quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Série Espaçomodelismo: Entrevista Com o Sr. Paulo Gontran do CEGAPA

Olá leitor!

Uma vez mais dando sequencia a série com profissionais ligados a educação e ao Espaçomodelismo, trago agora para você outra entrevista desta significativa série tendo o como objetivo divulgar as ações de profissionais que nas ultimas décadas tem contribuído efetivamente para a educação de jovens e para o desenvolvimento do Espaçomodelismo no país.

Lembrando ao nosso leitor que nesta série pretendemos até o final do ano trazer para você quinze entrevistas, sendo esta a quarta da série, desta vez com o Sr. Paulo Gontran Ramos, líder do Centro Gaúcho de Pesquisas Aeroespaciais (CEGAPA) e um dos pioneiros do Espaçomodelismo no Brasil.

Sr. Paulo Gontran leitor é uma daquelas pessoas tranquila, alegre e comunicativa e mesmo aos 60 anos muita ativa e comprometida com o que faz, ‘GENTE QUE FAZ’, como comumente o blog intitula esses fantásticos profissionais que apesar do universo cultural que os cerca, buscam efetivamente pelo desenvolvimento da educação e da cidadania transformando dificuldades em soluções, bem diferente desses sanguessugas vendedores de ilusões que infelizmente infestam a nossa destrambelhada Sociedade.

Nesta interessante entrevista este gaúcho de Porto Alegre nos relata a sua trajetória profissional, bem como nos fala sobre as suas atividades no CEGAPA e a sua expectativa para o futuro do PEB e do Espaçomodelismo no país.

Blog BRAZILIAN SPACE gostaria de agradecer publicamente ao Sr. Paulo Gontran pela atenção dispensada ao nosso Blog e pela disposição de participar de nossa série de entrevistas, bem como também parabeniza-lo por tudo que fez e ainda certamente fará pelo Espaçomodelismo Brasileiro.

Duda Falcão

O Sr. Paulo Gontran Ramos.
BRAZILIAN SPACE: Sr. Paulo Gontran Ramos, esclarecendo para aqueles leitores que não o conhecem e ao seu trabalho, nos fale sobre o senhor, sua idade, formação, onde nasceu?

SR. PAULO GONTRAN RAMOS: Nasci em Porto Alegre, faz 60 anos. Minha formação foi em Eng. Elétrica e Software, passando pela Segurança de Voo, e Aeronautic Information Service, áreas em que atuo atualmente, além de informações meteorológicas. Fiz treinamento no IPV (atual ICEA) do CTA, São José dos Campos-SP, em 2001 e componho o quadro operacional da INFRAERO desde 2002, no Aeroporto Internacional João Simões Lopes Neto, em Pelotas-RS, onde sou Operador de Estação Aeronáutica.

BRAZILIAN SPACE: Sr. Paulo Gontran, é sabido do Blog que o senhor é um dos pioneiros no Foguetemodelismo no Brasil. Como começou a sua história nesta área?

SR. PAULO GONTRAN:  Começou na infância, e adolescência. Em 1974, 1976 e 1978 participei dos encontros que o IAE promovia e, em 1979, estive na Barreira do Inferno (Natal-RN) a convite daquele órgão, por conta de um Prêmio Nacional que sagrei no IIIº encontro, organizado pelo amigo e saudoso Cap. Basílio Baranoff que, infelizmente já nos deixou em 2008 – grande incentivador do “Space Education”.

Na Barreira participei da operação “Fernando de Noronha”, 7º lançamento do Sonda III além de dois lançamentos do Sonda II.

BRAZILIAN SPACE: Sr. Paulo Gontran, naquela época quais eram as expectativas e objetivos desses pioneiros do foguetemodelismo no Brasil?

SR. PAULO GONTRAN: Estávamos numa era romântica, onde fazíamos do idealismo nossa bandeira. Queríamos fazer foguetes experimentais, amadores ou não, pouco importando o nome que se dava à atividade ou se isso nos ia dar retorno financeiro ou não. Nosso objetivo era fazer “ciência espacial” no Brasil, por qualquer meio que nos fosse oferecido pelas autoridades ou instituições, ou até de forma  independente. Na verdade trabalhávamos sem subsídio financeiro algum, só por “amor à camiseta”. O IAE nos abria as portas, alojamento e refeições, mas as viagens eram custeadas por nós mesmos. Não obstante, notamos que hoje o IAE nada oferece se comparado àquela época, paradoxalmente, pois o governo era ditatorial militar e hoje, com toda a “democracia”, esse instituto fechou as portas à participação da atividade espacial amadora, infelizmente.

Logo do CEGAPA
BRAZILIAN SPACE: Sr. Paulo Gontran, é sabido que o desenvolvimento de suas atividades com o foguetemodelismo o levaram a criar o Grupo CEGAPA (Centro Gaúcho de Pesquisas Aeroespaciais), um dos três grupos pioneiros independentes (pelo menos que tenho conhecimento) ainda atuantes no Brasil (os outros são o CEFEC e o CEFAB). Como surgiu essa ideia e quando o grupo foi criado?

SR. PAULO GONTRAN: O CEGAPA veio do CAPA, que veio do CEPAPE, esses sim pioneiros, junto com o CEFEC (Pernambuco) e o CEFAB (Bahia). Na década de 70 trocávamos correspondência e, de lá, veio nossa amizade, por mais de 40 anos de trocas, opiniões e ajuda mútua. Viemos a nos conhecer pessoalmente em  1974, no CTA.

Quando residi por 4 anos no Nordeste, fizemos um encontro histórico em Carpina-PE: eu, o Comandante Cássio (CEFAB) e o Prof.Félix (CEFEC), para reuniões, testes estáticos e lançamentos. Foi um encontro emocionante.

Nos anos 60 e 70 havia outros grupos, como o do Engº Sérgio Haussmann do Nascimento, no Rio. O Haussmann  foi projetista do IAE e um dos idealizadores dos encontros no IAE junto ao Cap.Baranoff, Cap.Solha, Maj.Libório Faria, Eng.Mauro Dolinsky; todos sob o comando do Cel. Piva, diretor do IAE (I, II e III Reunião Nacional de Clubes Espaciais). Até o lendário Eng. Boscov tivemos oportunidade de conhecer nesses encontros históricos, além do Cel. Ajax de Barros e o Sub.Of. Pangonni.

Um levantamento de 1980, feito pelo falecido Cap.Baranoff, indicou que 21 grupos se formaram àquela época no Brasil, sendo um deles (o Gama) no próprio IAE/CTA, em São José dos Campos-SP, onde destaco o técnico Francisco Fábio Marques Noqueira, já falecido, que era peça chave para o funcionamento daquele grupo e que, na I RNCE, sagrou o primeiro lugar (eu fui o primeiro na III RNCE).

O CAPA ainda existe no papel, mas sem atividade porque seus ex-integrantes tomaram rumos diversos em suas vidas, alguns até indo residir fora do país.

O CEGAPA está se consolidando junto à entidades como MicroG /PUC-RS(Porto Alegre) e IFSUL-Pelotas, tendo já participado de vários eventos, como os festivais promovidos pelo Prof.Marchi, em Curitiba. A nova entidade aposta nas conquistas anteriores do CAPA, com a força atual dos jovens que surgiram como colaboradores, como Gilberto Kressler, da UFPel, Leandro Giacomazzi, da PUC-RS, e o Prof. Júlio Lima (PUC-RS) sob a direção da Médica Espacial Dra.Thaís Russomano, docente emérita do Kings Kollege em Londres e com treinamento na NASA,  que nos dá integral apoio naquele centro de pesquisas.

BRAZILIAN SPACE: Sr. Paulo Gontran, atualmente quais são os projetos em andamento no CEGAPA?

SR. PAULO GONTRAN: Como vários grupos e entidades, não temos verbas oficiais para pesquisar. Não obstante fizemos um esforço projetando o foguete “Esgualepado”, com reaproveitamento de materiais e apoio da PUC-RS, Centro de Micro-Gravidade. Nas facilidades daquele laboratório, pudemos ajudar no foguete “Poyehali”, desenvolvido pelo aluno Leandro Jacomazzi.  Ambos foguetes participaram do III Festival de minifoguetes de Curitiba.

O “Poyehali” voou bem e ejetou o paraquedas, mas infelizmente não atingiu a marca mínima na categoria. Já o Esgualepado sagrou honrosos 2º Lugar, na Classe C e 3º Lugar em Apogeu 200m, embora com problemas de ejeção da fita de resgate.

Agora estamos aperfeiçoando esse projeto “sustentável”, pois é de baixo custo e fácil execução, além de uma pesquisa mais aprofundada em estabilidade aerodinâmica, eletrônica embarcada e recuperação, nossa grande falha no evento de Curitiba; admitimos.

BRAZILIAN SPACE: Sr. Paulo Gontran, o GEGAPA pensa em ampliar sua área de atuação trabalhando em outros tipos de projetos além de foguetes, como por exemplo, CANSATS ou mesmo CUBESATS?

SR. PAULO GONTRAN: Estive conversando com o Prof. MS. Júlio Lima da PUC-RS a respeito dessas possibilidades. Também faço um trabalho de motivação aqui em Pelotas sobre essa possibilidade. Entretanto ainda não encontrei  ampla acolhida nesse sentido pois nem todos os Profs. Conhecem esses projetos. O CEGAPA não tem condições de fazer esse trabalho sem as parcerias que indiquei pois como já disse, não temos verbas oficiais para trabalho.

BRAZILIAN SPACE: Sr. Paulo Gontran, durante a realização da ultima edição do Festival de Minifoguetes de Curitiba, em abril passado, tomamos conhecimento da mudança de sede do CEGAPA, ou seja, de Porto Alegre para cidade de Pelotas. Qual foi a razão disto e essa mudança afetou de alguma forma os projetos em curso do Grupo ?

SR. PAULO GONTRAN: Eu fundei o CEGAPA à  partir do CAPA, em Porto Alegre, como já informei antes. Entretanto fui transferido para João Pessoa-PB pela INFRAERO, onde atuo profissionalmente. Lá eu não consegui fazer o CEGAPA acontecer, por diversas razões que aqui não cabem. Minhas atividades ficaram bem vinculadas ao Prof. Félix, em Carpina – PB, onde estive em três ocasiões para trabalharmos juntos (uma vez com o CEFAB, com o Sr. Cássio presente).

Transferido novamente ao Sul, para Pelotas, e tendo voltado aos bancos acadêmicos no IFSUL-Pelotas, tenho tentado estabelecer uma ponte CEGAPA, IFSUL e PUC-RS, em Porto Alegre, pois sou um idealista.

Fui aluno da UFRGS, Porto Alegre e UNISINOS, São Leopoldo-RS, mas foi no MicroG PUC-RS, que encontrei maior apoio ao que pretendo fazer.

Tenho me esforçado para que esses 265  Km não me atrapalhem o trabalho. Sempre que posso vou à Porto Alegre para dar continuidade ao convênio que formamos.

BRAZILIAN SPACE: Sr. Paulo Gontran, falando do Festival de Minifoguetes de Curitiba que, já em 2017 realizará a sua quarte edição, como o senhor enxerga esta iniciativa criada pela UFPR através da visão e determinação do Professor Carlos Henrique Marchi?

SR PAULO GONTRAN: O Prof. Marchi é um verdadeiro herói, assim como o Prof. Félix.  O Festival de Curitiba é a única realidade nacional atual promotora e incentivadora, totalmente aberta, em minifoguetes. Quem sabe futuramente pesquisa de foguetes modelo educacionais científicos possam ser feitos por todos.

O Marchi e sua equipe de “guerreiros e guerreiras”, como Foltran, Diógenes, e outros, está totalmente de parabéns. Ele conseguiu, com poucos recursos, resgatar os encontros dos “fogueteiros” da década de 70.

Se estivéssemos num país sério, o Marchi e o Félix já teriam verba oficial para fazerem o seu trabalho e seriam ovacionados.

BRAZILIAN SPACE: Sr. Paulo Gontran, também já está em curso uma outra iniciativa na área de competição de foguetes no Brasil, esta denominada de COBRUF (Competição Brasileira Universitária de Foguetes) que esta sob a liderança do jovem estudante de Engenharia Aeroespacial da UFABC, Emersson Nascimento, e já conta com a participação de várias universidades do país. Qual é a sua opinião sobre esta iniciativa universitária que inclusive a partir de 2015 foi oficializada como uma associação?

SR. PAULO GONTRAN: Eu conheci  o pessoal da UFABC nos eventos do Prof. Marchi, em Curitiba. Até emprestei meu sistema de lançamento elétrico para eles, no I Festival.

Acho essa iniciativa muito boa, mas acho que ela não deveria ser restrita às Universidades Públicas. Deveríamos ter um projeto brasileiro, que nos qualificasse inclusive para eventos internacionais, como se faz na Noruega e outros países, onde grupos se unem para esse fim e, é claro, que a AEB fizesse a sua parte de fomento. Tanto dinheiro oficial se coloca em coisas bobas, porque não em atividades de relevo como essas?

BRAZILIAN SPACE: Sr. Paulo Gontran, em sua opinião ainda existe espaço para criação no Brasil de novos eventos de foguetemodelismo e o num contexto mais generalizado de Espaçomodelismo, como por exemplo, eventos do tipo SPACECAMPS?

SR. PAULO GONTRAN: Todos possíveis, dadas as dimensões gigantescas do nosso território. Entretanto é bom focar e unir, pois muitas iniciativas acabaram em nada, justamente por se querer atuar de forma distribuída. Falta a AEB se posicionar e apoiar, por exemplo, o evento de Curitiba como o oficial brasileiro. Também falta a AEB assumir os pirotécnicos porque, até agora, só assumiu os foguetes PET, movidos à água, sob pressão.

BRAZILIAN SPACE: Sr. Paulo Gontran, voltando ao Festival de Minifoguetes de Curitiba deste ano, durante a sua realização os fogueteiros presentes deram um passo importante na busca pela legalização dessa atividade no país com a criação da Associação Brasileira de Minifoguetes (ABMF) ou BAR (Brazilian Association of Rocketry) na versão em inglês. Como o senhor viu esta iniciativa e em sua opinião como esta nova iniciativa poderá ajudar no desenvolvimento do Espaçomodelismo no Brasil?

SR. PAULO GONTRAN: Vejo como um sonho meu, do Félix, do Cássio, do falecido Baranoff, do Marchi, e de tantos outros, a realizar.

A BAR será nossa entidade, a lutar por nossos interesses, tanto no país quanto internacionalmente. Fico feliz por ter proposto a sigla BAR e ela ter sido acatada pelo Marchi e demais colaboradores. Faremos história, estejam certo.

BRAZILIAN SPACE: Sr. Paulo Gontran, como todo fogueteiro que se preza o senhor certamente é um amante da tecnologia espacial. Qual é a sua opinião sobre o atual estado de descaso governamental com o nosso Patinho Feio, ou seja, o nosso PEB?

SR. PAULO GONTRAN: Fico muito entristecido em saber que estamos assim, totalmente desarticulados. Eu estava no IAE, assistindo ao Dr. Tyrso Villela em palestra, quando ele declarou que “...muitos políticos brasileiros eram contrários a desenvolvermos pesquisa espacial”, melhor, “...que devíamos comprar as soluções prontas do exterior...”, na opinião desses políticos. Isso é vergonhoso. Temos talento para muito e pessoas competentes, só basta nosso governo querer fazer. Certa feita eu e o falecido Cap. Baranoff visitamos o Dr.Kesaiev - especialista Russo em propulsão líquida - no Hotel do CTA. Lá, sentado em sua simples cama de solteiro (pois não havia cadeira) ouvimos daquele homem ilustre, e ao mesmo tempo simples, que o Brasil não queria desenvolver foguetes. Os Russos queriam nos ensinar a fazer, mas o Governo (segundo ele) queria comprar tudo pronto. Com muita insistência, e com o trabalho maravilhoso do Baranoff, fez-se presente o ensino de foguetes à combustão líquida no ITA, graças ao Prof. Keseiev, Prof.Korslov e outros. Convênios com o MAI, etc. Triste o nosso quadro, não?

BRAZILIAN SPACE: Finalizando Sr. Paulo Gontran, o senhor teria algo a mais a dizer para os nossos leitores?

SR. PAULO GONTRAN: Sim. Dizer para essa juventude fantástica e talentosa que o Brasil tem: Não deixem morrer a Pesquisa Espacial no Brasil ! Não se deixem levar por complexos de inferioridade, pensando que os estrangeiros são melhores do que vocês.

Lembrem que Tsiolkowsky fez toda sua teoria lá no interior do interior da Rússia, sem recursos algum. Lembrem que Goddard foi execrado por jornais que o queriam ridicularizar. Que Von Braun teve que trabalhar para os Nazistas, mas culminou colocando o homem na Lua.

Sejam vocês jovens, os condutores da pesquisa do espaço brasileira. Não se deixem dominar pelas instituições. Sejam vocês mesmos os condutores. Superem seus professores !  Rasguem os “papers” se necessário, mas façam o que é preciso para que  o Brasil saia desse marasmo em que se encontra , tanto na pesquisa do espaço quanto em outras tantas. Não sejam egoístas, ou seja, pensem em um bem maior.

Na década de 70 um professor me proibiu de fazer foguetes na UFRS, porque era “subversivo” por fazer foguetes. O maravilhoso Prof. Félix foi detido por fazer foguetes educacionais. O Cartório de Títulos de Porto Alegre me rejeitou o registro do CAPA por dez vezes, e eu registrei na tentativa 11ª ! Fui hospitalizado com queimaduras de foguetes, muitas vezes me chamaram de louco, de visionário, de muitas coisas menores...mas eu não desisti, e porquê? Porque acredito em vocês, jovens, que irão colonizar o Cosmos; que irão construir as naves cósmicas do futuro! Vocês vão vencer, estou certo e, de onde eu estiver, estarei feliz em ver o seu progresso. Não desistam e tenham personalidade, ou seja, escapem das vaidades pueris e passageiras. Fazer foguete no Brasil é quase uma religião; acreditem !

Veja abaixo as outras entrevistas da Série:

1 - Prof. Alysson Nunes Diógenes da UP (Universidade Positivo de Curitiba)

2 - Prof. José Félix Santana do CEFEC (Centro de Estudos de Foguetes Espaciais do Carpina-PE)

3 - Prof. Carlos Henrique Marchi da UFPR (Universidade Federal do Paraná)

Um comentário:

  1. Bem esclarecedora e inteligente essa entrevista. A mensagem final então, foi uma "chamada geral" na gurizada. Que maravilha seria se essa gurizada lesse, entendesse e entrasse nessa luta. Parabéns, meu amigo! Sucesso!

    ResponderExcluir