quarta-feira, 24 de agosto de 2016

O “Estabaco” Olímpico de Dona Luiza e o Programa Espacial Brasileiro

Olá leitor!

Segue abaixo um interessante artigo publicado no site revista “Época” dia (21/07) abordando o descaso para com o Programa Espacial Brasileiro e o lançamento de um Livro sobre este tema.

Duda Falcão

RICARDO NEVES

O “Estabaco” Olímpico de Dona Luiza
e o Programa Espacial Brasileiro

Vamos descobrindo que as coisas podem dar mais errado do que imaginávamos.
Será que precisamos de um tombo para acordar do pesadelo?

RICARDO NEVES
21/07/2016 - 18h32
Atualizado 22/07/2016 13h42

No dia 2 de outubro de 2009 nós, brasileiros, recebemos eufóricos a notícia da escolha do Rio de Janeiro para sediar os Jogos Olímpicos de 2016. A festa da delegação brasileira presente à reunião do Comitê Olímpico reunida em Copenhagen, transmitida ao vivo, logo se transformou em um carnaval pelo país afora. Entre 2009 e 2010 aqui no Brasil vivíamos outra realidade, diferente do resto do mundo, especialmente dos Estados Unidos e da União Europeia – atônitos e tateando no escuro na busca de remédios para a crise iniciada em meados de 2008 e que se configurou como a maior e mais complexa das crises econômicas mundiais desde 1930.


Nossas cabeças de brasileiros estavam tranquilas e serenas. Assegurados pelo presidente Lula, estribado em uma aprovação de quase 80%, que lhe conferia uma enorme credibilidade, contemplávamos confiantes o futuro, certos de que a crise por aqui não seria mais que uma “marolinha”.

Empreiteiros felizes com a caderneta lotada de encomendas para Copa e Olimpíada pelos governos federal, estaduais e municipais: estádios novinhos e um sem-número de obras, principalmente para mobilidade, em 12 cidades; banqueiros vivendo felizes o mundo do juro lá em cima e o crédito fácil e subsidiado; pelo menos um quarto dos brasileiros recebendo algum um tipo de bolsa ou subsídio público; o varejo bombando como “nunca na história deste país” vendendo TVs de tela plana e smartphones aos milhões. Junte-se a tudo aquele sentimento oficial e público de termos tirado o bilhete premiado simbolizado pela descoberta de petróleo no pré-sal. O Brasil só podia ser feliz. Tínhamos a melhor das perspectivas de aparecer bem na foto como anfitriões dos mais inesquecíveis megaeventos planetários representados pela Copa 2014 e pela Olimpíada 2016.

Não tinha chance de dar errado. Mas vamos descobrindo que as coisas podem dar mais errado do que poderíamos imaginar. Agora, não deixa de ser emblemático o “estabaco” que dona Luiza Trajano, a empresária ícone do otimismo que vivemos até recentemente, sofreu ao se voluntariar para carregar a tocha olímpica.


Nós, brasileiros, precisamos ir mais fundo em nossa autoanálise e reconhecer como perdemos completamente os rumos como nação. Nossa incapacidade completa de formular quaisquer ideias ou visões verdadeiramente estratégicas. Incapacidade que segue nos aprisionando na maldição de ser para sempre o “país do futuro”.

Fico perplexo ao perceber tantas chances que desperdiçamos, tantas coisas que fomos capazes de jogar pela janela. Deparei recentemente com um livro que realiza um histórico do Programa Espacial Brasileiro. Trata-se de livro publicado por uma pesquisadora brasileira estranhamente lançado por uma editora em Portugal. Compreensível? Talvez pelo fato de em nosso país as editoras se interessarem mais pela demanda por livros de colorir para adultos e de autoajuda escritos por padres pops.

Não sou daqueles que dizem tolamente que “o Brasil precisa é de saneamento básico e não de foguetes”. Pelo contrário. Entendo que um país que investe ampla e seriamente em ciência e desenvolvimento tecnológico é uma nação capaz de reter um amplo leque de cérebros, criando reserva de inteligência que pode ser mobilizada e dedicada a solucionar os mais variados tipos de problemas.


Tecnologista sênior do Museu de Astronomia e Ciências Afins, no Rio de Janeiro, Ana Lucia Villas-Boas, socióloga e ph.D. em ciências sociais, pela agonizante Universidade Estadual do Rio de Janeiro – agonizante porque o estado do Rio de Janeiro se encontra falido e a referida universidade corre o risco de ser simplesmente extinta –, faz em seu livro, intitulado Programa Espacial Brasileiro: militares, cientistas e a questão da soberania nacional, mais propriamente uma autópsia do que uma análise atual do que é nosso programa espacial.

(Foto: Divulgação)
Livro Programa Espacial Brasileiro

Um país com nossas características geopolíticas não poderia jamais abrir mão de ter uma política de Estado e de investir seriamente em um programa aeroespacial. Longe de ser traduzido em “lançar foguetes”, um programa aeroespacial é uma iniciativa transversal que acaba tendo aplicabilidade, impacto e repercussão nos mais diversos segmentos da sociedade e do mercado, não apenas na questão militar.

A análise de Villas-Boas, compreendendo desde os tempos que se seguiram ao final da Segunda Guerra Mundial, demonstra que a nação brasileira já teve líderes, tantos civis quanto militares, muito mais qualificados do ponto de vista de formular visão estratégica.


O que restava do Programa Espacial Brasileiro até a virada de século foi virtualmente liquidado após a tragédia da explosão da base de Alcântara, em 22 de agosto de 2003, quando morreram 21 engenheiros e técnicos. De lá para cá, tanto a administração de Lula quanto a de Dilma jamais foram capazes de ter um mínimo de compreensão ou sensibilidade para o caráter estratégico de um programa aeroespacial.

Os números falam por si. Hoje, em um país de dimensões continentais e mais de 200 milhões de habitantes, restam pouco mais de 1.000 profissionais envolvidos com as atividades de nosso setor espacial. Para ser mais exato, na verdade, em 2013 eram contabilizados 822 civis, 176 militares e 107 colaboradores externos. O que seguramente torna a comunidade brasileira de profissionais do setor aeroespacial radicada no exterior maior do que a que vive aqui.

Talvez o que nós, brasileiros, estejamos mesmo necessitados é de um “estabaco” como o de dona Luiza para acordar de vez deste sonho errado, deste torpor que virou pesadelo. Nosso futuro acabou. É tempo de uma nova geração de líderes políticos, empresariais e cívicos.


Fonte: Site da Revista Época – 21/07/2016

Comentário: Pois é, quem sabe esse artigo ajuda na reflexão daqueles que realmente se importam com os rumos de nossa Sociedade, mas ainda estão dormindo em berço esplêndido.

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