sábado, 18 de julho de 2015

Fórum Abordou as Encruzilhadas e Avanços do País no Setor de Defesa

Olá leitor!

Segue abaixo um interessante artigo postado na edição de junho do “Jornal do SindCT”, tendo como destaque o que ocorreu durante o “59º Fórum de Debates Brasilianas”, realizado na capital paulista no mês de maio. Vale a pena dar uma conferida.

Duda Falcão

NOSSA PAUTA 2

Fórum Abordou as Encruzilhadas e
Avanços do País no Setor de Defesa

Submarino nuclear, Gripen e CBERS-4 em foco

Antonio Biondi
Jornal do SindCT
Edição nº 38
Junho de 2015


Debate promovido em maio reuniu chefes militares, empresários do setor e estudiosos do tema. Entre 2003 e 2012, investimentos do país em Defesa tiveram aumento de 568%. A promoção do papel das Forças Armadas e o incentivo à Pesquisa e Desenvolvimento na Indústria da Defesa foram temas do 59º Fórum de Debates Brasilianas, realizado na capital paulista.

O Fórum destacou avanços do Brasil no setor nos últimos anos, bem como encruzilhadas vividas pelo país, que demonstram a importância de se contar com um projeto de nação mais consistente e consolidado junto à população.

De acordo com dados do Ministério da Defesa, o Brasil aplica hoje aproximadamente 1,5% do seu Produto Interno Bruto (PIB) em gastos militares. Informações divulgadas pelo Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) no Panorama sobre a Indústria da Defesa e Segurança no Brasil (2013) registram que, entre 2003 e 2012, os investimentos do país no setor aumentaram 568%. De um total de R$ 1,5 bilhão em 2003, os recursos saltaram para R$ 10,1 bilhões em 2012.

Durante esse período, o país instituiu em 2008, via decreto presidencial, a Estratégia Nacional de Defesa. Realizado no dia 27 de maio pela Agência Dinheiro Vivo, o Fórum contou em sua plateia com militares, ex-militares, empresários e pesquisadores civis. Entre os palestrantes, Oswaldo Duarte Miranda, vice-diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), e o brigadeiro Maurício Pazini Brandão, professor da Divisão de Aeronáutica do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA).

Também compareceu ao Fórum o brigadeiro Paulo Roberto de Barros Chã, presidente da Comissão Coordenadora do Programa Aeronave de Combate (COPAC), subordinada ao Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA). Participaram, ainda, representantes da Marinha, BNDES, Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Defesa e Segurança (ABIMDE) e Associação Brasileira de Máquinas e Equipamentos (ABIMAQ), pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) especialistas no setor e André Amaro, presidente da Odebrecht Defesa e Tecnologia. Na parte da manhã, os debates foram focados em duas iniciativas mais específicas: “Balanço do Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB)” e “O Gripen e o desenvolvimento da indústria militar”. À tarde, os três painéis abordaram “O estímulo à tecnologia na indústria de defesa militar”, “Avaliação da política recente de compra de equipamentos militares” e “Casos de sucesso do estímulo à tecnologia militar”. A participação do ITA se deu no debate a respeito dos caças Gripen. E a contribuição do INPE e do DCTA foi focada no painel sobre os “casos de sucesso”.

Marinha

Um dos principais projetos apresentados no Fórum foi o do submarino nuclear brasileiro, que deverá ficar pronto em 2025, com investimentos em torno de 6,7 bilhões de euros (valores de 2008), cerca de R$ 23 bilhões.

O desenvolvimento do propulsor nuclear está a cargo da Marinha. A fase de concepção do submarino foi concluída em 2012, e contou com a participação de 31 engenheiros brasileiros, que passaram dois anos na França. Atualmente, cerca de 140 engenheiros trabalham no projeto básico. A construção propriamente dita deve ser iniciada em 2018. O professor Luiz Martins de Melo (UFRJ) destacou que 60% dos investimentos em Pesquisa & Desenvolvimento dos EUA são aplicados em Defesa e outros 20% na Saúde.

E que boa parte da tecnologia atual do país e do mundo deriva da indústria de Defesa dos EUA. Melo problematizou algumas questões fundamentais: “Como ter uma indústria de defesa se não há indústria no Brasil?”, e “Como ter uma estratégia para a defesa, se não há uma estratégia de País?”. Entre as conclusões, destacou que o Estado deve assumir o risco de desenvolver esse setor. Em 2015, o orçamento da Defesa sofreu um contingenciamento de R$ 5,6 bilhões, passando de R$ 22,6 bilhões para R$ 17 bilhões.

César Prata, representante da ABIMAQ, abordou a diminuição substancial da participação industrial no PIB. E questionou o porquê de o Brasil não desenvolver todos os projetos do setor de Defesa de maneira autônoma. Algo que demandaria mais tempo, mas que possibilitaria ao país dominar todo o ciclo de produção.

O brigadeiro Pazini, professor do ITA, centrou a sua exposição no Fórum na história do instituto e da sua contribuição ao País. Relatou as diferentes fases pelas quais o Projeto F-X passou ao longo de cerca de 25 anos, até a assinatura dos contratos de compra dos caças Gripen NG à Suécia em 2014. No total, o governo da presidenta Dilma Rousseff deve destinar US$ 5,4 bilhões (cerca de R$ 16,875 bilhões) à aquisição de 36 aeronaves.

O vice-diretor do INPE, Oswaldo Duarte Miranda, falou sobre o trabalho do instituto e os investimentos realizados nos satélites CBERS. Miranda apresentou algumas imagens obtidas pelo CBERS-4, explicando que em junho a fase de comissionamento do satélite deve ser concluída — e que então finalmente o CBERS-4 deve entrar em operação regular. André Amaro, presidente da Odebrecht Defesa e Tecnologia, foi enfático ao declarar a pujança da empresa.

A companhia executa contratos firmados com o INPE (CBERS e PMM), IAE (VLS e VS40/SARA), Aeronáutica, Exército (mísseis) e Marinha (mísseis e submarino nuclear). Amaro afirmou que a Odebrecht destina R$ 100 milhões por ano à MECTRON para mantê-la funcionando, e que o governo precisa “decidir o que quer”. Ele disse considerar a Lei 8.666/1993 (Lei das Licitações) inapropriada para o desenvolvimento de produtos de alta tecnologia, que podem ser mais caros que o originalmente pensado, ou mesmo não lograr sucesso.

Falta “Projeto de País”


O especialista José Bezerra Pessoa Filho, tecnologista que atua na área espacial e acompanhou o Fórum, indaga, frente às atuais dificuldades do país, como o Brasil conseguiu, décadas atrás, criar o ITA, a Petrobras, a Embraer e outros grandes projetos. “Um país que era muito mais atrasado conseguiu fazer isso.

E hoje você não consegue manter”. Uma resposta possível, a seu ver, é que anteriormente o país tinha líderes: “Mesmo que não concordássemos com todos eles, eram pessoas que levavam suas ideias às últimas consequências”.

Para ele, esse ciclo parece ter se encerrado, e talvez isso seja um fenômeno mundial. Por outro lado, Bezerra entende que nos falta um projeto de país: “É um fato concreto. Há quem diga que é pela infinitude de problemas, aparentemente insolúveis. Não se trata de um problema de governo, é um problema de país”.

Numa área sofisticada e complexa como a de Defesa e a Aeroespacial, “nossos programas estão ficando algo obsoletos, literalmente sem conseguir sair do chão”. Após ponderar que dificuldades como a desindustrialização do país não são exclusividade brasileira (relacionando-se à crescente concentração industrial mundial na Ásia), Bezerra destaca não ser possível avaliar a situação nacional sem considerar o contexto global. Por outro lado, ele afirma que “não se pode viver da constatação dos problemas” e que é “preciso encontrar as soluções”. Quanto à discussão sobre “por que não fazer tudo no país?”, Bezerra ressalta existir no Brasil o conhecimento para tal, mas não a tecnologia.

“Chega um determinado momento em que você precisa ter todos os componentes, e isso não conseguimos fazer sozinhos. São pouquíssimos países que dominam todo esse ciclo no mundo”. Ele destaca que os primeiros caças serão fabricados na Suécia, e os demais na Embraer, no Brasil, mas com parte dos componentes importada. “Vale a pena esse modelo? Eu diria que não temos opção no momento”.

Na opinião do especialista, mesmo que haja atraso, os caças sairão em um prazo razoável. “Se fosse um projeto só nosso, correríamos o risco de empurrar ad infinitum. E não podemos fazer isso com o nosso país”.

PEB, ACS e Cyclone

Bezerra ressaltou que, com exceção do INPE, ninguém se pronunciou sobre o Programa Espacial Brasileiro (PEB). “Incrível, mas ninguém falou da ACS [Alcântara Cyclone Space] e do Projeto Cyclone!”. Ele afirma que as motivações para criação da ACS são infundadas, uma vez que o Projeto Cyclone jamais atendeu a qualquer interesse do País, seja ele estratégico, de defesa ou industrial.

Enquanto brasileiros e ucranianos não chegam a um denominador comum sobre o encerramento ou a continuidade do projeto, no site da ACS estão publicadas notícias e fotografias recentes com a chegada de diversas carretas de equipamentos para a base do projeto em Alcântara. “As obras da base estão paradas há mais de dois anos. Isso é um fato estarrecedor, e as imagens falam por si (vide http:// goo.gl/1JdGxM).

Quem responderá pelas centenas de milhões de reais desperdiçados nessa desventura, em detrimento de um projeto verdadeiramente nacional e com décadas de existência, o VLS-1?” Na análise de Bezerra, o governo brasileiro, frente ao fiasco da ACS, “parece estar buscando uma saída honrosa e não vexatória, frente ao seu próprio país e à comunidade internacional”.

Ele frisa que a sequência de projetos não concluídos “acaba passando ao mundo uma imagem de que não somos capazes de transformar ideias em realizações — e isso é um problema gravíssimo”. Na área espacial, mesmo em nível mundial, boa parte dos projetos realmente acaba não sendo concluída dentro do prazo e orçamento originais. “A questão é: o quanto disso se deve às dificuldades de ordem tecnológica, e o quanto se atribui a outros caminhos e problemas que o país enfrenta hoje?”, questiona Bezerra.

“Do jeito que a máquina está montada atualmente, ela não funciona mais, está falida”. Ainda assim, há que “cumprir com nossas obrigações”, defende Bezerra. “O custo mais caro é o de não fazer. É preciso colocar mais recursos nos projetos estratégicos, dizer o que vai ser feito. E fazer. E os responsáveis devem responder pelos atos praticados”.


Fonte: Jornal do SindCT - Edição 38ª - Junho de 2015

Comentário: Muito interessante este artigo em todos os assuntos abordados e relevantes para o país, mas o tema de nosso Blog é o desenvolvimento tecnológico na área espacial e de suas ciências correlatas. Diante disto, gostaria de destacar o que disse o Dr. Jose Bezerra Pessoa Filho, não só sobre este desatino chamado ACS, bem como a situação em que se encontra o Programa Espacial Brasileiro (AEB) devido (como bem disse o Dr. Bezerra) a falta de um “Projeto de País”. A Sociedade Brasileira precisa acordar e eventos como este realmente ajudam, mas precisam ser realizados com mais frequência e aberto a sociedade. Sempre defendi no BLOG (inclusive enviando um e-mail ao Senador Rodrigo Rollemberg) a necessidade da AEB ter uma TV (como ocorre com a NASA e outras agencias espaciais do mundo) ou no mínimo uma WEBTV, ativa e que divulgasse diariamente as atividades espaciais e astronômicas brasileiras para sociedade, e com isto mostrar a extrema necessidade dessas áreas para o nosso desenvolvimento como Nação. Educação de qualidade aliado ao desenvolvimento científico e tecnológico autônomo são de crucial importância para o desenvolvimento de qualquer sociedade e precisamos entender isto, para como o BLOG sempre defendeu, iniciar a partir daí a mudança cultural que este território de piratas precisa. Parabéns ao Dr. Jose Bezerra Pessoa Filho, se há 20 anos a comunidade espacial como um todo tivesse se posicionado publicamente da forma como foi feita neste evento pelo Dr. Jose Bezerra Pessoa Filho, certamente muito erros como este da ACS não teriam sido cometidos, e muito provavelmente a situação do PEB não seria a que encontramos hoje. O Blog BRAZILIAN SPACE se coloca a inteira disposição do Dr. Bezerra e de qualquer especialista da área que queira se manifestar publicamente sob a atual situação de nosso Patinho Feio e de seus projetos em curso.

4 comentários:

  1. O Dr. Bezerra é uma pessoa lúcida, dedicada e, acima de tudo, de caráter transparente!

    Já os nossos dirigentes, são políticos da pior espécie, a maioria com apenas interesses pessoais, imediatistas, alguns até calhordas!

    Nos últimos 20 anos, o PEB foi reduzido a palco de disputa de cargos, viagens, projetos pessoais que os justifiquem, no cenário político que tem sido o câncer deste país!

    Não temos dirigentes, temos projetos e dirigentes "LAVA-JATO"!

    Enquanto não houver apuração dos fatos, julgamento e afastamento de tais pessoas e procedimentos, estaremos fadados aos lamentos perenes!

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  2. O discurso do Dr. José Bezerra é o mais lúcido que já vi.
    Não é de se estranhar que ele não foi ou é feito pelas pessoas que deveriam: diretores e gerentes de projetos do INPE, DCTA, AEB, MCTI, SBPC, ...
    E sabem o porquê?
    Estes são as raposas!
    Recebem medalhas, viajam muito, participam de eventos com tapinhas nas costas e lambeção de ovos, mas não têm legado de realizações e nem são respeitados pela comunidade internacional.
    São apenas parasitas de um organismo doente chamado Brasil.
    Eles nunca participariam de um debate com pessoas do caráter do Dr. José Bezerra, são covardes e dissimulados!

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  3. Eu li essa edição do jornal e gostei da matéria "Sonho do VLS-1 virou pesadelo?" Bate com muita coisa que eu pensava e eu nem sou da área.
    Vou transcrever aqui a parte que gostei.

    Mudança a cada 2 anos

    "Diante do imbroglio, o IAE, que no passado alegara não ter pessoal técnico suficiente para construir as redes elétricas do VLS-1, decidiu, em 2014, levar a cabo sua construção por meios próprios, com conclusão prevista para 2016. Desde o acidente em 2003, o Projeto VLS-1 mudou sua gerência não menos do que seisvezes, o mesmo ocorrendo com a direção do IAE e com quase
    todas as divisões técnicas do instituto (chefiadas por militares). Ou seja: a cada dois anos, tudo muda, menos a previsão para conclusão do VLS-1, que, coincidentemente, é de dois anos. O discurso da Aeronáutica de que o problema é a falta de recursos financeiros e de pessoal esconde a real questão, já diagnosticada por uma consultoria da Universidade de Campinas (Unicamp) contratada pelo Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA) após o acidente com o VLS-1: é inadequado desenvolver um projeto de amanha complexidade no contexto institucional militar, onde a patente hierárquica vale mais que o conhecimento técnico."

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    1. Complementando: dinheiro neste país não falta!
      Faltam ética, vergonha na cara, profissionalismo, organismos independentes e livres de politicalha!
      Analisem não somente este projeto, mas passem um pente fino nos projetos da Estação Espacial, CBERS, PMM e verão que muito dinheiro foi usado e os resultados foram pífios.
      E os responsáveis?

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