domingo, 19 de julho de 2015

Sonho do VLS-1 Virou Pesadelo?

Olá leitor!

Segue abaixo um interessante artigo do “Sindicato Nacional dos Servidores Públicos Federais na Área de Ciência e Tecnologia do Setor Aeroespacial (SindCT)” postado na edição de junho do “Jornal do SindCT”, tendo como tema a atuação situação do Projeto do VLS-1.

Duda Falcão

CIÊNCIA E TECNOLOGIA

Sonho do VLS-1 Virou Pesadelo?

Controle militar e inépcia da AEB sufocam projeto

Diretoria do SindCT
Jornal do SindCT
Edição nº 38
Junho de 2015


Doze anos após a tragédia de Alcântara, os planos de lançar um foguete próprio parecem ter se dissipado. Não é adequado desenvolver projeto de tamanha complexidade no meio militar, onde a patente vale mais que o conhecimento. Em 22 de agosto de 2003 a ignição intempestiva de um dos propulsores do primeiro estágio do VLS-1 ceifou a vida de 21 civis brasileiros que trabalhavam na Torre Móvel de Integração (TMI), no Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), no Maranhão. Passados doze anos, o sonho brasileiro de conquistar acesso ao espaço parece ter se dissipado com a fumaça do acidente.

As autoridades do Comando da Aeronáutica, responsável pelo projeto, preveem que o lançamento ocorrerá daqui a dois anos. Os fatos, porém, sugerem que o sonho virou pesadelo e o VLS-1 jamais sairá do chão. Uma Comissão de Investigação do acidente apontou problemas de ordem organizacional e técnica, incluindo a equivocada decisão gerencial de remover o Dispositivo Mecânico de Segurança (DMS).

Se não tivesse sido removido, o DMS teria evitado o acidente de 2003. De acordo com José Oliveira, que fez parte da Comissão de Investigação, “não foi indicada uma causa específica, mas um conjunto de negligências que tinha como pano de fundo a falta de verba para o projeto, aliada à vaidade militar em conduzir o VLS de forma improvisada, sem os recursos necessários”.

Em 2004 foi iniciada a Revisão Crítica do Projeto VLS-1, que contou com o auxílio de técnicos russos. Um dos resultados foi a proposta de realização de um voo experimental para testar a parte baixa do VLS-1.

Somente os motores do primeiro e segundo estágios desse VLS-1 experimental seriam acionados, enquanto os motores do terceiro e quarto estágios seriam carregados com propelente inerte (esse voo experimental não transportaria a energia necessária para colocar um satélite em órbita da Terra, mas permitiria validar a parte baixa do foguete: motores do primeiro e segundo estágio).

Vale lembrar: em 1997 um dos propulsores do primeiro estágio não acendeu; em 1999, o propulsor do segundo estágio explodiu, quando acionado; em 2003, um dos propulsores do primeiro estágio sofreu ignição intempestiva. Em 2005 foi aberta concorrência para a construção da nova TMI, para substituir a torre destruída em 2003.

Após disputas judiciais envolvendo empresas concorrentes, a TMI foi finalmente entregue em 2011. Desde então, sua manutenção tem ficado a cargo de civis e militares e de empresas contratadas. O ambiente em Alcântara é agressivo em termos de umidade, salinidade e temperatura, o que exige contínuo esforço para manutenção da operacionalidade da TMI, estrutura em aço com um sofisticado sistema eletrônico.

Contudo, para que a TMI pudesse mostrar a que veio, faltava um pequeno detalhe: o foguete! Para testar a funcionalidade da torre, foi necessário realizar a integração de uma maquete do VLS-1 à TMI. Essa maquete era semelhante ao VLS-1, com exceção dos propulsores, carregados com propelente inerte. O teste foi realizado em junho de 2012, mas a maquete estava desprovida de redes elétricas, vitais à realização de testes. Portanto, só a integração mecânica do veículo à TMI foi realizada. Mas... e as redes elétricas?

O Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE), organização responsável pelo Projeto VLS-1, havia contratado as redes elétricas à MECTRON, empresa pertencente ao Grupo Odebrecht. Após alguns anos e muitos milhões de reais gastos, o IAE constatou que a MECTRON não tinha capacidade de entregá-las. Não ficou claro se o contrato em questão foi amigavelmente rescindido ou se a pendência foi entregue ao Poder Judiciário (sobre a MECTRON, ver também p. 4).

Mudança a Cada 2 Anos

Diante do imbroglio, o IAE, que no passado alegara não ter pessoal técnico suficiente para construir as redes elétricas do VLS-1, decidiu, em 2014, levar a cabo sua construção por meios próprios, com conclusão prevista para 2016. Desde o acidente em 2003, o Projeto VLS-1 mudou sua gerência não menos do que seis vezes, o mesmo ocorrendo com a direção do IAE e com quase todas as divisões técnicas do instituto (chefiadas por militares).

Ou seja: a cada dois anos, tudo muda, menos a previsão para conclusão do VLS-1, que, coincidentemente, é de dois anos. O discurso da Aeronáutica de que o problema é a falta de recursos financeiros e de pessoal esconde a real questão, já diagnosticada por uma consultoria da Universidade de Campinas (Unicamp) contratada pelo Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA) após o acidente com o VLS-1: é inadequado desenvolver um projeto de tamanha complexidade no contexto institucional militar, onde a patente hierárquica vale mais que o conhecimento técnico. Além dos 21 civis que morreram na explosão de Alcântara, outras dezenas de civis deixaram as fileiras do IAE desde então, a grande maioria por aposentadoria. Portanto, a capacidade técnica existente hoje no IAE é muito inferior à existente em 1997 e mesmo em 2003.

De acordo com técnicos experientes ouvidos pelo Jornal do SindCT, as autoridades civis e militares responsáveis pelo Projeto VLS-1 não têm ideia da complexidade de se desenvolver um Veículo Lançador de Satélites. Todavia, não seria honesto atribuir apenas à questão militar os descaminhos do VLS-1. No governo federal, cabe à Agência Espacial Brasileira (AEB) formular e coordenar a política espacial brasileira, expressa no Programa Nacional de Atividades Espaciais (PNAE), edição 2012-2021.

O PNAE atual previa lançamentos do VLS-1 em 2013, 2014, 2015, bem como dos seguintes veículos lançadores de satélites: VLM (2015), VLS-Alfa (2018) e VLS (2020), todos a cargo do IAE. Previa ainda o lançamento do foguete Cyclone-4 (2014), a cargo da binacional Alcantara Cyclone Space (ACS).

Até o momento, nenhum dos lançamentos previstos no PNAE foi cumprido. Enquanto o Programa Espacial Brasileiro (PEB) encontra-se quase parado, o presidente da AEB, José Raimundo Braga Coelho, acumula milhas aéreas em viagens por China, Rússia e EUA. Numa de suas breves paradas em Brasília, Coelho decidiu levar adiante o delirante projeto do primeiro espaçonauta brasileiro, que, de acordo com a AEB, fará um voo suborbital a bordo de espaçonave estrangeira... Com a caneta o sr. ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação.


Fonte: Jornal do SindCT - Edição 38ª - Junho de 2015

10 comentários:

  1. Como disse Arnaldo Jabour: "a verdade está na cara mas não se impõe..."

    ResponderExcluir
  2. Eu gostei muito desta matéria porque explica como está a situação do VLS-1 e aponta os culpados.

    abs,
    Felipe Dias

    ResponderExcluir
  3. vamos lá turma ! , também gostei da matéria, eu tenho comparações a fazer de projetos Rússos , projetos dos EUA , em comparação ao Brasil.
    .
    a Alemanha em 1944 à 1945 , já lançava os V1 e os V2 sobre a Inglaterra, em 1950 os EUA já lançavam Mísseis em Cabo Canaveral, no final da década de 50 os Rússos lançavam o 1° satélite artificial, no início da década de 60 os Rússos lançaram o 1° homem ao Espaço, em 1969 os EUA fez uma aterrissagem em território lunar, a década de 70 foram as estações Espaciais, depois telescópio Hubble , dondas a planetas do Sistema Solar, robôs enviado a Marte etc.
    .
    ---> agora todos os Brasileiros perguntam o que o Brasil fez em 50 anos de projetos Espaciais ?
    .
    ---> o se quer conseguiu lançar um Foguete considerado pequeno , o VLS e sem contar da burrice gigante que cometeu ao tentar lançar o VLS em agosto de 2003 , causou a morte de 21 brasileiros que sem querer acabou indo para o Espaço , só que mortos carbonizados.
    .
    ---> onde estão os culpados ?
    .
    por quê tudo no Brasil funciona assim, sempre tem Sabotagens , Corrupção , Puxa Sacos dos EUA, desordens administrativas e falência .
    .
    ---> levar 50 anos sem realizar nada expressivo .
    .
    ----> levar 50 anos só enganando a Nação.
    .
    ----> que vergonha Nacional é a idéia de tentar construir um Foguete lançador de satélites.....
    .
    ---> Quem são os Culpados ?
    .
    ---> 1° os próprios brasileiros que aceitam ser corrompidos .
    .
    ----> 2° os países sérios agradecem e sabem que o Brasil é super desorganizados e corruptos.
    .
    ----> a Política está por trás de tudo , tem pessoas que exercem diariamente sabotagens contra qualquer projeto brasileiro , para neutralizar, barrar , enfraquecer , desmotivar etc. os projetos de crescimento da Nação.

    ResponderExcluir
  4. Coincido plenamente con lo siguiente:
    "é inadequado desenvolver um projeto de tamanha complexidade no contexto institucional militar"
    Por el mismo motivo fracasó el proyecto Cóndor en Argentina.

    saludos

    ResponderExcluir
  5. olá ! , Duda Falcão , você já postou alguma matéria sobre o dia 12 de novembro de 1966, a praia do Cassino, em Rio Grande, recebia a maior e mais completa operação de lançamentos de foguetes jamais realizada em solo brasileiro. na Praia do Cassino , no Rio Grande do Sul ?
    .
    http://www.beiramarrg.com.br/newpho2/veralbum2destak2.php?diretorio=b8c6dbd264

    ResponderExcluir
  6. Do que adianta apontar os culpados e estes não serem punidos, penalizados, caso agiram com dolo. De que adianta se o processo continua o mesmo, se as pessoas que foram responsáveis continuam as mesmas, se o compromisso com o bem público não é obtido?

    ResponderExcluir
  7. O que me deixo estarrecido, foi um trecho da entrevista do Dr. Waldemar de Castro ;onde ele afirma que devido ao regime jurídico único, os funcionários civis do IAE, se recusam a fazer certos trabalhos...Com a palavra o SindCT.

    Ageu Alves

    ResponderExcluir
  8. E corrupção, será que também existe? Desvios de dinheiro, empresas de fachada?

    ResponderExcluir
  9. Odebrecht Mectron Lava Jato é questão de tempo.

    ResponderExcluir
  10. Uma correção. Nunca houve montagem de maquete do VLS em Alcântara.

    ResponderExcluir