frio na espinha! Pensem de forma mais americana, produzam desenhos limpos, elegantes, racionais.

    Para concluir sobre o Cyclone-4:

    É grande demais para necessidades de satélites científicos governamentais é pequeno demais para o mercado comercial de lançadores geoestacionários.



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    1. Caro Eng. Dallamuta!

      Só discordo aqui que o VLM-1 (caso o senhor tenha incluído o mesmo no bolo) seja pirotecnia em Power Point. Na verdade, esse foguete tem mais possibilidade de sair do papel e acredito que sairá (segundo o que disse em sua entrevista o Ten-Brig-do-Ar Ailton dos Santos Pohlmann, diretor-geral do DCTA, o mesmo deverá voar no final de 2014 ou início de 2015 - veja o vídeo dessa entrevista aqui no blog) do que o próprio VLS-1, não só por causa da participação da Alemanha no projeto, mais principalmente porque é no momento o grande projeto do Brig. Kasemodel, que tem como respaldo o sucesso do projeto do VSB-30 coordenado na época por ele e justamente com o apoio dos alemães. Entretanto, o sucesso disso tudo irá depender da Presidente Chucky e seus Blue Cats, apesar de que os alemães irão pressionar muito, pois o SHEFEX III precisa ser lançado de Alcântara em 2016 dentro do cronograma, pois o lançamento do SHEFEX II atrasou todo o programa. Assim sendo, o VLM-1 deverá antes fazer um vôo de qualificação.

      Abs

      Duda Falcão
      (Blog Brazilian Space)

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    2. Agora estamos chegando lá !!!

      No entanto, existem mais questões além da parte técnica. Existem sérios entraves devido as características da nossa administração pública que conseguem tornar o que não é bom, ainda pior. Então vejamos uma proposta mais completa, Pegando um pouco de cada um.

      Concordo com o João que deveríamos ter apenas dois projetos de lançadores em andamento:

      Um lançador movido a combustível sólido, pois é uma tecnologia já teoricamente dominada, capaz de fazer o Brasil virar essa página e realmente entrar no seleto time de "nações espaciais". Porém, e ai pegando carona no que disse o Duda, a solução melhor para isso NESSE MOMENTO, seria o VLM, por ser conceitualmente mais simples e moderno, ao adotar uma quantidade menor de envelopes motores mais potentes que os do VLS.

      Outro um foguete movido a combustível líquido, com as características elencadas pelo João.

      Em resumo, o que eu acredito ser a melhor opção para o Brasil hoje em dia em termos estratégicos sobre veículos lançadores, seria:

      Direcionar TODO o foco para completar o VLM e certificá-lo. Em seguida usar esse lançador para colocar um satélite totalmente nacional em órbita, criando o marco “o Brasil está no espaço”. Passada essa fase, repassar tudo isso para a Aeronáutica e as demais forças armadas, apoiadas pela iniciativa privada nacional (ou o que restou dela), pois esse tipo de foguete é essencial para elas, e que daí desenvolvam os seus programas espaciais vinculados exclusivamente ao MD.

      Num segundo momento, direcionar TODO o foco para um projeto TOTALMENTE CIVIL de lançador a combustível líquido (sei que para isso precisaria ser criado um novo centro de P&D independente do IAE, ou que essa função passasse a fazer parte das atribuições do INPE), e que daí desenvolvam o programa espacial exclusivamente ligado ao MCT&I.

      Esse modelo de desenvolvimento em separado MILITAR - CIVIL, claro que com muita troca de informação e cooperação, tem sido adotado pelos Estados Unidos desde os primórdios da corrida espacial, e se demonstrou muito bem sucedido. O mesmo não ocorreu na União Soviética (hoje Rússia), pois lá na verdade, o programa espacial “pegou carona” nos lançadores militares, e na época, devido ao regime político, eles não tinham problema de falta de verbas.

      Ao meu ver essa é a única maneira de a coisa começar a "fluir melhor" por aqui.

      Abs.

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  5. Colegas

    A verdade é uma só..........hidrazina e derivados estão sendo banidos e o peróxido de hidrogênio está retornando com força total no mundo civilizado.
    Cluster é uma solução muito interessante, vale lembrar que a configuração da Soyuz é cluster......não preciso dizer mais nada. As vezes o custo de se otimizar é tão alto que não vale a pena.
    O povo brasileiro, infelizmente está pouco ligando para o PEB, não existe a cultura espacial no Brasil, assim os nossos governantes incapazes (reflexo do próprio povo brasileiro) só se preocupam com atitudes eleitoreiras, PEB não dará voto para ninguém, falta vergonha na cara e preocupação com o futuro da nação por parte do governo.......e o povo vai sendo manipulado.....futebol, carnaval, copa do mundo, trem bala..........triste.
    Miraglia

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    1. Discordo.
      Em satelites e outros motores RCS a hidrazina é a solução mais lógica.
      Seja em uso como Monopropelente, cujo Isp pode chegar a casa de 2350m/s, ou em bi-propelente com Tetróxido de (di)Nitrogenio, onde seu isp ultrapassa 3450m/s com facilidade e permite pulsos da ordem de poucos milisegundos. E ainda o mesmo pode ser estocado por décadas.
      Já o Peróxido de hidrogenio apresenta, como monopropelente, um Isp inferior a 1600m/s e, na forma de bi-propelente, seja com Etanol ou seja com RP-1, um Impulso especifico abaixo de 3300 e necessita ser decomposto, aquecido pelo processo de decomposição para somente entao ignitar a mistura, nao possibilitando pulsos curtos (como bi-componente). Outro fator contra o HTP (High Test Peroxide) é o fato da taxa de decomposição do mesmo ser elevada, nao permitindo uma estocagem prolongada.
      Vemos que até mesmo a Inglaterra abandonou seu uso. E os poucos que ainda trabalham com isso conhecem o seu baixo desempenho em comparação a Hidrazina. O que mantém seu estudo é apenas o desejo de substituir a hidrazina (seja UDMH, MMH, Aerozine, etc) por algo teoricamente mais ambientalmente correto (o que o HTP nao é necessariamente).

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    2. Olá Miraglia tudo bem?

      De fato a família R-7 (Soyuz) é cluster o foguete mais antigo do mundo em atividade, como posso citar o Delta-IV o projeto mais moderno do mundo também é um cluster, igualmente o Angara que deve voar em breve e se tornar um dos mais versáteis e modernos lançadores da atualidade.

      A questão precisa ser dividia, é que todos os foguetes citados acima são de propulsão liquida e ai alguns detalhes mudam, níveis de vibração e controle de aceleração por exemplo.

      O VLS precisa de uma série de artifícios por causa desta configuração quando a tempos de ignições, separação de estágios é complicação demais para desempenho de menos.

      Sobre o VLS e sua topologia cluster em uma opinião muito eloqüente do Sr Adalto Golveia Motta Major reformado da Aeronáutica, ex dirigente da regional nordestina do INPE.

      ÉPOCA - Duas tentativas de lançar o VLS fracassaram, a terceira acabou em tragédia. O foguete é ruim?
      Motta - Acredito que a escolha do modelo de nosso VLS tenha sido equivocada. Ele é cópia de um cluster (junção de vários foguetes), criado pela empresa canadense Bristol Aerospace. Em 1968, quando o pessoal da NASA veio à Barreira do Inferno treinar os brasileiros no lançamento de foguetes, os canadenses vieram junto para divulgar o produto deles. Quando o Brasil decidiu investir em um foguete lançador de satélites, somente em 1980, ainda se acreditava que o modelo da Bristol fosse interessante. Afinal, acharam que, juntando quatros foguetes que haviam sido aprovados individualmente, o VLS subiria sem problemas. Essa premissa provou-se falsa. No ano passado, procurei a Bristol Aerospace e soube que eles fizeram vários lançamentos do cluster, mas desistiram porque o modelo se mostrou impraticável.

      A entrevista completa esta em:

      http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EDR60274-6014,00.html

      Particularmente penso que o VLS sendo cluster ou não, sendo otimizado ou não é o foguete que temos e penso que precisa ser terminado para que a gente vire a pagina e projete novos foguetes com novas premissas.

      Não sou critico do seu projeto, pelo contrario um defensor.

      Sobre o uso de H2O2 em projetos modernos substituindo a Hidrazina,que você citou, você poderia me passar a relação de alguns destes projetos?

      Abs

      João Dallamuta

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    3. Oi João,

      Legal que você “pescou” essa entrevista, que reitera o que eu já havia afirmado em outro post (e fui mal interpretado), de que a "origem histórica do VLS é da década de 60".

      No entanto, me permito discordar de você nas considerações finais. Devido a todo o histórico e o conhecimento que temos hoje, na minha modestíssima opinião, o melhor para o país, para os cofres públicos e até para o próprio PEB, o ideal, seria "esquecer" o VLS, focar apenas no VLM, que vamos combinar, tem muito mais chances de ser bem sucedido, devido às questões técnicas que você mesmo elencou, até que se consiga lançar um satélite nacional com ele (VLM).

      Isso feito, repassar, ou “se livrar” de toda essa tecnologia de foguetes a combustível sólido a quem de direito e interesse, ou seja: as demais forças armadas em conjunto com o MD, e a iniciativa privada que quiser se dar bem com o excelente mercado de foguetes de sondagem já aberto e em franca evolução, e partir para projetos de pequenos foguetes movidos a combustível líquido, totalmente civis, sob a gestão exclusiva do MCTI.

      Só assim, estaríamos caminhando para dominar a tecnologia atual de foguetes movidos a combustível líquido, que no momento é a única com as características necessárias para colocar satélites relevantes em órbita e enviar sondas ao espaço profundo. Tecnologia essa, que outra nações dominam amplamente desde a década de 50, colocando as coisas nos devidos eixos, ou como dizem hoje em dia, "cada um no seu quadrado".

      Abs.

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  6. Olá Eng. Miraglia!

    Você disse tudo de forma clara e simplória amigo. Parabéns. Concordo contigo em gênero, número e grau.

    Abs

    Duda Falcão
    (Blog Brazilian Space)

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  7. O X-37B está utilizando peróxido de hidrogênio e JP-8, vejam
    http://www.thelivingmoon.com/45jack_files/03files/X_37B_Space_Plane.html

    Na Soyuz nos motores RD107 e RD108 é utilizado peróxido de hidrogênio no gerador de gás das turbo bombas......

    O programa espacial inglês infelizmente deixou de existir por causa da criação da ESA liderada pela França, vale lembrar que o Black Arrow colocou satélite em órbita utilizando peróxido de hidrogênio(85%) e etanol.

    O catalisador para o peróxido de hidrogênio pode estar dissolvido no combustível.........como no avião alemão ME-163 Komet, na Edge of Space fizemos testes e é perfeitamente viável.

    Para mim a hidrazina, derivados NTO, WFNA, IRFNA não são problemas, gosto desta solução mas o mundo está caminhando para uma solução sustentável, "verde", não necessariamente melhor ou realmente "verde".
    O VLS-1 para mim seja cópia ou não é ousado, um foguete bonito eu torço muito para seu sucesso, o VLM é um caminho perfeito e muito elegante.

    Abraços
    Miraglia
    www.edgeofspace.org

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  8. Eu particularmente gosto da solução do peróxido de hidrogenio também. Entretanto nao vejo sua utilização como algo eficiente.
    O mitivo da escolha do HTP para o X37B é tao obscuro quanto sua missão.
    No caso dos famosos motores da serie RD107 e 108, o uso de peróxido se deve a idade tecnologica deste motor. Derivado das versoes RD100 a 103 que por sua vez foram inspirados no motor da V2, esta era a tecnologia disponivel na época. Se tu analizar o Phi-TNA destes motores, verá que os mesmos sao baixo. Há a necessidade de uma guande quantidade de de HTP para sua utilização, enquanto o uso de um gerador de gases com o par propelente a ser queimado pela camara de combustao apresenta maiores vantagens nos idos atuais. Falo também de simplificação mecanica, pois a TPU da Familia RD107-108 necessita de uma bomba adicional de HTP fora do eixo principal, movido por engrenagens e pasme... lubrificado com o proprio HTP. Ah, e pecessita de outra bomba de LN2 para ser evaporado no trocador de calor, para pressurizar alem de tudo, o conjunto.
    O Black Arrow que utilizava HTP+RP1 (e nao Etanol) também mostra seu baixo desempenho.
    A solução de utilizar o HTP se dera pelo fato da Grã-Bretanha ter um maior dominio da produção deste do que do LOx. Isso fez com que fosse dado o passo principal a utilização deste componente tanto em seus misseis. Agora comparando a capacidade de carga do veículo, em função de sua massa inicial, vemos que o mesmo "perde feio" para diversos outros veículos de LOx/RP-1, UDMH/NTO, etc...
    O ME-163 utilizava o Cianeto de Potassio e Cobre dissolvido em Agua+Metanol+Hidrazina. Essa solução foi eficaz por nao precisar de ignição externa no sistema. Mas como os relatórios do motor Walter HWK- 109-509 relatam, a ignição poe este método é demorada e nem um pouco economica, podendo originar acidentes pelo acumulo do par propelente na camara de combustao durante a ignição hipergolica. Viável é (também já realizei testes com HTP, porem em concentração de 90%)... Seguro.. bem, nem tanto.
    Aliás, o HTP é extremamente reativo, podendo gerar queima expontanea da pele caso entre em contato.
    Isso sem falar que um acidente envolvendo este oxidante é dezenas de vezes mais letal do que um com UDMH.

    Também torço para o sucesso, tanto do VLS, quanto do VLM. E acredito no nosso programa espacial (nao acredito é nos nossos politicos)

    Abracos

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  9. Ola Miraglia, muito legal este nosso bate papo, me permita alguns comentários para acrescentar subsídios sobre tema.

    No caso do X-37 o uso de H2O2 me parece muito provável em função da necessidade de pós processamento do veiculo. Isto é, depois de retornar a terra ele precisa passar por manutenção e o uso do H202 permite que as equipes possam trabalhar com menor necessidade de proteção o que gera economia. No Ônibus Espacial o OMS e RCS não ofereciam esta possibilidade, mas me parece que as sofisticadas instalações de pós processamento e os custos envolvidos eram aceitáveis já que no Shuttle tudo era superlativo, inclusive o orçamento.

    No link abaixo um documento da NASA que fala sobre a sua propulsão ainda do projeto original de hidrazina e oxido nitroso, antes da mudança para H202. Muito legal para quem gosta do tema.

    http://ntrs.nasa.gov/archive/nasa/casi.ntrs.nasa.gov/20060004795_2006003679.pdf

    Um outro exemplo de uso de H202, é o RCS do modulo de descida da espaçonave Soyuz. O motivo é o mesmo do X-37, segurança de equipes de solo na fase pós vôo.

    Sobre o Soyuz (foguete), o uso de H202 é em gerador de vapor era a tecnologia da época (1957), que nasceu na V2 e foi empregada também em outros foguetes como o Redstone. Deste os anos 60 geradores de vapor são alimentados pelo mesmo propelente do foguete, até os dias de hoje.

    Sobre o foguete britânico Black Arrow tratava de um projeto de baixo rendimento (120Kg LEO). Fosse realmente uma opção vantajosa em algum aspecto me pergunto porque URSS, EUA, França, Índia, Japão, China, Israel, Brasil, Irã, Coréia do Sul, Coréia do Norte, 11 países que já efetuaram lançamentos (ou tentativas) e ninguém adotou tal solução, apenas a Inglaterra e a quase 50 anos atrás?

    Eu tenho simpatia pelo H202 em lugar da hidrazina em algumas situações.

    Pós processamento de veículos retornáveis é uma delas.

    A outra é em veículos experimentais construídos fora do eixo governo – empresas comerciais.
    Estas missões por exemplo imaginadas pro Google Lunar Prize, dificilmente teriam condições de embarcar hidrazina, seja por licenciamento de governos, seja por falta de orçamento para instalações de manuseio, aquisição etc..

    Ai o H202 é uma opção valida, mas para missões complexas e de longa duração (varios anos), como sistemas geoestacionários por exemplo até agora querendo ou não, não há nada melhor do que hidrazina (no universo dos foguetes químicos, propulsao elétrica é outro papo).

    Quem sabe no futuro este componente não seja aposentado, como o acido nítrico um dia também já foi importante no mundo dos foguetes e hoje é história apenas. Mas até agora não vi evidencias disto no futuro previsível.


    Abs

    João

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  10. desculpe a ignorancia ,da para usar a hidrazina em motores de automoveis ?

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    Respostas
    1. Olá Anônimo!

      Se fizerem um motor que utilize esse combustível eu creio que sim, mas só um maluco insano poderia pensar nesta possibilidade.

      Abs

      Duda Falcão
      (Blog Brazilian Space)

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    2. fiz essa pergunta porque no ultimo festival de arrancada de 2013 em curitiba uma caravan aspirada 6 cilindros ,segundo os mecanicos ela estava usando hidrazina como combustivel,se tiver curiosidade de ver o video no you tube ,caravan branca los hermanos 20 festival de arrancada

      Excluir
    3. Olá Anonimo!

      Se isto realmente aconteceu, o responsável deveria ter sido preso, mas no Brasil tudo é possível, veja o caso dessa ACS. Enfim...

      Abs

      Duda Falcão
      (Blog Brazilian Space)

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