Brasil Vai Instalar Nova Estação Meteorológica no Gelo da Antártica

Olá leitor!

Segue abaixo uma pequena notícia postada ontem (28/10) no site do “Jornal da Ciência” da SBPC, destacando que o Brasil vai instalar nova Estação Meteorológica no gelo da Antártica.

Duda Falcão

Áreas da Ciência

Brasil Vai Instalar Nova Estação
Meteorológica no Gelo da Antártica

Ideia é aprofundar o conhecimento científico sobre o clima
e o impacto regional das emissões de CO2 na atmosfera

Viviane Monteiro
Jornal da Ciência
Terça-feira, 28 de outubro de 2014

Foto:Divulgação do Criosfera 1

Três anos depois de instalar o primeiro observatório climático no interior da Antártica, o Brasil se prepara para fincar nos próximos dois anos uma nova “bandeira científica” na maior massa de gelo do planeta. Alguns dos objetivos são aprofundar o conhecimento científico sobre o clima e avaliar o impacto regional das emissões de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera.

Chamada Criosfera 1, a rede de estações meteorológicas – que capta individualmente os impactos das mudanças climáticas na atmosfera – foi alocada no gelo antártico, no fim de 2011, a uma distância de 2500 Km ao sul da Estação Antártica Brasileira Comandante Ferraz, situada na parte oceânica do continente gelado. Agora, cientistas brasileiros se preparam para instalar o que chamam de Criosfera 2, no bloco de gelo antártico.

Em entrevista ao Jornal da Ciência, o glaciologista Jefferson Simões, coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) do projeto Criosfera, informou que o novo projeto será instalado nos verões de 2015 e de 2016. A nova plataforma científica será alocada a cerca de 520 km de distância do projeto Criosfera 1, as duas na massa de gelo.

Pioneiro no estudo de gelo no Brasil, Simões disse que a nova rede de estações meteorológicas deve consumir investimentos da ordem de R$ 1 milhão. Com esses recursos, disse, será possível estender a nova plataforma no manto de gelo da Antártica – passando “pela periferia” e ligando os equipamentos a redes de estações distribuídas por todo o planeta Terra.

Cenários Regionais Para o Clima

Simões destaca a importância de aumentar a base de dados científicos, traçar uma “modelagem” do clima e mensurar o impacto regional das emissões de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera nos próximos anos.

“Um dos esforços hoje para modelar o clima no Atlântico sul da Antártica, onde tudo está relacionado ao clima do Brasil, é aumentar a base de dados. Se não existem dados não se consegue fazer a modelagem de maneira correta, imediata e com aplicabilidade”, explica Simões, também diretor do Centro Polar e Climático do Instituto de Geociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), um dos responsáveis pelas estações meteorológicas na Antártica.

Além da UFRGS, os projetos são de responsabilidade da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) e Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP). São fomentados pelo Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), cuja verba é repassada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Apesar de restrições orçamentárias no MCTI, o cientista se mostra confortável sobre a garantia dos investimentos para o novo projeto no bloco de gelo antártico.

“O contingenciamento não nos afeta porque esses são recursos que já foram até liberados. O que é muito inovador é que nossa relação custo-benefício é ótima.”

Nesse caso, ele lembrou que a manutenção do Criosfera 1 na Antártica gera despesas de R$ 800 mil ao ano e gera benefícios incalculáveis, já que o país poderá contar com respaldo científico sobre os fenômenos climáticos, suas implicações na variação do nível do mar e consequências para o Brasil, por exemplo.

Segundo Simões, a maioria dos novos investimentos será aplicada na logística do projeto Criosfera 2, equivalente a um contêiner de 12 metros. Orçado entre R$ 300 mil e R$ 350 mil, o módulo científico climático encontra-se em processo de montagem em Porto Alegre. Será transportado ao continente gelado por avião, já que será alocado no interior da Antártica, assim como ocorreu com o Criosfera 1.

Expedição no fim de 2014

Uma equipe de cientistas se prepara para viajar em dezembro deste ano para Antártica a fim de fazer as primeiras expedições sobre o Criosfera 2. Simões, que lidera a equipe de cientistas, adiantou que farão uma travessia de 120 km sobre o manto de gelo, devem colher amostras de neve e de gelo e preparar o local de instalação do novo projeto.

Outra expedição será realizada em novembro, próximo ao Criosfera 1, mantendo a tradição de anos anteriores. A cada fim de ano, no período de verão, um grupo de cientistas se desloca para Antártica a fim fazer a manutenção dos equipamentos e colher dados manualmente, por exemplo. A expedição deste ano será comandada pelo físico Heitor Evangelista, professor adjunto do Departamento de Biofísica e Biometria da UERJ e coordenador do projeto pela mesma universidade.

Enquanto isso, no decorrer de cada ano, os dados da Criosfera 1, como amostragem de ar, são emitidos de forma automatizada mensalmente ao Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), no Brasil; e à Organização Meteorológica Mundial (OMM) para serem analisados. Essas informações são acessadas pelos órgãos nacionais responsáveis pelo projeto. Existem também dados da estação meteorológica e das medições de óxido de carbônico que “são online” – divulgadas por telemetria.

Aumento de CO2 na Atmosfera

Segundo Simões, o projeto Criosfera 1 começa a registrar os primeiros resultados. No ano passado os equipamentos registraram aumento de concentração de CO2 na atmosfera, atingindo 400 ppm (partes por milhão) de CO2, confirmando medições realizadas pelos laboratórios dos Estados Unidos presentes no continente do gelo.

O índice de concentração de CO2 acelerou em relação aos 386 ppm registrados em 2012, início das pesquisas do Brasil no gelo da Antártica.

Na visão do físico Evangelista, a aceleração da concentração de CO2 na atmosfera superou as previsões. “A previsão era atingir os 400 ppm daqui a dez anos”, analisou.

Conforme ele entende, essa aceleração de concentração de CO2 na atmosfera até agora não implicou em aumento da temperatura do planeta que, segundo disse, vem apresentando estabilidade nos últimos 17 anos.

Evangelista considera, porém, esse cenário complexo. “Supõe que conforme aumenta a concentração de CO2 na atmosfera aumenta a temperatura. Mas nos últimos 17 anos a temperatura da Terra não mudou, está estável”, observa.

Na opinião do físico, esse cenário não é positivo e nem negativo para o planeta. “Isso só mostra que entendemos pouco sobre esse sistema. Não é um processo tão simples como parece.”

O físico faz questão de dizer que nos últimos 17 anos foi emitida quantidade absurda de CO2 na atmosfera – milhões de toneladas de dióxido de carbono. Mesmo assim, a temperatura da Terra não mudou. Para explicar tal fenômeno, disse Evangelista, é necessário aumentar o conhecimento científico sobre vulcões, efeitos do El Niño e o próprio oceano que absorve um pouco do calor terrestre.

“É necessário coletar dados e fazer vários modelos (climáticos)”, defendeu ele, considerando cedo avaliar se as queimadas e o desmatamento do Brasil contribuíram para o crescimento da concentração de CO2 na atmosfera.

Com visão semelhante, o glaciologista Jefferson Simões afirma que, por enquanto, os estudos brasileiros no manto de gelo da Antártica são voltados às pesquisas básicas na área ambiental e a aplicação dessas pesquisas geralmente demora.

“A ciência pode demorar de dez a vinte anos para.gerar resultados. Exemplo clássico é o caso do (camada) ozônio que foi detectado rapidamente entre o fim da década de 1970 e início de 1980, mas as decisões políticas para sua regulação e controle levaram de 10 a 15 anos.”

Por enquanto, no gelo da Antártica, o Brasil vem trabalhando em uma escala mais curta de tempo do que outros países, por falta de equipamentos para averiguar o fundo do gelo. Algumas amostras de gelo são tiradas de profundidade de 300 metros, mais ou menos.

“Fazemos a reconstrução da variabilidade climática. Há colegas que já tiram amostras de uma profundidade de mais de 3,7 mil metros de gelo. Assim conseguem pegar gelo de até 800 mil anos atrás. E essa hoje é considerada a técnica mais forte, com melhor qualidade, sobre a reconstrução da história do clima e da química da atmosfera.”

Uma das atividades dos cientistas brasileiros na Antártica é detectar poluentes. Um dos trabalhos, prestes a ser publicado, “é a constatação maior” de urânio em algumas amostras. “Não se sabe ainda as causas, se é devido ao aumento da mineração em alguns lugares do hemisfério sul. Conseguimos detectar também variações devido à poluição. Como a Antártica está isolada o que é medido lá tem uma representatividade global”, destacou Simões.

Com a mesma opinião, o físico Evangelista disse que a Antártica é um dos lugares mais adequados do mundo para observação astronômica e realização de estudos astrofísicos. “Lá é um lugar onde a quantidade de vapor de água na atmosfera é muito pequena e não existe problema para observação. Por isso os grandes laboratórios de vários países estão sediados no continente antártico.”


Fonte: Jornal da Ciência de 28/10/2014

Comentário: Bom, bom, muito bom mesmo. Pelo menos as nossas atividades na Antártica tem avançado, talvez por interferência da Marinha, sei lá, mas a verdade é que as coisas por lá andam, mesmo que não seja na velocidade que gostaríamos.

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