terça-feira, 3 de maio de 2016

Para Sair da Crise, Brasil Deve Apostar em Ciência, Diz Novo Presidente da ABC

Olá leitor!

Segue abaixo uma entrevista com o novo presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC) postada ontem (02/05) no site do “Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI)”.

Duda Falcão

Para Sair da Crise, Brasil Deve Apostar em
Ciência, Diz Novo Presidente da ABC

Para o físico Luiz Davidovich, país deve seguir exemplos de nações que
enfrentaram crises econômicas ampliando os investimentos em P&D.
Segundo ele, MCTI teve papel fundamental no desenvolvimento
do Brasil e deve ser fortalecido.

Por Ascom do MCTI
Publicação: 03/05/2016 | 08:45
Última modificação: 02/05/2016 | 22:49

Crédito: ABC
Luiz Davidovich é físico e professor titular
da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

O físico Luiz Davidovich, professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), assume a presidência da Academia Brasileira de Ciências (ABC), que completa 100 anos nesta terça-feira (3). Ele substitui o matemático Jacob Palis, que estava à frente da entidade desde 2007. Em entrevista ao Portal MCTI, Davidovich afirmou que a saída para crise econômica está na ampliação dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento. "O Brasil precisa reconhecer as áreas prioritárias e investir pesado", defendeu. Para ele, a ciência nem sempre tem aplicação imediata, e o Brasil deve apostar nas grandes revoluções. "Temos que estar na fronteira da ciência internacional, procurar atividades de pesquisa que podem resultar no futuro em grandes revoluções tecnológicas e sociais, mudando a nossa vida."

MCTI: O que podemos esperar da sua gestão na ABC?

Luiz Davidovich: A ABC tem produzido estudos sobre vários temas de grande relevância para o país. São trabalhos acompanhados de propostas de suma importância. O trabalho sobre reforma da educação superior, por exemplo, deu origem à Universidade Federal do ABC, que é uma universidade moderna, com possibilidade de formação interdisciplinar, contemporânea, para graduação em diversas áreas e saiu de recomendação da Academia. Nos últimos anos, a ABC construiu essa reputação de ser um centro de pensamento sobre o país que gera propostas de políticas públicas muito consistentes, pois são embasadas na competência científica dos membros da academia. Essa tem sido uma tarefa importante da Academia e a nova diretoria pretende continuar e ampliar, abordando temas que ainda não foram considerados e que são importantes para o país: fontes de energia, tecnologias portadoras de futuro, como nanotecnologia, biotecnologia, tecnologia de informação, outros biomas, além da Amazônia, como o Mar, para o desenvolvimento sustentável do país. Pretendemos continuar nessa linha envolvendo um número cada vez maior de membros. É importante que os membros participem cada vez mais desses estudos e da formulação dessas propostas de políticas científicas.

MCTI: A difusão da ciência também será prioridade?

Luiz Davidovich: A Academia tem a tradição de cultivar a curiosidade e o fascínio pela ciência. Promove também a educação em ciência. É uma preocupação da ABC desde a sua fundação. Vamos dar uma atenção especial à difusão da ciência. Explicar as grandes novidades da área para população, bem como, a importância da CT&I para o desenvolvimento do país. Vamos continuar e aprofundar o intercâmbio internacional, a ação com organizações científicas internacionais. Queremos fazer um trabalho político também, no sentido de que as propostas sejam atendidas e aproveitadas pelo governo. A nossa pauta vai incluir também o esclarecimento de governos que acham que a ciência tem que ter sempre aplicação imediata. Um engano. Grandes revoluções tecnológicas iniciam-se na pesquisa básica que não tinham ideia, quando foi realizada, de possíveis aplicações. A física quântica, cem anos depois, representava 1/3 do PIB dos Estados Unidos, e no início não tinham ideia da sua aplicação. O Brasil não pode ficar fazendo a pequena inovação e não apostar nas grandes revoluções. Nós temos que estar na fronteira da ciência internacional, procurar atividades de pesquisa que podem resultar no futuro em grandes revoluções tecnológicas e sociais, mudando a nossa vida.

MCTI: Como a atual conjuntura política brasileira afetou o setor?

Luiz Davidovich: Essa é uma pauta urgente. Vamos ter uma posição muito determinada em relação à CT&I no país. Quero mencionar os cortes substanciais nos orçamentos do MCTI e do MEC [Ministério da Educação]. Esses cortes interrompem ou atrasam o trabalho de rede de pesquisa, da oferta de bolsas, acaba precarizando a pesquisa, a inovação e a educação. O corte de bolsas é especialmente dramático, porque atinge estudantes que, de fato, serão os pesquisadores de amanhã, do futuro do Brasil. São aqueles que poderão ser os grandes criadores da inovação tecnológica de que o Brasil tanto precisa. Serão os cientistas que vão estar associados às grandes revoluções do conhecimento e as grandes revoluções tecnológicas. Esses cortes atingem em cheio o futuro do país. Nós vamos lutar contra isso.

MCTI: Qual é a alternativa num cenário de crise?

Luiz Davidovich: As pessoas acham, frequentemente, que a crise econômica implica necessariamente em cortes em todos os setores da vida pública. Isso é um mito que é contrariado pelo que acontece em vários países. A China, por exemplo, em momentos de crise aumenta o investimento em pesquisa, em particular, na pesquisa básica. No mesmo discurso em que o primeiro ministro chinês diz que o crescimento do país vai desacelerar ele diz que irão aumentar os investimentos em pesquisa básica e nas melhores universidades. Eles fazem isso porque sabem que esse é o meio de sair da crise, de alavancar o desenvolvimento de forma sustentável, através da inovação tecnológica e da atividade científica. Não é só a China. Os países da Europa chegaram a um acordo, recentemente, no sentido de alcançar investimento em P&D de 3% do PIB em 2020. O investimento do Brasil em P&D, atualmente, é da ordem de 1,5%. A proposta da Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação e também da ABC era no sentido de alcançar 2% do PIB de investimento em P&D em 2020. No andar da carruagem, esse objetivo é uma quimera, não sei se será alcançado. O Brasil vai ficando para trás em relação a outros países em desenvolvimento, como a China, a Índia, a África do Sul e a Rússia, que estão apostando em pesquisa em plena crise, porque acham que o desenvolvimento científico e tecnológico é fundamental para sair da crise. Essa é uma pauta importante da ABC.

MCTI: Como você avalia a ciência, tecnologia e inovação no Brasil?

Luiz Davidovich: Com o apoio que nós tivemos, desde 1950, quando foram fundados o CNPq e a Capes, deu origem a um parque científico muito importante no Brasil. Graças a essas iniciativas, surgiram jovens pesquisadores brilhantes que têm contribuído para o desenvolvimento do país e para o protagonismo internacional da ciência brasileira, que é muito importante. Elevou o Brasil a outro patamar. Nós vislumbramos um horizonte mais longínquo que mostra o que nós podemos alcançar e aumenta a nossa ambição. O Brasil precisa ter ambição na ciência. Nós estamos bem, mas podíamos estar muito melhores. Já publicamos nas melhores revistas internacionais, mas pelo menos em algumas áreas nós precisamos pautar a ciência internacional. Não é seguir o que os outros fazem, é fazer com que os outros nos sigam. O Estado precisa reconhecer que em épocas de crise você pode cortar muita coisa, mas não pode cortar o motor do desenvolvimento que é a ciência e a tecnologia, pois não vamos para frente. O Brasil precisa reconhecer as áreas prioritárias e investir pesado nessas áreas. A ciência é motor do futuro, então se você joga fora esse motor você não vai chegar ao futuro. Com ajustes fiscais você pode até estabilizar a economia por certo tempo até a próxima crise. Nós queremos evitar essa sucessão de crises, de uma economia fortemente baseada em exportação de commodities. Queremos que se aumente o valor agregado da produção brasileira de modo que o país possa ter protagonismo internacional na ciência, no comércio, nos produtos que colocar no mercado internacional. Não podemos continuar vivendo nesse perfil que vem desde os tempos da colônia.

MCTI: O MCTI completou 30 anos em 2015. Qual a importância da pasta para consolidação da ciência no Brasil?

Luiz Davidovich: [O ministério] tem tido papel muito importante para o Brasil na articulação dos institutos de CT&I e no país. É o ponto central. Tem sido um órgão muito importante. Certamente, a sua criação foi fundamental para o desenvolvimento que o Brasil teve nos últimos anos. É um ministério bastante moderno. São projetos construídos em debates. Deveria ter uma centralidade maior. A nova diretora da ABC irá defender a integridade e a individualidade do MCTI como órgão central da articulação da ciência no país, portanto, para o desenvolvimento brasileiro. Iremos defender isso. Vamos proteger o conhecimento e garantir o futuro do Brasil.


Fonte: Site do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI)

Comentário: Que me perdoe o físico Luiz Davidovich, merecedor do Blog BRAZILIAN SPACE de respeito e admiração pelo seu trabalho, mas o simples apostar pesado em Ciência e Tecnologia não é garantia nenhuma de tirar o Brasil do caos econômico, político e de desenvolvimento em que nos encontramos, muito pelo contrario e por razões óbvias. O investimento continuo e vigoroso em C&T não deve ser um objetivo Dr. Davidovich, e sim uma consequência do entendimento da Sociedade o quanto é importante para o todo este investimento, e isto Dr. Davidovich só acontece em sociedades onde existe compreensão pelo seu povo do que seja Cidadania. Se em outras nações o simples fato de seguir este caminho funcionou, foi porque lá já havia uma base cultural propicia para este tipo de postura política, ou seja, seu povo estava firmemente compromissado em realizar e apresentar resultados em prol do bem comum. No Brasil não existe isto, nem a nível governamental, nem em nível de nossa própria sociedade. Neste país Dr. Luiz Davidovich só se fala em direitos e uma nação não se constrói desta forma. Toda nação poderosa se baseia na compreensão pelo seu povo do que seja Cidadania, do respeito ao próximo, de onde começa os seus direitos, mas principalmente quais são os seus deveres para com o país. Sociedades infantis e corruptas como a nossa não forma Cidadãos, forma sim piratas, e colocar mais recursos na mão dessas pessoas (políticos, incompetentes de carreira, gestores descompromissados, etc...) não é só um grande risco, bem como uma completa estupidez. O caminho na realidade é longo e já deveria ter sido trilhado pela nossa sociedade e não foi, e passa primeiro pelo investimento em Educação de Qualidade baseada na Cidadania. Dr. Davidovich precisamos antes de mais nada formar Cidadãos em nossos lares, escolas e universidades, para então ter o universo propício para criação de um Programa de C&T (bem como de uma nação) realmente efetivo e que traga resultados concretos. Sem pessoas compromissadas e sérias atuando em todas as áreas de nossa sociedade Dr. Davidovich, jamais o que o senhor defende será alcançado, independentemente do investimento feito. O papel da ABC neste momento deve ser em prol da Educação de Qualidade baseada na Cidadania, só assim haveremos de mudar este caos em que nos encontramos, e vai levar tempo, décadas na realidade. Caso contrário, continuaremos alimentando vagabundos e vivendo a fantasia eterna de país do futuro. Esta sim Sr. Davidovich tem de ser a sua bandeira e da ABC desde agora, então façam a parte que lhes cabe.

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