segunda-feira, 18 de setembro de 2017

A Nova Corrida Espacial - Que Agora é Disputada Por Empresas

Olá leitor!

Segue abaixo uma interessante matéria postada dia (16/09) no site da “BBC Brasil” destacando que agora a nova corrida espacial é disputada por empresas.

Duda Falcão

A Nova Corrida Espacial - Que
Agora é Disputada Por Empresas

Por Tim Bowler
Repórter de Negócios da BBC News
16 setembro 2017

Foto: NASA
Em 2016, indústria espacial movimentou US$ 329 bilhões
(R$ 1,02 trilhões) no mundo - e as empresas já
respondem por 75% do total.

Desde os seus primórdios, com o lançamento do primeiro satélite Sputnik, em 1957, e o voo de Yuri Gagarin, em 1961, a exploração do espaço foi dominada pela rivalidade entre a União Soviética e os Estados Unidos. Nesta disputa tumultuada, empresas ficaram em segundo plano. Eram governos que custeavam os esforços.

Ainda que o primeiro satélite comercial do mundo, o Early Bird, tenha sido lançado em 1965, até recentemente a exploração comercial do espaço ainda estava praticamente limitada às grandes empresas de telecomunicações. Mas uma revolução está em curso.

Avanços tecnológicos estão transformando a forma tradicional da humanidade operar no espaço, e uma série de empresas estão prometendo viagens mais baratas, usando inovações como foguetes reutilizáveis e plataformas de lançamento horizontais.

Satélites estão ficando menores e custando menos para serem produzidos - hoje, há cerca de 1,5 mil orbitando sobre nós. Por meio deles, um grande volume de dados e imagens está vindo do espaço, e novos participantes desse mercado agora processam, interpretam - e vendem - essas informações.

"Hoje, conseguimos fazer com um equipamento que cabe em uma caixa de sapato o que só era possível com um aparelho do tamanho de um ônibus", diz Stuart Martin, presidente da Satellite Applications Catapult, uma incubadora que ajuda empresas iniciantes, ou start-ups, do mercado espacial.

Subsídios

Foto: Rocket Labs
Empresa da Nova Zelândia é a única fabricante de foguetes
que tem seu próprio complexo para lançamentos.

O setor vem atraindo muitos investimentos. Em 2016, essa indústria movimentou US$ 329 bilhões (R$ 1,02 trilhões) no mundo - e as empresas já respondem por 75% do total.

Veja por exemplo o segmento de foguetes, nossa forma de chegar ao espaço. São os bilionários que estão à frente na área. Elon Musk e sua Space X usam foguetes Falcon 9 para levar suprimentos para a Estação Espacial Internacional, enquanto Jeff Bezos desenvolve com a Blue Origin os foguetes New Shepard e New Glenn.

Ambas as companhias já fizeram demonstrações de técnicas revolucionárias que permitem o pouso vertical de espaçonaves, algo fundamental rumo aos foguetes reutilizáveis. Enquanto isso, a Virgin, de Richard Branson, trabalha em uma forma de lançar satélites a partir do ar, junto com planos de realizar voos turísticos suborbitais.

Até agora, nenhuma das empresas da área opera apenas de forma comercial. "Todas têm muitos subsídios do governo, de uma forma ou de outra", diz Stuart Martin.

Pequenos Satélites

Foto: Planet Labs
Ainda que o desenvolvimento de foguetes e satélites
chame mais atenção, principais mudanças estão nos
usos da informação coletada a partir do espaço.

Uma empresa da Nova Zelândia tenta mudar a forma como usamos o espaço. A Rocket Lab ainda está só começando a operar, mas é a única fabricante de foguetes que tem seu próprio complexo para lançamentos, na península Mahia, na Ilha Norte do arquipélago neozelandês.

Apesar de foguetes não terem mudado muito desde o Sputnik - ainda é necessário levar sua carga além do alcance da gravidade da Terra para colocá-la em órbita -, seria um erro pensar que a Rocket Lab é uma fabricante de foguetes comum, diz seu fundador Peter Beck.

O custo atual do lançamento de um foguete é de cerca de US$ 200 milhões, um fator decisivo para que, nos Estados Unidos, tenham ocorrido, por exemplo, apenas 22 lançamentos no ano passado. Beck diz que, quando seu novo foguete Electron estiver operacional, ir ao espaço custará US$ 5 milhões e será algo que ocorrerá "com frequência semanal".

No centro da proposta da Rocket Lab está o foguete criado especialmente para colocar satélites pequenos em órbita. Ele é feito basicamente com fibra de carbono, e seus motores são produzidos com impressão 3D. Enquanto um motor comum demanda normalmente meses para ser produzido, "nós podemos fazer um em 24 horas", diz Beck.

No primeiro teste, realizado em maio, o Electron atingiu com sucesso o espaço, mas não entrou em órbita. Dois novos testes estão programados.

Mais Barato

Foto: Planet Labs
Imagens espaciais permitem informar agricultores sobre
as condições do solo para melhorar sua colheita.

No momento, fabricantes de pequenos satélites pegam carona em lançamentos já previstos que têm um grande satélite como carga principal e espaço de sobra. Mas, com a demanda em alta pela observação da Terra, para fins meteorológicos, de turismo e na confecção de mapas, as empresas precisam de nova formas de chegar ao espaço.

Beck diz a Rocket Lab busca aproveitar essa oportunidade. Em vez de esperar por um lugar adequado em um grande foguete, "elas podem ir na internet, clicar em alguns botões e comprar um lançamento".

Uma empresa disposta a usar o Electron é a Planet Labs, empresa de São Francisco que fabrica minisatélites que pesam apenas 4kg. "Há um grande mercado para satélites pequenos que podem ser usados em diversas missões", diz o presidente da companhia, Will Marshall.

Diferentemente de satélites de telecomunicação comuns, que ficam em órbita geoestacionária a 35,7 mil km sobre a Terra, os satélites da Planet Labs, chamados Doves, voam muito mais baixo, a apenas 500 km. Isso significa que o satélite pode usar câmeras menores - o que reduz seu peso e custo a uma fração dos satélites tradicionais - e ainda assim conseguir imagens com uma boa resolução.

Ser pequeno e relativamente barato ainda permite que novos designs sejam testados e construídos rapidamente, diz a empresa. Em fevereiro, ela colocou 88 Doves em órbita. Em julho, foram 48. Agora, a Planet Labs afirma que pode fotografar cada ponto do planeta - todos os dias.

Marshall explica que reduzir o custo não implica apenas em um preço mais baixo para clientes, mas torna os dados coletados por satélites mais acessíveis. "Não só governos e grandes empresas podem comprar nossos dados. Qualquer pode fazer isso, seja um negócio pequeno ou médio ou uma ONG, um pesquisador, uma universidade."

Novos Usos de Dados

Foto: Planet Labs
Novas formas de processamento de imagens 'permitem
determinar se uma mina ficou mais profunda ou
se sua pilha de resíduos cresceu' .

Ainda que o desenvolvimento de foguetes e satélites chame mais atenção, as principais mudanças estão nos usos da informação que é coletada.

Fazendeiros e empresas de mineração já utilizam dados assim. Os agricultores podem ser alertados sobre as condições do solo para melhorar sua colheita. Pescadores são informados sobre a temperatura do oceano para saber onde achar peixes. Com fotos cada vez mais detalhadas, é possível identificar uma árvore específica, algo valioso para monitorar o desmatamento.

Uma empresa que está aproveitando esse grande volume de dados é a Terrabotics, do Reino Unido. "Em uma imagem normal, você fica limitado ao tamanho de um pixel, mas há muita informação entre os pixels capturados", afirma seu presidente, Gareth Morgan.

"Processamos imagens em sub-pixels antes de ser feita qualquer análise. Criamos imagens com super-resolução, criamos uma base de dados 3D e colocamos isso em sistemas de inteligência artificial. Transformamos imagens em sinais, como ocorre com as ondas de rádio. Isso nos liberta das restrições do pixel."

Morgan explica que isso permite, por exemplo, "ver uma mina e determinar como ela mudou - se ficou mais profunda ou se a pilha de resíduos cresceu".

Competições e prêmios também estimulam inovações radicais. O desafio Ansari Xprize pediu que inventores desenvolvessem uma espaçonave tripulada reutilizável. Agora, o Google Lunar Xprize oferece US$ 20 milhões para a primeira equipe que levar um robô à Lua capaz de percorrer 500 metros e enviar imagens de volta à Terra.

Trata-se de criar incentivos à inovação e a novas formas de pensar sobre o espaço, diz Rahul Narayan, fundador da equipe Indus, de Bangalore, que não tinha qualquer experiência na área antes de decidir participar do desafio do Google.

"Nenhum de nós tinha trabalhado com ciência espacial, engenharia ou tecnologia. E isso foi bom, porque, se tivéssemos, nunca teríamos decidido fazer algo tão complexo assim."

Passo Enorme

Foto: Planet Labs
Satélite Dove pode usar câmeras menores, o que reduz seu peso
e custo a uma fração dos equipamentos tradicionais.

Sua equipe agora refina seu veículo lunar, que pesa 6 kg - se pousar na Lua, será um dos mais leves a fazer isso. O lançamento ocorrerá nos próximos meses. "Foi uma longa jornada para nós", diz ele, destacando sua gratidão à Organização de Pesquisa Espacial Indiana, já que alguns dos pesquisadores aposentados da instituição estatal estão ajudando nesta missão.

Levar um veículo não tripulado à Lua pode não gerar um retorno comercial imediato, mas Narayan argumenta que, se conseguir tal feito, será "um passo enorme para que toda e qualquer empresa espacial privada do mundo tente fazer coisas assim no futuro".

É a visão de um mundo em que satélites de baixo custo são transportados por foguetes mais baratos que podem ser lançados quando se quiser - tudo com o clique em um botão, sem precisar esperar por uma missão espacial governamental.

Mas essa nova corrida espacial tem seus próprios desafios, diz Gareth Morgan, da Terrabotics. O imenso volume de dados e imagens espaciais significa que os sistemas de inteligência artificial usados para analisá-los automaticamente precisam melhorar.

"Os sistemas atuais precisam receber um treinamento extensivo para serem capazes de reconhecer diferentes características por conta própria. Precisamos mudar a forma como a inteligência artificial funciona. O progresso está ocorrendo, mas ainda é muito recente."

Mais informação pode ser algo bom, mas há aspectos éticos a serem considerados - afinal, todo mundo pode ser fotografado diariamente a partir do espaço. "Uma coisa importante para nós é que nossas imagens não permitam enxergar ou reconhecer uma pessoa", reconhece Marshall, da Planet Labs.

E quem tem acesso a esses dados? Conforme satélites privados se proliferam e a revolução dos dados avança, seus críticos apontam ser necessário debater sobre os papéis dos setores público e privado no espaço. "Nós, tecnólogos, temos que ser os principais guardiões desses dados", diz Marshall.

Foto: GETTY IMAGES
Rahul Narayan participa do desafio do Google, que
oferece US$ 20 milhões à equipe que levar robô à Lua.

Há ainda a questão dos detritos espaciais - já existem cerca de 30 mil objetos, grandes e pequenos, em órbita. "Teremos que lidar com esse problema", afirma Marshall. "A indústria terá de começar a trazer essas coisas de volta, e não será fácil."

Se o retorno em potencial para investidores é grande, também há muitos riscos. Foguetes podem explodir, falhar no lançamento ou colocar satélites na órbita errada. "Foguetes não são a melhor forma de faturar com o espaço", diz Matt Perkins, que foi por dez anos o presidente da Surrey Satellites e hoje chefia a Oxford University Innovation, uma empresa de tecnologia da universidade britãnica de mesmo nome.

"A melhor forma de fazer dinheiro está no fim da cadeia - usando toda essa informação que vem do espaço. Conforme isso fica mais barato, surgirão oportunidades comerciais, com dados sendo utilizados de formas que nunca ninguém tinha pensado antes." Se o espaço é a nova fronteira de negócios, caberá à inventividade humana tirar proveito disso.


Fonte: Site da BBC Brasil - http://www.bbc.co.uk/portuguese/

Comentário: Galera, na verdade quem continuará como grande financiador ainda por muito tempo e o seu maior cliente são os governos. Sondas planetárias científicas que custam os olhos da cara como a CASSINI continuarão sendo desenvolvidas por governos ou empresas contratadas pelos mesmos. Se os governos deixassem de financiar e demandar projetos as empresas do setor teriam de procurar outro negócio, talvez com alguma exceção as grandes empresas de telecomunicações que vivem de um nicho, que se não me engano na maioria dos países tem o controle do governo. As empresas visam lucros e nem sempre ciência. Só buscam tecnologia quando visualizam retorno financeiro sob alguma demanda gerada por governos e sempre subsidiados. Para que fique mais claro, as espremas espaciais americanas se desenvolveram graças aos contratos assinados com o seu governo, ou seja, a demanda de projetos gerada pela NASA e pelo Programa Espacial da USAF. É isto que falta no Brasil, um universo de compromisso governamental com o setor espacial, gerando demandas, regras desburocratizantes e cobrando por resultados, ou seja, botar a casa em ordem. Coisa que infelizmente neste momento com a cultura vigente é pura utopia. Bom eu gostaria de agradecer ao presidente Carlos Cassio de Oliveira do CEFAB da Bahia e a jovem Mariana Amorim Fraga pelo envio desta matéria. 

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