terça-feira, 31 de maio de 2016

Série Espaçomodelismo: Entrevista com o Coordenador da Equipe GREAVE da Universidade Positivo (UP) de Curitiba

Olá leitor!

A partir de hoje o Blog BRAZILIAN SPACE dá início a uma série de entrevistas com profissionais ligados a educação e ao Espaçomodelismo Brasileiro, profissionais que tem nas ultimas décadas contribuído efetivamente para a educação de jovens e para o desenvolvimento do Espaçomodelismo no país, ações extremamente positivas que ajudam na formação não só de bons profissionais nas áreas de Mecânica, Física, Química, Elétrica, etc... bem como também e principalmente na formação de cidadãos, tipos de indivíduos hoje cada vez mais difícil de encontrar em nossa destrambelhada e corrupta sociedade, não sendo por acaso o caos político, econômico, social e moral em que estamos vivendo, afinal quem planta, colhe.

Nesta série pretendemos apresentar quinze entrevistas até o final deste ano, sendo esta primeira com o jovem Prof. Alysson Nunes Diógenes, do Departamento de Mecânica da Universidade Positivo (UP) de Curitiba-PR, e coordenador da Equipe GREAVE desta universidade privada paranaense, um jovem extremamente comprometido com o que faz, carismático, cheio de energia, dinâmico e originado do nordeste brasileiro, mais precisamente do mesmo estado da federação (RN) onde surgiu nos anos 60 o primeiro centro de lançamento do Programa Espacial Brasileiro (PEB), na época denominado de Centro de Lançamento de Foguetes da Barreira do Inferno (CLFBI), e hoje conhecido apenas pela sigla CLBI.

Na sequencia da série pretendemos apresentar entrevistas com o Prof. Dr. João Batista Garcia Canalle, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e coordenador da Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica (OBA), o Prof. José Félix Santana, do Centro de Estudos de Foguetes Espaciais do Carpina (CEFEC) e pioneiro do PEB e do Espaçomodelismo Brasileiro, o Sr. Paulo Gontran Ramos, do Centro Gaúcho de Pesquisas Aeroespaciais (CEGAPA) e pioneiro do Espaçomodelismo Brasileiro, o Sr. Carlos Cássio Oliveira, do Centro Experimental de Foguetes Aeroespaciais da Bahia (CEFAB) e pioneiro do Espaçomodelismo Brasileiro, o conhecidíssimo Prof. Carlos Henrique Marchi, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), o Cel. Milton de Souza Sanches (a confirmar), ex-servidor do Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE) e pioneiro do PEB e do Espaçomodelismo Brasileiro, o Prof. Eng. José Miraglia, ex-diretor da empresa Edge of Space e professor da Faculdade de Informática e Administração Paulista (FIAP), o Sr. Roberto de Paula (a confirmar), da empresa Bandeirante Foguetes de Recife-PE, o jovem, dinâmico e promissor Prof. Antônio Carlos Foltran, também da Universidade Positivo (UP) de Curitiba, o Prof. Dr. Eduardo Matos Gemer (a confirmar), da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) campus de Curitiba, o Prof. Júlio Cesar Guedes Antunes (a confirmar) do Instituto Federal do Norte de Minas Gerais (IFNMG) de Montes Claros-MG, o Dr. José Bezerra Pessoa Filho (a confirmar), do Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE), colaborador do Programa AEB Escola da Agência Espacial Brasileira (AEB) e professor colaborador do Curso de Engenharia Aeroespacial do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), e finalizando na área de pequenos satélites educativos, o Prof. Cedric Salloto (a confirmar), do Instituto Federal Fluminense (IFF) de Campos dos Goytacazes-RJ, e o internacionalmente conhecido Prof. Cândido Osvaldo de Moura (a confirmar), da Escola Municipal Tancredo de Almeida Neves de Ubatuba-SP.

Duda Falcão

O Prof. Alysson Nunes Diógenes demonstrando
o seu bom gosto para leitura.

BRAZILIAN SPACE: Professor Alysson, nos faça um relato sobre o senhor, sua idade, formação, onde nasceu, trajetória profissional e desde quando o senhor trabalha na Universidade Positivo (UP)?

PROF. ALYSSON NUNES DIÓGENES: Eu tenho 37 anos, sou engenheiro eletricista e doutor em engenharia mecânica. Nasci em Mossoró-RN, neto de um homem analfabeto e extremamente inteligente que criou 14 filhos e deu faculdade a 13 deles. Filho do oitavo desses 14, que me foi um exemplo de hombridade. Me formei em engenharia elétrica na UFC em 2000 e ingressei no mestrado em engenharia biomédica na UFSC. Após o mestrado trabalhei por 2 anos na empresa ESSS com processamento de imagens e CFD. Em 2005 ingressei no doutorado em engenharia mecânica, também na UFSC, na área de dinâmica dos fluidos. Após o doutorado fui contratado como pesquisador em 2009 na UFPR e posteriormente, em 2012, como professor substituto no curso de engenharia mecânica também na UFPR. Em 2013 fui contratado pela Universidade Positivo e é onde estou até hoje como professor do curso de Engenharia Mecânica na área de ciências térmicas.

BRAZILIAN SPACE: Prof. Alysson, como surgiu à sua ideia da criar um grupo de Espaçomodelismo na Universidade Positivo (UP) e por quê?

Logo da Equipe GREAVE
PROF. ALYSSON: Curitiba tem se tornado um polo da ciência de foguetes, seja na área de foguetemodelismo ou mesmo da ciência de foguetes em si. Eu já conhecia o trabalho do prof. Marchi na UFPR e próximo à primeira edição do festival, eu achei que seria interessante a UP ter uma equipe de foguetemodelismo, visto que a UFPR e a UTFPR já tinham. Como eu sou um entusiasta de aerodinâmica, lancei o desafio a três alunos, dos quais apenas um aceitou, e fundamos a equipe GREAVE – Grupo de Estudos em Aerodinâmica de Veículos Autopropelidos. A equipe tem crescido e se mantido no objetivo de fazer ciência de qualidade na área de foguetes, em especial aerodinâmica.

BRAZILIAN SPACE: Prof. Alysson, quantos alunos e professores estão atualmente envolvidos com as atividades do seu grupo GREAVE na UP?

PROF. ALYSSON: Atualmente somos 2 professores (eu e o prof. Antonio Calos Foltran, também da engenharia mecânica) e 18 alunos das engenharias mecânica, civil, elétrica e do curso de design envolvidos diretamente e outros 4 professores (todos da engenharia mecânica) envolvidos indiretamente, além do corpo de técnicos, que fazem um trabalho sensacional e não poderiam ser esquecidos na menção.

BRAZILIAN SPACE: Prof. Alysson, desde 2014 o Prof. Marchi da UFPR e seu Grupo de Foguetes vem promovendo o Festival de Minifoguetes de Curitiba. A partir da edição deste ano (a terceira da história), a Universidade Positivo (UP), ao lado da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), resolveram então apoiar este importante evento para o Espaçomodelismo Brasileiro. Como sucedeu este apoio por parte da UP e por quê?

PROF. ALYSSON: Nós (UP e UTFPR) já fazíamos parte da organização desde a segunda edição. Apenas aprofundamos a parceria. Eu entendo que não somos concorrentes, e sim parceiros no desenvolvimento da ciência no Brasil. Para que ciência seja feita, seja em que área for, é necessário (no mínimo) pessoas com capacidade e massa crítica (quantidade de pessoas com capacidade). Por mais brilhante que o prof. Marchi seja – e é – ele ainda é só um. Quando nos juntamos, fazemos um trabalho melhor. E isso tem beneficiado a todos, não somente o festival, mas as pesquisas que fazemos em conjunto. Exemplos disso são o crescimento do número de lançamentos e equipes participantes no festival, mas também as trocas de alunos, cursos e palestras entre UFPR, UP e UTFPR. O prof. Marchi tem alunos egressos da UP entre seus pós-graduandos, o prof. Germer participou da mesa redonda. Enquanto interagimos, crescemos todos. A participação na organização do festival é a consequência de pesquisadores que trabalham juntos numa linha de pesquisa e se entusiasmam com a ciência e seus desenvolvimentos.

Enfatizo, Duda. Iniciativas como a que participo, do festival e as interações que temos durante o restante do ano, e também destaco a Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica, com o prof. João Canalle, da UERJ, me dão esperança de um dia deixarmos de ser um país exportador de minério de ferro e comprador de aço, exportador de soja, carne de gado, frango e porco e importador de Iphone e computadores. Um país que propaga ser meramente turístico, carnavalesco e futebolesco. Anualmente sou humilhado por propagandas como a da Nissan, “tecnologia japonesa fabricada no Brasil”. Nós temos potencial para ter a nossa tecnologia! Eu não quero morrer sem ver meu país produzir tecnologia brasileira e exporta-la pelo mundo. Inclusive – e principalmente – na área de foguetes.

BRAZILIAN SPACE: Prof. Alysson, como já dito anteriormente o Festival de Minifoguetes de Curitiba teve realizada recentemente a sua terceira edição. Como o senhor avalia a edição do Festival deste ano, e em sua opinião o que pode ser feito para melhorar as próximas edições?

PROF. ALYSSON: Em minha opinião, o festival foi excelente. Tivemos várias novas equipes participando e um número absurdo de lançamentos. Para o próximo ano devemos melhorar a segurança – já muito boa – e o procedimento de fiscalização dos motores e inscrição. Além disso, queremos disponibilizar altímetros melhores e mais baratos para as equipes.

BRAZILIAN SPACE: Prof. Alysson, como o senhor avalia a participação de sua equipe GREAVE na edição do Festival deste ano?

PROF. ALYSSON: Foi acima da expectativa. Fazemos um trabalho sério com os alunos em pesquisa e preparação da equipe para o festival, mas 4 primeiros lugares, um segundo e um terceiro foi um resultado excelente. Sempre fica a tristeza de termos perdido dois foguetes e de uma explosão de motor. Os três foguetes estavam muito bons e poderiam ser premiados, mas fica a satisfação de um trabalho bem feito.

Maquete do foguete VLS em desenvolvimento
 pela Equipe GREAVE.

BRAZILIAN SPACE: Prof. Alysson, durante a realização do Festival deste ano surgiu à possibilidade do uso de Minifoguetes nos eventos da OBA (Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica). Como o senhor analisa esta possibilidade de levar aos jovens estudantes do ensino-médio as atividades com minifoguetes?

PROF. ALYSSON: Excelente. Em países mais desenvolvidos que o nosso, atividades de foguetemodelismo são realizadas desde o ensino fundamental. Tudo isso ajuda no ensino de física e matemática e ajuda a desenvolver uma mentalidade voltada para a ciência. Duda, eu penso que bolsas não mudam o país. Elas socorrem a necessidade imediata de provisão do cidadão. Mas a mudança vem de iniciativas como essa. Com a popularização de eventos como a OBA, eu creio que efetivamente possamos ter um salto na educação do nosso país e, por consequência, o país sairá da pobreza.

Eu tomo a liberdade de me mostrar como exemplo de como, em duas gerações, a educação retirou uma casal (meus avôs) da pobreza e trouxe prosperidade a seus filhos, da qual eu, que sou a terceira geração, desfruto. Passo longe de ser rico, mas caso meu avô não tivesse a visão de educar em casa e na escola, todos os seus filhos, minha situação provavelmente seria como a de tantos brasileiros miseráveis que são pobres financeiramente e intelectualmente, sendo a segunda o pior tipo de pobreza.

Assim sendo, reafirmo que iniciativas como essa não são somente essenciais para tirar o país da pobreza, mas afirmo que o país não se desenvolverá sem iniciativas como esta.

BRAZILIAN SPACE: Prof. Alysson, durante a realização do Festival foi ministrada uma palestra pela equipe “ITA Rocket Design”, do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), sobre o histórico da participação da mesma nos EUA na competição internacional de foguetes universitária denominada IREC. Existe pretensão da Equipe GREAVE no futuro de participar deste evento internacional?

PROF. ALYSSON: Sim. Como mencionei, o objetivo da nossa equipe é desenvolver a ciência dos foguetes. O ponto alto deste desenvolvimento para os próximos anos é a participação no IREC. Desejamos que isso aconteça antes de 2020. Não temos pretensão, todavia, de fazermos isso sozinhos, e para tal, desde 2015 estamos trabalhando em parceria com a UFPR e esperamos em breve irmos juntos com um foguete Paranaense.

Alguns integrantes da Equipe GREAVE.

BRAZILIAN SPACE: Prof. Alysson, sem dúvida nenhuma (na opinião do Blog) o maior destaque do Festival deste ano foi à criação da Associação Brasileira de Minifoguetes (ABMF) ou BAR na versão inglês (Brazilian Association of Rocketry). Como o senhor analisa esta nova iniciativa, e quais são as suas expectativas sobre a mesma?

PROF. ALYSSON: Da mesma forma, a iniciativa é excelente, em especial pela forma que a ABMF surge. Não somos burocratas, sindicalistas ou meros entusiastas, e sim, cientistas que se unem. Há algumas dezenas de expectativas, mas destaco duas: a organização de uma revista periódica sobre foguetes (o Brasil não tem. Há a Journal of Aerospace Technology and Management – JATM, que mescla todas as tecnologias aeroespaciais) e o aumento da nossa representatividade como corpo de cientistas junto aos órgãos competentes, como a aeronáutica para organização dos lançamentos e dar estrutura para novos grupos de foguetemodelismo que possam surgir. Óbvio que não tenho expectativa de que isso aconteça a curto prazo, mas a médio prazo (cinco anos), tenho uma excelente expectativa.

BRAZILIAN SPACE: Professor Alysson, a sua iniciativa de criar uma equipe de Espaçomodelismo dentro de Departamento de Mecânica da UP é sem dúvida um grande exemplo a ser seguido por outras instituições universitárias do País. Diante disto, o senhor estaria disposto a realizar palestras sobre a sua experiência, caso existam instituições interessadas, e em caso positivo, o que essas instituições devem fazer para entrar em contato com o senhor?

PROF. ALYSSON: Com certeza, Duda. Estou à disposição. O meu email é diogenes@up.edu.br e dentro de uma programação, estou disposto a conversar sobre nosso histórico e o desenvolvimento de uma ciência genuinamente brasileira.

BRAZILIAN SPACE: Finalizando Prof. Alysson, o senhor teria algo a mais a dizer aos nossos leitores?

PROF. ALYSSON: Duda, encerro com uma palavra de incentivo. O primeiro passo para termos uma ciência de qualidade, e por consequência, sairmos da pobreza, é acreditarmos que podemos. Há várias dificuldades, baixo orçamento, falta de cultura científica, e tantas outras. Mas em vez de simplesmente lamentarmos, se dermos um passo de cada vez, dominando ciências básicas, depois intermediárias, depois ciência avançada, nós podemos deixar de ser um país agrário e nos tornarmos O país mais desenvolvido do mundo e sem dependermos de governo ou política alguma. Nós temos o mais difícil: o material humano. Enquanto países como Estados Unidos e toda a Europa precisam importar cérebros, nosso povo é criativo e inteligente.

Por fim, uma sugestão. Caro leitor, que tal se em vez de simplesmente reclamar do nosso governo (parar de reclamar seria pedir demais), que tal fazer alguma coisa? Há escolas no seu bairro? Que tal criar o Grupo Amador de Foguetemodelismo do seu bairro? É mais barato do que você pensa e há dezenas de tutoriais na internet. E que tal fazer isso por amor ao Brasil e como um retorno à sociedade? Um grande abraço, Duda.

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