Brasil Cria o Primeiro Laboratório de Sistemas Inerciais da AL
Olá leitor!
Segue abaixo uma interessante matéria publicada na Revista Espaço Brasileiro (Jul, Ago e Set de 2011), destacando o novo “Laboratório de Identificação, Navegação, Controle e Simulação do Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE)”, especializado no desenvolvimento de sensores e sistemas inerciais.
Duda Falcão
DCTA
Brasil Possui o Primeiro Laboratório de
Sistemas Inerciais da América Latina
Principal projeto é o desenvolvimento de
plataforma que localiza e orienta o foguete
durante seu lançamento e sua trajetória
Leandro Duarte
Fotos: DCTA/Divulgação
Uma das principais dificuldades para a construção de satélites e foguetes é o desenvolvimento das chamadas tecnologias críticas. O domínio sobre tais tecnologias é fundamental para qualquer país, organização pública ou empresa. Quem as produz, não revela o segredo e, dificilmente as vende. Para piorar, existe um tratado internacional que regula a venda desses equipamentos. Por quê? Por apresentarem uso dual (fins pacíficos ou não) a venda é severamente controlada. Então o que fazer para ter acesso as essas tecnologias? Uma solução possível é terceirizar o serviço. Outra opção é que o próprio país as produza. Foi pensando nesta segunda opção que, em fevereiro deste ano, o Programa Espacial Brasileiro ganhou um importante aliado: o Laboratório de Identificação, Navegação, Controle e Simulação do Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE)”.
O laboratório primeiro em sua categoria na América do Sul, tem como objetivo prover a infraestrutura de testes que permite a calibração e desenvolvimento de sensores e sistemas inerciais. Um sistema de navegação inercial (inertial Navigation) System - INS) é um componente que envolve tecnologia crítica, usado no lançador espacial. É responsável pelo direcionamento e controle da trajetória do veículo, essencial para a correta inserção da carga útil em órbita, de modo autônomo, sem auxilio de qualquer sinal externo. Essa tecnologia é responsável pelo apontamento do satélite para uma determinada direção. Segundo o pesquisador do IAE, Waldemar de Castro Leite, esse tipo de sistema sofre um severo controle dos países que detém essa tecnologia, causando atrasos no término desses equipamentos.
Atualmente o principal projeto do laboratório é o desenvolvimento de um sistema inercial para foguetes. Este subsistema é composto por dois sensores principais: o girômetro e o acelerômetro, que repassam as informações sobre a posição do foguete no espaço para o computador de bordo do veículo. A plataforma inercial localiza e orienta o foguete durante a sua trajetória de lançamento, indicando, inclusive, os desvios de rota que possam ocorrer nesse período.
O sistema que é usado pelos veículos do programa espacial brasileiro precisa ser comprado ainda hoje no exterior. “Ter um sistema de navegação produzido no Brasil terá um grande valor estratégico e permitirá ao programa espacial superar esse tipo de embargo”, afirmou Waldemar. Segundo ele, sem este subsistema não existirá vôo do VLS.
Outro ganho que esta tecnologia proporcionará ao Programa Espacial Brasileiro é a economia de tempo e, conseqüentemente, maior agilidade nos processos de desenvolvimento, em especial dos foguetes. Vale lembrar que as negociações para a compra dos sensores da central inercial do primeiro protótipo do VLS, da Rússia, levaram mais de dois anos para serem concluídas e aprovadas. Os embargos ainda persistem e também afetam a compra de componentes para os satélites do INPE, relatou Waldemar.
Além do tempo para obter tal tecnologia, ainda existe a volatilidade do mercado. Nos últimos 15 anos, os sistemas inerciais dos protótipos de foguetes lançados pelo DCTA. Foram comprados da Rússia e da França. Em todas estas negociações, os Estados Unidos, maior potência no mercado aeroespacial, sempre foi contra a venda desta tecnologia.
O mercado é tão concorrido que, mesmo nas parcerias bem sucedidas, como é o caso de Brasil e China (que fizeram a série de satélites CBERS) não houve transferência de tecnologia. Os asiáticos desenvolveram os sistemas inerciais dos satélites. Para os satélites baseados na Plataforma Multimissão (PMM), o INPE comprará o equipamento de uma empresa argentina.
Outras instituições também poderão se beneficiar com o laboratório do IAE. A EMBRAER, por exemplo, não precisará comprar os sistemas de outras empresas. As aeronaves Super Tucano, por exemplo, produzidas pela empresa de aviação, possuem sistema inercial de vôo, computador de bordo, motor, hélice e outros sistemas de origem norte-americana.
Além de se beneficiar economicamente com a produção de tecnologia em território nacional, a EMBRAER também será favorecida com a possibilidade do livre comércio de suas aeronaves. Isto porque, o governo dos EUA tem poder de veto nas vendas de qualquer equipamento militar que conte com tecnologia americana. Em 11 de janeiro de 2006, por exemplo, o governo norte-americano vetou a venda de 24 unidades do Super Tucano à Venezuela.
Outra empresa nacional que se beneficiará com a tecnologia proveniente do laboratório é a PETROBRÁS. Segundo Castro, a petrolífera brasileira terá a opção de fazer no Brasil a calibração dos sistemas Pipeline Inspection Gauge (PIG). Esse dispositivo é usado para limpar o interior de tubulações. Segundo o pesquisador, a PETROBRÁS poderá se beneficiar do laboratório para apoiar a prospecção de petróleo na região do pré-sal. Equipamentos como os risers (tubos que ligam a plataforma ao fundo do mar) utilizados no começo da prospecção, necessitam de sistemas inerciais para direcioná-los até o ponto em que serão acoplados.
De acordo com Waldemar, a tecnologia de sistemas inerciais beneficiará o desenvolvimento dos chamados Veículos Aéreos Não Tripulados (Vants). Usadas para controle de fronteira, estas máquinas poderão ser construídas com tecnologia 100% brasileira e não precisarão ser importadas.
O novo laboratório custou R$ 15 milhões e foi equipado com recursos da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP). A grande expectativa, segundo Waldemar é a de que o laboratório possa “dar uma grande contribuição para o avanço tecnológico do Brasil e que sua infraestrutura atenda a vários outros empreendimentos”.
Fonte: Revista Espaço Brasileiro - num. 12 - Jul Ago e Set de 2011 - págs. 12 e 13
Comentário: Realmente esse laboratório chega em boa hora, mas com pelo menos 30 anos de atraso, já que governos subseqüentes como sempre erraram na estratégia, acreditando ingenuamente ou mesmo por falta de interesse que poderiam adquirir essa tecnologia entre outras tecnologias críticas de outros países com facilidade, quando desde o início deveriam ter investido no desenvolvimento próprio. Porém, antes tarde do que nunca e o Comando da Aeronáutica (COMAER) e seu DCTA/IAE estão de parabéns pela iniciativa, mesmo que tardia. Avante Waldemar, contamos com você e sua equipe para tirarmos esse atraso. Sucesso e façam história. Só uma correção: O equipamento (no caso o ACDH) e a tecnologia que está sendo comprada de uma empresa argentina (no caso a INVAP) para a Plataforma Multimissão (PMM) não são para todos os projetos de satélites dessa Plataforma é sim exclusivamente e unicamente para plataforma que equipará o satélite Amazônia-1. O ACDH das outras plataformas dos projetos subseqüentes de satélites que utilizarão a PMM já serão desenvolvidas no Brasil por um laboratório que será criado (ou já foi) no INPE. Entretanto, fica a pergunta: Com a criação do laboratório do IAE, será que existe a necessidade no momento de se ter outro no INPE?


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