Entre o Potencial e o Esquecimento: A Trajetória da Propulsão Elétrica Espacial no Brasil
Caros entusiastas das atividades espaciais!
Pois então, de 09 a 13 de março foi realizado na Fundação de Empreendimentos Científicos e Tecnológicos (FINATEC), em Brasília — uma fundação de apoio brasileira, criada em 1992, sem fins lucrativos, para gerenciar projetos de pesquisa, ensino e extensão, sediada no campus da Universidade de Brasília (UnB) — um interessantíssimo evento voltado à Propulsão Elétrica Espacial, do qual este que vos fala infelizmente não teve conhecimento à época.
Tratou-se do “II Brazilian Interamerican School and Workshop on Electric Space Propulsion”, que contou com a participação de profissionais da área do Brasil e do mundo.
O nosso compatriota pode estar se perguntando agora: Isso é sério, Duda? Como assim propulsão elétrica espacial no Brasil? A gente não consegue há décadas colocar sequer um parafuso em órbita usando a propulsão sólida que dominamos, e temos especialistas pensando e trabalhando em propulsão elétrica no país?
Pois então, caros compatriotas de verdade, eu compreendo a sua frustração e compartilho dela. Mas vale lembrar que a propulsão elétrica, nesse caso, é voltada para espaçonaves de espaço profundo (sondas espaciais), não tendo nada a ver com lançamento de foguetes.
E aí vem outra questão: Quais missões brasileiras de espaço profundo estão realmente em desenvolvimento no país atualmente que justifique o investimento na área? Bom, se considerarmos a Lua como espaço profundo, eu diria a SelenITA e talvez a Garatéa-L, caso realmente se tornem realidade. Fora elas, que eu saiba, nenhuma. E, mesmo assim, não tenho informação de que propulsores elétricos desenvolvidos no Brasil estejam previstos para serem usados nessas missões.
Entretanto, compatriotas, já tivemos sim uma boa proposta de uma missão espacial de espaço profundo em 2008, a Missão ASTER, que previa o envio de uma sonda brasileira para um sistema de asteroides triplo utilizando propulsão elétrica. O projeto foi intensamente estudado e discutido, mas, como era de se esperar, não obteve apoio dos “Cabeças de Ovo” para sua realização.
O leitor pode estar se perguntando agora: “mas Duda, tínhamos já competência na época para realizar uma missão como essa, fornecendo os motores elétricos que essa espaçonave necessitaria?” E a resposta é sim. Levaria um tempo (talvez uns cinco anos), mas com apoio adequado (político e financeiro), cobrança por resultados e gestão eficiente, sim, teríamos feito história.
Como, Duda? Já tínhamos profissionais e histórico na época nessa área para esse desafio? Sim, tínhamos — não só para o desenvolvimento dos outros equipamentos que a espaçonave necessitaria, como também do propulsor elétrico, e por isso a proposta foi feita.
No que diz respeito à propulsão elétrica, para que o nosso leitor entenda melhor minha afirmação, saiba que o interesse do Brasil pela Propulsão Elétrica Espacial vem desde o final dos anos 70 e início dos anos 80, quando a MECB (Missão Espacial Completa Brasileira) ainda estava sendo iniciada. As primeiras ideias surgiram, nesta época, a partir de pesquisas bibliográficas e discussões entre especialistas da área de Física e Tecnologia de Plasmas. A interação entre pesquisadores e técnicos do INPE, ITA e IEAv/CTA foi fundamental para o surgimento dos primeiros projetos de desenvolvimento de propulsores elétricos.
O Laboratório Associado de Plasmas (LAP) do INPE foi o responsável pelo desenvolvimento dos primeiros protótipos de propulsores elétricos PION I, em 1985, e PION II e III, nos anos 90. Em novembro de 1989, o PION foi proposto para ser testado no SCD-2 (Satélite de Coleta de Dados 2), pelos pesquisadores Dr. Gilberto Marrega Sandonato (pioneiro entrevistado pelo BS em julho de 2013 — veja aqui), A. Montes, Gerson Otto Ludwig, J. G. Ferreira e José Leonardo Ferreira. Porém, infelizmente, as limitações da missão não permitiram a implementação do propulsor elétrico no SCD-2. No entanto, o interesse pela área permaneceu e, em 1996, uma nova proposta foi feita para colocar o PION II no SSR (Satélite de Sensoriamento Remoto), que também não foi implementada, pois o projeto do satélite não teve continuidade.
Imagem: INPE
Entretanto, compatriotas, as pesquisas nessa área de Propulsão Elétrica Espacial não ficaram somente restritas ao LAP do INPE, pois a outra instituição brasileira que iniciou pesquisas nessa área foi o Instituto de Física da Universidade de Brasília (UnB), no Laboratório de Física de Plasmas (LFP). Inicialmente, a partir de 1994, os trabalhos experimentais foram orientados para o desenvolvimento de fontes de íons do tipo Kaufman. Em uma fase posterior, a partir de 2002, propulsores a plasma do tipo Hall passaram a ser desenvolvidos com o apoio do Programa UNIESPAÇO da AEB.
Vale destacar que uma das principais consequências positivas dos projetos apoiados pelo Programa UNIESPAÇO no Brasil foi o incremento na formação de alunos em nível de graduação e pós-graduação para a área espacial em todo o país. É importante salientar que esse programa, quando funcionava direito, foi fundamental para a implementação, aprimoramento e fortalecimento da área espacial na UnB. Em 2012, foi criado o Curso de Graduação em Engenharia Aeroespacial na atual FCT/UnB, no Gama. Posteriormente, em 2020, um curso de especialização em Astrofísica e Ambiente Espacial foi implantado no IF/UnB.
Historicamente, a partir de 2008, outros grupos de pesquisa em propulsão elétrica passaram a atuar no Brasil, principalmente no Laboratório de Propulsão e Combustão (LCP) do INPE, em Cachoeira Paulista (SP). Foi criado o LPEL — Laboratório de Propulsão Elétrica e, na UnB, ocorreu a criação do Laboratório de Propulsão Avançada (LPAv), do Curso de Engenharia Aeroespacial na Faculdade de Tecnologia do Gama (FGA/UnB).
Foi justamente nesse ano que a proposta da Missão ASTER foi feita e, infelizmente, não abraçada pelos “Cabeças de Ovo”, mas que estimulou e motivou os grupos envolvidos com propulsores elétricos no Brasil.
Também em 2008 foi estabelecida a “Rede Brasileira de Propulsão Elétrica” e criada a Primeira Escola Brasileira de Propulsão Elétrica Espacial, organizada no INPE. Esse evento ocorreu entre os dias 1 e 11 de julho de 2008, e o programa cobriu os seguintes tópicos:
* Missões espaciais
* Dinâmica orbital
* Propulsores químicos
* Propulsores elétricos
* Propulsão avançada
* Engenharia de sistemas espaciais
Na época, as aulas foram ministradas por grandes professores e pesquisadores nacionais e estrangeiros.
Os brasileiros foram:
* Dr. Gilberto M. Sandonato (LAP-INPE)
* Prof. José Leonardo Ferreira (LFP-IF/UnB)
* Rodrigo Marques Intini (LCP-INPE)
* Paolo Gessini (pesquisador italiano na época do INPE)
* Marco Antônio S. Minecuci (IEAv-CTA)
* Fernando de Souza Costa (LCP-INPE)
Já os estrangeiros foram:
* Dr. Edgar Choueiri (Phys. Inst.-Princeton, USA)
* Dra. Cristina Bramanti (ESA)
* Dr. Ismat Rudwan (QinetiQ, UK)
* Dr. Neil Wallace (QinetiQ, UK)
* Dr. Roger Walker (ESA)
* Prof. Stephen Gabriel (Univ. of Southampton, UK)
No entanto, apesar das colaborações entre grupos, a pesquisa procedeu por linhas essencialmente independentes entre si. A falta de envolvimento das indústrias (e, na minha opinião, má vontade política e escolhas equivocadas de governos subsequentes descompromissados com o verdadeiro desenvolvimento espacial do país) também foi um fator inibidor do desenvolvimento da área no Brasil.
Para finalizar esse histórico, vale destacar que o último evento nessa área no Brasil foi um Workshop de Propulsão Elétrica organizado em 2019 no INPE, em São José dos Campos (SP). O evento foi organizado pelo então Diretor da Área de Satélites e Plataformas Espaciais do INPE, Dr. Marcos Chamon (o Miste MoU — curioso isso), atual Presidente da Farsa Espacial Brasileira (AEB). O evento foi importante para restabelecer a discussão sobre o tema. Havia uma carência, na época, de um novo fórum para a área de propulsão elétrica, onde discussões e apresentações das pesquisas e tecnologias pudessem apontar as perspectivas da área no Brasil. Esse primeiro workshop foi amplo, pois, diferentemente da 1ª Escola de Propulsão Elétrica, teve grande participação, não só da área acadêmica, mas principalmente das indústrias do setor aeroespacial. Vários projetos e estudos foram apresentados, o que possibilitou discussões técnicas entre os diferentes atores nacionais do setor.
E então, amantes das atividades espaciais, chegamos a esse novo workshop realizado em março passado em Brasília, do qual infelizmente não obtivemos informações sobre seu desenrolar, mas que, através de uma nota de agradecimento postada pela jovem Débora Sandonato em sua página no LinkedIn, tomamos conhecimento não só do evento, bem como de uma justíssima homenagem feita ao seu pai, o Dr. Gilberto Marrega Sandonato (veja abaixo a nota na íntegra acompanhada pelo vídeo da homenagem).
"Em 1984, meu pai, Gilberto Sandonato, dava início ao seu projeto de propulsão iônica no INPE, exatamente no ano em que eu nascia. Posso dizer que nasci junto com a propulsão elétrica no Brasil.
Ao longo da minha vida, tive a oportunidade de acompanhar sua trajetória profissional e os desafios que enfrentou. Sua pesquisa passou por diferentes fases: construções, testes, simulações, novas tentativas, erros, acertos e aprimoramentos — como ocorre na jornada de todo cientista.
É inevitável não refletir sobre o imenso potencial de inovação do nosso país, que, infelizmente, ainda enfrenta limitações significativas no incentivo à ciência e à pesquisa.
Meu pai escolheu essa carreira movido pela vocação e pelo amor à ciência. Dedicou-se a ela por mais de 30 anos e recusou convites para trabalhar em outros países. Além de razões pessoais, ele desejava trazer uma contribuição genuína ao Brasil, para que nosso país fosse reconhecido como um lugar de representação tecnológica significativa.
Como em qualquer carreira, sua jornada não foi isenta de dificuldades. É preciso coragem para persistir em projetos que, no início, poucos acreditam ter futuro. Em um mundo ainda fortemente orientado por interesses financeiros, a ciência nem sempre recebe a compreensão e o apoio que merece. Isso me faz pensar no quanto poderíamos evoluir como sociedade se essa realidade fosse diferente.
Ainda assim, nos espaços que lhe foram abertos, meu pai pôde trabalhar e aprimorar sucessivas versões de seus propulsores elétricos, até alcançar um resultado que foi elogiado internacionalmente por entregar algo inédito no Brasil.
Entre os dias 9 e 13 de março, ocorreu o "2ª Escola e Workshop Brasileiro/Interamericano de Propulsão Espacial Elétrica - JBIS-WESP 2026", na FINATEC, em Brasília.
Expresso minha gratidão ao organizador do evento, José Leonardo, bem como aos amigos, colegas de trabalho Rodrigo Intini Marques e Paolo Gessini, que também se tornaram família ao longo dos anos. Eles prestaram uma linda homenagem ao meu pai, com uma placa de reconhecimento como pioneiro da propulsão elétrica no Brasil.
Gostaria também de parabenizar Jose Leonardo Ferreira pela iniciativa de realizar o workshop e pela organização das palestras ministradas por importantes cientistas de diversos países, que se reuniram com o propósito de compartilhar conhecimentos e despertar o interesse das pessoas pela ciência.
Não apenas sinto imenso orgulho de toda sua trajetória, mas também queria parabenizá-lo pela perseverança, dedicação e inteligência.
Te amo Gilberto Sandonato!"
Homenagem ao Dr. Gilberto Marrega Sandonato.
“Desde já, o BS, que reconhece o esforço de décadas deste grande profissional brasileiro da área de Propulsão Elétrica Espacial, parabeniza-o por sua dedicação e pelos relevantes serviços prestados a um país que, lamentavelmente, nem sempre lhe ofereceu o apoio necessário.”
Brazilian Space
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