quarta-feira, 24 de junho de 2015

O Eng. Lucas Fonseca e a Missão Lunar da USP São Carlos

Olá leitor!

Uma vez mais o Blog BRAZILIAN SPACE na sua missão de tentar bem informar aos nossos leitores sobre as Atividades Espaciais Brasileiras, trazemos agora para você outra entrevista da “Série de Entrevistas” com profissionais que atuam em nosso Programa Espacial, esta agora com um dos jovens mais sérios e promissores deste importante setor do país.

Refiro-me ao diretor e cofundador da empresa espacial brasileira AIRVANTIS e atualmente professor convidado da USP São Carlos, o Eng. Lucas Fonseca.

Nesta interessantíssima entrevista, o Eng. Lucas nos fala sobre o seu envolvimento com a fantástica e inovadora missão lunar do Grupo ZENITH da USP São Carlos, sobre uma Missão em Alta Altitude em curso em parceria com o Grupo do Astrobiólogo Douglas Galante (IAG/USP), sobre a sugestão recente do Blog quanto ao Fórum de Debates do PEB, entre outros assuntos. Bem como também anuncia que com a ajuda do Prof. Daniel Varela Magalhães (um dos responsáveis pelo desenvolvimento do Relógio Atômico Brasileiro) o seu grupo tem a ambiciosa pretensão de colocar um Relógio Atômico no espaço.

Pois é leitor, convido você a ler com bastante atenção essa interessante entrevista com este profissional promissor, de visão e com experiência comprovada na Missão Roseta da ESA.

Aproveito para agradecer publicamente uma vez mais ao Eng. Lucas Fonseca pela atenção dispensada ao Blog BRAZILIAN SPACE. Boa leitura a todos.

Duda Falcão

Eng. Lucas Fonseca
BRAZILIAN SPACE: Eng. Lucas, para aqueles leitores que ainda não o conhecem nos fale um pouco sobre o senhor, sua idade, formação, onde nasceu, trajetória profissional, etc...

LUCAS FONSECA:  Sou natural de Santos-SP, mas por mais que goste muito da minha cidade natal, já não habito a baixada santista desde quando entrei na faculdade de engenharia em São Carlos, tendo vivido em diversas cidades desde então. Atualmente tenho 31 anos, moro em São Paulo capital e sou co-fundador da empresa Airvantis. Sou formado em engenharia mecatrônica pela USP de São Carlos e tenho mestrado em engenharia de sistemas espaciais pela Supaero em Toulouse. Dentro da área espacial, trabalhei na DLR com o módulo Philae, da missão Rosetta. Após 3 anos de Europa, retornei ao Brasil onde abri minha empresa, na qual atualmente desenvolvo projetos de engenharia variados. Além disso, sou idealizador e orientador de um grupo de estudos de temática espacial dentro da USP São Carlos chamado Zenith.

BRAZILIAN SPACE: Eng. Lucas, em contatos anteriores nos foi divulgado que o senhor e o Grupo ZENITH da USP São Carlos estão trabalhando no desenvolvimento de uma missão lunar. Quando e como surgiu essa ideia?

LUCAS FONSECA:  Quando voltei para o Brasil, sabia da dificuldade do desenvolvimento da área espacial em nosso país, e acreditava que um bom caminho para colaborar no segmento seria através da educação. Sempre acreditei no potencial dos Cubesats como ferramenta educacional e resolvi investir no assunto. Em conjunto com o professor Daniel Varela Magalhães, propusemos aos alunos da Escola de Engenharia de São Carlos a fundação do grupo Zenith que teria como principal atividade o trabalho com os Cubesats. Isso aconteceu em 2013 e obviamente precisávamos trabalhar em cima de um objetivo para nossa missão. A missão lunar veio através da interação com pesquisadores de diferentes institutos. Tivemos auxílio de pesquisadores do INPE, CNES e NASA e focamos em desenvolver uma missão que fosse desafiadora e que gerasse interesse científico na comunidade internacional. Pode parecer uma ideia muito ambiciosa; que de fato é, mas Cubesats estão vindo para revolucionar o acesso espacial e na minha opinião é um excelente meio de incluirmos o Brasil no hall das conquistas espaciais fantásticas.

BRAZILIAN SPACE: Eng. Lucas recentemente o senhor postou uma nota na página de sua empresa AIRVANTIS no Facebook informando de que ainda no primeiro semestre de 2015 vocês pretendem colocar um experimento em alta altitude, e até o final do ano, ter a plataforma que será a base para esta missão lunar. O senhor poderia esclarecer melhor esta informação para os nossos leitores?

LUCAS FONSECA:  Atualmente dividimos nosso trabalho em duas frentes principais, o desenvolvimento da plataforma que será a base do Cubesat e o desenvolvimento do experimento. Para a missão lunar, precisamos levar em consideração diversos aspectos distintos de uma missão de baixa órbita. Importante lembrar que a lua não está protegida por nossa magnetosfera em boa parte do tempo em que orbita a Terra e por conta desse ambiente agressivo, a plataforma do Cubesat tem que ser desenvolvida de modo que seja tolerante à eventuais falhas. Ainda não temos 100% definida a arquitetura que será usada na missão e atualmente queremos testar algumas ideias, e por isso a ideia de colocar um balão de alta altitude para tirar algumas soluções propostas da bancada e avaliarmos a aplicabilidade delas. Além disso, o principal experimento que estamos planejando, é o teste de crescimento de uma colônia de bactérias sob a influência do ambiente espacial. Esse experimento consiste no dispositivo que força o início do crescimento da colônia e diversos sensores que caracterizam a situação da colônia e do ambiente que está agindo sob a mesma. Testar o experimento em alta altitude nos traz indícios se estamos indo no caminho certo, sendo uma etapa fundamental da nossa missão. Queríamos de fato lançar esse experimento até julho, mas estamos barrados na burocracia de importação de componentes e vamos atrasar alguns meses. Isso não impede que continuemos a desenvolver a plataforma do Cubesat e estamos mantendo a ideia de ter um primeiro protótipo funcional até o fim do ano.


Concepção artística do experimento em alta altitude.

BRAZILIAN SPACE: Eng. Lucas, o senhor nos havia dito em contato anterior que estava conversando com o astrobiólogo Douglas Galante do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (USP), talvez o maior especialista em Astrobiologia do Brasil. A missão em alta altitude citada pelo senhor tem algo haver com isso? E caso sim, como surgiu esta ideia?

LUCAS FONSECA: Conheci o Douglas em um evento em que palestramos e ficamos muito motivados com o trabalho um do outro. Além do Douglas, que atualmente trabalha para o LNLS, temos o Fábio Rodrigues, professor do Instituto de Química da USP nos auxiliando. Toda a parte experimental de nossa missão está sendo proposta por eles e atualmente estamos trabalhando em parceria no desenvolvimento da carga útil.

BRAZILIAN SPACE: Eng. Lucas, quais são os objetivos desta missão lunar e quando e como efetivamente vocês pretendem lançá-la no espaço?

LUCAS FONSECA:  Chamamos de missão lunar para facilitar o entendimento do público geral, mas na verdade queremos visitar o ponto de Lagrange L2 que se encontra além da Lua. Os pontos de Lagrange são pontos no espaço que surgem do problema de três corpos (no nosso caso a Terra, Lua e nossa sonda) quando um dos corpos possui uma massa pequena em relação aos outros dois.  Esses pontos são posições assumidas pela sonda que são dinamicamente estáveis em relação aos dois corpos maiores e mantém sempre a mesma posição em relação a eles. Ou seja, no caso do L2 Terra-Lua, um corpo que está estacionado nesse ponto além da órbita da Lua (L2), mantém o mesmo período orbital e, portanto, sempre acompanhando o movimento da lua para um observador terrestre. Os pontos de Lagrange ocorrem em diversos pontos no sistema solar e alguns já foram previamente visitados (como alguns existentes pela interação Terra e Sol). O ponto L2 em questão tem uma característica interessante, pois permite a observação constante da face escondida da Lua. Por conta dessa característica, esse ponto é um excelente candidato para estabelecer uma estação espacial permanente, permitindo a transmissão de dados da superfície oculta da Lua para a Terra, armazenamento de provisões para missões de colonização lunares e até operações de resgate de eventuais colonos lunares. A ideia principal de nossa missão, que estamos chamando de missão lunar brasileira Z1, é caracterizar essa região ao redor do ponto L2, fornecendo dados dessa vizinhança para futuras missões tripuladas. Além disso, incentivar o crescimento de uma colônia de bactéria nesse ponto nos permite entender, entre outras coisas, como que matéria orgânica se comporta nessa região, hora protegida, hora não, pelo campo magnético da terra e assim obter informações relevantes sobre como a vida poderia ter iniciado em nosso planeta. Para facilitar a comunicação com a Terra (já que o ponto L2 fica sempre protegido pela própria Lua quando visto por um observador na Terra), pretendemos posicionar o Cubesat em uma órbita artificial ao redor do ponto L2, conhecida como órbita Halo. Essa órbita, que possui a forma de uma auréola ao redor do ponto L2, permite contato visual permanente com a face-mais-distante-da-Lua e com a Terra, já que o diâmetro dessa auréola é maior que o diâmetro lunar.  Quanto ao Cubesat em si, ele será constituído de 6 volumes (6U) e além dos experimentos aqui relatados, ainda tentaremos adicionar uma câmera e mecanismo de orientação para observação da superfície lunar.


Concepção artística da Sonda Lunar da USP São Carlos.

BRAZILIAN SPACE: Eng. Lucas já existe o interesse ou a possibilidade da AEB em apoiar de alguma forma esta missão?

LUCAS FONSECA: Já tive oportunidade de mencionar o projeto pessoalmente para eles, mas nunca tive um interesse ou retorno por parte deles.  Também nos inscrevemos para um Anúncio de Oportunidades (Uniespaço), mas tivemos uma resposta negativa. Se eles quiserem nos apoiar, obviamente iremos aceitar, mas não estamos focando nossas atividades na expectativa de termos um apoio financeiro da AEB neste momento. Uma parte extremamente crítica é o lançamento, por conta do custo elevado e a necessidade do desenvolvimento diplomático nas relações internacionais. Qualquer auxílio que facilite essa etapa do projeto, seria muito valioso para nossa missão.

BRAZILIAN SPACE: Eng. Lucas, quanto alunos e professores da USP e de outras eventuais instituições de ensino estarão envolvidos com este projeto?

LUCAS FONSECA:  Recebemos auxílio eventual de diversos professores da USP, mas o grande facilitador e apoiador de nossas atividades é sem dúvida o prof. Daniel Varela Magalhães. Através do apoio dele, atualmente temos um laboratório para desenvolvimento dentro da USP e somos um grupo reconhecido oficialmente pela comissão de graduação da USP como atividade extracurricular dos alunos. O trabalho do Daniel é fantástico, ele é um dos responsáveis pelo desenvolvimento do relógio atômico brasileiro e atualmente um de seus projetos é usado como padrão de tempo e frequência pelo INMETRO. Temos a ambição de colocar um relógio atômico brasileiro no espaço, mas isso é conversa pra outra hora. Quanto aos alunos, temos em torno de 10 alunos trabalhando no projeto. Não participo da organização do grupo e não sei especificar quantas pessoas estão trabalhando nesse momento. O grupo possui sua própria gerência e atualmente dois alunos estão coordenando essas atividades: o Danilo Pallamin de Almeida e o Diogo Tsuruda. Infelizmente, por não ser uma atividade remunerada, não consigo me dedicar integralmente ao projeto, apenas atuando como orientador em meu tempo vago com a Airvantis. Além da Escola de Engenharia de São Carlos, temos alunos da Universidade Federal de São Carlos ajudando. Se alguém quiser conhecer melhor as atividades do Zenith ou propor colaboração, peço que contate o Danilo ou o Diogo, respectivamente nos e-mails: danilo.pallamin.almeida@usp.br e diogo.tsuruda@usp.br.

BRAZILIAN SPACE: Eng. Lucas, em nossa ultima entrevista o senhor disse que achava sensacional o projeto Tancrêdo I da galerinha de Ubatuba e que gostaria muito de passar parte do seu tempo contribuindo com esse tipo de projeto no Brasil. Houve algum contato do senhor com o Prof. Candido Moura, e caso não, há este interesse de sua parte?

LUCAS FONSECA:  Não contatei, mas estou aberto em ajudar qualquer iniciativa que tenha cunho educacional. Tenho minhas obrigações com minha empresa, e nem sempre consigo estabelecer novas iniciativas para desenvolver atividades em paralelo. Mesmo assim, estou disposto em ajudar dentro das minhas possibilidades. Além da minha crença no poder educacional, essa é uma maneira de me manter próximo das atividades espaciais. Para a minha empresa, é muito difícil focar apenas no segmento espacial, e muitas vezes me vejo atuando em segmentos distantes da minha formação. Às vezes me sinto frustrado dessa realidade, mas já era previsto quando resolvi empreender em nosso país.

BRAZILIAN SPACE: Eng. Lucas, o Blog BRAZILIAN SPACE acredita ser necessário realizar palestras de divulgação sobre os verdadeiros projetos espaciais em curso no Brasil, pois não só ajudam na divulgação desses projetos, bem como também pode estimular novas iniciativas. Diante disto, o senhor estaria disposto a realizar palestras através do país sobre esta Missão Lunar, e caso sim, como os interessados podem entrar em contato contigo?

LUCAS FONSECA: Sim, extremamente necessário. Tenho conversado com algumas figuras conhecidas do meio para gravar um pequeno documentário que não apenas englobe a ideia de nossa missão lunar, mas também traga para o público leigo a necessidade da exploração espacial. Tenho recebido resposta positiva em relação a ideia do documentário e contatei uma produtora que demonstrou interesse em inscrever essa ideia para captação de recurso pela lei Rouanet. Pretendo colocar um esforço maior no segundo semestre, estou realmente animado com isso. Como a missão Rosetta ainda está muito em voga, acabei focando minhas palestras atuais sobre esse assunto. Mas pretendo sim começar um circuito de divulgação da missão lunar.

Precisamos trazer a comunidade para nosso time, pois queremos divulgar massivamente o projeto, vislumbrando a captação de recurso através de um financiamento coletivo. Na minha percepção, um trabalho de divulgação científica muito sério tem que ser feito para possibilitar projetos espaciais saírem do papel através do financiamento coletivo. Tenho observado esse tipo de trabalho crescendo de maneira bem orgânica no Brasil através do Podcasts, comunidades no Facebook, Fóruns, Space Camps e obviamente pelo próprio Blog BRAZILIAN SPACE. Mas mesmo assim, acredito que para o sucesso de um investimento coletivo, um esforço unificado das mídias tem que ser direcionado para o público geral, fortalecendo a vontade da contribuição voluntária para esses projetos que são propostos no Brasil e que barrados por falta de verba. 

Se alguém quiser me contatar, meu email é lucas.fonseca@airvantis.com.br.

BRAZILIAN SPACE: Eng. Lucas, recentemente por sugestão do Dr. Waldemar Castro Leite Filho (ex-IAE) e estimulado pelo impactante artigo sobre a situação do PEB escrito pelo Eng. João Luiz Dallamuta (veja aqui), o Blog BRAZILIAN SPACE lançou recentemente a ideia da realização de um Fórum de Debates sobre toda esta situação (veja aqui). Qual é a sua opinião sobre esta ideia?

LUCAS FONSECA: Tento ser pragmático em relação às possibilidades de mudança que temos em mãos. Acho muito válido a organização do fórum de debates para discutirmos a situação atual do PEB, desde que se tenha um objetivo claro de onde queremos e podemos chegar após seu término.  Criar um fórum de debates e apenas documentar ideias fantásticas no papel não causaria muito efeito caso não fosse elaborado um racional de implementação efetivo e que diferisse do que já vem sendo feito. Falo isso, pois se pegarmos alguns dos documentos já gerados pelo próprio governo (e.g. PNAE, Desafios do Programa Espacial Brasileiro, A Política Espacial Brasileira e etc.), já temos toda a importância do programa espacial discutida e relatadas pelos nossos profissionais e mesmo assim não conseguimos prosseguir com a maior parte das ideias. Não acho que o problema esteja apenas na escolha da tecnologia a ser empregada ou das parcerias malfadadas que andamos realizando, precisamos repensar o todo baseado na evolução do mercado mundial. Deixo aqui meu nome e vontade para auxiliar no debate, torço que renda bons frutos.

BRAZILIAN SPACE: Finalizando Eng. Lucas, o senhor teria algo a mais que gostaria de acrescentar para os nossos leitores?

LUCAS FONSECA:  Por mais que alguns leitores possam não perceber, o Brazilian Space representa uma força-motriz importante para o PEB. Fica fácil perceber através das interações que ocorrem no blog que existe uma comunidade assídua que compartilha um interesse comum com bastante empenho. O esforço do Duda é de fato muito louvável, mas gostaria de alertar a necessidade de todos levantarmos a bandeira juntos e criarmos uma massa crítica que empurre o PEB para frente. Para isso, precisamos conscientizar as pessoas em nosso alcance da importância que o PEB representa para o futuro do Brasil. Agradeço o interesse em minhas atividades e gostaria de contar com vocês na divulgação da importância de desenvolvermos a ciência em nosso país. Repetindo, meu email é lucas.fonseca@airvantis.com.br . Estejam a vontade de me enviar qualquer dúvida ou sugestão.

Um comentário:

  1. " UMA HOMENAGEM ALÉM DA LUA"

    Entre as incertezas deste BRASIL, os avanços e os recuos da vida de quem tem uma visão além do horizonte, longe da pátria, as beiras das curvas e dos obstáculos existentes entre continuar brilhando no exterior ou permanecer num país afagado pelos inaptos , pessoas que nada fazem, além de usurpar as nossas riquezas , e sufocar as esperanças, é maravilhoso saber que existe ainda pessoas de sua step, que acredita no investimento da educação e nas sementes do solo pátrio, entre jovens existentes nas universidades e institutos.
    Há sua pessoa é a compaixão dos nossos sofrimentos, o riso da nossa alegria onde a cada dia buscamos uma solução para o PEB, o conforto da nossa ansiedade em saber que temos pessoas capazes de produzir, projetos de excelência.
    O CEFAB parabeniza a sua postura, dinamismo e retidão.
    Você é mais um BRASONAUTA de inspiração para muitos , não apenas para profissionais da tua área, como para todos os que conhecem sua performance de organização e trabalho, e homenagear você com total correção será sempre impossível, pois nada haverá nunca que o Brasil, possa fazer para lhe retribuir tudo o que você executou no projeto do módulo de pouso “ Phiale”, no DLR.

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