Exclusivo: Nota de Esclarecimento da 'Dimante Geração de Energia' Sobre o Projeto do Micro-Reator Nuclear Brasileiro

Caros entusiastas do BS!
 
Pois então, em busca de mais informações sobre o Projeto do Micro-Reator Nuclear Brasileiro da empresa catarinense Diamante Geração de Energia, tema abordado recentemente aqui no BS (reveja aqui), nosso editor-chefe, o Prof. Rui Botelho, entrou em contato por e-mail com a empresa.
 
Ocorre que no dia de ontem (23/02) recebemos uma resposta da empresa acompanhada de uma ‘Nota de Esclarecimento’ sobre o projeto, que transcrevemos abaixo na íntegra para vocês. Confiram!
 
ESCLARECIMENTOS SOBRE O PROJETO FINEP PARA DESENVOLVIMENTO E
QUALIFICAÇÃO DE TECNOLOGIAS PARA O MICRORREATOR NUCLEAR BRASILEIRO
 
O Projeto FINEP/Diamante nº 03.25.0363.00 tem como objetivo central o Desenvolvimento e Testes de Tecnologias Críticas Aplicáveis a Microrreatores Nucleares. A estratégia adotada fundamenta-se na metodologia clássica de P&D do setor nuclear para o design de novos reatores, baseada no desacoplamento de fenômenos físicos para análise individualizada.
 
Essa abordagem requer a implementação de bancadas experimentais específicas, permitindo a segregação controlada entre os estudos de comportamento neutrônico e as análises termohidráulicas e termomecânicas. Tal isolamento é fundamental para a validação precisa de cada subsistema antes da integração completa do modelo, garantindo maior segurança e previsibilidade ao projeto.
 
Adicionalmente, o projeto visa ao desenvolvimento de materiais avançados e sistemas de controle e segurança de alta confiabilidade. O intuito é fomentar a cadeia de suprimentos nacional, garantindo soberania tecnológica na fabricação de componentes essenciais para os futuros microrreatores a serem produzidos no Brasil.
 
1. A Unidade Crítica (UCri): Validação Neutrônica
 
 * A pedra angular da pesquisa neutrônica é a construção de uma Unidade Crítica (UCri). Trata-se de um reator de pesquisa de potência ultrabaixa (aproximadamente 100 W), dimensionado estritamente para sustentar a reação em cadeia de forma controlada.
 
* Objetivos Técnicos da UCri:
 
 - Determinação de Parâmetros Cinéticos: Medição experimental de reatividade, fluxos neutrônicos e coeficientes de temperatura.
 
- Validação de Modelos Computacionais: Benchmarking de códigos de transporte e difusão de nêutrons frente a dados experimentais.
 
- Qualificação de Sistemas de Segurança: Testes de instrumentação, controle e simulação de transientes de falha em ambiente de risco mitigado.
 
- Capacitação Operacional: Treinamento de pessoal técnico e operadores em um ambiente controlado e seguro.
 
2. Bancadas Termohidráulicas e Termomecânicas:
 
Paralelamente, o projeto contempla o estudo do ciclo térmico por meio de bancadas experimentais dedicadas, focadas em:
 
- Testes de Efeitos Separados: Utilização de tubos de calor (heat pipes) para analisar a eficiência na remoção de calor operacional (potência nominal) e residual (calor de decaimento - decay heat) do núcleo do reator, sem a interferência de radiação, garantindo que pesquisadores e operadores realizem as medições e intervenções sem exposição aos riscos radiológicos.
 
- Testes de Efeitos Integrados: Análise da interação sinérgica entre o núcleo do reator, os heat pipes e o trocador de calor do sistema de conversão de potência (ex: Ciclo Brayton).
 
- Degradação de Materiais: Estudo da integridade estrutural e do comportamento mecânico dos componentes sob gradientes térmicos severos e estresse mecânico.
 
3. Desenvolvimento de Componentes Críticos da cadeia de suprimentos para o microrreator nuclear brasileiro:
 
Além da validação de sistemas, o Projeto FINEP # Diamante nº 03.25.0363.00 prioriza o domínio tecnológico da produção de componentes que definem a performance e a segurança dos microrreatores de nova geração. O desenvolvimento desses itens é o alicerce para a soberania tecnológica e a estruturação de uma cadeia produtiva nacional de alto valor agregado.
 
- Combustíveis Nucleares de Nova Geração:
 
O projeto foca em combustíveis com alta retenção de produtos de fissão e estabilidade térmica superior. A pesquisa concentra-se em geometrias e composições que permitam altas taxas de queima (burnup) com integridade estrutural, reduzindo a necessidade de reabastecimento frequente e simplificando a logística do ciclo de combustível para aplicação remota dos microrreatores.
 
- Heat Pipes (Tubos de Calor) de Alta Performance:
 
Os heat pipes representam o estado da arte na remoção de calor de forma passiva. O desenvolvimento nacional foca em:
 
- Compatibilidade Química: Seleção de fluidos de trabalho (como sódio – Na,potássio – K, ou misturas eutéticas) e invólucros metálicos que suportem temperaturas elevadas sem degradação.
 
- Operação Sem Bombeamento: Utilização de capilaridade e/ou gravidade para o transporte de calor, eliminando componentes móveis e aumentando drasticamente a confiabilidade do sistema.
 
- Tambores Rotativos de Controle e Segurança:
 
Diferente das barras de controle convencionais, os tambores rotativos oferecem um controle de reatividade mais compacto e preciso.
 
- Mecanismo: O controle de reatividade é exercido por meio de tambores cilíndricos posicionados na periferia do núcleo. Estes componentes são fabricados majoritariamente com material refletor de nêutrons (como o Berílio ou Grafita), possuindo uma seção transversal revestida com absorvedores de nêutrons (B4C). A regulação da potência ocorre através da rotação sincronizada desses cilindros:
 
- Posição de Desligamento: O lado absorvedor é voltado para o núcleo, capturando nêutrons e interrompendo a reação em cadeia.
 
- Posição de Operação: O tambor gira para expor a face refletora ao núcleo, devolvendo nêutrons ao sistema e aumentando a economia neutrônica para manter a criticidade.
 
- Funcionalidade: A rotação dos tambores altera a população de nêutrons do núcleo. Em caso de necessidade de desligamento rápido (scram), mecanismos passivos garantem que os tambores girem para a posição de máxima absorção, assegurando a extinção completa da reação em cadeia.
 
Materiais Moderadores e Refletores de Nêutrons:
 
A eficiência de um microrreator depende criticamente da gestão da população de nêutrons em um volume reduzido.
 
- Moderadores Avançados: Desenvolvimento de hidretos metálicos ou materiais grafíticos que reduzam a energia dos nêutrons com alta eficiência volumétrica, permitindo a compactação do núcleo.
 
- Refletores de Alta Eficiência: Utilização de materiais como o Berílio metálico, Óxido de Berílio ou Grafita para “devolver”; os nêutrons ao núcleo, minimizando a fuga de nêutrons e otimizando o uso do combustível nuclear.
 
Conclusão
 
Em suma, o Projeto FINEP estabelece uma base científica e tecnológica sólida para a viabilização de microrreatores nucleares no Brasil. Ao adotar a metodologia de desacoplamento de fenômenos, o projeto garante que cada subsistema — do comportamento neutrônico na Unidade Crítica (UCri) às dinâmicas termohidráulicas nas bancadas de teste — seja validado com o máximo rigor e segurança.
 
O domínio sobre tecnologias disruptivas, como os heat pipes para resfriamento passivo, os tambores rotativos para controle intrínseco e os combustíveis de alta queima, não apenas assegura a eficiência operacional dos futuros reatores, mas também posiciona o país na fronteira da inovação nuclear global.
 
Mais do que um avanço em engenharia, o projeto cumpre um papel estratégico vital: a criação de uma cadeia de suprimentos nacional e a conquista da soberania tecnológica. Ao integrar pesquisa de materiais avançados com a qualificação de sistemas e componentes críticos, o Brasil pavimenta o caminho para uma matriz energética mais versátil, segura e independente, capaz de atender desde a demanda de regiões remotas até aplicações industriais de alta complexidade.
 
Saulo Roberto de Vargas
Coordenador de Comunicação
Diamante Geração de Energia
 
Entusiastas do BS, vale destacar que este projeto conta com um investimento total de R$ 50 milhões, sendo R$ 30 milhões provenientes de subvenção econômica do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, via Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), e R$ 20 milhões de contrapartida das empresas Diamante Geração de Energia, Indústrias Nucleares do Brasil (INB) e Terminus P&D.
 
A iniciativa reúne um ecossistema de inovação robusto, integrando ICTs como IEN e IPEN (vinculados à CNEN), Amazul, DDNM, INATEL e CNPEM, além de universidades federais — UFC, UFABC e UFMG — e a Unicamp.
 
Uma curiosidade que deve ser destacada também é que o projeto do Micro-reator na verdade é da startup brasileira “Terminus P&D”, e que a “Diamante Geração de Energia” comprou as ações da Terminus P&D.
 
Caso queiram se aprofundar ainda mais nesse tema sugiro que visitem os links abaixo:
 
Matéria na FAPESP com bastante informações sobre o projeto. Na matéria tem varias respostas para o prof. que fez questionamentos:
 
 
Live com o criador do projeto do microrreator nuclear. Recomendo assistir a live para tiras as dúvidas e conhecer mais sobre o criador do projeto.
 
 
Brazilian Space
 
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