segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Série Espaçomodelismo: Entrevista Com o Prof. Carlos Henrique Marchi da UFPR

Olá leitor!

Dando sequencia a série com profissionais ligados a educação e ao Espaçomodelismo Brasileiro, trago agora para você mais uma entrevista desta série que tem como objetivo divulgar as ações de profissionais que nas ultimas décadas tem contribuído efetivamente para a educação de jovens e para o desenvolvimento do Espaçomodelismo Brasileiro.

Vale lembrar que nesta série pretendemos apresentar quinze entrevistas até o final deste ano, sendo esta a terceira com o Prof. Carlos Henrique Marchi da Universidade Federal do Paraná (UFPR), líder do Grupo de Foguetes Carl Sagan (GFCS) desta mesma universidade e o idealizador do já consolidado Festival de Minifoguetes de Curitiba.

Prof. Marchi é um pessoa tranquila de pouco conversa, mas de muita ação, um desses profissionais que o Blog comumente intitula de ‘GENTE QUE FAZ’, bem diferente dos Collors, Cardosos, Itamas, Lulas, Ogras, Temers, MenestréisCoelhos e tantos outros vendedores de ilusão (e outras coisitas a mais) que infelizmente infestam a nossa destrambelhada Sociedade.

Nesta entrevista este grande educador catarinense nos faz um relato sobre a sua trajetória profissional, bem como nos fala sobre as suas atividades e sua expectativa para o futuro do Espaçomodelismo Brasileiro.

Blog BRAZILIAN SPACE aproveita para agradecer publicamente ao Prof. Marchi pela disposição de participar de nossa série de entrevistas, bem como parabenizar a este educador pelo grande trabalho que vem realizando. Vale a pena ler esta interessante entrevista.

Duda Falcão

Prof. Carlos Henrique Marchi
BRAZILIAN SPACE: Professor Marchi, nos fale sobre o senhor. Sua idade, formação, onde nasceu, trajetória profissional e desde quando o senhor trabalha na Universidade Federal do Paraná (UFPR)?

PROF. CARLOS HENRIQUE MARCHI: Estou com 50 anos. Nasci em Rio do Sul (SC) onde estudei os primeiros seis anos em escola pública e os cinco últimos anos em escola particular. Durante quatro anos, ainda em Rio do Sul, trabalhei como auxiliar de escritório na empresa do meu pai. Ainda em Rio do Sul fiz um curso de planador, que não conclui, com diversos voos de treinamento. Durante os três anos de ensino médio, meu professor de química (Arlindo Schauffert) incentivou e apoio minhas atividades com minifoguetes; suas aulas práticas de química em laboratório foram muito estimulantes. Fiz a minha graduação, mestrado e doutorado em engenharia mecânica na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em Florianópolis, nos períodos 1984-1992 e 1997-2001. Na UFSC, fiz iniciação científica com quatro pesquisadores (Sérgio Colle, Álvaro Prato, Clóvis Maliska e António Fábio C. Silva), estágio e trabalhei por 18 meses como pesquisador após concluir o meu mestrado no período 1993-1994. Em seguida, ingressei na UFPR onde estou desde 1994 atuando principalmente na área de dinâmica dos fluidos computacional com aplicações em propulsão e aerodinâmica de foguetes. Em 1986, quando cursava a graduação na UFSC, fiz um estágio de férias no IAE/CTA.

BRAZILIAN SPACE: Prof. Marchi, como surgiu a ideia da criação do Grupo de Foguetes Carl Sagan (GFCS) da UFPR e por quê?

PROF. MARCHI: É uma longa história que começou em Rio do Sul quando em 1978 comprei um livro de bolso chamado Foguetes e Mísseis. Depois, em 1982 eu e alguns amigos nos juntamos para projetar e testar minifoguetes, quando ainda estávamos no ensino médio. Em 1983 recebemos do Basílio Baranoff (IAE/CTA) e lançamos alguns espaçomodelos do Sondinha II. Ainda em 1983 e em 1984, fabricamos um minifoguete experimental X-1 (projeto do IAE/CTA) e o lançamos algumas vezes. Com o meu ingresso na UFSC, criei um grupo em 1985 que realizou pesquisas com minifoguetes como o X-1 e Netuno, espaçomodelos e o propelente KNSu; algumas destas pesquisas foram financiadas pela UFSC. Fizemos muitos testes estáticos com uma bancada baseada em mola. O grupo durou até 1990 quando nos formamos. Em 1996 retomei algumas atividades, já na UFPR, montando uma bancada e fazendo testes estáticos com motores comerciais. Em 2004 comecei a montar uma disciplina optativa chamada TM-273 Projeto e Lançamento de Espaçomodelos, que passou a ser lecionada anualmente, a partir de 2005, na graduação do curso de engenharia mecânica da UFPR. Em 2005 decidi criar um grupo de foguetes para estimular os alunos em engenharia espacial. Lancei a ideia na UFPR e recebi a inscrição de cerca de 20 alunos. O grupo foi fundado em 27 de agosto de 2005. As atividades do grupo basicamente eram as aulas da disciplina e a orientação de iniciações científicas, estágios e trabalhos de fim de curso em engenharia espacial. Mas a partir de 2013, com a criação do Festival de Minifoguetes de Curitiba, a ênfase passou a ser a preparação de minifoguetes para o festival. Em 2008 obtive um financiamento do CNPq, destinado à popularização da ciência e tecnologia, que ajudou muito o grupo na aquisição de equipamentos, material de consumo, kits de minifoguetes e motores. O nome Carl Sagan deve-se à grande influência que tive ao ler diversos livros dele.

BRAZILIAN SPACE: Prof. Marchi, quantos alunos e professores estão atualmente envolvidos com as atividades do GFCS?

PROF. MARCHI: Somos 33, sendo 2 professores da UFPR, 9 alunos de pós-graduação e 22 alunos de graduação (http://fogueteufpr.blogspot.com.br/2016/06/membros-atuais-do-grupo-de-foguetes.html).

BRAZILIAN SPACE: Prof. Marchi, em 2014 o senhor ao lado da UFPR e de seu Grupo de Foguetes deram inicio a uma iniciativa que consideramos de suma importância para o Espaçomodelismo Brasileiro, ou seja, a criação do Festival de Minifoguetes de Curitiba. O que lhe levou a tomar esta iniciativa?

PROF. MARCHI: Em 2011 a Associação Aeroespacial Brasileira (AAB) solicitou sugestões para o aprimoramento do Programa Espacial Brasileiro; em resposta, entre outras ideias, eu propus uma Olimpíada de Espaçomodelismo. No mesmo ano, enviei minhas sugestões à Agência Espacial Brasileira (AEB). Em 2012, um servidor da AEB contatou-me sobre Espaçomodelismo. Neste mesmo ano a AEB levou-me à Brasília para definirmos as linhas gerais da Competição de Foguetemodelismo que a AEB iria promover em 2013. Em abril de 2013 essa competição foi lançada no site da AEB; o plano era realizar a competição em outubro de 2013; a Comissão Organizadora era composta por representantes de seis universidades com cursos de engenharia aeroespacial, servidores da AEB e por mim. Na UFPR formamos três equipes para participar e criei o meu blog (http://fogueteufpr.blogspot.com.br/). Infelizmente em agosto de 2013 já estava claro que a AEB não iria promover a sua competição (http://fogueteufpr.blogspot.com.br/2013/08/cancelada-competicao-foguetemodelismo.html). Para não desmotivar as três equipes da UFPR bem como de outras 15 instituições que iriam participar da competição da AEB, decidimos criar o Festival de Minifoguetes de Curitiba, cujo primeiro evento foi realizado em abril de 2014 com a participação de 10 universidades/instituições de seis estados brasileiros (http://fogueteufpr.blogspot.com.br/2014/04/avisos-25-do-festival-resultados-finais.html); foram realizados 1 teste estático e 37 lançamentos de minifoguetes nas cidades de Curitiba e Pinhais (PR). Em abril de 2015 realizamos o segundo Festival com a participação de 12 universidades/instituições de seis estados brasileiros (http://fogueteufpr.blogspot.com.br/2015/05/aviso-58-do-festival-2015-resultados.html); foram realizados 1 teste estático e 67 lançamentos de minifoguetes.

BRAZILIAN SPACE: Prof. Marchi, o Festival de Minifoguetes de Curitiba teve realizada recentemente a sua terceira edição. Como o senhor avalia a edição do Festival deste ano, e o que pode ser feito para melhorar as próximas edições?

PROF. MARCHI: O evento não conta com patrocínio financeiro, embora já tenhamos tentado várias vezes obter recursos da AEB, CNPq, MCT e outros. Ele é organizado apenas com colaboradores voluntários e infraestrutura da UFPR, UP (Universidade Positivo) e UTFPR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná) e com recursos das próprias equipes participantes. O terceiro evento foi realizado em abril de 2016 com a participação de 15 universidades/instituições de sete estados brasileiros (http://fogueteufpr.blogspot.com.br/2016/05/festival-2016-59-resultados-finais.html); foram realizados 92 lançamentos de minifoguetes nas cidades de Curitiba e Pinhais (PR). A cada ano estamos com mais instituições e equipes participando, bem como mais lançamentos são feitos. Vamos continuar na busca por recursos financeiros para melhorar o evento bem como aprimorar as regras de segurança. As equipes que já participam do evento podem colaborar divulgando-o entre outras equipes que ainda não conhecem o evento. Acredito que a participação no Festival de Minifoguetes (https://www.facebook.com/groups/454511168040706/?fref=ts) motiva os alunos a estudarem e realizarem experimentos, aprimorando suas formações.

BRAZILIAN SPACE: Prof. Marchi, é notável a parceria do seu Grupo da UFPR com a Universidade Positivo (UP), parceria esta que vem permitindo a realização do Festival. Como surgiu esta parceria?

PROF. MARCHI: O prof. Alysson Diógenes da UP participou do primeiro Festival em 2014 e se colocou à disposição para ajudar na organização do Festival 2015. Desde então ele tem contribuído na organização e execução do Festival; a partir de 2015 também participam da organização professores da UTFPR de Curitiba (Eduardo Germer) e Francisco Beltrão (Guilherme Bertoldo). A parceria com a UP também inclui o desenvolvimento de motores para espaçomodelos e minifoguetes experimentais. Além disso, alunos da UP e UTFPR têm cursado desde 2014 a disciplina Projeto e Lançamento de Espaçomodelos cujo material didático está todo disponível na internet em http://www.foguete.ufpr.br/.

BRAZILIAN SPACE: Prof. Marchi, durante a realização do Festival deste ano surgiu à possibilidade do uso de Minifoguetes nos eventos da OBA (Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica). Como o senhor analisa esta nova possibilidade de levar aos jovens estudantes do ensino-médio as atividades com minifoguetes?

PROF. MARCHI: Estamos há cerca de dois anos desenvolvendo um minifoguete de baixo custo com preço unitário menor do que R$ 2, feito de materiais baratos e fáceis de encontrar. A ideia é ter um minifoguete seguro que atinja alturas entre 30 e 70 metros. O motor é um foguete de vara de fogos de artifício, do qual se retira a cabeça explosiva. Estamos tentando obter uma versão bem simples e segura para inseri-la aos poucos em eventos realizados pela OBA (Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica) visando envolver estudantes do ensino médio e fundamental em todos os estados brasileiros.

BRAZILIAN SPACE: Prof. Marchi, durante o Festival 2016 foi realizada uma palestra pela premiada equipe “ITA Rocket Design”, do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), sobre o histórico da participação da mesma nos EUA na competição internacional de foguetes denominada IREC. Existe pretensão no futuro da participação do GFCS (Grupo de Foguetes Carl Sagan) da UFPR neste evento internacional?

PROF. MARCHI: Sim. Recentemente (http://fogueteufpr.blogspot.com.br/2016/06/ufpr-up-e-utfpr-juntos-na-irec-2018.html) o GFCS juntou-se a UP e UTFPR para desenvolverem juntos um foguete visando participar da IREC em 2018. Mas temos planos para em 2017 participarmos pelo menos como espectadores da IREC.

BRAZILIAN SPACE: Prof. Marchi, o maior destaque no Festival deste ano (segundo a visão do Blog), sem dúvida nenhuma foi o momento em que os participantes se reuniram para criar a Associação Brasileira de Minifoguetes (ABMF) ou BAR na versão inglês (Brazilian Association of Rocketry). Como o senhor analisa esta nova iniciativa, quais são os próximos passos para a consolidação da mesma, e o que o interessado em participar deve fazer para se associar?

PROF. MARCHI: A ideia principal da Associação (http://minifoguete.blogspot.com.br/2016/04/vamos-fundar-associacao-brasileira-de.html) é unir todos os interessados e praticantes brasileiros do espaçomodelismo. Esse ano e o próximo deverão ser usados para organizar a associação cujo blog é http://minifoguete.blogspot.com.br/. No link http://minifoguete.blogspot.com.br/2016/06/cadastre-se-como-socio-da-bar.html há informações para pessoas interessadas em associar-se. E o link http://minifoguete.blogspot.com.br/2016/06/cadastre-sua-equipe-de-foguetes-na-bar.html é destinado às equipes de foguetes para se cadastrarem na associação.

BRAZILIAN SPACE: Professor Marchi, em nossa opinião sua iniciativa de criar este Festival de Minifoguetes é um grande exemplo a ser seguido por outras instituições educacionais através do País. Diante disto, o senhor estaria disposto a realizar palestras sobre a sua experiência caso existam instituições educacionais interessadas, e em caso positivo, o que essas instituições devem fazer para entrar em contato com o senhor?

PROF. MARCHI: Desde o ano passado o GFCS tem feito palestras visando apoiar a criação de grupos de foguetes em outras instituições (http://fogueteufpr.blogspot.com.br/2015/09/palestra-do-gfcsufpr-na-unoesc.html). Estamos à disposição de instituições de ensino de qualquer nível para palestras, oficinas, minicursos e apoio técnico. Basta entrar em contato pelo e-mail chmcfd@gmail.com. A instituição interessada deverá pagar as despesas de viagem e estadia.

BRAZILIAN SPACE: Finalizando Prof. Marchi, o senhor teria algo a mais a acrescentar aos nossos leitores?

PROF. MARCHI: Os minifoguetes são uma ferramenta didática fantástica e barata. Com um projeto de minifoguete, sua montagem e lançamento, e análise dos resultados podem ser envolvidos conceitos de propulsão, aerodinâmica, trajetória, estruturas, materiais, física, química, matemática, astronáutica, segurança etc.

Veja abaixo as outras entrevistas da Série:

1 - Prof. Alysson Nunes Diógenes da UP (Universidade Positivo de Curitiba)

2 - Prof. José Félix Santana do CEFEC (Centro de Estudos de Foguetes Espaciais do Carpina

3 comentários:

  1. Parabéns pela entrevista Duda.
    O Marchi está fazendo um bom trabalho de estruturação da BAR, na qual pretendemos haja visibilidade por parte de nosso Governo para as atividades espaciais amadoras, em geral, e de minifoguetes em particular. Além das Universidades temos que revitalizar grupos amadores espaciais independentes, como o CEGAPA, o CEFAB e o CEFEC,lembrando que Goddard, Von Braun e Korolyev iniciaram seu trabalho em grupos assim, amadores.
    Na estruturação da BAR, já formamos várias comissões, onde estamos participando de cinco delas, com o objetivo de atender aos quesitos importantes dessa futura instituição, tais como constituição, segurança, legislação, nomenclatura, etc.
    Junto ao Prof.Diógenes, ao Prof.Félix Santana, e demais colaboradores, de todo o Brasil, faço votos de que possamos finalmente fazer "Space Education", como sonhou o Cap.Basílio Baranoff, Eng.Mauro Dolinsky, Brig.Piva, Cap.Solha, Tec.Fábio Marques Nogueira, Eng.Sérgio Haussmann do Nascimento e tantos outros pioneiros importantes.
    Peço aos "fogueteiros" antigos e novos, como Comandante Cássio (CEFAB), Prof.Silas (UNIVAP), Prof.Bezerra (IAE), Eng.Danton (IAE), Dra.Ana Avelar (IAE), Dra.Thaís Russomano (PUC-RS), Prof.Júlio Lima (PUC-RS) e tantos outros importantes talentos científicos, que se unam a nós nessa empreitada de fomento, trabalho e estímulo ao desenvolvimento de uma juventude espacial em nosso país.
    Finalmente, deixo meu recado parafraseando canção famosa de Geraldo Vandré: "Ei vamos embora, que esperar não é saber...quem sabe faz a hora, não espera acontecer...".

    Abraços a todos(as)!

    Gontran
    CEGAPA
    Pelotas -RS

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    1. Caro Paulo!

      Fico muito contente em saber que as atividades relacionadas com a BAR estão avançando e me coloco a inteira disposição para divulgar esses avanços. O Blog BRAZILIAN SPACE apoia incondicionalmente a criação desta associação e estamos na esperança de assim estarmos dando (com esta iniciativa) um passo fundamental para o desenvolvimento do Espaçomodelismo no Brasil e contribuindo para divulgação e crescimento da atividades espacias em nosso território. Sucesso Paulo a você e a todos da BAR. Estou por aqui.

      Abs

      Duda Falcão
      (Blog Brazilian Space)

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  2. Muito bacana a entrevista, fico feliz em fazer parte desta equipe junto com o Professor Carlos e todos os outros membros.

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