Artigo: As Oportunidades da América Latina na Nova Corrida Espacial
Caros entusiastas das atividades espaciais!
No dia 26/05, o portal DW.com publicou um interessante
artigo destacando as oportunidades da América Latina na nova corrida espacial,
o qual trago na íntegra abaixo para os nossos entusiastas, informando ainda que
esse será um dos temas do Espaço Semanal desta noite. Fiquem atentos!
Pois é, amigos, a matéria é interessante e, apesar de
citar o Brasil ao lado da Argentina como os dois países mais avançados desse
setor na América Latina, limita-se a relatar apenas que o Brasil, com o Centro
Espacial de Alcântara, possui uma das melhores localizações do mundo, próxima à
Linha do Equador. Como brasileiro, fico a me perguntar por que Argentina,
México e até mesmo Chile e Colômbia recebem mais destaque no artigo. Seria
preconceito do autor, José Urrejola, claramente de origem hispânica? Ou haveria
outra razão para isso?
Vale a reflexão. Não para mim, que conheço a resposta,
mas para você, leitor menos informado sobre a verdadeira situação do Programa
Espacial Brasileiro governamental — o mais antigo da região, com mais de 60
anos de existência — e que, até hoje, só consegue se destacar por meio das
falácias e narrativas propagadas pelos órgãos do governo, muitas vezes
reproduzidas por uma mídia desinformada ou, em alguns casos, alinhada à
desinformar o povo brasileiro.
Comece a se questionar por que uma nação — se é que este
“Território de Piratas” pode ser chamado assim — com a pujança econômica e
territorial que possui, após mais de 60 anos, sequer consegue colocar um
simples parafuso em órbita por meios próprios? Especialmente tendo em seu
território uma das melhores localizações do mundo para lançamentos, como o
próprio artigo destaca e como é propagado a todo momento pelos “Agentes do
Caos” que, infelizmente, infestam os bastidores da gestão do PEB.
Reflita e perceba que a narrativa não condiz com o que
foi efetivamente entregue até agora. Ainda assim, essas mesmas narrativas
continuam sendo impulsionadas a todo vapor neste ano eleitoral, não apenas
pelos nefastos órgãos do governo e por sua mídia politizada, mas,
infelizmente, também por algumas empresas do setor. Vivemos tempos cada vez
mais sombrios para o país, e isso não terminará bem.
Pois bem, de acordo com o artigo, mesmo sem astronautas
viajando ao espaço, a região tem vantagens e oportunidades que a tornam um ator
estratégico na corrida entre as grandes potências., sendo a sua Geografia considerada
um trunfo.
Foto: Vera C. Rubin Observatory
![]() |
| Chile: Observatório Vera Rubin foi financiado com capital estrangeiro, mas voltado para beneficiar a comunidade científica local. |
A nova corrida
espacial não é apenas uma competição entre as grandes
potências por prestígio e ciência, mas também pelos recursos existentes em
asteroides, na Lua e em Marte. Quem estabelecer as primeiras bases fora da Terra definirá as regras do jogo.
Nesse tabuleiro, a América Latina não compete para fincar
bandeiras em outros astros, mas tem um papel e um potencial que não devem ser
subestimados.
César Bertucci, pesquisador do Instituto de Astronomia e Física do Espaço (IAFE), ligado à Universidade de Buenos Aires (UBA),
explica à DW que, na América Latina, "a 'corrida' espacial não está
inserida na competição entre Estados. O nível de desenvolvimento espacial da
região apresenta uma grande diversidade, com países mais e menos
avançados".
A cooperação regional existe, mas é limitada e "a
exploração espacial, por enquanto, não faz parte dos objetivos", acrescenta.
NewSpace: a Porta de Entrada Para Países Emergentes
No entanto, juntamente com a exploração espacial
tradicional — dominada por agências como a NASA (EUA), a ESA (Europa) ou a CNSA
(China), com grandes orçamentos — surgiu há cerca de 20 anos o chamado
NewSpace: empresas privadas que operam no espaço com foco em rentabilidade e
com base na Terra. Este é o setor com maior potencial para a região.
"O NewSpace abre um grande leque de oportunidades.
Outra questão é se os países emergentes, especialmente na América Latina, serão
capazes ou terão a visão de aproveitá-las", afirma à DW Gustavo Medina,
diretor do Laboratório de Instrumentação Espacial (LINX) da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM).
Foto: Laboratorio de Instrumentación Espacial (LINX),
UNAM
Sua equipe lançou em 2024, a partir do Cabo Canaveral, o Projeto Colmena 1. E, embora os robôs não tenham conseguido pousar na Lua por
problemas externos, "enviamos uma missão além da órbita lunar, a mais de
400 mil quilômetros da Terra, validando nossa tecnologia. Isso era impossível
há 20 anos. Era algo que apenas grandes agências espaciais como NASA,
JAXA [Japão] ou ESA podiam fazer", relata.
E os planos continuam: para 2028 está prevista a Missão
Colmena 2, de prospecção mineral lunar com pequenos robôs. O objetivo é
"realizar operações de mineração com enxames de microrrobôs e pequenos
rovers, mas em grande número e trabalhando de forma cooperativa", explica Medina.
Uma Geografia Que Vale Ouro
A região oferece vantagens logísticas que nenhuma
potência ignora. O Brasil, com o Centro Espacial de Alcântara,
possui uma das melhores localizações do mundo, próxima da Linha do Equador. Na
República Dominicana, a empresa Launch On Demand (LOD) planeja iniciar
lançamentos comerciais a partir de 2028. Já os céus do sul do continente —
Chile e Argentina — são ideais para a observação do espaço profundo.
"Não nos limitamos simplesmente a 'emprestar o
céu' ou o território", afirma à DW a astrofísica Lauren Flor Torres,
professora da Universidade de Antioquia e presidente da Comunidad Colombiana de Astronomia (AstroCo). A infraestrutura instalada deve ser "não apenas uma
base para operações estrangeiras, mas também um motor de pesquisa para as
instituições nacionais", destaca.
Como exemplo, ela cita o Observatório Vera Rubin, no
Chile: financiado com capital estrangeiro, mas voltado para beneficiar a
comunidade científica local. Assim, afirma, "a América Latina deixa de ser
apenas um anfitrião logístico para se consolidar como um centro global de
inteligência e desenvolvimento tecnológico".
Foto: Eraldo Peres/AP Photo/picture alliance
Entre Washington e Pequim
A região atua como uma zona "pendular", aberta
à cooperação tanto com o Ocidente quanto com o BRICS. Torres chama isso
de um "multilateralismo espacial inteligente", que permite
"diversificar riscos tecnológicos e acessar uma gama mais ampla de
conhecimentos, priorizando sempre a soberania científica diante de agendas
ideológicas externas".
No entanto, essa neutralidade depende dos governos.
"Os países mais avançados na área espacial, Argentina e Brasil, têm
estratégias opostas. O Brasil aposta em cooperação que passa fortemente
pelo BRICS, especialmente com a China, enquanto a Argentina está alinhada
com a política que Donald Trump propõe para a NASA", aponta Bertucci.
Para Medina, o NewSpace pode suavizar essa tensão:
"o novo setor espacial, mais ligado à indústria — e especialmente quando
combinado com ciência — oferece uma oportunidade de atuação mais
globalizada".
Alce: Promessa Regional Com Limitações
Em 2021 foi criada a Agência Latino-Americana e Caribenha do Espaço (ALCEl), com sede em Querétaro, no México, e ratificada por pelo menos
11 países em 2024. No entanto, enfrenta desafios importantes: pouca
visibilidade e a ausência dos dois principais atores da região.
"Infelizmente, países como Brasil e Argentina não
fazem parte. Isso já a enfraquece", afirma Medina. (Quanto a esse assunto, não posso falar pela Argentina. No caso do Brasil, porém, a participação nessa iniciativa dificilmente seria benéfica sem que antes houvesse uma reorganização profunda do setor espacial brasileiro. Para que isso acontecesse, seria necessário que os atuais “agentes do caos” deixassem de ditar os rumos da área — algo que, infelizmente, é bastante improvável de acontecer.).
"Atualmente, a ALCE não é um ator relevante no
cenário internacional. O desenvolvimento harmonioso da América Latina na área
espacial ainda é uma quimera", concorda Bertucci.
Foto: ESO/C. Malin
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| Céus do Chile e Argentina são ideais para a observação do espaço profundo. No Atacama, está localizado o radiotelescópio Alma. |
Uma Corrida Espacial "Com os Pés na Terra”
O objetivo real da região não é plantar uma bandeira em
Marte, mas usar o espaço para resolver problemas terrestres. Nanosatélites — do
tamanho de uma caixa de sapato — permitem monitorar incêndios, secas e
atividades agrícolas sem depender de grandes potências.
"A nossa é uma corrida com os pés na Terra. Não
precisamos de foguetes gigantes neste momento para provar capacidade;
precisamos usar o espaço como ferramenta estratégica para resolver problemas
urgentes aqui embaixo", resume Torres.
Medina concorda: "não precisamos de astronautas indo
à Lua. Prefiro mil engenheiros capazes de desenvolver uma atividade espacial
comercial".
Talento Existe — Mas Emigra
A região dispõe de capital humano, mas enfrenta a fuga de
cérebros. "A evasão de talentos é historicamente um grande problema na
América Latina. Na Argentina foi particularmente grave, e no México também tem
impacto", alerta Medina.
Segundo Torres, a ciência espacial regional exige
"orçamentos estáveis e uma visão de Estado de longo prazo, que vá além de
ciclos presidenciais".
"Só se conseguirmos desvincular o investimento em
ciência e tecnologia da polarização política poderemos garantir que os projetos
espaciais na América Latina não sejam esforços isolados de quatro anos, mas a
base de um desenvolvimento econômico e educacional sólido para as próximas
gerações", conclui.
Brazilian Space
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