T&D: Cinco Perguntas Sobre a Opto Eletrônica

Olá leitor!

Segue abaixo uma interessante nota postada hoje (20/05) no blog “Panorama Espacial” do companheiro jornalista André Mileski, destacando uma entrevista com o Mario Stefani, diretor da empresa Opto Eletrônica (empresa de grande atuação no PEB), publicada na edição de nº 124 da revista Tecnologia & Defesa (T&D).

Duda Falcão

T&D: Cinco Perguntas Sobre a
Opto Eletrônica

T&D nº 124
20/05/2011

Na edição nº 124 da revista Tecnologia & Defesa, que está nas bancas, foi publicada uma entrevista com Mario Stefani, diretor da Opto Eletrônica, indústria nacional com sede em São Carlos (SP) com considerável atuação nos setores aeroespacial e de defesa. No campo espacial, por exemplo, a Opto desenvolve e fabrica imageadores para os satélites da série CBERS e o Amazônia-1, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Abaixo, reproduzimos a entrevista, que traz interessantes informações sobre a empresa, seus projetos e planos para o futuro:

OPTO ELETRÔNICA

Conhecendo uma empresa de alta tecnologia, em cinco perguntas respondidas por Mário Stefani, seu diretor de Pesquisa & Desenvolvimento

Tecnologia & Defesa - O senhor poderia comentar um pouco sobre a história e o momento atual da Opto?

Mário Stefani - A Opto foi fundada em 1986 por um grupo de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) de São Carlos (SP), e tinha por objetivo a fabricação de laser de hélio neônio (HeNe). Na época, era a única empresa de seu gênero no hemisfério sul. Logo, a equipe percebeu que o laser em si era uma “solução à espera de problemas”, comercialmente inviável, e não era suficiente para manter a firma. Então, a empresa modificou a sua forma de atuação. Como a fabricação de laser de HeNe exigia uma série de tecnologias avançadas que permitiam um grande leque de atuação, a Opto começou a propor produtos para as mais diversas aplicações práticas que lhe eram apresentadas. Desde o início, a equipe tinha considerável competência em óptica, filmes finos, eletrônica avançada, mecânica fina, materiais e, mais tarde, processamento de sinais e softwares embarcados. Esse rol de competências permitiu que se buscasse produtos em que a junção otimizada de todas essas tecnologias permitisse vantagem competitiva significativa. Assim, logo a firma começou a ter produtos eletro-ópticos nas áreas médicas, industriais e de defesa. Hoje, a Opto tem um amplo leque de produtos desenvolvidos “in house”, exportando para mais de 60 países. São produtos competitivos e certificados pelos mais rigorosos órgãos internacionais reguladores, tais como FDA e CE Europeu. Hoje, empresa conta com cerca de 450 funcionários, cinco fábricas, filiais no exterior, e pretende ser importante ator no mercado de defesa nacional no setor de eletro–óptica.

A atuação na área de defesa vem desde 1990, onde iniciando parceria de longa data com a Mectron, atuou nos programas MAA, MAR, MSS, e, mais recentemente, sendo membro efetivo do programa A-Darter, projeto de cooperação entre a Força Aérea Brasileira e a Força Aérea da África do Sul.

Em 2009, a Opto iniciou sua atuação no setor de visão termal, campo em que vem lançando diversos produtos destinados aos mercados de defesa e civil. Nesta área, temos parceria com o Centro Tecnológico do Exército (CTEx).

O atual momento da Opto é muito desafiador e decisivo. Sabemos que o Brasil não poderá mais negligenciar a sua capacidade de autodefesa. Os mega eventos, tais como a Copa do Mundo de Futebol e Jogos Olímpicos são apenas os mais publicitados. O fato concreto é que não existe país entre as maiores economias do mundo que não seja forte na sua indústria nativa em defesa e espaço. Se o Brasil quer ser um país relevante no cenário internacional, sua área de defesa não poderá mais ser negligenciada ou insuficiente. E um país relevante tem que ter indústria nacional forte. A descoberta do pré-sal evidenciou a necessidade de olhar a defesa de sua soberania e recursos econômicos com maior atenção, sem contar a sempre evidente fragilidade de nossas fronteiras secas. E no estado atual da tecnologia militar, a eletro-óptica é parte fundamental. A Opto quer ser a casa genuinamente brasileira de eletro-óptica, e como nossos congêneres no exterior, atuando tanto no mercado de defesa quanto no mercado civil.

T&D - A Opto é considerada uma das principais indústrias espaciais brasileiras, hoje desenvolvendo e construindo sensores óticos para satélites do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Quais são os planos da empresa para o setor espacial?

Mário Stefani - Vencemos três licitações para o desenvolvimento de câmeras destinadas a uso embarcado em satélites do INPE. São produtos de extrema complexidade, cuja tecnologia somente é dominada por poucos países no mundo. O INPE teve uma decisão corajosa e histórica ao determinar, em 2004, que as câmeras destinadas ao Programa Sino-Brasileiro de Satélites de Recursos Terrestres (CBERS), nas edições 3 e 4 fossem na sua porção brasileira integralmente desenvolvidos por firmas nacionais. Esta decisão foi na época considerada arrojada, porém, hoje, já se mostrou que se tornou um marco no desenvolvimento da tecnologia nacional.

A câmera MUX, destinada aos CBERS 3 e 4, tem arquitetura e recursos sofisticados e permitiu a criação de importante massa critica humana, bem como significativa infraestrutura industrial, permitindo que o Brasil seja independente no segmento de sensoriamento remoto óptico. Não é necessário destacar a importância desta área no monitoramento ambiental, bem como em aplicações estratégicas de defesa. A Opto desenvolve integralmente o subsistema MUX, bem como a câmera do satélite Amazônia -1, baseado na Plataforma Multimissão (PMM) do INPE, que atuará na função de monitoramento ambiental da Amazônia. Também participa da câmera WFI, em consórcio com a Equatorial Sistemas, onde é responsável por toda a eletro-óptica do subsistema.

É importante salientar que também aqui o rol de tecnologias, massa crítica humana e infraestrutura industrial criada para esses programas, permitiram uma série de spin-offs e difusão de tecnologias no mercado civil. Como ocorreu no programa Apolo, no caso brasileiro do CBERS, o desenvolvimento da tecnologia da câmera MUX permitiu que uma série de soluções fossem empregadas em instrumentos médicos oftalmológicos. Um dos produtos da Opto, o retinógrafo Kiron, foi patenteado nos Estados Unidos e compete em desempenho com os melhores produtos disponíveis no mercado internacional. Este produto foi desenvolvido usando as mesmas técnicas e ferramentas desenvolvidas para o produto espacial. Sem este investimento, feito pelo programa espacial, dificilmente a Opto teria margem de investimento requerido para lançar um produto no mercado internacional competindo em desempenho e tecnologia. Assim, novamente como nossos concorrentes no exterior, a Opto pretende ter sempre atuação destacada no setor espacial brasileiro, desejando ser sempre a escolha preferencial para os sistemas eletro-ópticos requeridos pelos potenciais clientes brasileiros no setor.

T&D - Considerando os ramos em que atua - ótica e optrônica, as atividades e iniciativas de Pesquisa & Desenvolvimento (P&D) são essenciais para a perenidade da empresa e de sua tecnologia. Como a Opto tem trabalhado em matéria de P&D e também em termos de mão de obra especializada?

Mário Stefani - A Opto tem um setor de P&D grande e atuante, sendo que esta área possui diretoria específica desde a sua fundação. A Opto investe cerca de 17% de seu faturamento em desenvolvimento de novos produtos. Hoje, são mais de 70 profissionais, em sua grande maioria com alto grau acadêmico. Curiosamente, descobrimos recentemente que a Opto possui em seus quadros mais da metade dos PhDs em óptica do Brasil. A equipe de P&D da Opto é multidisciplinar, atuando nas áreas de óptica, laser, filmes finos, mecânica de precisão, mecânica estrutural e térmica, eletrônica avançada, processamento de sinais, software embarcado, materiais, gestão de projetos e certificações. O plano de carreira da Opto no setor de P&D premia o desenvolvimento pessoal contínuo, sendo que a maioria das teses de mestrado e doutorado foram realizados nos laboratórios da Opto e defendidas em instituições de renome, como a USP.

A organização das equipes de projetos são dinâmicas e matriciais, e isso permite rápida e ampla difusão de tecnologias e soluções entre os produtos destinados a diferentes mercados tais como o de defesa, aeroespacial e civil. A formação de mão de obra na área é lenta e onerosa. Para se formar um PhD em óptica ou eletro-óptica, são necessários cerca de 12 anos, incluindo programas remunerados em instituições no exterior. A seleção de candidatos é rigorosa e é feita por acompanhamento dos potenciais candidatos, desde sua graduação. Programas ou competições como o AeroDesign, SAE Baja, e similares, têm patrocínio de equipes feita pela Opto, onde as habilidades dos candidatos são observadas.

A perenidade de programas nas áreas de defesa e aeroespacial são fundamentais para a manutenção dessas equipes. Porém, a Opto sabe que, historicamente, esses mercados no Brasil são instáveis e, até hoje, a atuação no mercado civil sempre foi a solução para a retenção do pessoal qualificado, mantida à duras penas. Espera-se que a Estratégia Nacional de Defesa seja efetivamente implementada e que permita o planejamento de longo prazo. Sem a perenidade de programas a carreira se torna pouco interessante e não se estabelece independência tecnológica no setor.

T&D - E no setor de defesa, quais são os principais projetos?

Mário Stefani - A Opto tem hoje em seu portfólio mais de uma dezena de projetos em andamento nas áreas de defesa e espaço. São, em sua maioria, destinados às Forças Armadas brasileiras e ao INPE. Estamos focando nossa atuação em soluções eletro-ópticas, tais como visores termais, imageadores infravermelhos para uso em mísseis, imageadores para uso embarcado em aeronaves e VANTs, telêmetros laser, apontadores laser, “beam riders” e câmeras de sensoriamento remoto. Para alguns clientes, parceiros tradicionais, como a Mectron, fabricamos subsistemas completos, tais como as espoletas de proximidade a laser destinados ao programa MAA, desde 1994. Lançamos recentemente um visor termal para armas leves, desenvolvido com financiamento da FINEP, em parceria com o CTEx, que atingiu níveis de desempenho superiores aos seus congêneres internacionais.

A Opto participa do programa A-Darter, tendo uma equipe trabalhando na África do Sul junto com as respectivas equipes da Mectron e da Avibras, participando do desenvolvimento do míssil. Este programa vai abrir importantes oportunidades para o País e a Opto pretende que sua equipe se torne o repositório nacional de conhecimento no setor de imageadores infravermelhos avançados.

T&D - Qual a opinião do senhor sobre o momento atual para o setor de defesa no Brasil, com a Estratégia Nacional de Defesa, importantes programas de modernização e reequipamento, entre outros, em particular quanto à indústria nacional?

Mário Stefani - Os produtos na área de defesa levam anos para serem efetivamente desenvolvidos, demandam contínuo investimento, previsibilidade orçamentária e de demanda e progressividade de abrangência. A Estratégia Nacional de Defesa vai permitir que os principais atores nacionais realizem planejamento efetivo de programas de desenvolvimento tecnológico e humano de longo prazo, visando suprir produtos dentro das necessidades do País. Basta saber se realmente será implementado como programa de Estado e não seja contingenciado por interesses políticos passageiros ou visão de curto prazo. Esperamos que seja um programa voltado para a obtenção efetiva de independência nacional, como se deseja que venha a agir um país de relevância no mundo futuro.

O que a Opto quer é a oportunidade de competir dentro de um programa de Estado visando a obtenção progressiva e efetiva da independência nacional. Salientamos o termo competir, pois não queremos simplesmente empurrar produtos defasados, não desejados pelos nossos clientes, meramente por sermos empresa nacional. Sabemos que grande parte dos clientes nas Forças Armadas nacionais quer o que de melhor existe no mercado. Porém, devido ao pouco investimento ocorrido no setor nos últimos anos, as indústrias nacionais ficaram com seus produtos defasados com relação aos similares dos grandes grupos internacionais. No entanto, ao simplesmente se adquirir soluções prontas e acabadas no mercado internacional, nunca vai se obter independência e sempre vai haver a possibilidade do produto ou recurso ter seu uso negado ou impedido no momento critico. Assim, cria-se um círculo vicioso onde não é dada a oportunidade de desenvolver produtos nacionais,e nunca o cliente vai estar satisfeito e seguro com estes produtos. Para romper este ciclo, a Opto julga que programas como o Subvenção Econômica FINEP e a criação de linhas específicas de financiamento pelo BNDES são vitais para a obtenção de independência e competitividade para as indústrias nacionais. Esses programas funcionam como equalizadores de competitividade. Programas similares são largamente empregados por diversos governos no exterior, aliados a programas de lotes mínimos e demonstradores de tecnologia, que em conjunto acabam por permitir a constante e progressiva competitividade das suas respectivas indústrias. A imposição de programas de offset, bem como a existência legal de margem de preferências aos produtos nacionais ajudam, porém, somente programas de subvenção e financiamento podem permitir a reversão da situação de baixa competitividade dos produtos nacionais a longo prazo. Em resumo, basta que a Estratégia Nacional de Defesa seja efetivamente perseguida que ferramentas auxiliares serão implementadas. Queremos a oportunidade de planejar, investir, desenvolver e produzir produtos competitivos e de alta tecnologia, visando à independência tecnológica no setor.


Fonte: Revista Tecnologia & Defesa via Blog “Panorama Espacial“ - André Mileski

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Da Sala de Aula para o Espaço

Top 5 - Principais Satélites Brasileiros

Por Que a Sétima Economia do Mundo Ainda é Retardatária na Corrida Espacial