segunda-feira, 16 de julho de 2018

Algumas Considerações Sobre o Setor Espacial

Olá leitor!

Segue abaixo um artigo escrito pelo conhecidíssimo pesquisador Thyrso Villela do Instituto Nacional de Pesquisa Espacial (INPE) e publicado na edição de Julho do ”Jornal do SindCT“. Vale a pena conferir.

Duda Falcão

PROGRAMA ESPACIAL

Número de Cubesats Lançados Superou o de Satélites Convencionais 

Algumas Considerações Sobre o Setor Espacial

O CubeSat é um satélite em forma de cubo com aresta de 10 centímetros.
Podem ser combinadas várias unidades desse cubo (1U) para
formar satélites maiores (2U, 3U, 6U...).

Por  Thyrso Villela*
Jornal do SindCT
Edição nº 69
Julho de 2018

Nos últimos anos, o setor privado tem liderado iniciativas que visam o desenvolvimento das atividades espaciais. Além disso, está em curso uma tendência de miniaturização de artefatos espaciais, tanto de satélites quanto de veículos para lançá-los ao espaço. Esses dois movimentos em escala mundial podem propiciar algumas oportunidades para o setor espacial nacional, tanto na esfera governamental quanto na privada.

Historicamente, a área espacial teve como alavanca o setor governamental. Foi assim no início dessa era, com a ex-URSS e os EUA como os principais líderes das iniciativas. Nas décadas seguintes, as grandes iniciativas continuaram sendo governamentais e abarcaram a Europa e alguns países da Ásia, apesar de terem surgido empresas especializadas em atender demandas tanto governamentais quanto privadas. Mas, recentemente, essa lógica vem sendo mudada, com a entrada de empresas capitaneando iniciativas ousadas.

Esse movimento tem sido, em grande medida, provocado pelo uso de satélites de pequeno porte, que têm desafiado uma lógica há muito tempo estabelecida no setor espacial, que é a da grande confiabilidade dos artefatos, que empregam componentes com qualificação espacial e passam por rigorosos testes antes de serem considerados aptos para operar no espaço. Essa metodologia acarreta altos custos, gera a necessidade de grandes equipes e, em geral, demanda cronogramas da ordem de anos para a construção desses artefatos. Os chamados lean satellites, dos quais os CubeSats são um subconjunto, desafiam essa lógica, ao empregar uma metodologia simplificada de projeto e testes. O uso generalizado nos CubeSats de componentes comerciais conhecidos como COTS (commercial off-the-shelf) é um dos responsáveis pela redução de custos.

A construção de satélites com diminuição de custos, cronogramas mais curtos e pequenas equipes, se comparada à forma tradicional de construção de satélites, tem promovido o acesso rápido ao espaço a instituições e países que têm dificuldades financeiras para conduzir, autonomamente, aplicações espaciais de seus interesses. E os CubeSats têm sido os expoentes dessa promoção.

Em 2017, o número de CubeSats lançados superou o de satélites convencionais. Aliás, os lançamentos de nano e microssatélites em 2017 ultrapassaram as expectativas: houve um aumento de 205% em relação a 2016. Dos cerca de 300 satélites dessas categorias lançados em 2017, a maioria foi de CubeSats. De acordo com a Satellite Industry Association, 45 dos 79 satélites lançados pelos EUA em 2016 eram CubeSats. Vários deles foram lançados para prover serviços de observação da Terra por empresas privadas.

Outros indicadores sobre CubeSats são igualmente impressionantes. Por exemplo, em 2005 foi lançado 1 CubeSat a cada quatro meses. Em 2012, esse número saltou para 2 por mês. Em 2017, foram lançados 24 CubeSats por mês. Espera-se que no ano de 2021 sejam lançados 1000 CubeSats, ou seja, cerca de 83 por mês! O número de publicações técnico-científicas relacionadas a CubeSats passou de 35, em 2005, para 307, em 2017, totalizando cerca de 2300 nesse período, de acordo com a base Scopus. O número de depósitos de patentes, de acordo com o European Patent Office, passou de 2, em 2005, para 114, em 2017, totalizando 304.

Cerca de 60 países já utilizaram CubeSats, o que equivale a aproximadamente 30% dos países. Os CubeSats estão proporcionando inovações em vários segmentos da atividade espacial que não se restringem apenas à forma como são desenvolvidos, mas se estendem à forma como são lançados ao espaço. Diferentemente do modo tradicional, em que a maioria dos lançamentos de satélites se dá por meio de veículos dedicados, com lançamentos compartilhados de poucos artefatos, os CubeSats, em geral, não são os artefatos principais nos lançamentos e podem ser lançados em grandes quantidades. Em particular, um fato chamou a atenção: 104 satélites lançados por um único veículo lançador indiano (PSLV C37), um recorde até o momento, sendo que 101 eram CubeSats.

O aumento do uso de CubeSats gerou uma necessidade: um veículo lançador dedicado a esses artefatos. Em fevereiro deste ano, a Agência Japonesa de Exploração Aeroespacial (JAXA) lançou com sucesso o veículo experimental SS-520-5, levando a bordo um satélite de pequeno porte. Esse é o menor veículo já construído com capacidade de colocar em órbita pequenos satélites. O European Innovation Council, recentemente, lançou um desafio aberto a empreendedores que tenham projetos para construir lançadores de baixo custo dedicados a quatro classes de satélites, que vão de minissatélites de até 400 kg (classe 1) até CubeSats de 25 kg (classe 4). Já há iniciativas sendo capitaneadas pelo setor privado para prover o mercado com lançadores para satélites de pequeno porte.

Em suma, os CubeSats apresentam oportunidades interessantes para o setor espacial brasileiro, que incluem a possibilidade de treinamento rápido de recursos humanos, de testes de novas tecnologias, de negócios para empresas nacionais e de viabilização de projetos de lançadores para satélites de pequeno porte. Um fator importante relacionado aos CubeSats é que eles permitem o atendimento de demandas públicas e privadas de forma rápida e a custos extremamente atraentes.

Convém frisar que há no país as condições essenciais para aproveitar tais oportunidades: recursos humanos disponíveis em número e qualidade, com capacidade de produção em várias áreas científicas e tecnológicas; infraestrutura de montagem, de testes e de lançamento de satélites; empresas com capacidades em vários setores tecnológicos, e demandas claras, como as relacionadas ao meio ambiente, defesa, ciência, etc.

Porém, é imperativo reconhecer que, apesar das condições mínimas para esse engajamento existirem, outras condições de contorno devem ser consideradas de modo a permitir que o problema de desenvolvimento do Programa Espacial Brasileiro possa ser resolvido. E elas passam por antigas reivindicações do setor, como valorização dos recursos humanos, aumento dos recursos financeiros, melhoria da gestão, entre outros. Mas também passam por uma maior ousadia da iniciativa privada de forma a diminuir a dependência de encomendas governamentais, como está acontecendo atualmente no mundo.

*Thyrso Villela é Pesquisador Titular do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e Assessor Técnico do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos. Foi Presidente da Sociedade Astronômica Brasileira e Diretor de Satélites, Aplicações e Desenvolvimento da Agência Espacial Brasileira.


Fonte: Jornal do SindCT - Edição 69ª - Julho de 2018 – Pág. 12

Nenhum comentário:

Postar um comentário