Foguete PERUN da Polônia Dá Mais um Passo em Direção a Missões Suborbitais. E o Brasil?

Prezados entusiastas das atividades espaciais!

Foto ilustração: SpaceForest
O PERUN possui uma ampla gama de aplicações potenciais, incluindo a pesquisa científica.

Compatriotas, vocês se lembram da startup polonêsa SpaceForest, tema de uma de nossas publicações no ano passado (reveja aqui)? Pois bem. No início do último mês de setembro, o portal TVP World noticiou que o Foguete Suborbital PERUN concluiu com êxito mais uma etapa rumo a missões suborbitais regulares. O avanço da empresa polonêsa serve como um importante ponto de reflexão para o Brasil — debate este que aprofundarei logo após os detalhes desta conquista tecnológica polonêsa.

Pois então, segundo a publicação do portal, o teste realizado no final de agosto validou sistemas vitais do veículo espacial, incluindo o controle de vetor de empuxo. O ensaio consolida os passos da SpaceForest no desenvolvimento de seu lançador suborbital reutilizável.

O PERUN, apontado como o principal projeto de foguete da Polônia, realizou o voo no Campo de Treinamento Central da Força Aérea, localizado na cidade litorânea de Ustka. O vice-ministro da Defesa polonês, Cezary Tomczyk, publicou um vídeo do lançamento e ressaltou a importância do marco.

De acordo com o vice-ministro, o ensaio “confirmou o funcionamento adequado dos sistemas-chave do foguete”, como o direcionamento de empuxo, além de permitir que a equipe de engenharia colete dados valiosos para as próximas fases de testes.



“As capacidades de foguetes da Polônia estão crescendo. E, como se pode ver, as Forças Armadas estão prestando cada vez mais atenção a essa área”, destacou Tomczyk em publicação no X (antigo Twitter).

Desenvolvido integralmente pela SpaceForest, o PERUN figura entre as iniciativas mais estratégicas da indústria espacial polonesa. Equipado com sistema de propulsão híbrida, o foguete suborbital tem 11,5 metros de comprimento e capacidade para transportar até 50 quilos de carga útil a altitudes de até 150 quilômetros. A estrutura permite cerca de cinco minutos de experimentos em ambiente microgravitacional e de condições análogas ao espaço sideral.

Com foco em eficiência e redução de custos, cada unidade do PERUN é projetada para realizar pelo menos cinco missões. O veículo atende a um amplo leque de aplicações, englobando pesquisas científicas, demandas comerciais e operações de defesa militar.

Para 2026, estão previstos três novos voos do PERUN, incluindo lançamentos a partir de bases em Portugal e na Dinamarca, conforme comunicado emitido pela SpaceForest no início do ano.

Fonte: SpaceForest
A equipe da SpaceForest participante desta operação de lançamento.

O BS aproveita a oportunidade para agradecer publicamente ao leitor Vladan Canovic pelo envio desta sugestão de pauta.

"Mas avancemos para a necessária reflexão:

O Brasil compatriotas está envolvido de forma efetiva no desenvolvimento de foguetes e tecnologias espaciais desde meados da década de 1960 — com passos iniciais dados pela Força Aérea Brasileira (FAB).

De lá para cá, o país obteve êxitos relevantes via FAB (DCTA/IAE) no desenvolvimento de foguetes suborbitais uteis à pesquisa científica nacional e internacional. Destacam-se as Família Sonda, com o Sonda I, II, III e IV, o VS-30, o VS-40 e o bem-sucedido VSB-30 — único até hoje qualificado internacionalmente como produto espacial brasileiro.

Entretanto, na arena orbital, o histórico é marcado por sérios insucessos. O Projeto VLS-1 registrou dois voos fracassados antes de culminar, em 2003, no acendimento intempestivo que resultou no trágico acidente e na perda dos 21 heróis de Alcântara.

Após a tragédia, sucederam-se promessas ufanistas não cumpridas pela gestão do Presidente LULA. A situação levou a FAB, em meados dos anos 2010, a cancelar o defasado VLS-1 para apostar no Veículo Lançador de Microsatélites (VLM-1). O projeto, contudo, permanece estagnado até o momento, sendo visto pelo BS como um plano conceitual utilizado para encobrir décadas de ineficiência operacional militar no setor.

Diante desse cenário, a esperança de incluir o Brasil no grupo de nações com acesso autônomo ao espaço recai sobre a iniciativa privada brasileira.

O Parâmetro Temporal: Polônia vs. Brasil

Para fins de comparação, cabe lembrar que a startup polonesa SpaceForest foi fundada em 12 de maio de 2004. O dado serve como parâmetro para avaliar o progresso da empresa europeia em relação às ações promovidas pela FAB e pelas empresas brasileiras do segmento.

Abaixo, mapeamos as principais empresas nacionais que atuam no setor de foguetes, tecnologias correlatas ou que possuem competência técnica na área:

1. Acrux Aerospace Technologies:

Fundada em 2008 pelo engenheiro Oswaldo Loureda, é a empresa privada mais antiga do setor no país. Nascida em incubadora aeroespacial (com forte presença inicial em São José dos Campos e no Paraná), a empresa atuou em eventos educacionais (SpaceCamp) e no desenvolvimento de motores-foguete a propulsão sólida e líquida. Desenvolve a Família ACRUX-FOG (FOG1M, FOG120K-L, FOG100K e FOG30K - MKII) e o projeto dos Veículos Lançadores Montenegro (VLPP). A Acrux enfrentou severos prejuízos decorrentes do descumprimento de compromissos pela AKAER, líder do consórcio do Projeto VLN-AKR (edital VLPP cancelado pela FINEP), e busca até hoje a recomposição de suas operações.

2. Edge of Space:

Criada em 2009 em Jacareí (SP) pelos engenheiros José Miraglia, Vanderlei Nea Júnior e Glauco Felipe, a empresa estabeleceu-se em 2021 no Parque Tecnológico de São José dos Campos (PIT SJC). É focada em sistemas de propulsão e componentes críticos para defesa e espaço. Ganhou notoriedade ao desenvolver a chamada "propulsão verde" com apoio da FAPESP. Embora possua projetos para foguetes suborbitais e orbitais e seja uma das estruturas mais consolidadas do setor, ainda não converteu seus projetos de foguetes em produtos comerciais.

3. PION Labs:

Fundada em 2019 pelos engenheiros e estudantes Calvin Souto Trubiene, Gabriel Lopes Yamato, João Pedro Vilas Boas Silva e Bruno Pinto Costa. A PION destacou-se ao projetar e lançar o foguete de sondagem suborbital PESL (PION Educational Satellite Launcher), que em 8 de dezembro de 2023 marcou o primeiro lançamento 100% conduzido por uma startup privada brasileira a partir do Centro de Lançamento da Barreira do Inferno (CLBI), em Natal (RN). O veículo levou sete satélites educacionais da OBSAT a 3 mil metros de altitude e foi resgatado no mar. A empresa também desenvolveu o motor híbrido do foguete experimental Quark.

Em 13 de janeiro de 2022, a PION lançou o picossatélite PION-BR1 a bordo de um foguete Falcon 9, da SpaceX; contudo, falhas técnicas impediram a operação nominal da carga. Em 2025, uma nova tentativa com o PION-BR2 (em parceria com a UFMA) foi perdida devido à falha do lançador sul-coreano HANBIT-Nano. Atualmente, não há registros oficiais de novos projetos de foguetes conduzidos pela empresa.

4. Delta V Engenharia Espacial:

Fundada em 2019 (com estudos iniciados em 2017) em São José dos Campos por Daniel Resemini, Lucas Vinícius de Souza e Maurício Sá Gontijo, como spin-off de pesquisadores do INPE e do ITA. A empresa é alvo de duras críticas no setor por sua participação no edital "Foguete de Capacitação e Treinamento" (2022) da FINEP, que aportou R$ 8 milhões de recursos públicos para o desenvolvimento de um veículo suborbital de propulsão líquida — tecnologia considerada inadequada e de alto custo para esse tipo de aplicação de treinamento no CLBI e no CLA. Até o momento, a entrega prática limitou-se a uma bancada de testes móvel que mais parece um carrinho de sovete. Para tentar atenuar sua péssima imagem, bem como também tentar entregar algo concreto, a empresa associou-se recentemente ao grupo de propulsão da Universidade de Brasília (UnB), liderado pelo professor Olexiy Shynkarenko. O caso carece de apuração rigorosa e responsabilização legal pelas autoridades competentes.

5. BIZU Space:

Idealizada em 2020 por ex-integrantes da equipe ITA Rocket Design — Arthur Durigan Bahdur (CEO), Octávio Mathias (CTO) e Raphael Galate Baptista Ribeiro (CFO) —, a startup foi formalizada em 2022 em São José dos Campos. Após evoluir de projetos acadêmicos (como o foguete Beija-Flor BF-1), passou a focar em propulsão e microlançadores. Em 2023, integrou o arranjo empresarial liderado pela CENIC para o Programa MLBR e, em outubro de 2024, foi reconhecida como Empresa Estratégica de Defesa (EED). Desenvolve o motor de propulsão líquida do Projeto Arion, o Foguete BF-1E (propelente sólido BCP) e o FTL-Perseu — primeiro foguete brasileiro movido exclusivamente por propulsão líquida (querosene e peróxido de hidrogênio), testado em voo em maio de 2026.

6. Outer Space:

Fundada em 23 de novembro de 2022 no Ágora Tech Park, em Joinville (SC), pelos engenheiros João Pedro Sandrin Golynski e Vitor Daniel de Carvalho. A empresa especializou-se em propulsão híbrida e estabeleceu, em 2024, o primeiro laboratório de foguetes da região Sul em parceria com o MCTI. Entre seus marcos operacionais estão:

1 - Motor PHOS-1 (Missão Umbrella): Em novembro de 2025, realizou o primeiro teste estático nominal de motor híbrido privado no Sul do país, atingindo o nível TRL-4.

2 - Motor PHOS-2 ATV (Missão Midnight Carbon): Em junho de 2026, testou o motor com tubeira em impressão 3D metálica (via Instituto SENAI) e câmara de combustão em fibra de carbono (COPV).

A startup trabalha no desenvolvimento do foguete suborbital Vanellus (que concluiu a Revisão Preliminar de Projeto - PDR) e no Pathfinder I (projetado para 20 km de altitude), com a meta de ultrapassar a Linha de Kármán até 2030.

7. Navollo Aerospace:

Fundada em 8 de julho de 2026 em Ibiporã (PR), sob liderança do CEO Alexander de Melo. Atua no desenvolvimento de aeronaves, tecnologias espaciais e sistemas de defesa. A empresa trabalha no motor-foguete líquido SD-25 e participou, em novembro de 2025, do teste estratosférico bem-sucedido do Picossatélite LEPTONSat (voltado a IoT e navegação PNT), em parceria com a SHAMAL Aerospace & Defense. A Navollo prepara para o final de 2026 ou início de 2027 o teste de uma nova prova de conceito de elevado impacto para o setor, mas que não podemos divulgar ainda.

Parcerias Governamentais e o Futuro do Setor

No âmbito das parcerias público-privadas apoiadas pela FINEP, destacam-se duas iniciativas centrais:

Projeto RATO: Voltado ao desenvolvimento do foguete acelerador hipersônico para o veículo 14-X, envolvendo o IEAv, a Mac JEE e a CLC Consultoria. O projeto enfrenta entraves severos, correndo o risco de retornar à responsabilidade do sucateado IAE, o que pode comprometer a continuidade do 14-X.

Projeto MLBR: Liderado pela CENIC Engenharia, este arranjo empresarial busca viabilizar o Microlançador Brasileiro em meio a restrições orçamentárias e interferências institucionais do eixo DCTA/IAE/AEB.

O cenário futuro do Programa Espacial Brasileiro (PEB) compatriotas permanece incerto. Independentemente das definições políticas e ideológicas das próximas gestões, o setor espacial segue tratado como segundo plano na agenda nacional. Sem uma reformulação profunda (uma faxina geral) nas diretrizes de governança e na mentalidade das instituições que gerem a política espacial brasileira, o país continuará bem distante de alcançar autonomia estratégica no acesso ao espaço."

Brazilian Space

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