sexta-feira, 1 de abril de 2011

Entrevista: Marcos Pontes, Primeiro Astronauta Brasileiro

Olá leitor!

Segue abaixo uma matéria postada dia (31/03) no site “Diário da Rússia” apresentando uma entrevista do astronauta brasileiro Marcos Cesar Pontes relatando suas experiências durante o vôo histórico da “Missão Centenário” que completou cinco anos dia 29/03.

Duda Falcão

Tecnologia

Entrevista: Marcos Pontes,
Primeiro Astronauta Brasileiro

O tripulante da Estação Espacial Internacional conta
suas experiências, cinco anos após o seu vôo

31/03/2011 - 21h51

Em 29 de março o Brasil comemora os cinco anos do vôo e da permanência no espaço de Marcos Pontes, primeiro astronauta brasileiro.

Marcos Pontes, de 48 anos, nasceu em Bauru e foi piloto de caças da FAB, chegando ao posto de tenente-coronel. Em 1998, foi selecionado para participar do programa espacial da NASA, e em 2006 realizou a viagem ao espaço, onde permaneceu a bordo da Estação Espacial Internacional por dez dias, sob o comando do cosmonauta russo Pavel Vinogradov.

29 de março de 2006: Marcos Pontes (primeiro à esquerda),
Comandante Pavel Vinogradov (centro) e o americano Jeffrey
Williams durante a preparação para o voo na nave Soyuz TMA-8

Nesta entrevista, concedida ao programa Voz da Rússia, ele fala daquela missão e anuncia o lançamento de seu livro “Missão Cumprida – A História Completa da Primeira Missão Espacial Brasileira”.

Voz da Rússia: Estamos comemorando o quinto aniversário da Missão Centenário, que deu ao Brasil o seu primeiro astronauta. Há 50 anos, Yuri Gagarin se tornava o primeiro homem a viajar para o espaço. Você acha que essas duas datas estão relacionadas de alguma forma?

Marcos Pontes: Sem dúvida nenhuma. Aliás, sinto-me muito orgulhoso por essa coincidência. A missão foi realizada num veículo russo, uma nave Soyuz, que nos levou para a Estação Espacial Internacional. E todo o treinamento também foi feito lá, na Cidade das Estrelas. E a minha vida naqueles cinco meses de treinamento na Rússia que antecederam o nosso lançamento do Cosmódromo de Baikonur, no Cazaquistão, e o meu convívio com todos os que participaram dos treinamentos, foi tudo muito bom. E eu me sinto muito orgulhoso com essa coincidência, com a proximidade dessas duas datas que comemoram a Missão Centenário e o vôo de Yuri Gagarin.

VR: Yuri Gagarin teve influência na sua decisão de se tornar astronauta?

MP: Teve. Definitivamente, teve. Eu nasci em 1963 e cresci ouvindo sobre vôos espaciais, e Yuri Gagarin foi um ícone de toda a minha geração. Eu gosto de falar que Yuri Gagarin deixou de ser um ícone somente russo e se transformou em ícone para o mundo todo. Ele é um herói e uma inspiração para todos aqueles que gostam de ciência e tecnologia. E é por causa da carreira dele e do seu heroísmo que muitos astronautas e cosmonautas puderam se formar como tais.

VR: Você já foi condecorado com a Medalha de Santos Dumont e com a Medalha Yuri Gagarin. Qual é a sua preferida?

MP: É difícil dizer. Todas elas têm o seu valor e o seu próprio peso. Eu as trato da mesma forma, e me orgulho muito delas, também. Quando você recebe uma medalha dessas, ela adquire também um sentido de que você recebeu o reconhecimento de um determinado grupo e às vezes de uma nação. E esse reconhecimento está geralmente ligado a algum personagem histórico. E tanto Santos Dumont como Yuri Gagarin foram muito importantes para mim, no sentido da inspiração, de que eu posso realizar os meus sonhos, de que eu consigo, me esforçando, e entregando o corpo, a alma e o coração, vou conseguir realizar meu sonho.

VR: Conte um pouco sobre o processo de seleção para a NASA.

MP: Sou oriundo da Força Aérea Brasileira. Nasci em Bauru, no interior de São Paulo. O meu primeiro emprego foi como eletricista, aprendiz da Rede Ferroviária Federal. Na época eu tinha 14 anos e precisava ajudar no orçamento lá de casa. Depois entrei para a Força Aérea e me tornei piloto militar. Então, fiz Engenharia Aeronáutica, segui para o mestrado e para o doutorado. E no meio do doutorado houve uma seleção pública no Brasil para escolher um candidato a se tornar o primeiro astronauta brasileiro. Na época eu fazia doutorado, em Monterrey, na Califórnia. Eu soube desse concurso, me inscrevi e acabei sendo selecionado. O concurso foi feito, no Brasil, nos mesmos moldes do concurso da NASA. Tanto que representantes da NASA vieram ao Brasil para ajudar a organizar o concurso. Acabei sendo selecionado, e a partir daquela data deixei as minhas funções como militar para assumir as funções civis de astronauta. E continuo até hoje à disposição da Agência Espacial Brasileira para a realização de outras missões espaciais.

VR: Como foi o treinamento antes do vôo espacial?

MP: Primeiramente fiz um curso de dois anos na NASA, o curso de formação básica de astronautas. Eu me formei em dezembro de 2000. Fiquei aguardando o meu vôo, que inicialmente iria acontecer a bordo de um ônibus espacial, levando peças brasileiras para a Estação Espacial Internacional. Esse vôo acabou não acontecendo. Tivemos também aquele acidente de 2003, com o ônibus espacial Columbia. Então a Agência Espacial Brasileira fez um acordo com a agência russa, a Roskosmos, para a realização de uma missão espacial, e me mandou para a Rússia em outubro de 2005. Lá eu deveria realizar treinamento específico para a missão. Foram cinco meses de treinamentos na Cidade das Estrelas, período que antecedeu a missão que seria realizada no mês de março do ano seguinte. Foi um treinamento bastante intenso e diversificado. Como eu já tinha feito uma grande parte do treinamento nos Estados Unidos, na NASA, muitos dos sistemas e da dinâmica operacional eu já conhecia. Mas certamente o clima era muito diferente, nunca tinha vivido em uma temperatura de constantes 20 graus negativos, no meio de muita neve. Além disso, a língua era bem diferente. Então eu tive de aprender os rudimentos da língua russa para me comunicar e entender os sistemas, o que também, no início, foi um desafio. E também entender como funcionam em vôo com os sistemas russos. Foi muito boa a convivência lá. Eu agradeço muito a todos os russos, a todos aqueles que participaram do meu treinamento, os instrutores, os médicos, os professores. Foi realmente magnífico e eu gostaria muito de retornar para lá.

VR: O lançamento da Missão Centenário foi realizado na estação espacial de Baikonur. Quais foram as suas impressões da base de lançamentos? A tecnologia russa é muito diferente?

MP: Hoje as tecnologias estão bastante misturadas. Por isso, para quem já estudou os sistemas americanos, estudar os sistemas russos já não é tão difícil. A sistemática dos projetos é bastante semelhante em termos de elementos críticos, em termos da multiplicidade de elementos mais críticos, em termos da própria operação desses sistemas. Mas uma das coisas que me chamaram a atenção nos sistemas russos foi a sua precisão em termos de funcionamento. Eu vejo a Soyuz funcionando como um relógio. É uma nave extremamente bem projetada e que tem sido desenvolvida e aperfeiçoada durante muito tempo. É um veículo robusto, tanto em termos estruturais quanto em termos de sistemas, e de operação bastante automatizada. Enfim, gostei muito do veículo como um todo. Quanto às minhas impressões lá no Cazaquistão, a primeira sensação que tive foi a de encantamento por estar em um local histórico. A gente sabe que a História da exploração espacial começou por ali. E a sensação de estar caminhando por aqueles locais sagrados, bem no meio do deserto cazaque, de visitar a casa onde Yuri Gagarin ficava, onde Korolev [engenheiro ucraniano que projetou os primeiros foguetes soviéticos] ficava, foi realmente algo impressionante.

VR: Marcos, qual é a sua preferência – a astronáutica ou a aeronáutica?

MP: Desde a infância meu sonho era sair do chão de alguma forma, de ter asas. Voar era o meu sonho. Então, no começo, eu me via com asas, sobrevoando a Terra, ou entre as nuvens, etc. Depois houve o desenvolvimento da minha carreira no setor aeronáutico, primeiro como piloto, depois como engenheiro – tudo isso foi muito marcante na minha vida. Mas é lógico que durante esse processo eu queria voar mais alto, voar mais rápido, e por isso acho que o passo para a astronáutica ou a cosmonáutica aconteceu de forma a sustentar esse meu sonho. Lembro algumas noites, quando eu voava em caça fazendo patrulha, eu olhava a lua e as estrelas e pensava: puxa, quero voar mais alto. E de repente, através de uma missão espacial, eu estava ali, fora da atmosfera, olhando para o planeta, olhando para as estrelas lá fora. É uma sensação muito boa. Eu gosto de toda essa área. Saiu do chão ou foi até as estrelas, a sensação de liberdade proporcionada pelo vôo é demais.

VR: Há algo que você ainda não contou aos jornalistas sobre a sua permanência na Estação Espacial Internacional?

MP: Várias coisas. São muitos detalhes, muitas coisas pitorescas, sensações e pensamentos que procurei reunir em um livro que estou lançando agora, em comemoração aos cinco anos da Missão Centenário. O nome do livro é “Missão Cumprida – A História Completa da Primeira Missão Espacial Brasileira”. Ele traz todos os bastidores da missão, narra a missão em detalhes, sobre o que aconteceu lá em cima, bem como os resultados. Procurei reunir todos esses eventos no livro. Por isso estou evitando mencionar a maioria daqueles eventos, justamente para manter o ineditismo do livro, que espero que funcione como um registro histórico da missão. Ao mesmo tempo, espero que a obra também sirva de entretenimento.

VR: Você poderia nos falar sobre os eventos que serão realizados em Moscou e em Campos de Goytacazes, em comemoração ao cinqüentenário do vôo de Gagarin?

MP: Eu viajo para a Rússia no começo do mês de abril, para participar das comemorações dos 50 anos do vôo de Yuri Gagarin. Depois, retorno ao Brasil para participar de eventos comemorativos em Campos de Goytacazes. A propósito, eu gostaria de ressaltar o trabalho do Professor Marcelo Souza, da Universidade do Norte Fluminense, que é um batalhador na promoção da ciência, da tecnologia e da astronomia. É por causa dele que aquela cidade acaba sendo um foco de eventos na área da astronomia, que é a área coordenada por ele, levando pessoas de destaque para lá. Convido todos a participarem desses eventos em Campos. Vocês podem ter mais informação sobre eles no meu site: marcospontes.com.br

VR: Você disse que aprendeu algumas palavras em russo. Pode dar alguns exemplos?

MP: Konechno! Khorosho! My budem govorit na russkom yazyke. Eto ochen trudny! [Claro! Muito bom! Nós vamos falar em russo. Isso é muito difícil!]

VR: Marcos Pontes, em nome de toda a nossa redação, quero parabenizá-lo pelos cinco anos de sua viagem ao espaço. E gostaria de lembrar que nosso programa Voz da Rússia e nosso site Diário da Rússia também são parceiros nos eventos comemorativos que se darão em Campos de Goytacazes, em homenagem a você e a Yuri Gagarin.

MP: Obrigado a vocês. Obrigado pelo trabalho. Espero que ainda façamos muitos trabalhos juntos, e que possamos ter mais parcerias de divulgação dos programas espaciais aqui no Brasil, pois realmente precisamos desse tipo de imprensa positiva para muitos jovens por aí. O meu foco, hoje em dia, é muito voltado para a educação. E acho que a maneira como podemos convencer os jovens a melhorar o país e o mundo como um todo é justamente através da educação. E isso a gente consegue dessa maneira, se unindo e trabalhando positivamente nesse desafio.


Fonte: Site Diário da Rússia - 31/03/2011

2 comentários:

  1. obrigado ajudou muito o meu trabalho

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  2. Olá Anônimo!

    Não sei como lhe ajudei, mas em todo caso, boa sorte.

    Abs

    Duda Falcão
    (Blog Brazilian Space)

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