Avibras entre a J&F e o Itaú: Verdade? Boato? Mentira?

Rumores sobre uma possível saída dos irmãos Batista e uma eventual entrada do Itaú na sustentação da recuperação da Avibras circulam desde sexta-feira. O Brazilian Space foi ouvir a empresa e também revisou o que está documentado sobre a operação, os credores e a interminável “Novela Avibras”.


Por Redação Brazilian Space
    13/09/2026 22:00h

Olá, Leitora! Olá, Leitor!

Desde a última sexta-feira, 11 de setembro de 2026, os bastidores da indústria de defesa nacional e do mercado financeiro voltaram a ser agitados por intensos rumores. As especulações dão conta de que os irmãos Joesley e Wesley Batista — do grupo J&F —, anunciados recentemente como novos investidores e compradores majoritários da Avibras Aeroco, estariam prestes a se retirar do negócio. Paralelamente, os boatos indicam que o Banco Itaú, uma das instituições financeiras de maior porte do País, assumiria o protagonismo para suportar a reestruturação da empresa nessa trama que parece não ter fim.

Brazilian Space (Imagem gerada com auxílio da IA).

Buscando o rigor jornalístico, entramos em contato com a diretoria da Avibras por meio de canais informais de comunicação para checar a veracidade das informações. A resposta recebida foi sucinta e direta:

“De acordo com a diretoria, essa informação não procede.”

Não foram fornecidas notas oficiais ou esclarecimentos adicionais.

O trauma do “furo” e a postura do Brazilian Space

Diante dessa resposta lacônica, cabe aqui um resgate transparente de memória com o nosso leitor. Quando as primeiras notícias da venda da Avibras para a J&F vieram a público em 07 de abril de 2026 pelo Estadão (veja aqui), a equipe do Brazilian Space já vinha acompanhando os bastidores desse furo. Por quase duas semanas antes (em março) da publicação do Estadão, contatamos informalmente a diretoria da Avibras, que na ocasião negou veementemente qualquer acordo em andamento.

Naquele momento, tínhamos elementos para publicar a matéria. Contudo, cientes da situação extrema e frágil em que a Avibras se encontrava em sua Recuperação Judicial, optamos pela cautela editorial para não atropelar tratativas delicadas ou espantar investidores. O resultado? Tomamos uma clássica “bola nas costas”: a negação formal foi seguida, dias depois, pelo anúncio oficial com toda pompa e circunstância dado em primeira mão ao Estadão, incluindo entrevista com o CEO e ampla cobertura da grande imprensa.

Como “gato escaldado tem medo de água fria”, desta vez não nos limitamos à versão oficial. Recorremos a outras fontes internas e a interlocutores próximos ao ecossistema da Avibras. Diferente da nota seca da diretoria, essas fontes afirmam categoricamente que movimentações e reajustes nas negociações estão, sim, em andamento nos bastidores.

Verdade? Boato? Mentira? O Brazilian Space segue apurando os fatos para que nossos leitores não fiquem à mercê de discursos de conveniência.

A “Novela Avibras” e a Recuperação Judicial

A crise da Avibras deixou de ser apenas um problema corporativo para se tornar um verdadeiro folhetim de suspense, do qual o Brazilian Space vêm registrando tudo dessa novela, tanto no Blog (vide aqui) quanto no YouTube (vide aqui). Desde o pedido de Recuperação Judicial em março de 2022, com dívida declarada da ordem de R$ 600 milhões, e uma greve de funcionários por salários atrasados que se arrastou por anos, a maior empresa privada de defesa do Brasil tornou-se palco de especulações contínuas.

A trajetória de buscas por um “salvador” já contou com episódios dramáticos: tratativas frustradas com a australiana DefendTex, sondagens de grupos chineses e até negociações com a saudita Black Storm Military Industries. Cada capítulo trazia a promessa de injeção de capital para socorrer projetos vitais às Forças Armadas brasileiras — como o Sistema Astros e o Míssil Tático de Cruzeiro (MTC-300) —, mas terminava em impasse. A longa paralisação colocou em risco a soberania nacional e a retenção de capital intelectual altamente especializado no Vale do Paraíba.

Depois vieram o primeiro plano de recuperação, a homologação judicial em fevereiro de 2024, a entrada do Brasil Crédito como grande credor e protagonista da nova estrutura, a homologação do plano alternativo em julho de 2025 e a confirmação, em agosto de 2025, de um novo acionista controlador, a Vita Gestão e Investimentos Ltda. Em março de 2026, o Tribunal de Justiça manteve integralmente a homologação do plano, e os trabalhadores aprovaram um acordo para quitação das dívidas trabalhistas, encerrando uma greve que durou mais de três anos.

O que está documentado sobre a operação com os irmãos Batista

Há uma diferença fundamental em relação aos rumores atuais: o negócio com os Batista não nasceu de um rumor de mercado. Ele foi formalmente anunciado e comunicado às autoridades.

Depois das matérias de abril, a aquisição formal foi anunciada em 21 de agosto de 2026. A compradora indicada nos documentos é a Globe Investimentos S.A., veículo de investimentos pessoais dos irmãos Joesley e Wesley Batista, e a operação envolve a aquisição da totalidade das ações da Nova AVB S.A., holding que controla a Avibras Aeroco.

Aqui existe uma nuance importante: embora boa parte da imprensa tenha resumido a operação como uma “compra da Avibras pela J&F”, legalmente a documentação aponta a Globe Investimentos como adquirente. A Globe é utilizada pelos irmãos Batista como veículo de investimentos pessoais e não se confunde juridicamente com a holding J&F. Portanto, tecnicamente, é mais preciso dizer que os irmãos Batista, por meio da Globe Investimentos, negociaram a compra do controle da estrutura societária da Avibras.

E a operação ainda não está concluída: depende da análise do Cade e da conclusão dos demais trâmites de fechamento.

Antes mesmo do anúncio da compra, Joesley Batista já havia participado de uma captação privada de R$ 300 milhões destinada à retomada da Avibras. O valor individual aportado pelo empresário não foi divulgado. Ou seja: há dinheiro, participação e compromisso anterior dos Batista documentados publicamente.

Isso, por si só, não elimina a possibilidade de uma mudança de estratégia. Mas também significa que qualquer eventual retirada seria um fato relevante e precisaria ser compreendido à luz dos compromissos já assumidos.

O Banco Itaú e a questão dos credores

Segundo umas das fontes do Brazilian Space, dentro do plano de Recuperação Judicial e da estrutura de capital da Avibras, o Banco Itaú estaria como uma das figuras centrais por ser, segundo a fonte, "um dos maiores credores das dívidas bancárias e garantias financeiras emitidas ao longo dos últimos anos".

Mas há uma correção importante a fazer.

Não encontramos documentação pública confiável que permita afirmar que o Itaú seja atualmente o maior credor da Avibras. Ao contrário: os documentos e reportagens disponíveis apontam o Brasil Crédito como o grande protagonista financeiro do processo, seguido por o BTG Pactual, além de dívidas com o Estado envolvendo o BNDES, a Finep e o Banco do Brasil. Em 2025, o Brasil Crédito já era apontado como detentor de aproximadamente 30% do total das dívidas da Avibras, depois da aquisição de créditos, e era tratado como o maior credor da companhia. Em abril daquele ano, por exemplo, o Brasil Crédito era apontado como credor de cerca de R$ 180 milhões da Avibras.

O processo de recuperação judicial tramita na 2ª Vara Cível de Jacareí sob o nº 1002302-16.2022.8.26.0292 e possui valor processual indicado de aproximadamente R$ 394,76 milhões.

Portanto, até que apareça documentação nova, não é correto afirmar como fato que o Itaú tenha assumido a posição de maior credor da Avibras ou que seja ele quem está financiando a atual recuperação. Isso não significa que o rumor seja irrelevante. Significa apenas que, neste momento, não temos prova pública suficiente para confirmar essa notícia.

J&F, irmãos Batista e as conexões políticas

O anúncio de que os irmãos Batista — por meio da Globe Investimentos — comprariam 100% da Avibras pegou o mercado de surpresa. Tratava-se do ingresso da família Batista em um setor altamente regulado e de caráter estratégico para a Defesa Nacional, algo inédito até então, ainda que eles venham diversificado seus negócios até para a área de energia.

Não se pode ignorar o pano de fundo político dessa equação. A família Batista possui histórico de forte proximidade e interlocução com o Palácio do Planalto e com o atual governo. Em 2025, a Reuters registrou que Joesley e Wesley Batista haviam recuperado parte de seu acesso à elite política brasileira e que ambos haviam participado de reuniões públicas e privadas com Lula e integrantes de seu governo. Em maio de 2026, a própria Reuters noticiou que Joesley Batista desempenhou papel relevante na articulação do encontro entre Lula e Donald Trump, segundo uma fonte com conhecimento direto das negociações.

E existe ainda um detalhe extremamente recente. Em 31 de agosto de 2026, Lula recebeu no Palácio da Alvorada um grupo de empresários que incluía Joesley e Wesley Batista. No mesmo jantar estava Roberto Setúbal, copresidente do Conselho de Administração do Itaú Unibanco.

Isso é um fato. Mas precisamos tomar cuidado com a conclusão.

Há, porém, um dado político que ajuda a contextualizar a relação entre círculos empresariais e o atual governo: Maria Alice “Neca” Setubal, integrante de uma das famílias tradicionalmente associadas ao Itaú, declarou voto em Lula no segundo turno de 2022 e posteriormente integrou a equipe de transição do governo na área de Educação. O próprio Itaú esclareceu à época que ela não fazia parte da administração do banco e que sua posição era pessoal.

Portanto, existe uma rede de relações empresariais, institucionais e políticas entre personagens de enorme peso econômico que podem estar atuando para evitar mitigar situações desagradáveis politicamente, principalmente em ano de eleição.

A Avibras é considerada pelo Ministério da Defesa uma Empresa Estratégica de Defesa (EED). Qualquer transação referente ao seu controle passa não apenas pelo crivo do CADE, mas por uma intensa articulação em Brasília. Por isso, movimentações envolvendo os irmãos Batista e o apoio do sistema bancário de grande porte carregam peso político proporcional ao interesse governamental em "manter as operações da fábrica ativas no país".

Verdade? Boato? Mentira?

E chegamos à pergunta do título.

Verdade? Pode ser que exista alguma renegociação ou mudança na estrutura financeira que ainda não foi divulgada.

Boato? É perfeitamente possível que alguém tenha interpretado movimentações financeiras, conversas com credores ou mudanças na estrutura societária como uma retirada dos Batista.

Mentira? Também não podemos descartar essa possibilidade, especialmente porque a própria direção da Avibras nega categoricamente a informação, porém no passado também negaram que os Batista estavam interessados na empresa e deu no que deu, certo?

O que podemos afirmar hoje é algo mais simples e, talvez, mais importante:

  • O negócio entre os Batista e a estrutura societária que controla a Avibras existe, foi confirmado oficialmente em 21 de agosto e está sujeito às etapas necessárias para sua conclusão.

  • A Avibras nega que os irmãos Batista estejam saindo.

  • Não encontramos evidência pública de que o Itaú tenha assumido o papel de principal sustentador da companhia ou de qualquer mudança dos credores.

  • E fontes próximas à empresa continuam afirmando que a negociação com o Itaú é séria e está em andamento.

Portanto, por enquanto, a resposta mais honesta é:

A novela continua.

E, conhecendo a história recente da Avibras, talvez fosse surpreendente se fosse diferente.

O Brazilian Space continuará acompanhando de perto os desdobramentos, cobrando transparência dos envolvidos e ouvindo fontes independentes para entregar a informação precisa ao setor aeroespacial brasileiro. E desta vez, com o aprendizado da primeira rodada de negociação com os Batista devidamente incorporado: não pretendemos ser novamente preteridos por uma confirmação que já estava circulando nos bastidores há semanas.

Porque, afinal, depois de tantos capítulos, “A Novela Avibras” ainda está longe de chegar ao último capítulo.

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