Akaer volta a atrasar salários e benefícios: cerca de 600 trabalhadores são afetados e sindicato confirma reincidência de irregularidades

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A Akaer Engenharia S.A. voltou a ser alvo de denúncias envolvendo o descumprimento de obrigações trabalhistas básicas, em um contexto que, segundo o Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região, já não pode mais ser tratado como episódico ou circunstancial. Informações confirmadas pela entidade sindical indicam que a empresa enfrenta, novamente, atrasos no pagamento de salários e benefícios essenciais, situação que atinge cerca de 600 trabalhadores e expõe um quadro de instabilidade estrutural com impactos diretos sobre a força de trabalho e sobre a própria credibilidade institucional da companhia.

Situação complicada na Akaer (Imagem criada por IA)

Após receber relatos de colaboradores, o Brazilian Space buscou a confirmação formal junto ao sindicato, que classificou o cenário atual como crítico e de natureza sistêmica. De acordo com a entidade, os atrasos envolvem não apenas salários mensais, mas também o 13º salário, depósitos obrigatórios de FGTS e benefícios fundamentais, como vale-alimentação e plano de saúde. A abrangência dessas irregularidades, que alcança praticamente todos os trabalhadores da unidade, reforça a avaliação de que o problema não se restringe a falhas administrativas pontuais, mas reflete uma dinâmica recorrente de gestão financeira que compromete direitos básicos.

Registros públicos do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos demonstram que essa não é a primeira vez que a Akaer recorre ao atraso de pagamentos como forma de aliviar pressões de caixa. Em diferentes momentos ao longo dos últimos anos, a empresa foi notificada formalmente por atrasos semelhantes, envolvendo salários, benefícios e encargos trabalhistas. Em ao menos uma dessas ocasiões, após a intensificação da pressão sindical, a empresa anunciou a regularização das pendências, compromisso que chegou a ser divulgado pela própria entidade sindical. No entanto, notificações posteriores e novas denúncias de trabalhadores indicam que essas medidas não se sustentaram no tempo, com a reincidência dos atrasos pouco depois das promessas de normalização.

Segundo o sindicato, o padrão se repete de forma previsível: o acúmulo de atrasos gera mobilização interna e intervenção sindical, seguida de compromissos de regularização parcial ou temporária, até que, passado um curto intervalo, as irregularidades retornam. “Recebemos com frequência reclamações dos trabalhadores. A empresa promete regularizar após a pressão sindical, mas o ciclo de atrasos volta a repetir-se pouco tempo depois”, afirma a entidade, ao sintetizar uma dinâmica que, na prática, transfere de forma sistemática aos trabalhadores o custo das dificuldades financeiras da empresa.

Assista vídeo abaixo com o posicionamento do presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região, Weller Gonçalves, sobre a Akaer:

O impacto desse modelo de gestão vai além da perda imediata de renda. A suspensão ou o atraso no pagamento de benefícios como o plano de saúde, por exemplo, introduz um elemento adicional de vulnerabilidade social, afetando diretamente o acesso dos trabalhadores e de suas famílias a cuidados médicos. A combinação entre salários atrasados, benefícios interrompidos e incerteza permanente cria um ambiente de insegurança que compromete o bem-estar, a produtividade e a própria relação de confiança entre empresa e empregados.

Esse cenário adquire contornos ainda mais preocupantes quando considerado o papel estratégico da Akaer no setor aeroespacial brasileiro. Trata-se de um segmento altamente sensível, que depende de planejamento de longo prazo, rigor contratual e estabilidade operacional. A reincidência de práticas de inadimplência trabalhista lança dúvidas legítimas sobre a capacidade da empresa de sustentar compromissos complexos e de longo prazo, especialmente em projetos que envolvem recursos públicos, parcerias internacionais e requisitos elevados de confiabilidade técnica.

Estrondo! Projeto VLN-Akr cancelado pela Finep.

As denúncias atuais dialogam, inclusive, com episódios anteriores já amplamente documentados pelo Brazilian Space, como os problemas envolvendo a participação da Akaer no projeto do veículo lançador VLN-Akr (veja aqui e aqui). Naquele caso, práticas de inadimplência contratual com a Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) e quebra de compromissos contribuíram para o enfraquecimento do projeto e para prejuízos significativos a parceiros e fornecedores, evidenciando fragilidades que agora se refletiram, novamente, na esfera trabalhista. A convergência entre esses episódios reforça a percepção de que os problemas enfrentados pela empresa não são isolados, mas parte de um padrão mais amplo de má gestão.

Recentemente o Brazilian Space cobrou (novamente) da Finep (via plataforma Fala.Br) um posicionamento sobre a situação da Akaer, após a constatação dos problemas na prestação de contas dos recursos ao VLN-Akr. Estamos aguardando um retorno.

Até o fechamento desta matéria, a Akaer não havia apresentado um posicionamento público detalhado sobre as denúncias mais recentes nem um cronograma transparente de regularização das pendências trabalhistas. Mais uma vez, assim como no caso do VLN-Akr, o silêncio da empresa aprofunda as incertezas e amplia a pressão sobre os trabalhadores, que permanecem sem garantias concretas de normalização. O Brazilian Space reitera que permanece aberto ao contraditório e à publicação de qualquer manifestação oficial que contribua para o esclarecimento dos fatos.

O caso Akaer, ao se repetir ao longo dos anos, funciona como um alerta para o setor aeroespacial brasileiro. Projetos estratégicos e ambições de soberania tecnológica não podem prescindir de critérios rigorosos de governança, responsabilidade social e solidez financeira. A persistência de sinais de instabilidade e inadimplência, quando ignorada, tende a produzir efeitos que extrapolam o âmbito interno da empresa, afetando trabalhadores, parceiros, programas estratégicos e a credibilidade do país no cenário internacional.

O Brazilian Space seguirá acompanhando o desdobramento desse caso, ouvindo o sindicato, os trabalhadores e, quando houver, a versão da empresa, mantendo seu compromisso com o rigor informativo, a análise crítica e a defesa do interesse público no setor aeroespacial.

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