sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Diretor do INPE Comenta Medidas Para Conter Impactos da Crise, Novo Plano Diretor e as Prioridades de Sua Gestão

Olá leitor!

Segue abaixo mais uma interessantíssima entrevista com o diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Dr. Leonel Perondi, publicada no número 02 do Informativo do INPE de 03/09, destacando as medidas do instituto para conter impactos da crise, o novo Plano Diretor e as prioridades de sua gestão. Leia com atenção e se acomode na cadeira pois a entrevista é longa.

Duda Falcão

Diretor do INPE Comenta Medidas Para
Conter Impactos da Crise, Plano Diretor
e Prioridade à Gestão

Informativo INPE
Número 02
03/09/2015

O novo Plano Diretor do INPE (2016-2019), em fase de finalização, contempla metas importantes na área de gestão, dentre elas a contratação de cerca de 400 novos servidores nos próximos dois anos. O alcance dessa meta, segundo o diretor do INPE, Leonel Perondi, é fundamental para que as demais metas técnico-científicas para os próximos quatro anos sejam atingidas. Leia a seguir os principais trechos da entrevista concedida à Gestão de Comunicação Institucional, em que o diretor falou também sobre os impactos dos cortes no orçamento nas atividades do Instituto, sobre o processo de elaboração do Plano Diretor e sobre as atividades de comissionamento do satélite CBERS-4.

- Quais os impactos da atual crise que estamos vivendo no funcionamento do INPE, tanto em sua parte operacional como nos projetos e programas?

Perondi – Na parte do funcionamento do Instituto, o impacto é bastante significativo. Os cortes na área de custeio vão afetar alguns contratos de manutenção. O consumo de energia elétrica, que é bem elevado, terá que diminuir significativamente. As tarifas aumentaram muito. Nós gastamos em torno de R$ 1,2 milhão por mês de energia – metade em Cachoeira Paulista e metade em São José dos Campos. Esse número vai ter que cair. Temos que adotar medidas para baixar essa conta. Estamos gastando quase R$ 15 milhões por ano, isso é muito para o Instituto. Estamos fazendo um trabalho grande no sentido de economizar energia, principalmente nas áreas que consomem mais, que são o LIT e o CPTEC. A energia seria um primeiro item onde se tem liberdade para baixar a conta de custeio do INPE. É uma forma de adequação aos cortes de orçamento para custeio. Isso nós pretendemos fazer com todos os demais itens onde puder haver contenção de gastos por economia. Essas medidas já estão em curso desde o primeiro semestre.

- Onde poderia haver redução de consumo de energia, por exemplo, no LIT?

Perondi – As salas limpas do LIT têm um consumo razoável para se manterem operacionais. O LIT está fazendo um levantamento para saber qual é a margem que existe para economizar, se há alguma alternativa de trabalho que permita uma economia de consumo. O outro grande consumo é o supercomputador, que está no CPTEC. Lá eles também estão fazendo um estudo, procurando levantar o que se roda no supercomputador e verificando estratégias que permitam diminuir o consumo. Por exemplo, evitar ou diminuir o uso do supercomputador nos horários em que a tarifa de energia é maior. Já houve avanços, reduzindo o uso do ar condicionado e outras práticas que diminuíram consideravelmente a conta, em torno de 10%.

- Existe uma meta de redução de consumo de energia?

Perondi – A conta terá que se encaixar dentro do orçamento que temos, ou seja, precisamos reduzir em torno de 20%.

- E com relação aos projetos e programas?

Perondi – Na parte técnica, estamos estudando o que é possível fazer, em termos de cronograma e ajuste de escopos, e mais as contenções, para tentar absorver esse impacto de maneira que cause menos prejuízo em termos de prazos e trabalho realizado. Por exemplo, em contratos que são plurianuais, podemos ver uma forma de distribuir os pagamentos de modo que se consiga iniciar o trabalho este ano, mas fazendo uma curva de investimento um pouco modificada. Assim, não deixaríamos de executar os contratos previstos para 2015.

O CBERS-4A, por exemplo, já foi assinado pelos dois governos, já tem um cronograma estabelecido, então estamos vendo uma forma de não afetar esse calendário. Na prática estaremos transferindo para o ano que vem pagamentos que seriam feitos este ano, reduzindo o mínimo possível o escopo de trabalho realizado. Parece mágica, mas às vezes dá para fazer. Por exemplo, pagamentos que seriam feitos em dezembro, você paga em janeiro do ano que vem. Você rearranja um ou dois meses e já faz uma diferença enorme.

No caso dos satélites derivados da Plataforma Multimissão (PMM), por exemplo, o cronograma do Amazônia 1B prevê um primeiro modelo de engenharia, em termos de sistema, até dezembro deste ano. Essa meta está mantida, independentemente dos cortes. A partir da PMM, temos três missões. A primeira seria o Modelo 1, a ser concluído até o final do ano, com lançamento previsto para 2017. O segundo modelo, seria para 2019 e o terceiro, dentro de dois ou três anos, provavelmente 2020. Então, estamos trabalhando para que os cortes não afetem esse cronograma. Temos também o satélite EQUARS, que precisa ser encaminhado. Esse projeto está sendo revisto. Em princípio, também não se acredita que os cortes terão grande impacto.

Nas áreas, nós temos os grandes programas institucionais, que são o Programa Amazônia, que tem orçamento, mas também conta com recursos externos. Não acreditamos que haja grandes impactos. O BESM (Modelo Brasileiro do Sistema Terrestre) também está equacionado. Então, em princípio, fazendo esses ajustes de cronograma, reescalonando as curvas de investimento dos programas, conseguiremos absorver esse impacto sem atrasos substanciais, que não possam ser recuperados depois.

Agora, o funcionamento, não. Essa parte terá que sofrer um corte da ordem de 20%, porque não há orçamento. Temos custos mensais a serem pagos. Não há como reescalonar, ou alterar curva de investimento. Estamos falando de serviços. A instituição terá que fazer um esforço enorme para garantir seu funcionamento até o final do ano.

- O novo Plano Diretor do INPE está em fase de finalização. Quais são os objetivos e metas para os próximos anos? Outra questão, que está relacionada ao Plano Diretor, é a exclusão do Programa Espacial do documento do governo que estabelece as Estratégias Nacionais. Qual a sua análise sobre isso? O Programa Espacial está perdendo importância para o governo?

Perondi – A Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação está sendo revista. O documento atual abrange o período de 2011-2015. Dentro dos programas de política industrial, tivemos, no passado, aqueles ligados à indústria, à tecnologia e à exportação. Acredito que tenha sido nesse contexto que, no ano passado, tenha sido dito que o programa espacial poderia estar fora das ações estratégicas para o futuro. Mas eu acho que temos que aguardar a publicação da revisão dos planos. Eu não acredito que fique fora. A área espacial é uma área de futuro para o país, que poderá gerar empregos com grandes oportunidades de renda.

Vamos fazer o seguinte raciocínio da área espacial: o desafio para um país é gerar, não só empregos, mas oportunidades de renda. Só gerar empregos pode resultar em uma sociedade muito pouco desenvolvida. Se as empresas dão emprego, mas com renda muito baixa, você só consegue oferecer uma forma de subsistência. A promoção da riqueza se dá pela criação de oportunidades de renda, que é o que promove a melhoria do padrão material de vida da sociedade de forma contínua. Nós sabemos que o desenvolvimento social está muito ligado ao desenvolvimento econômico. E as oportunidades de renda estão muito ligadas ao valor agregado, ao conhecimento sobre o que você produz.

Se você tiver uma economia que só produza matéria prima para o mundo, em geral a população desse país irá receber pouco pelo que produz, porque envolve pouco valor agregado. Esse país terá dois andares – um governo muito rico e uma população com renda muito baixa. Isso gera um gap de renda tremendo. Se esse país começar a produzir algo com maior valor agregado, que exija maior conhecimento, mais tecnologia, o quadro muda substancialmente.

As áreas de telecomunicações, de energia, a agroindústria, a informática, são exemplos de setores de grande valor agregado, de indústria moderna. Temos também os serviços, de maneira geral. Então, o país pode resolver esse gap incentivando essas áreas, tanto as produtivas, como as de serviços. O esforço de desenvolvimento de um país passa pela capacidade de se inserir nessas indústrias modernas, ou nos serviços derivados, para poder gerar renda para a sua população. Senão, continuaremos a distribuir renda de forma verticalizada.

Teremos que ter programas para distribuir renda. Se olharmos o Brasil sob essa ótica que reproduzimos aqui, vemos que temos matéria prima em grande quantidade e que, de fato, gera um padrão de remuneração relativamente baixo. Na indústria do petróleo já temos grande valor agregado. Na agricultura temos uma grande produção de grãos, que exportamos para o mundo, com grande produtividade. Outro exemplo de indústria moderna está na área de aviação. A Embraer é hoje o terceiro fabricante mundial na área de aviação civil e gera, só na região, cerca de 15 mil empregos diretos, com oportunidade de renda. Isso porque o avião é um produto de alto valor agregado.

O desafio brasileiro é ter inserção em indústrias modernas. Nós já perdemos algumas oportunidades, por exemplo, nas telecomunicações. Tínhamos uma posição muito boa no passado e hoje não somos protagonistas no cenário internacional. Como não somos também na indústria de informática e nem na de energia. Na conta dos produtos de alto valor agregado nós só somos positivos na aviação. Já tivemos, no passado, posições melhores. Mas sofremos uma competição muito grande, principalmente dos países asiáticos. Na indústria de serviços, nossa posição também é modesta. E quando olhamos para o futuro, quais são as indústrias que terão grande projeção, grande presença mundial? Certamente o espaço é uma das que mais vão gerar oportunidade de renda, tanto em serviços como pela fabricação de sistemas, em um futuro próximo.

Talvez a indústria do espaço seja tão grande quanto foi, ou ainda é, a indústria automobilística. A geração de informações no planeta se dará cada vez mais a partir dos sistemas espaciais. Se você pensar em geração de informação para a gestão ambiental, para a defesa, para a gestão de recursos de forma geral, todas virão de sistemas espaciais. Na verdade, já é o que ocorre nos países mais avançados.

Por exemplo, o Brasil, se quiser, pode acompanhar os planos diretores por municípios. Temos condições hoje de monitorar o plano diretor de cada município, em sua parte física, via sensoriamento remoto, com imagens de satélites. Para fazer isso nos mais de 5.500 municípios brasileiros sem uso do espaço, seria preciso montar um exército de auditores, seria praticamente impossível. A partir do espaço, é perfeitamente possível. Claro que é preciso se organizar e investir. Isso é apenas um exemplo, há outras áreas, como zoneamento agrícola, previsão de safras, preservação ambiental, como o monitoramento do desflorestamento, o acompanhamento das queimadas em tempo real. Toda a meteorologia moderna também depende do espaço.

Na meteorologia moderna, a previsão numérica de tempo depende de três ingredientes principais: o modelo meteorológico, que representa a dinâmica da atmosfera, os acoplamentos oceano e superfície; a computação, a capacidade de implementar esse modelo computacionalmente; e os dados históricos. O estudo da ionosfera e como ela perturba a vida aqui na superfície terrestre também depende do acesso ao espaço.

Mesmo na ciência do sistema terrestre, que faz a modelagem da atividade antrópica e gera cenários. Esses cenários precisam de boas informações sobre fenômenos de grande escala, que precisam do acesso ao espaço. Temos ainda os serviços de telecomunicações. Então, toda essa parte de serviços, somada à parte de dados, coloca o espaço como a grande indústria do futuro. E o Brasil pode vir a ter uma grande presença nessa indústria e gerar oportunidades de renda tão boas ou melhores do que as da aviação. É preciso ter uma visão estratégica de futuro. Por isso, eu não acredito que uma indústria desse tipo, que tem grande futuro para o país, fique fora da visão estratégica do Brasil. Os grandes planos setoriais brasileiros, todos eles colocam o espaço como uma de suas partes mais relevantes. Há futuro para a indústria espacial no Brasil. Basta querer.

Os grandes planos setoriais brasileiros,
todos eles colocam o espaço como uma de
suas partes mais relevantes. Há futuro para a
indústria espacial no Brasil. Basta querer.

- E em relação ao Plano Diretor, ele reflete o que está sendo discutido no Plano Plurianual (PPA) do governo?

Perondi – Em agosto do ano passado começamos a trabalhar no Plano Diretor, de forma que quando se começou a discutir o PPA 2016-2019, nós já tínhamos desenvolvido um trabalho longo com as áreas. Isso permitiu que o INPE tivesse uma boa participação nas oficinas que discutiram o PPA. Inclusive nós pudemos enviar as nossas equipes para discutir o PPA em Brasília. A Direção, acho que pela primeira vez, ficou um pouco distante dessa discussão.

O resultado foi muito compensador. Conseguimos expandir a nossa participação para dois outros grandes programas, que são a parte da Defesa e a de Desastres Naturais. Dois novos programas nos quais não tínhamos ações e que hoje temos. Isso foi fruto do trabalho desenvolvido previamente, visando a elaboração do novo Plano Diretor. Ele está afinado com a nossa proposta para o novo PPA. Nós conseguimos encadear essa ação de planejamento de uma forma lógica, de causa e efeito, o que é muito importante. O INPE chegou amadurecido para essa discussão do PPA.

A visão que foi inserida no ano passado e que norteia o Plano Diretor é a seguinte: são três camadas de atuação. O acesso ao espaço, que consiste em colocar sistemas espaciais em órbita – dados, informações e serviços sobre o planeta, para atender à sociedade. Essa parte envolve a Engenharia, a Integração e Testes, que é o LIT, e o CTE (Centro de Tecnologias Especiais). Está acoplada às aplicações e contempla também a camada da infraestrutura necessária para isso.

Nessa parte de acesso ao espaço temos as missões do CBERS, a programação do Amazônia e as missões científicas. O satélite LATTES conjugava duas missões, que eram estudar fenômenos da ionosfera na região equatorial e estudar também fenômenos de altas energias no centro da galáxia, que era a parte do satélite MIRAX. Essa missão tinha uma complexidade muito grande. O risco seria muito alto. Então, foi decidido que essa missão LATTES voltaria a ser composta por plataformas pequenas, de novo, científicas, para o acesso ao espaço.

Estamos reconsiderando o desenvolvimento de plataformas de pequeno porte para as missões científicas e tecnológicas. O EQUARS, por exemplo, volta a ser uma missão, com uma plataforma pequena. Temos discutido também uma missão conjunta com o DCTA para a qualificação do VLM (Veículo Lançador de Microssatélites). O INPE tem produzido as cargas úteis para qualificar os veículos lançadores brasileiros. Vamos considerar o veículo e o satélite, e mais a parte de solo, como sendo uma missão conjunta completa.

Estamos reconsiderando o desenvolvimento
de plataformas de pequeno porte para as missões
científicas e tecnológicas. O EQUARS, por exemplo,
volta a ser uma missão, com uma plataforma pequena.

Nessa primeira camada se inclui também o LIT, com a sua necessidade de expansão para atender às futuras missões. Na parte de infraestrutura, há o investimento que precisa ser feito na parte de Rastreio e Controle, são investimentos naturais. O INPE tem sido convidado a participar de missões internacionais nesse setor. Temos sido participantes dos esforços internacionais usando nossa estrutura de Rastreio e Controle.

Com um centro de dados nacional, o INPE tem
uma oportunidade única de se colocar como grande
referência de recepção, armazenagem e distribuição
de dados de sistemas  espaciais.

Aí entra a segunda camada, que é o Centro de Rastreio e Controle dos objetos em órbita e a recepção, armazenagem e distribuição das informações geradas por esses sistemas. Ou seja, o que eu preciso para ter os sistemas operacionais e como eu viabilizo a chegada do serviço ao usuário final. A informação gerada por sistemas espaciais não pode ser recebida pelo computador doméstico. A forma de recepção e distribuição dessas informações exige uma estrutura dedicada, especial. O INPE é reconhecido no Brasil como um centro de referência, tanto no rastreio e controle quanto na recepção das informações, armazenagem e distribuição. São duas áreas estratégicas para o uso do sistema espacial.

Na área de recepção de dados, hoje temos 14 sistemas dos quais recebemos informações, entre a parte meteorológica e de imagens. A ideia é que o INPE tenha mais uma iniciativa grande, atuando como um centro de dados. A visão é a de que no futuro você sempre terá que ter um centro que vai receber esses dados, processá-los e distribuí-los. O volume de usuários tem crescido ano a ano. Com um centro de dados nacional, o INPE tem uma oportunidade única de se colocar como grande referência de recepção, armazenagem e distribuição de dados de sistemas espaciais. Esse centro de dados envolveria não só aqueles utilizados pelas áreas de aplicação do INPE, como também pelas áreas de aplicação da sociedade de uma maneira geral. Nós já fazemos isso, por exemplo, para o MMA, e para vários outros programas nacionais. Isso não quer dizer que eu vou ter um centro de dados monstruoso aqui. Isso pode ser feito em sistema de rede, onde se articula vários centros. Não será uma grande estrutura física. É uma questão de ter a capacidade de ofertar ao país essa infraestrutura.

Quando se fala no Brasil de compra de imagens – e o governo está comprando imagens de forma centralizada –, qual é o centro que vai armazenar essas informações dos usuários, ou que vai funcionar como espelho, ou centro principal? É o INPE. A outra parte é o sistema de rastreio e controle, no qual também somos referência.

Por último, temos a camada das aplicações, que se divide em quatro áreas, também de referência nacional. Primeiro, a área de Ciência Espacial, a mais antiga do INPE, que começou com os foguetes de sondagem e os estudos da ionosfera. Foi, na verdade, o braço civil das ações de acesso ao espaço no Brasil, que viabilizou muitas cooperações internacionais necessárias ao desenvolvimento dos programas.

Temos a área de Meteorologia, na qual o Brasil foi pioneiro, acompanhando a tendência mundial, nucleando a primeira iniciativa de previsão numérica de tempo. A missão do CPTEC ainda é científica, ou seja, continua sendo a de acompanhar o estado da arte do modelamento da dinâmica da atmosfera e de manter o modelo aprimorado, adaptado à região continental brasileira. Mas só o modelo não basta. Tem que haver a parte de processamento de alto desempenho, que precisa implementar esse modelo computacional e depois fazer a simulação de dados para que se gere previsões de tempo com grande aderência à realidade.

O CPTEC é um grande laboratório onde se exercita o método científico. Eu tenho o modelo, implemento, obtenho o resultado, comparo com a realidade e vou realimentando o modelo, aprimorando. Não é um centro operacional para gerar previsão numérica de tempo, mas nesse trabalho de ter o modelo adaptado é preciso gerar previsões com grande acuidade. E se eu tenho o melhor modelo e capacidade computacional que tem que estar junto, eu também vou produzir as previsões de tempo de referência para o país. Por isso, o CPTEC tem produtos e metaprodutos que têm grande interesse para a sociedade. Mas não é um centro para ser operacional da meteorologia. É um centro para o avanço do conhecimento na previsão numérica de tempo e estudos climáticos.

A terceira área de aplicações do INPE é a área de Observação da Terra. O INPE é reconhecido como o centro que nucleou o conhecimento nessa área, tanto na parte científica e tecnológica de observação da Terra associada ao sensoriamento remoto, quanto na área das aplicações. Ou seja, como se extrai as informações dessas imagens geradas e se utiliza para alguma finalidade.

A quarta área é a de Ciência do Sistema Terrestre, que é um complemento das outras. Ela realiza a modelagem da atividade antrópica de forma bastante ampla e gera cenários de longo prazo dos impactos dessa atividade. Esses cenários servem para outros estudos. A área está muito concentrada atualmente na questão das mudanças climáticas. Então, são gerados cenários de clima para 10, 20, 50, 100 anos, que são utilizados, por exemplo, para saber qual é o impacto das mudanças do clima na agricultura. Nessas quatro áreas nós somos referência no país. Essa é terceira camada.

O Plano Diretor procurou refletir visões, planos para essas três camadas de atuação. Na área de aplicações, o Plano Diretor deve contemplar desde a parte científica – aprimoramento do conhecimento na área de atuação –, passando pelos projetos de pesquisa aplicada e desenvolvimento, depois chegando aos produtos e serviços. É isso o que esperamos da área de aplicações do INPE.

Mesmo a área de Ciências Espaciais, onde é mais difícil encontrar produtos e serviços, temos o Clima Espacial, que é um grande exemplo. Uma diretriz geral do Plano foi a de que deveria contemplar, de um lado, uma parte técnico-científica e, de outro, a institucional. A outra diretriz foi a de elaborar um balanço do Plano Diretor anterior. Avaliar todas as metas, mostrando aquelas que foram atingidas, as que não foram adiante, aquelas que transbordam para o novo plano, porque tem que haver continuidade, e fazer um fechamento dessas metas. E contemplar o investimento.

Além disso, o Plano Diretor deveria conter as metas institucionais, separando o que é premissa e o que é meta. Não adianta dizer que vou fabricar isso ou aquilo, se para isso eu preciso de gente, de infraestrutura, e isso não aparece como premissa ou meta. As premissas partem do que você tem hoje. Se você coloca metas para fabricar sistemas espaciais com um certo volume de trabalho, é preciso prever as metas institucionais de infraestrutura e recursos humanos para atingir aqueles objetivos. Então, contratar gente no INPE tem que ser meta.

Se você coloca metas para fabricar sistemas espaciais
com um certo volume de trabalho, é preciso prever as
metas institucionais de infraestrutura e recursos humanos
para atingir aqueles objetivos. Então, contratar gente
no INPE tem que ser meta.

- Além dessas três grandes camadas que você coloca, o Plano Diretor tem uma parte muito forte de gestão, justamente para atender a essas três camadas. Como a questão de reposição de quadros se enquadra nas prioridades do Instituto?

Perondi – Na parte institucional, está presente a meta de contratar cerca de 400 pessoas dentro de um a dois anos. Se não conseguirmos isso, as outras metas programáticas, técnico-científicas estarão comprometidas.

- Mas essa é uma meta factível?

Perondi – Temos que negociar isso na área do governo. Tem que estar claro para o governo que podemos assumir certas metas técnico-científicas se houver condições. Nos últimos planos diretores nós confundimos muito meta com premissa, partindo do princípio de que a infraestrutura viria junto com o programa. Mas não é assim. Tem que separar um pouco isso, principalmente na área de recursos humanos. Então, temos que colocar meta, sim, de contratar 400 pessoas em um curto prazo, senão estaremos não-operacionais em diversas áreas. Quando formos consolidar o Plano Diretor, isso tem que estar negociado junto ao governo. Não é só a questão de capital e custeio, de orçamento. O MCTI tem que ter metas de recomposição dos quadros do Ministério como um todo.

- As prioridades de reposição estão na área de gestão?

Perondi – No momento, sim, na área de gestão. É a área que está mais carente de pessoas. Estamos extremamente defasados. Para se ter uma ideia, em 2007 o número de servidores da área de gestão representava 32% do total dos quadros do INPE, e hoje essa proporção caiu para 23%. E com tendência de cair ainda mais. Eu não vou entrar na discussão sobre se isso é ou não o ideal, mas dá para comparar o que existe hoje com a situação anterior. Na área de pesquisa, saímos de 17% para 19,6%; de tecnologista, de 50% para 57%, enquanto que a gestão teve uma queda grande. Não estou entrando no mérito. Nós não modificamos nosso padrão de atuação, então, temos um déficit na área de gestão.

- Como está a questão do comissionamento do CBERS-4?

Perondi – O comissionamento foi feito internamente até onde foi possível, e agora temos que ter apoio externo. Justamente pela falta de quadros, temos que ter uma contratação externa para apoiar as atividades de comissionamento. Seria um complemento ao trabalho que as equipes internas executam. Nós conseguimos junto ao lado chinês o processamento de parte do acervo. É importante dizer que todas as imagens geradas do Brasil estão sendo gravadas. Cerca de 20% do total desse acervo já foram processados pelo lado chinês e estão disponibilizados no nosso catálogo de imagens CBERS-4. Então, há esse acordo com o lado chinês de fazer o processamento e também de disponibilizar as passagens dentro de um ou dois dias, para o usuário brasileiro. A parte do comissionamento do lado chinês foi concluída. Falta o lado brasileiro, que está muito relacionado com uma ferramenta que temos que ter. Uma espécie de estação que tem que ter atualizações para que se possa executar todas as atividades de comissionamento.

Estamos em uma fase de contratar o apoio externo para finalizar as atividades do lado brasileiro. Boa parte do comissionamento já foi feita, isto é, a posição do satélite em órbita nominal, isso faz parte e já foi realizado. A extração dos parâmetros dos instrumentos a bordo já foi realizada pelo lado chinês e bastante pelo lado brasileiro. Modelos das câmeras também foram efetuados. Falta implementar esses modelos na ferramenta. Muito em breve essas imagens estarão disponibilizadas. É importante dizer também que o comissionamento que estamos realizando em conjunto com o lado chinês não inviabilizará, de maneira nenhuma, o comissionamento do lado brasileiro, nem qualquer iniciativa industrial. O Brasil vai ter que fazer a sua parte. Uma iniciativa não mata a outra. O atraso que houve não é algo excessivo e temos que dizer que boa parte dele se deve à falta de pessoal para fazer o trabalho. Em breve acredito que tudo esteja regularizado.


Fonte: Informativo do INPE - Número 02 - 03/09/2015

Comentário: Bom leitor, como se pode notar esta entrevista do Dr. Leonel Perondi é bastante esclarecedora e aborda todas as áreas do INPE. No que diz repeito aos projetos de satélites a informação de que o satélite LATTES (formado pelas Missões EQUARS e MIRAX) voltou a sua configuração inicial, ou seja, o desenvolvimento de dois satélites baseados em plataformas pequenas e não mais um único satélite baseado na plataforma PMM (plataforma de médio porte), já havia sido abordado aqui no BLOG. Já o satélite Amazônia-1, o que dizer leitor? Esta é a maior novela na área de satélites do Programa Espacial Brasileiro e citar os seu irmãos subsequentes é puro exercício de ficção científica. Porém a informação de que o INPE está discutindo como DCTA o desenvolvimento de um satélite visando o voo de qualificação do VLM-1 é nova, e muito significativa e impactante. Afinal, se será um voo de qualificação, devemos entender de que esta missão seja anterior ao lançamento suborbital previsto do SHEFEX III alemão, sendo que, como carregará um satélite abordo, deverá então ser um voo orbital. Se assim for leitor, isso demonstraria a visão desses homens e mulheres que estão envolvidos no desenvolvimento desse veículo, pois o sucesso dessa suposta missão orbital seguida do também esperado sucesso da missão suborbital do SHEFEX III alemão, colocaria o VLM-1 brasileiro numa posição de destaque internacional, tanto para lançamento orbitais como para lançamentos suborbitais. Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk, isto é, num universo de comprometimento, de dinamismo, de seriedade e de apoio incondicional do desgoverno da “DebiOgra”, e não no universo atual que o nosso ‘Patinho Feio’ tem enfrentado em seu dia-a-dia. Como já disse não conheço pessoalmente o Dr. Leonel Perondi, mas as informações que tenho é de que se trata de um profissional sério e comprometido com o que faz e pelo visto bastante otimista, como alias tem de ser mesmo (pelo menos publicamente). Entretanto ele atua da área de gestão de execução e não na área de gestão de decisão, que é onde se encontra o poder de decisão e os debiloides irresponsáveis que atrapalham o PEB há décadas.  Enfim... boa sorte ao Dr. Perondi, vai precisar.

Um comentário:

  1. O voo do SHEFEXIII no VLM1 foi cancelado há quase 2 anos. Se houver missão conjunta com o Brasil para o SHEFEXIII será algo parecido ao SHEFEXII. O projeto VLM1 está parado desde a saída do Dr. Loures...
    o Dr. Perondi está fazendo a parte dele planejando e mostrando aos seus superiores as necessidades. Se o primeiro escalão não fizer nada - e tudo indica que não farão - nada acontecerá do que foi planejado. Perondi é competente mas não é mágico.

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