Uruguai Aposta no Espaço: A 'Universidade Tecnológica do Uruguai (UTEC)' Cria um Centro de Pesquisa Para Impulsionar a Indústria Espacial do País
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Ontem, 22 de março, o portal uruguaio EL OBSERVADOR divulgou que a Universidade Tecnológica do Uruguai (UTEC) estabeleceu um novo centro dedicado à reunião de especialistas em temas espaciais. O objetivo do centro será promover o avanço da pesquisa e o aprimoramento da formação desse setor no país.
Arquivo: Presidência da UTEC
De acordo com a nota do portal, o Uruguai está dando um passo importante no desenvolvimento do setor espacial com a criação de um centro que reunirá pesquisadores, especialistas e universidades em um único espaço. A iniciativa é impulsionada pela Universidade Tecnológica do Uruguai (UTEC) e visa formalizar e estruturar o trabalho já realizado no país em relação aos temas espaciais.
De acordo com Natalie Aubet, professora titular em Engenharia Agroambiental na UTEC e chefe dos projetos científicos e tecnológicos da instituição na área espacial, a ideia é "criar um espaço que reúna diversos pesquisadores, formadores ou especialistas ligados a temas espaciais em um só lugar."
O foco do centro é a formação e a pesquisa, dois pilares que a UTEC considera essenciais para consolidar o desenvolvimento do setor no país. "Somos uma universidade, e como universidade, nosso foco é pesquisar e formar," explicou Aubet.
Diferenças com a Agência Espacial Uruguaia
Este novo centro tem uma orientação diferente da Agência Espacial Uruguaia, cuja criação está sendo liderada pela Força Aérea, em consulta com agências e universidades nacionais. "Não estamos ligados à Agência Espacial Uruguaia," esclareceu Aubet. "A agência é um processo colaborativo envolvendo várias instituições, mas nosso papel está na parte técnica, da pesquisa à formação."
O centro surge como um espaço para centralizar e profissionalizar os estudos sobre o espaço no Uruguai, em um contexto onde várias universidades e empresas já estão trabalhando nesses temas. "Não somos a única universidade trabalhando nisso, mas queremos formalizar todo o trabalho que estamos realizando," explicou.
Estruturação do Centro e seu Desenvolvimento
Para estruturar o centro, a UTEC conta com o apoio de especialistas internacionais que participaram da criação de centros semelhantes em outros países. "Estamos realizando uma consultoria com especialistas que entendem desses processos para adaptar o modelo à realidade do Uruguai," detalhou Aubet.
Um dos pontos-chave é a consulta com atores nacionais, incluindo agências governamentais, empresas de tecnologia e outras universidades. "Temos interesse em saber como esse centro pode interagir com as diferentes agências e empresas que já trabalham nesses temas no Uruguai," disse a pesquisadora.
Outro aspecto central é a necessidade de financiamento e recursos. "Chegará um momento em que precisaremos de fundos, pessoas e um espaço físico para crescer e expandir," admitiu Aubet. O plano de ação do centro abordará esses desafios com base em consultas com os diversos setores envolvidos.
Aplicações Atuais: Monitoramento de Desastres e Estudos Climáticos
Assim como outras universidades e organizações, a UTEC trabalha com temas espaciais há algum tempo. "Trabalhamos com dados de satélites e outros sensores para calibração de informações," explicou Aubet.
Entre as aplicações mais imediatas estão o monitoramento de riscos naturais, a avaliação do impacto das mudanças climáticas e a geração de informações para gestão de emergências. "Podemos, por exemplo, ajudar um país em situação de emergência devido a inundações, ou fornecer informações sobre incêndios e secas," detalhou.
Um exemplo disso é o trabalho que estão fazendo no monitoramento de inundações no departamento de Florida. Nahuel, membro da equipe de pesquisa, explicou ao El Observador que estão usando imagens de satélite da UTEC e da Força Aérea, além de drones, para "identificar áreas vulneráveis e prever futuras inundações com modelos de aprendizado de máquina."
Além disso, a equipe tem trabalhado em outros projetos com impacto social, como a detecção de áreas queimadas após incêndios, análise da expansão das cidades e identificação de ilhas de calor em situações de ondas de calor em alguns períodos no Uruguai. "Usamos sensores de satélite e algoritmos para prever áreas potenciais de queimadas e avaliar a evolução das temperaturas extremas," explicou Aubet.
Outro uso significativo dessa tecnologia foi na busca por pessoas desaparecidas no Uruguai. "Apoiamos os Direitos Humanos com nossas tecnologias para identificar possíveis locais onde pessoas possam ter sido enterradas clandestinamente," revelou a pesquisadora.
Um dos trabalhos mais notáveis foi a previsão de zonas de inundação nas áreas costeiras do Uruguai, uma iniciativa que combina imagens de satélite, drones e modelos de elevação com tecnologia LIDAR (que utiliza sensores a laser para medir a altitude e a topografia do terreno com alta precisão).
"Construímos modelos de previsão de inundações para avaliar o impacto das mudanças climáticas nas cidades costeiras e antecipar os riscos para a população," detalhou Aubet. Esse trabalho foi reconhecido internacionalmente e ajuda a gerar informações cruciais para a tomada de decisões na gestão de riscos e no planejamento territorial.
Uruguai e o Desenvolvimento de uma Indústria Espacial
Embora o Uruguai não tenha seus próprios satélites no espaço, há empresas no país que trabalham no desenvolvimento de nanosatélites e no uso de imagens de satélites com inteligência artificial. "No Uruguai, há empresas ligadas ao desenvolvimento de produtos espaciais, desde o uso de dados até a geração de tecnologia," explicou Aubet.
O país também já sediou iniciativas anteriores no setor. "A Faculdade de Engenharia realizou um teste há alguns anos (em 2011) para o lançamento de um satélite, e a Udelar trabalhou em projetos com o México para o desenvolvimento de consoles e equipamentos para sistemas de lançamento," detalhou.
Para Aubet, o desenvolvimento da indústria espacial no Uruguai dependerá da coordenação dos esforços. "Talvez nem todas as instituições desenvolvam o mesmo tema, mas em algum momento, elas precisam se reunir no mesmo lugar e começar a discutir o assunto juntas," afirmou.
Nesse sentido, o centro pretende se tornar um espaço de referência para empresas e organizações que trabalham nesses temas. "Queremos que, quando as empresas no Uruguai estiverem trabalhando em questões espaciais, elas saibam que existimos, entrem em contato conosco e possamos trabalhar juntos," destacou.
O Futuro do Centro e os Próximos Passos
No curto prazo, a UTEC está organizando encontros com empresas, ministérios e universidades para definir o funcionamento do centro. "Temos interesse em saber o que eles precisam desse centro e como ele deve ser estruturado para ter um impacto real no país," explicou Aubet.
Como parte desse processo, serão feitas visitas a diferentes partes do país, incluindo Durazno, para entender as necessidades locais de perto e como o uso das tecnologias espaciais pode ajudar a resolver questões específicas.
Além disso, a equipe da UTEC está trabalhando em projetos internacionais, como o estudo do “verdeamento” da Antártida. "Estamos combinando imagens de satélite e sensores para analisar as mudanças na vegetação na Antártida," explicou Aubet, como parte de um estudo com universidades e centros de pesquisa de outros países.
Para a pesquisadora, o crescimento do setor espacial no Uruguai é um processo que levará tempo, mas já está em andamento. "Não é exagero pensar que, em alguns anos, os uruguaios estarão trabalhando em expedições espaciais, ou que o país desenvolverá sua própria indústria," afirmou. "O importante é começar a construí-la agora.
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