quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Reflexões Sobre o Programa Espacial Brasileiro

Olá leitor!

Segue abaixo um interessante artigo escrito pelo Eng. Amauri Montes (INPE) com reflexões sobre o Programa Espacial Brasileiro (PEB), publicado que foi na edição de fevereiro do “Jornal do SindCT”

Duda Falcão

CIÊNCIA E TECNOLOGIA – 1

Reflexões Sobre o Programa Espacial Brasileiro

Pode parecer surpreendente, mas muitos não sabem que o INPE possui uma forte área de Engenharia Espacial há mais de três décadas. Faremos aqui uma sucinta abordagem sobre o Programa Espacial Brasileiro, suas origens e expectativas para o futuro.

Por Amauri Montes*
Jornal do SindCT
Edição nº 64
Fevereiro de 2018

Eng. Amauri Montes
Até o final dos anos 70, a área de Engenharia do INPE era constituída por departamentos, tais como telecomunicações, computação, mecânica e fotônica. A atuação na área espacial era pequena. Resumia-se a parte de solo com sistemas de recepção, antenas e processamento. As atividades eram concentradas no desenvolvimento de equipamentos em nível de protótipos de laboratório. Esses protótipos eram em grande número e nas mais diferentes áreas.

Aplicava-se o conhecimento que se tinha notícia do exterior, algo próximo ao estado da arte, com pouca ou quase nenhuma correspondência com a área espacial.

Podemos mencionar, entre vários, a construção de microcomputadores que começavam a surgir, interfaces eletrônicas, transmissores de dados, antenas e lasers. Eram praticamente todos financiados pela Financiadora de Estudos e Projetos - FINEP.

Anualmente, o Instituto encaminhava as propostas recebidas de cada departamento, as quais passavam a compor um único pacote. Essa era a forma principal de composição orçamentária do INPE. Muitos desses desenvolvimentos faziam parte dos trabalhos de teses dos engenheiros desses departamentos.

No início dos anos 80, decidiu-se que a área de Engenharia do INPE passaria a dedicar-se quase exclusivamente ao desenvolvimento de satélites e plataformas espaciais. Relembramos a aprovação da Missão Espacial Completa Brasileira - MECB, em agosto de 1980. Iniciou-se aí um período de capacitação e finalmente, no ano de 1985, a Engenharia Espacial estava consolidada. Paralelamente, em 1987, o LIT era inaugurado.

Dois satélites tipo SCD foram construídos pelos engenheiros do Instituto, colocados em órbita e ainda estão em operação, atendendo ao Sistema de Coleta de Dados. Também, cinco satélites foram desenvolvidos em parceria com a China e colocados em órbita pelos lançadores chineses da categoria Longa Marcha. O CBERS-1, posto em órbita em outubro de 1999, o CBERS-2 em outubro de 2003, o CBERS-2B em setembro de 2007 e o CBERS-4 em dezembro de 2014. O CBERS-3 foi lançado em dezembro de 2013, mas não entrou em órbita por falha no lançador.

Atualmente a Engenharia Espacial do INPE trabalha na conclusão do CBERS-4A e no Amazônia-1, primeiro satélite de Observação da Terra dessa série, totalmente nacional.

Em países desenvolvidos, não se fala em Programa Espacial sem uma Política Industrial. Isso é tão natural nesses países que toda vez que temos oportunidade de discutir ou analisar qualquer programa espacial, em poucos minutos a discussão passa para a Política Industrial. Aliás, nesses países, o modelo é aplicado a qualquer programa de desenvolvimento de alta tecnologia, com instituições de pesquisa e desenvolvimento trabalhando muito próximas ao setor empresarial.

Assim, já há algum tempo, uma Política Industrial ousada tem sido adotada para o desenvolvimento dos subsistemas e equipamentos e partes, os quais são projetados, fabricados e testados na indústria nacional. A Engenharia Espacial do INPE trabalha inicialmente em nível de sistema. Posteriormente, o desenvolvimento, a fabricação e os testes de cada subsistema são encomendados às empresas brasileiras, que passam a fazer parte do respectivo programa. Na fase seguinte, quando todos equipamentos/subsistemas já estão prontos, o Instituto se incumbe da integração e teste do satélite e respectivo lançamento. O INPE também realiza as atividades na fase operacional de controle dos satélites e recepção e distribuição dos dados.

Após o sucesso do CBERS-4, com o enorme avanço conseguido pelo país através dessa Missão, principalmente em tecnologias sensíveis, a Engenharia Espacial está preparada para atender às demandas atuais da sociedade brasileira. Dentre as quais, destacamos alguns exemplos, como o Programa Estratégico de Sistemas Especiais - PESE, a ampliação da capacidade de monitoramento ambiental, o Cadastro Rural e muitas outras.

Assim, uma meta importante, que vislumbramos, consiste no desenvolvimento e fabricação de um satélite na faixa de 150 kg, equipado com câmera óptica de alta resolução. A competência existente no Brasil, na associação da Engenharia Espacial do INPE com a indústria nacional, pode perfeitamente construir essa plataforma, incluindo a carga útil. Aliás, um programa dessa natureza viria em boa hora.

Esse tipo de satélite, operado em constelação, atenderia às demandas citadas acima, como também à imensa necessidade brasileira por imagens de alta resolução. Simultaneamente, continuariam os satélites da série Amazônia, operando com câmeras de campo largo, com capacidade ampliada em cada nova missão.

Esses são alguns exemplos de missões que se apresentam imediatamente. Diferentes demandas poderiam ser atendidas, ao mesmo tempo em que o setor industrial e serviços do Brasil, na área espacial, iria se consolidando e constituindo em breve o que poderíamos chamar de um “Cluster” tecnológico, com raízes firmes em nosso país. Garantiria, com robustez, a permanência e aperfeiçoamento dessas tecnologias no Brasil, gerando maiores oportunidades de empregos e também de negócios, inclusive no exterior.

Embora muito importantes, um país com as dimensões do Brasil não deve pautar sua economia em apenas alguns setores, como Commodities, Agronegócio ou Turismo. Deve fomentar um setor empresarial forte capaz de gerar produtos e serviços com alto valor agregado, tanto para atender à demanda do mercado interno, como para exportação. Caso contrário, as crises serão constantes, intercaladas por pequenos períodos de calmaria quando o cenário internacional possibilitar.

O principal desafio do país é adquirir a capacidade de produzir produtos e serviços de alto valor agregado e, em tamanha empreitada, o domínio da alta tecnologia não é opcional, mas imprescindível. O investimento em um programa espacial se mostra uma ferramenta eficaz e de imensa contribuição neste contexto, pois satélites e plataformas orbitais são o produto de maior valor agregado existente no mundo.

Os engenheiros e técnicos pertencentes à Engenharia Espacial do INPE sabem da importância do trabalho que realizam, mas é preciso maior atenção do país ao tema.

Mesmo contando com reconhecimento e elogio de importantes órgãos internacionais, o programa carece de maior consideração no contexto nacional, sendo alvo de críticas empobrecidas pela falta de informação e frequentemente colocado à margem das prioridades do país.

Além disso, a falta de reposição de quadros, necessária e rotineira em qualquer instituição, pública ou privada, ameaça fortemente o futuro e tudo que dissemos e explicamos aqui, já no curto prazo.

Em seu último livro Em Busca de um Novo Modelo, Celso Furtado alerta para o que denomina “armadilha do subdesenvolvimento”, explica que o subdesenvolvimento não é um estágio natural que antecede ao desenvolvimento.

Um país pode permanecer séculos no subdesenvolvimento caso não mobilize forças numa estratégia bem estabelecida que possa tirá-lo dessa situação. Esse pensamento foi adotado pelo Japão, seguido pelos Tigres Asiáticos e mais recentemente pela China, com excelentes resultados. Afinal, o que estamos esperando?

*Amauri S. Montes é da Turma 77 do ITA. Esteve no comando da Engenharia Espacial do INPE, no cargo de Coordenador Geral da Coordenação Geral de Engenharia e Tecnologia Espacial nos períodos de 2005-2008 e 2013-2017


Fonte: Jornal do SindCT - Edição 64ª - Fevereiro de 2018

Um comentário:

  1. Seguindo o raciocínio do autor, a perda da Embraer para os americanos implica na destruição do mais importante cluster tecnológico / cientifico que conseguimos construir nesse país. Vamos involuir à decada de 80. Vamos perder a chance de alcançar os países desenvolvidos nas próximas decadas.De certa forma se está doando para ser canibalizado tudo que foi produzido de importante com enorme esforço nesse setor. A Boeing oferece 4 a 5 bilhões de dólares pela empresa, mas quanto vamos perder? 20, 50, 500 bilhões? Quanto vale o futuro que deixaremos de ter? Facam suas apostas.

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