sábado, 24 de julho de 2010

Os Desafios de Marcos Pontes

Ola leitor!

Segue abaixo uma entrevista publicada na revista “Profissão Sucesso” de junho/julho de 2010, com o astronauta brasileiro Marcos Pontes que nos conta seus planos e explica o porquê é necessário investir em educação.

Duda Falcão


Os Desafios de Marcos Pontes


Quatro anos depois de Sua ida ao espaço, o

Astronauta brasileiro Conta seus planos e

Explica por que é Preciso investir em Educação


Danielle Castro

Free Lancer



O primeiro brasileiro e falante de língua portuguesa que foi ao espaço diz que não mudaria nada em seu passado por acreditar que inexperiência e sensações como ansiedade, insegurança e tristeza são componentes essenciais da vida. Quatro anos depois de sua primeira viagem espacial, Marcos Pontes, 47 anos, o garoto de origem humilde que saiu de Bauru, interior de São Paulo, afirma que o sonho de ser astronauta só não seria impossível se ele nunca tivesse tentado.

Pontes soube do concurso para a vaga de astronauta por um edital recortado de um jornal e enviado a ele por e-mail em maio de 1998. Embora a Agência Espacial Brasileira (AEB) tenha destacado os 20 anos de experiência do então tenente-coronel em segurança de vôos e operação de aeronaves como diferencial, Pontes acredita que o mais importante para obter a vaga foi ele ter acreditado na possibilidade. “A seleção era aberta a todos os brasileiros que tivessem os requisitos exigidos pelo edital. A princípio, obviamente achei muito difícil que eu pudesse ser selecionado entre tantos excelentes candidatos disponíveis. Porém, estava ali um caminho para tornar realidade algo que até então era apenas um sonho distante.”

Hoje, enquanto espera pela próxima missão nos EUA, onde a presidência de Barack Obama tem inspirado novo fôlego para o setor espacial, Pontes se dedica a criar oportunidades e formas de incentivo para os jovens brasileiros. Entre as novidades, uma rede de tecnologia para pesquisas em microgravidade nacional e um curso de engenharia aeroespacial para formar recursos humanos para o Programa Espacial que ele tem ajudado a estruturar como professor e pesquisador convidado da Universidade de São Paulo (USP). Diretor técnico espacial do Instituto Nacional para o Desenvolvimento Espacial e Aeronáutico, Pontes arruma tempo ainda para prestar consultoria técnica, ministrar palestras, atuar como coach de executivos e, gentilmente, conceder algumas entrevistas, como esta, que foi feita por e-mail entre um projeto e outro do astronauta.

1) O senhor teve formação técnica de eletricista, fez engenharia e carreira militar na aeronáutica. Pensava em ser astronauta desde o início?

Eu sempre sonhei em ser piloto. Podia ser civil ou da Força Aérea. A idéia de ser astronauta começou depois que eu já era um piloto de caça. Quando criança foram inúmeras as visitas ao Aeroclube de Bauru para ver a Esquadrilha da Fumaça, na época voando em elegantes NA T/6, e das visitas à Academiada Força Aérea (AFA) onde meu tio, na época sargento Oswaldo Canova, servia como membro da equipe de manutenção de aeronaves. Decolava ali, entre a poeira levantada pelos motores dos T/6 no estacionamento do aeroclube e o cheiro de combustível de aviação nos hangares da AFA. A busca do sonho do espaço foi feita com muito trabalho. Foi necessária muita dedicação e persistência.

2) Na sua opinião, o que faltou para completar a missão espacial brasileira, a da construção dos módulos e peças? Como está este projeto hoje?

O Brasil continua no Programa da Estação Espacial Internacional, porém como não existem mais partes que o Brasil possa construir para o consórcio internacional, estamos tecnicamente em estado congelado. Eu continuo em Houston (EUA), à disposição da AEB como astronauta, para outras missões que o país queira realizar no espaço, e como liaison (representante técnico) para possíveis contatos para a AEB com outras instituições do setor no centro espacial. O Brasil entrou no programa em 1997 e, ao longo desses 13 anos de participação, não conseguiu cumprir as obrigações de entregar as partes que deveriam ser fabricadas pela indústria nacional devido, em minha opinião, à falta de uma coordenação mais eficiente entre o setor político, o setor de ciência e tecnologia e o setor das indústrias. Isso ocorre não só nesse programa, mas em muitos outros.

3) O senhor cursou engenharia no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), uma das graduações mais concorridas e difíceis do país, quando já estava com família formada e atuando na força aérea. Depois aprendeu a língua e a operação de naves russas em apenas seis meses para poder ir ao espaço. O que o primeiro cosmonauta brasileiro tem a dizer sobre desafios que parecem impossíveis?

Existem coisas que estão fora do nosso alcance de influência e possível preparação. Por exemplo, seria impossível para mim, aos 47 anos de idade e com 1,68 m de estatura, querer me tornar um jogador profissional de basquete na NBA (liga de basquete profissional americana). É preciso que tenhamos consciência das nossas limitações absolutas. Contudo, da mesma forma, é preciso que tenhamos consciência das nossas possibilidades e do possível aumento de nossas competências e habilidades necessárias através de dedicação e persistência na preparação pessoal. O que eu quero dizer com isso é que podemos encarar e com grande chance de sucesso qualquer desafio que estiver dentro da nossa área de influência e possível preparação. Muita gente abandona seus sonhos sem ao menos tentar realizá-los. Lembre-se de que qualquer grande objetivo pode ser dividido em metas menores, com tarefas realizáveis e bem definidas.

4) O senhor também foi o primeiro engenheiro com formação de piloto no Brasil, mas teve que enfrentar críticas ao deixar os vôos para estudar. E enfrentou novamente problemas do tipo ao se tornar astronauta e entrar para a reserva militar. Como o senhor lidou com isso e o que recomenda aos que investem em mudanças não convencionais em suas vidas?

Na década de 60 tínhamos no Brasil alguns pilotos de prova que também eram engenheiros. Depois, durante décadas, ficamos apenas com pilotos de prova e engenheiros de prova separados “em dois corpos”. Eu fui o primeiro piloto de provas da “nova geração” que associava essas duas coisas: ser piloto de provas e engenheiro formado pelo ITA. Depois de mim, e das críticas iniciais pela minha decisão de sair da aviação de caça para cursar engenharia no ITA, muitos outros pilotos de caça seguiram meus caminhos. Hoje em dia temos muitos pilotos engenheiros, e isso contribui para a qualidade da instituição e dos serviços prestados ao Brasil em termos de ensaios em vôo. A mesma idéia se aplica quando a Força Aérea decidiu me colocar na Reserva para que eu continuasse a servir o Brasil na função de astronauta, que é função civil. Hoje eu sou extremamente mais útil ao país do que se eles tivessem me mantido na ativa. Esses tipos de coisas - medo, inveja, críticas e descrença – são comuns nas vidas dos pioneiros, ou daqueles que se arriscam a mudar e desvendar novos horizontes. O que eu recomendo a todos que se vêem nessa situação é pensar e viver as seguintes idéias:

- “Só aqueles que se arriscam a ir mais longe saberão até aonde podem chegar.” Portanto, não tenha medo de mudar e inovar!

- “A crítica e a realização são atividades mutuamente excludentes.” Portanto, não perca tempo criticando a realização de outras pessoas. Use o seu tempo para construir as suas próprias vitórias.

- “A crítica é parte do sucesso.” Portanto, agradeça e comemore!

5) Do que o homem que testou aviões e chegou ao espaço tem medo e o que não faria jamais?

Tenho medo de não conseguir passar para as futuras gerações as coisas que eu aprendi na vida, por isso a importância das funções de professor, palestrante e coach. O que eu não faria jamais seria arriscar a minha vida estupidamente, em alguma coisa sem objetivo claro, profissional e importante. Ter coragem é muito diferente de ser irresponsável.

6) O senhor declarou que sente mais orgulho de ser chamado de professor que de astronauta. Por quê?

Porque a profissão de professor é a profissão mais importante de qualquer país sério. Não existem astronautas, ou qualquer outra profissão, sem o trabalho de professores.

7) O senhor morou nos EUA e na Rússia. Em relação a essas culturas, o que identifica como a pior e a melhor característica em relação ao profissional brasileiro?

O profissional brasileiro em relação aos profissionais russos tem mais criatividade e menos iniciativa. Em relação aos profissionais americanos, tem mais capacidade de adaptação e menos capacidade de organização.

8) Programas de robótica para o ensino básico e estímulo ao ensino técnico foram algumas das bandeiras defendidas pelo senhor. O que gostaria de passar para as gerações futuras e para o Brasil?

Muita coisa. E a educação é a mais essencial delas para que o país cresça e se desenvolva de forma estável e sustentada. Ela está na raiz de todos os problemas que temos: violência, saúde, fome, desemprego, distorções comportamentais e sociais etc. Eu vejo um país com educação fundamental pública de qualidade e homogênea igual em todos os cantos do Brasil. Eu vejo uma educação em período integral, onde os alunos tenham, além das matérias curriculares normais, atividades de formação pessoal como cidadão: empreendedorismo, liderança, civismo, política, meio ambiente etc... Isso não é impossível. Podemos realizar.

9) A que projetos o senhor tem se dedicado no momento e quais os planos para o futuro?

De forma geral, atualmente me divido entre Houston, onde moro com minha família, e Brasil. Em Houston permaneço à disposição do Programa Espacial Brasileiro, como astronauta, para vôos espaciais e como representante técnico para possíveis contatos para a AEB. Com as perspectivas do Programa Constelação da National Aeronautics and Space Administration – agência espacial norte-americana – NASA, ou o seu substituto segundo as idéias do Presidente Barack Obama, existem muitas possibilidades de cooperação com o Brasil e as empresas brasileiras. Eu acredito que terei muito trabalho nesse sentido nos próximos meses.

10) Alguma chance de voltar ao espaço?

Sim. Claro! Eu permaneço à disposição da AEB, podendo ser escalado a qualquer momento, dependendo única e exclusivamente de decisão do governo brasileiro. Eu gostaria muito de saber quando vão me escalar, mas essa decisão não é minha.

Para saber mais sobre Marcos Pontes, acesse: www.marcospontes.com.br/


Fonte: Revista “Profissão Sucesso” - junho/julho de 2010 - págs 18,19 e 20

Comentário: Interessante entrevista do astronauta Marcos Pontes a revista “Profissão Sucesso” onde o mesmo em dado momento nos passa sutilmente uma informação animadora quando diz que: “Com as perspectivas do Programa Constelação da NASA, ou o seu substituto segundo as idéias do Presidente Barack Obama, existem muitas possibilidades de cooperação com o Brasil e as empresas brasileiras. Eu acredito que terei muito trabalho nesse sentido nos próximos meses. Hummm, será que vêm alguma novidade por ai leitor? Recordo-me que em outubro do ano passado a assessora especial para Ciência e Tecnologia dos Estados Unidos, Nina Federoff e o conselheiro Richard Driscoll estiveram em Brasília para discutirem novos projetos de pesquisa em diversas áreas, incluindo ai o setor espacial. Além disso, não podemos esquecer que em novembro do mesmo ano o ministro Sergio Rezende esteve em Washington visando revisar diversos acordos científicos e tecnológicos entre os dois países e estabelecer novos convênios. Um dos integrantes da comitiva brasileira nessa viagem era justamente o presidente da AEB, Carlos Ganem. Vamos aguardar os acontecimentos.

2 comentários:

  1. Olá Duda,

    Deve haver alguma defasagem na publicação desta entrevista. O programa Constellation foi cancelado pelo governo americano, e a ênfase da NASA agora está justamente em privilegiar as empresas privadas AMERICANAS.

    Por isso não se vêem muitas perspectivas de parcerias da NASA com empresas brasileiras, muito pelo contrário.

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  2. Olá Leandro!

    Tudo bem contigo amigo? Seja bem vindo.

    Olha, na realidade o Programa Constelação não foi cancelado pelo Barack Obama e sim modificado. Ou seja, a nave Orion ainda será construída com algumas modificações para servir de “life boat” para ISS. O seu foguete lançador (não me recordo o nome) da mesma forma será mantido. Já o outro foguete de grande porte do programa, foi cancelado visando se construir um foguete de maior porte com tecnologia mais avançada (talvez com o motor a plasma VASINIR (acho que esse é o nome) nos seus estágios superiores), fora os objetivos que também foram modificados, ou seja, a pretensão de viagem a Lua e Marte mudaram para a viagem Asteróide/Marte. Vale lembrar também que o prazo para essas realizações foram esticados pelo OBAMA para o ano de 2032 (nos objetivos anteriores eram de 2020 para Lua e 2025 para Marte). Recentemente a Política Espacial do governo Obama apresentada ao Congresso americano prevê que se estimule o investimento de empresas americanas visando o desenvolvimento de veículos de transporte privados tanto de carga como de astronautas para atender ao programa da Estação Espacial Internacional (ISS) e também uma maior cooperação da NASA com outras agências espaciais no desenvolvimento de novas tecnologias. É justamente ai que se encaixa o comentário do astronauta Marcos Pontes e também as negociações citadas por mim que ocorreram entre os governos no final do ano passado, tá ok amigo?


    Forte abraço


    Duda Falcão
    (Blog Brazilian Space)

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